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sábado, 11 de novembro de 2017

Para mim fazer um filme é viver


O meu primeiro contato direto com uma câmera – uma Bell and Howell de 16mm – foi num manicômio. O diretor era um homem altíssimo, com uma cara que, com o passar do tempo, cada vez mais se parecia com a dos seus doentes. Nessa altura morava em Ferrara, a minha cidade natal – pequena e maravilhosa, silenciosa e antiga – da planície paduana. Tínhamos decidido, entre amigos, rodar um documentário sobre os loucos. O diretor queria a todo custo me ajudar, e se rebolava no chão para me mostrar as reações dos doentes a certos impulsos externos. Estava, de fato, decidido a rodar o documentário ao vivo, isto é, com os próprios doentes. Tanto insisti que, por fim, o diretor disse: "Experimente". 

Colocamos a câmera, preparamos os projetores, distribuímos os loucos pela sala conforme as exigências do primeiro enquadramento, e devo dizer que os loucos obedeciam com humildade, esforçando-se por não cometerem erros. Neste aspecto éramos comoventes e eu me sentia satisfeito com o decorrer das coisas. Por fim dei ordem para se acenderem os projetores. Estava um pouco emocionado. De repente a sala inundou-se de luz. Os doentes ficaram por momentos imóveis, como que petrificados. Nunca vi na cara de qualquer ator um espanto tão profundo, tão total. Foi um momento, repito. Depois, se passou uma cena indescritível. Os loucos começaram a se contorcer, a gritar, a rebolar no chão como fizera o diretor. Em pouco tempo a sala se transformou num pandemônio infernal. Os loucos procuravam desesperadamente se proteger da luz, como de um monstro pré-histórico que os fosse atacar, e os seus rostos que antes, quando estavam calmos, conseguiam conter a demência dentro de limites humanos, pareciam agora transtornados, devastados. Era agora a nossa vez de ficarmos petrificados perante aquele espetáculo. O operador nem sequer teve força para por a câmera em movimento, e eu não consegui dar qualquer tipo de ordem. Foi o diretor quem teve de gritar "Parem! Apaguem as luzes!". E na sala, agora à meia-luz e mergulhada em silêncio, vimos um emaranhado de corpos que se agitavam como nos últimos estertores de uma agonia. 

Nunca esqueci aquela cena. E foi devido a ela que começamos a falar, sem o sabermos, de neo-realismo.

Isto se passou antes da guerra.

Depois a guerra chegou e assistimos a tantas outras cenas de violência, para não dizer de loucura, que nos habituamos a elas. Mas nos debates que se fizeram aqui, na Itália, no pós-guerra, sobre o neo-realismo, considerei sempre aquele documentário nunca rodado como um texto clássico. O cinema italiano parecia não saber se desvincular do seguinte critério: a realidade, a verdade cada vez mais verdadeira. A câmera escondida nas ruas ou colocada por detrás do buraco da fechadura para captar os aspectos mais secretos da realidade. Os conceitos estéticos estudados na escola foram varridos por esta vaga, pela necessidade de surpreender a teoria com os fatos, com os filmes. E é preciso que se diga que muitos desses filmes alcançaram esse objetivo. A verdade é que a realidade à nossa volta era, efetivamente, escaldante, excepcional. Como ignorá-la?

Fazer um filme não é como escrever um romance. Dizia Flaubert que viver não era o seu ofício: o seu ofício era escrever. Fazer um filme é isso mesmo: viver. Pelo menos para mim (a comparação ilustre, esclareça-se, pretende apenas valorizar o discurso). A minha história pessoal não se interrompe enquanto rodo um filme: é precisamente nessa altura que ela se torna mais intensa. Esta sinceridade, este ser-se, de um modo ou de outro, autobiográfico, este varrer no cantil do filme todo o nosso vinho, o que é senão um modo de participar da vida, de acrescentar algo de bom (pelo menos nas intenções) ao nosso patrimônio pessoal, de cuja riqueza ou pobreza os outros serão juízes? É evidente que, sendo um filme um espetáculo público, as nossas coisas pessoas deixam, por seu intermédio, de o ser, para se tornarem, também elas, públicas. E no pós-guerra, nesse período tão cheio de acontecimentos graves, tão plenos de ânsias e de medos quanto aos destino do mundo inteiro, era impossível falar de outra coisa. 

Há momentos em que, para um homem inteligente, seria desonesto ignorar certos fatos, porque a inteligência que desiste no momento oportuno é uma contradição. Acho que os homens de cinema devem estar sempre lembrados, como inspiração, do seu tempo, não tanto para exprimi-lo e interpreta-lo nos seus acontecimentos mais crus e mais trágicos (podemos mesmo rir deles, porque não? Gosto dos filmes divertidos, embora não os faça, e entre os atores que mais admiro contam-se também Danny Kaye e Alec Guinness), mas mais para acolhermos dentro de nós o seu eco, para sermos nós realizadores, sinceros e coerentes conosco próprios, honestos e corajosos com os outros. É a única maneira, me parece, de estarmos vivos. Considero, porém, que aquele critério da verdade cada vez mais verdadeira, que esteve na base do neo-realismo italiano, levado, às vezes, às conseqüências extremas, é hoje em dia entendido num sentido um pouco mais lato, e também mais profundo. Porque hoje, num clima normalizado – bem ou mal, pouco importa – o que conta não é tanto a relação do indivíduo com o ambiente, mas o indivíduo em si, em toda a sua complexa e inquietante verdade. O que é que atormenta e motiva o homem moderno? Quais são as ressonâncias que acolhe dentro de si daquilo que acontece e aconteceu no mundo?

Estas são as questões que devemos, talvez, levantar hoje ao prepararmos nossas histórias.

A propósito do meu filme O Grito, os críticos franceses falaram de uma nova fórmula: o neo-realismo interior. Nunca tinha pensado dar um nome àquela que sempre fora, para mim, desde os tempos daquele documentário sobre os doentes mentais, uma necessidade: olhar o homem por dentro, ver quais os sentimentos, quais os pensamentos que o motivam no seu caminho para a felicidade, a infelicidade ou a morte.

Nunca pensei sequer em termos traduzíveis em filme. Detesto os filmes programáticos. Tento apenas contar, ou melhor, mostrar vivências e espero que essas vivências agradem, mesmo que sejam amargas. A vida nem sempre é alegre e é preciso ter a coragem de vê-la por todos os prismas. Mas deixo que seja o próprio filme, depois de acabado, a revelar o seu significado. Se as idéias existem em nós e somos sinceros ao exprimi-las, acabam sempre por vir à superfície. O importante é que a maneira de contá-las seja apoiada por uma consciência calorosa e equilibrada. O cinema de que gosto é aquele em que as imagens transmitem um sentimento de verdade sem perderem a sua força de penetração. Nada de enfatuações, delírios, extravagâncias intelectuais: as coisas vistas de frente e não ao contrário, nem de esguelha. 

Tenho de confessar que começo a me sentir pouco à vontade: por que tantos argumentos teóricos? A conclusão é sempre a mesma: o cinema, tal como a literatura, é inútil se não produzir a verdade e a poesia. Objetar-me-ão que os filmes deste tipo são raros, ao passo que os outros são mais numerosos e freqüentemente mais lucrativos. É evidente que uns e outros são necessários. Mas só os primeiros são representativos, e neles se baseia o prestígio de uma cinematografia. Direi mais: consideremos, embora paradoxalmente, os chamados filmes artísticos como vícios de uma produção inteiramente virtuosa, isso é comercia. Poderemos concluir, com Samuel Butler, que a função do vício é manter virtude dentro dos seus justos limites. Se a virtude tivesse campo livre seria insuportável. Creio, assim, que seria insuportável uma produção cinematográfica que fosse toda medíocre, sem idéias e sem coragem. Logo, procurarmos com todas as nossas forças fazer filmes bons é mais que legítimo. Mas o que freqüentemente acontece é que quem afirma coisas deste gênero é olhado com desconfiança pelos produtores. Assim, para além das dificuldades inerentes à realização deste tipo de filmes, têm de lutar contra essa desconfiança, que depois se traduz por outros tantos obstáculos materiais. Um realizador deve ser corajoso também nessa luta, se quiser ter êxito. Em resumo: o ofício do realizador é aprender a vencer os obstáculos que encontra ao procurar fazer bem o seu trabalho. O trágico é que precisa sempre dar provas do seu talento à gente que não tem talento nenhum.

Mas voltemos a O Grito, o meu último filme a ser exibido nos Estados Unidos. Se é difícil falarmos de nós próprios é ainda mais difícil falarmos de nossas obras. É certo que é um filme fechado, difícil. "Humilde, de uma humildade misteriosa", conforme escreveu o crítico. E talvez seja verdade. Há pouco tempo eu próprio voltei a vê-lo e fiquei espantado ao encontrar-me perante tanta nudez, tanta solidão, à semelhança do que acontece certas manhãs, quando fiamos assustados com o reflexo da nossa própria cara no espelho. Não sei se o público dos Estados Unidos, que é expressão de uma experiência e de uma cultura tão diversas das européias, se sentirá à vontade perante uma história daquele gênero. Espero que sim. Tenho muito medo do público e também dos críticos. Gostaria de poder preveni-los, explicar-lhes uma quantidade de coisas antes de deixá-los ver um filme meu. Não me lembro quem disse que os livros (e, portanto, também os filmes, acrescento eu) deveriam ser julgados por um magistrado perante um júri, tal como se faz com os crimes, ouvindo-se depois a acusação e a defesa.

Estou certo que quem o disse tinha toda a razão.

Michelangelo Antonioni

(texto publicado em Cinema Nuovo, vol. VIII, nº 138, Março-Abril de 1959. Tradução de José Luis Gesteira. Transcrição e adaptação de Rodrigo de Oliveira)

Extraído de www.contracampo.com.br

sábado, 16 de julho de 2016

Cine FAP: Aprile + O Dia da Estreia de Close-Up, de Nanni Moretti


O Cine FAP encerra o ciclo Cinema Político Italiano com uma sessão Nanni Moretti - cineasta italiano realizador de, entre outros, Palombella Rossa e O Quarto do Filho - com seu filme Aprile, precedido por seu curta-metragem em homenagem ao cinema de Abbas Kiarostami, Il Giorno della Prima di Close-Up.
O Dia da Estreia de Close-Up: Em seu cinema em Roma, Nanni Moretti prepara ansiosamente a estreia italiana de Close-Up, o filme de Abbas Kiarostami, enquanto O Rei Leão da Disney toma conta de todos os outros cinemas da cidade.

Aprile: Nanni Moretti mostra, em forma de comédia, o vai-e-vem de sua vida no momento em que se torna pai pela primeira vez e luta contra distrações de todo tipo para realizar um documentário político sobre as eleições italianas.

Toda segunda-feira, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
Aprile + O Dia da Estreia de Close Up (Aprile
, Itália, 1998; Il Giorno della Prima di Close-Up, Itália, 1996)
dia 18/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
 


Realização: Cine FAP 
Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Cine FAP: A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi


No fim do século XIX, quatro famílias de meeiros vivem numa fazenda localizada ao sul de Bergamo, norte da Itália. Na calma do campo, a vida dessas famílias é ritmada pelo trabalho, pelas refeições, pela reza ao final do dia e pela missa aos domingos. Um dia, Menek, o filho mais jovem de uma das famílias, quebra um de seus tamancos voltando da escola - ele é o único, entre as crianças da fazenda, a frequentá-la. Naquela mesma noite, seu pai, Batisti, decide cortar uma árvore para lhe fazer um novo sapato, infringindo, assim, seus direitos no local. Filmado e montado pelo próprio diretor, com camponeses da região bergamasca.

Em julho, o Cine FAP dá prosseguimento ao ciclo Cinema Político Italiano, que contará ainda com Aprile, de Nanni Moretti, precedido por seu curta-metragem Il Giorno della Prima di Close-up (18/07).
Toda segunda-feira, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
A Árvore dos Tamancos (L'Albero degli Zoccoli
, Itália, 1978)
dia 11/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
Realização: Cine FAP 
Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante

domingo, 26 de junho de 2016

Cine FAP: Pai Patrão, dos irmãos Taviani


Aos seis anos de idade, Gavino é obrigado pelo pai a abandonar os estudos para trabalhar no campo, cuidando de ovelhas. Todas as suas tentativas de mudar de vida são abortadas pela ignorância e violência do patriarca. Aos vinte anos, ainda analfabeto, Gavino acaba entrando para o exército, onde pode enfim adquirir algum conhecimento fundamental. Renunciando à carreira militar, ele volta à sua terra para seguir estudando. No entanto, o choque com o pai é inevitável. Baseado no romance autobiográfico do escritor Gavino Ledda.

Em junho, o Cine FAP apresenta o ciclo Cinema Político Italiano, que se estenderá em julho com mais três filmes.
Toda segunda, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
Pai Patrão (Padre Padrone
, Itália, 1977)
dia 27/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
Realização: Cine FAPApoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do CaixãoColetivo Atalante


sábado, 18 de junho de 2016

Cine FAP: Nós que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola


Uma das obras máximas de Ettore Scola. O enredo passa por 30 anos na história da Itália (1945-1975) e conta a vida de três grandes amigos: Gianni, Antonio e Nicola. Da resistência à ocupação nazista ao engajamento político nos anos 1960, acompanhamos as aventuras, desventuras e desilusões amorosas de uma geração que sonhava em mudar o mundo.

Em junho, o Cine FAP apresenta o ciclo Cinema Político Italiano, que contará também com Pai Patrão, dos irmãos Taviani (27/06), e se estenderá com mais três filmes em julho.
Toda segunda, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
Nós que nos Amávamos Tanto (
C'eravamo tanto Amati, Itália, 1974)
dia 20/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
Realização: Cine FAP 

Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante


sábado, 4 de junho de 2016

Cine FAP: Os Companheiros, de Mario Monicelli



Em plena efervescência da Revolução Industrial em solo italiano, os operários de uma grande fábrica têxtil são submetidos a jornadas de trabalho desumanas. Muitos são os acidentes de trabalho, que resultam num elevado índice de inválidos e muito sofrimento e insatisfação entre os operários. No centro destes acontecimentos, chega à cidade o professor Sinigaglia, um intelectual socialista que percorria a Itália espalhando o seu sonho de conscientização política e mobilização dos trabalhadores. A partir de seu encontro com os operários e da difusão de seus ideais, os trabalhadores voltam a acreditar e lutar por seus direitos, ainda que isso possa significar um alto preço a ser pago. 

Em junho, o Cine FAP apresenta o ciclo Cinema Político Italiano, que contará também com Nós que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola (20/06), Pai Patrão, dos irmãos Taviani (27/06), e se estenderá com mais três filmes em julho.

Toda segunda, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.


Sessão:
Os Companheiros (
I Compagni, Itália, 1963)
dia 06/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA


Realização: Cine FAP 

Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão
Coletivo Atalante

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Cineclube da Cinemateca apresenta: Roberto Rossellini

Com uma direção bem orientada Rossellini mostra de maneira simples e bela a Itália do seu tempo e com seus costumes. Teve um olhar crítico sobre o Fascismo Italiano, além da Segunda Guerra Mundial, que retratou em sua Trilogia da Guerra, além de ter filmes coletivos com Fellinni, Godard, Pasolini, etc. Diretor ainda de importantes cinebiografias como a de Francisco de Assis, Sócrates, Descartes.

Obs.: Todas as sessões iniciarão às 14h.


03/10 Alemanha, Ano Zero
Em Berlim, após o final da 2ª Guerra Mundial, Edmund (Edmund Moeschke), um garoto de uma família muito pobre, trabalha para sustentar o pai doente, sua pequena irmã e o irmão, que não tem documentos. Um dia, ao conversar com um antigo mestre (Erich Gühne), fala do seu pai enfermo e entende ter recebido um conselho para matar seu pai, um peso morto. Ele começa a pensar na idéia.

10/10 - Viagem à Itália
Um casal inglês (Ingrid Bergman e George Sanders) parte para o Sul da Itália para aí vender uma propriedade recentemente herdada. A sua relação, repleta de distância, piora ao entrarem em contato com Nápoles, os seus habitantes e fantasmas. Ela recorda um poeta que a amou e que morreu durante a guerra; ele foge para Capri, flertando com mulheres, mas evitando o adultério; ela visita os museus de Nápoles e Pompeia, mergulhando no fascínio que os napolitanos têm pela morte. Com ela, ele mostra-se sarcástico; com ele, ela é crítica. É a ilustração falsamente simples de um casal cansado cujo casamento se vai desintegrando, transformado por Roberto Rossellini numa história apaixonada que mistura crueldade e cinismo.

17/10 - Índia, Matri Bhumi
Versão restaurada do esquecido filme de Roberto Rossellini. Apesar de creditado como documentário, o filme mistura elementos ficcionais e documentais, contando pequenas histórias de personagens de diferentes idades e classes sociais do país, montando assim a "bricolagem humana" que, segundo o narrador nos primeiros momentos do filme, é a India.

31/10 Sócrates

Esta cinebiografia apresenta os últimos dias de Sócrates, elucidando de maneira concisa e bastante clara alguns dos mais célebres diálogos platônicos, a exemplo da "Apologia" (discurso de defesa no julgamento), "Críton" (o diálogo sobre a prisão entre um discípulo e Sócrates) e "Fédon" (os últimos ensinamentos do mestre antes de tomar a cicuta).

Serviço:
Todo sábado (Com exceção do dia 24/10)

às 14h

Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Caixa de Surpresas


Pois se o neorrealismo não é o suficiente para explicá-lo, sem o neorrealismo, O Posto não existiria. Nós estamos, ao mesmo tempo, com o neorrealismo e além dele: o futuro dirá se é de um impasse que se trata, ou, ao contrário, de um novo caminho proposto ao cinema italiano.

Do neorrealismo, O Posto conservou o princípio da desdramatização da intriga. Aqui, quase não há história. Mas às propriedades que fundaram a estética neorrealista (prioridade do ator sobre o personagem, do personagem sobre a história, da história sobre o documento), Ermanno Olmi opõem um novo equilíbrio estético. Novamente, o personagem invade o campo, polariza o interesse, distribui em proveito próprio os papéis acessórios. Olmi destruiu o suspense dramático (esta isca que desvia a atenção do essencial), mas o substituiu por um outro, de ordem psicológica, mas que também restringe a liberdade do espectador. Uma vez que ele destrói o espaço (o jovem empregado é quase sempre filmado em primeiro plano), porque rompe com a continuidade temporal, Ermanno Olmi se afirma como o anti-Rosselllini, e O Posto como o anti-Viagem à Itália. O detalhe realista devora o real para terminar por reinventar a intriga. Aqui triunfa sobre as propostas neorrealistas um cinema analítico que deixa para trás o neorrealismo.

Sob está ótica, O Posto é um êxito. O mais sintomático, sem dúvida, do jovem cinema italiano. Afinal, um Bolognini, um Zurlini (depois da esquete profética de Dino Risi em Amor na Cidade) não procedem de outra corrente. Vamos chamá-lo, enquanto outro termo melhor não aparece, de realismo psicológico.

André Labarthe
(Publicado originalmente sob o título “La Boîte à Surprises” na revista Cahiers du Cinéma.)


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Cineclube da Cinemateca: "O Emprego" de Ermanno Olmi

O Cineclube da Cinemateca apresenta neste sábado, dia 14 de fevereiro, "O Emprego” de Ermanno Olmi. A entrada é franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
“O Emprego” de Ermanno Olmi  

Domenico (Sandro Panseri) é um jovem, recém-formado, que pretende conseguir um trabalho no setor administrativo de uma grande empresa. Antonieta (Loredana Detto) é uma jovem que pretende entrar no ramo administrativo assim como Domenico. Após um longo processo seletivo, invasivo, eles conseguem dois cargos dentro da empresa. No entanto, o jovem consegue um cargo longe do que ele esperava, trabalhando como mensageiro.

Serviço:
14 de fevereiro (sábado)
às 16h 
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Minicurso de história do cinema: O cinema moderno italiano

Dando prosseguimento aos minicursos mensais de história do cinema, o Sesi oferece nos dias 26 e 27 de novembro (quarta e quinta) das 14 às 18 horasno Sesi Heitor Stockler de França, minicurso sobre o Cinema moderno italiano.
Ministrados pelo cineclubista Miguel Haoni, do Coletivo Atalante, os mini-cursos têm carga horária de 8 horas, inscrições gratuitas e vagas limitadas. 

Sobre o cinema de poesia:
O uso permanente do dialeto poderia ter feito de você um escritor populista, ou o cantor de um destes milagres incrustados no interior das minorias linguísticas. Ora, você passou do dialeto friulano a outros dialetos, como o "romano", da linguagem poética à linguagem romanesca, da poesia escrita à poesia "cinematográfica", sem se preocupar muito com o ecletismo de que o podiam censurar, nem mesmo com o perigo real que esta mutação representava.

Repeti frequentemente que a passagem da literatura ao cinema, por exemplo, é apenas uma questão de mudança de técnica. Assim mesmo, pouco a pouco, diferenciei as técnicas literárias  e cinematográficas. A linguagem literária que o escritor emprega para escrever uma poesia ou um romance, ou um ensaio, constitui um sistema simbólico convencional: de resto, toda linguagem escrita ou falada é definida por um certo número de limites históricos, geopolíticos ou, se quiser, nacionais (regionais)... O cinema, pelo contrário, é um sistema de signos não simbólicos, de signos vivos, de signos-objetos... A linguagem cinematográfica não exprime, portanto, a realidade através de um certo número de símbolos linguísticos, mas por meio da própria realidade. Não é uma linguagem nacional ou regional, e sim transnacional... Poderemos voltar, se quiser, ao aspecto teórico da linguagem cinematográfica. Você me pede, no fundo, para explicar ou justificar uma escolha... Creio que há várias razões sérias para esta translação. Mas, primeiro, queria precisar que não abandonei a poesia escrita e a expressão literária. Agora, as razões desta modificação de linguagem ou, antes, de expressão. Creio poder dizer, presentemente, que escrever poesias, ou romances, foi para mim o meio de exprimir minha recusa de uma certa realidade italiana, ou pessoal, num dado momento de minha existência. Mas estas mediações poéticas ou romanescas interpunham entre mim e a vida uma espécie de parede divisória simbólica, uma tela de palavras... E, talvez, a verdadeira tragédia de todo poeta seja a de só atingir o mundo metaforicamente, segundo as regras de uma magia definitivamente limitada na sua apropriação do mundo. Já o dialeto era para mim o meio de uma aproximação mais carnal com os homens da terra, e nos romances "romanos", o dialeto do povo me permitia a mesma aproximação concreta e , por assim dizer, material. Ora, descobri muito depressa que a expressão cinematográfica permitia-me, graças à sua analogia do ponto de vista semiológico (sempre sonhei com uma ideia cara a um certo número de linguísticas, a saber, com uma semiologia total da realidade) com a própria realidade, atingir a vida mais completamente. Apropriar-me dela, vivê-la enquanto a estou recriando. O cinema me permite manter o contato com a realidade, um contato físico, carnal, eu diria mesmo de ordem sensual.

Pier Paolo Pasolini - As últimas palavras do herege: Entrevistas com Jean Duflot

O filme de autor na Itália
Após o desgaste do modelo neorrealista, no início dos anos 1950, os cineastas afiliados sob esta bandeira seguiram rumo a seus próprios estilos e interesses pessoais. A tradição da ópera, a incomunicabilidade do homem contemporâneo, a crise da masculinidade entre outras questões foram matéria para os "maestros" Federico Fellini, Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni. Num momento seguinte Bernardo Bertolucci, Pier Paolo Pasolini e Ettore Scola reencontravam a vocação política desta tradição. 
A partir de dois estudos de caso, o minicurso pretende oferecer uma pequena introdução a este imenso universo.

Unidades:
1 - Fascismo e juventude
2 - A incomunicabilidade

Referências:
1 - FELLINI, Federico. Fazer um Filme. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
2 - "A Moça com a Valise". Valerio Zurlini. 1961. ITA. p&b. 114 min.

Serviço: 
dia 26 e 27 de novembro (quarta e quinta)
das 14 às 18 horas

no Sesi Heitor Stockler de França 
(Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro)

Inscrições gratuitas na hora e local do minicurso 
(preenchidas por ordem de chegada)
VAGAS LIMITADAS

Realização: Sesi (http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br)

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cineclube da Cinemateca: "Um Dia Muito Especial" de Ettore Scola

O Cineclube da Cinemateca apresenta neste sábado "Um Dia Muito Especial" de Ettore Scola, especialmente às 14 horas. A projeção será em 35mm. A entrada é franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta: "Um Dia Muito Especial" de Ettore Scola


Roma, 6 de maio de 1938. Benito Mussolini e Adolf Hitler se encontraram para selar a união política que, no ano seguinte, levaria o mundo à 2ª Guerra Mundial. Praticamente toda a população vai ver este acontecimento, inclusive o marido fascista de Antonietta (Sophia Loren), uma solitária dona de casa que conhece acidentalmente Gabriele (Marcello Mastroianni), seu vizinho, quando seu pássaro de estimação foge e ela o encontra pousado na janela do vizinho. Antonietta nunca falara com Gabrielle, que tinha sido demitido recentemente da rádio onde trabalhava por ser homossexual. Ela, por sua vez, era uma esposa infeliz e insegura pelo fato de não ter uma formação profissional. Gradativamente os dois desenvolvem um tipo muito especial de amizade.

Serviço:
Dia 14 de junho
14hs 
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cineclube da Cinemateca: "Boccaccio '70"

Neste sábado, dia 07, o Cineclube da Cinemateca apresenta Boccaccio '70, filme coletivo de Federico Fellini, Luchino Visconti, Mario Monicelli e Vittorio De Sica, que ainda apresentará "Um Dia Muito Especial" de Ettore Scola no dia 14. As projeções serão em película.



Cineclube da Cinemateca apresenta: "Boccaccio '70"



Inspirando-se no clássico Decameron, de Boccaccio, quatro grandes mestres do cinema italiano criaram uma comédia inesquecível em quatro episódios sobre a mulher contemporânea


Serviço:
Dia 07 de junho às 15hs
na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

terça-feira, 3 de junho de 2014

Cineclube da Cinemateca apresenta: Cinema Italiano


O Cineclube da Cinemateca apresenta no mês de junho um ciclo dedicado ao cinema italiano contando com alguns de seus maiores cineastas. As projeções serão em película, no espaço da Cinemateca. A entrada é franca!

Programação:

07/06 - "Boccaccio '70", de Federico Fellini, Luchino Visconti, Mario Monicelli e Vittorio De Sica

14/06 - "Um Dia Muito Especial", de Ettore Scola


Serviço:
Dia 07 de junho às 15hs
Dia 14 de Junho às 14hs
na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA


Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Carne e Espírito

Texto sobre o filme “A Última Tentação de Cristo” (1987) de Martin Scorsese

Martin Scorsese sempre foi apegado aos princípios cristãos. Na infância recebeu uma educação católica e durante sua juventude preparou-se para o exercício de sacerdócio, que não chegou a cumprir em função de sua recém-iniciada carreira no cinema. De qualquer maneira as questões religiosas o acompanhariam por todo o seu trabalho, ganhando a primazia naquela que foi sua obra predileta e pela qual mais lutou: “A Última Tentação de Cristo”.
O livro de Nikos Kazantzakis, no qual o filme foi inspirado, propunha um problema ousado: como se operava a dualidade entre o Humano e o Divino em Jesus Cristo? Para compreender tal conflito o autor empreendeu um olhar sobre o homem comum que, confuso e inseguro, descobriu-se detentor da incumbência de ser Deus. Tal tratamento encantou Scorsese que, apesar de não ser um grande apreciador de literatura, entrou em contato com a obra durante as filmagens de “Touro Indomável” e reconheceu nela um tipo de abordagem que apreciava muito, decidindo assim adaptá-la para o cinema.
Um produtor perguntou por que motivo Scorsese gostaria de realizar “A Última Tentação...” ao que ele prontamente respondeu: para conhecer melhor Jesus! Este tipo de princípio é o que guiou a prática cinematográfica do diretor em seus principais filmes, uma espécie de interesse real pelos personagens, sem julgamentos nem preconceitos. Uma lição que o autor tomou dos grandes mestres do realismo cinematográfico.

Realista, portanto, foi sua abordagem das ações. Scorsese empreendeu, ainda na roteirização do filme, um processo de despoetização do texto bíblico. Interessava-lhe dar a cristo e aos Apóstolos um ar de gente real, de pessoas que nós poderíamos conhecer e nos identificar e a linguagem no filme precisava necessariamente condizer com tal proposta. Para tal o diretor e o roteirista Paul Schrader, utilizaram o sotaque das ruas de Nova York eliminando assim a linguagem rebuscada dos Evangelhos em função de uma proximidade com o público atual.
Observa-se, também, um estilo de direção mais cru que a média das obras de Scorsese. O diretor transformou o problema da redução no orçamento em vantagem, ao conseguir trazer a urgência documental que embalava os humores das filmagens para dentro das telas. A câmera na mão durante o Sermão da Montanha nos dá a dimensão humana da prática de Cristo e é um exemplo de realismo incomum aos filmes de temática religiosa. Até nos instantes em que o fantástico ganha o filme, ele nos é apresentado de maneira simples, sem grandes efeitos, como durante os milagres que o Messias opera.
Nestas cenas evidencia-se a leitura de Scorsese sobre o trabalho de mestres do cinema italiano. Na apresentação de João Batista e na chegada ao templo de Jerusalém, observamos uma mise-en-scène “estranha”, baseada em figuras mórbidas numa espécie de tapeçaria humana. Esta é a base de uma forma de encenação imortalizada por Federico Fellini em filmes como “Julieta dos Espíritos” e “Satyricon”. 
Julieta dos Espíritos, 1965


Satyricon, 1969
 Algumas mudanças de foco e profundidade de campo, como por exemplo, no plano em que o olho esquerdo de um árabe é valorizado, com Cristo ao fundo, enquanto ambos esperam ser atendidos por Maria Madalena nos remete ao jogo de câmera empreendido por um desprezado gênio do horror: Lucio Fulci. 
Zombie, 1979
Este diretor amadureceu os filmes de zumbis imortalizando os mortos-vivos como personagens clássicos do cinema. Estes personagens aparecem também no filme de Scorsese na cena em que Cristo exorciza os desgraçados que vivem em buracos e na própria ressureição de Lázaro.
Zombie, 1979
As maiores influências do filme, porém são a de Mario Bava e Píer Paolo Pasolini. Durante a “última tentação”, Cristo é ludibriado por Satanás que aparece sob a pele de uma garota de sete anos.
Este é o motivo central da obra-prima “Kill Baby Kill”, em que Bava joga com os símbolos de maldade e inocência de maneira única. O Cristo megalomaníaco e agressivo de Scorsese é uma referência direta ao Messias guerrilheiro de “O Evangelho Segundo São Mateus”, obra prima de Pasolini.
Kill Baby Kill, 1966

O Evangelho Segundo São Mateus, 1969
E as referências ao cinema italiano não acabam aí. Porém, o mais interessante é perceber como Scorsese alia tais influências a uma proposta díspar de crueza realista em uma obra que é ao mesmo tempo “Scorsese puro” e difere de tudo feito até então pelo diretor.

Miguel Haoni
(Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema – 2008)