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sábado, 18 de agosto de 2012

Sobre Leitura e Prosa

“Para elogiar Ibn Sharaf de Berja, repetiram que só ele conseguiu imaginar que as estrelas no alvorecer caem lentamente (...) isso, se fosse verdade, evidenciaria que a imagem é insignificante”.                                                     
Jorge Luis Borges 

                  Borges em um de seus contos, “A busca de Averróis”, assim expõe: “a imagem que um único homem pode conceber é a que não toca ninguém”. Aceito o alvitre, dois comentários podem ser feitos em relação ao que figura como literatura, desmentindo já dois grandes equívocos. 
              O primeiro, do gênio, iluminado, artista e escritor, que deixa de ser o particular indivíduo da Terra a ter pensado algo que ninguém pensou. A sua genialidade estaria, justamente, no fato de partir de sua condição temporal e espacial para criar ou descobrir algo capaz de durar, exceder seu próprio tempo; algo capaz de gerar um apreço estético, sendo, necessário e justamente acessível ao outro, ainda que em um momento futuro. Ser capaz de gerar uma imagem que desperte no outro algo que o diga respeito, que nele se comunique, garante a “durabilidade” da obra, tecendo-se vínculos entre diversas épocas. 
                Desfaz também a noção de literatura como transe-tédio-individual, resquício da crise da poesia épica e, mais tragicamente, fruto da hegemonia do romance, criação de uma burguesia mareada. Walter Benjamin, nesse sentido, questiona o fim da capacidade oral de contar histórias, em virtude da ascensão de um indivíduo perdido em sua solidão, escasso de experiências.             
                Já a possibilidade levantada por Borges liberta a literatura da solidão, já que repousa na ideia de uma imagem que pode ser coletivizada. O que mais seria o conceber de uma imagem com significado senão o movimento que possibilita o compartilhar dessa imagem?     
                A possibilidade de compartilhar uma imagem perpassa, de certa forma, uma oportunidade para exercer nossa capacidade atrofiada de narrar. Narrar nossa experiência enquanto participantes dessa imagem que toca: de como nos toca; entendimentos, interpretações, impressões e por aí vai. 
                Poder ler ou ouvir seu próprio poema é o parto do superego. Trocar uma leitura solitária e confortável por uma leitura com gente estranha é, no mínimo, curioso. Dedicar um começo de noite a dissecar constelações de uma interpretação alheia é, curiosamente, interessante.      
                Leitura e Prosa, aqui, pode ser sinônimo de Literatura, pode ter qualquer outro nome que expresse o nosso olhar atalântico:          
o compartilhar do tempo dentro do nosso tempo. E o tempo, aqui, pressupõe um ato coletivo de concepção da imagem, aquela imagem significativa que pode ser vislumbrada por todos, ainda que de maneiras diferentes. E são esses modos salpicados com individualidades que procuramos desbuchar quando nos reunimos. Sem esquecer, é claro, das limitações, mas também exclusividades do nosso tempo: o tempo momento-presente que congrega nossas pervagantes e previsíveis existências. Ainda dentro desse tempo, no incansável movimento de contato com outros tempos, que é o dos autores e o das obras, arrisca-se um novo navegar.  
É pretender toda a literatura que couber no espaço-tempo de um encontro de algumas horas. Repetindo eventualmente tudo que já foi dito e espreitando por um lampejo que possa engendrar o deleite de uma boa prosa, mesmo quando essa já é finda.           


Estela Basso      
Coletivo Atalante, 2012             



Serviço
Leitura e Prosa
25/08 - A partir das 19h
Porão da Academia da Cachaça
(Rua Ubaldino do Amaral, 710 - esquina com a Marechal Deodoro)


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Terra em Transe

           


É em meio ao mar de Eldorado, na Província de Alecrim, que a história (não inicia, mas) gira, conta o início-fim da trama que se põe em trânsito. “Terra em Transe” é uma convulsão poética que versa sobre um país fictício da América Latina, a epilepsia política nas transições dos regimes democráticos e autoritários dos meandros de 1960 e o que se segue.     
           
Precursor do Cinema Novo, Glauber Rocha despeja na fotografia grande sensibilidade, que ultrapassa a monocromia. Acompanhada, é claro, por uma narração metafórica e poética que navega pelas falas das personagens. Crítico de um momento importante da história brasileira, o filme causou rebuliço entre partidários da esquerda e da direita e chegou a esbarrar na censura da ditadura militar. É que dá voz à reflexão sobre as representações políticas, o uso da religião e da fé, a figura do populista e do conservador; faz caricatura das posturas ditas progressistas e do tal “extremismo”. Delineia o engodo do amor ao poder e às ideias, da violência física e simbólica e a posição incerta das massas.          
       
Clássico do cinema moderno e anunciador do tropicalismo, o filme, eleito o mais polêmico dentre os seus, narra a vida de um poeta e jornalista, que se encontra num hiato inflamável frente à realidade: eis o conflito entre a pretensão de mudança social e a amargura vislumbrada no fracasso desse anseio. A promessa da transformação repousa na poesia – e na sua insuficiência -, na “ingenuidade da fé”, na hipnose da beleza. Afora isso, o pecado da vida real escorre pelas brutas frestas da política – a luta pelo poder, os interesses econômicos, a disputa por nichos de influência, a marginalização do povo. O protagonista é a condensação das contradições de Eldorado, o ponto de tensão personificado, a consciência palpitante que entrevê o barravento: a catarse latino-americana propriamente dita, o Brasil escancarado.


Resposta ao golpe militar de 1964, a obra busca a compreensão dos signos históricos que coexistem no imaginário, sobretudo, das massas. Dentre eles o messianismo, o populismo e o patriarcalismo - que se imiscuem aos elementos negros e indígenas próprios à cultura popular brasileira. Nesse sentido, Glauber Rocha mostra genuinamente a cara do Cinema Novo. Através da utilização desses símbolos, avisa que a política do século XX em quase nada difere daquela colonial, do acordo entre as elites e a manutenção do povo à parte. Desse modo, realiza uma síntese única ao representar um homem de terno sendo coroado feito rei: mistura elementos barrocos e modernos, mobiliza ingredientes fundamentais da cultura brasileira, irrompendo em sincretismos e abrindo alas à representação do imaginário da escola de samba, a tudo aquilo que pertence decididamente ao povo.        

E ao tratar do povo, também o faz magistralmente: assume a malquerida tarefa de desmistifica-lo, desfetichizá-lo - e isso porque vai até ele, deixa-o falar. Ousa, ainda, a alusão à luta de classes, tendo como uma das mais irreverentes cenas aquela em que um dos personagens cinicamente melindra:
“Qual é a sua classe?”.     
Nesse ponto de deliciosa amargura, revolve uma das questões mais delicadas dessa temática, cristalizando tal impasse no âmago do protagonista-poeta, tropeço poético-político, no que Carlos Drummond de Andrade responderia:


Preso à minha classe e a algumas roupas,               
vou de branco pela rua cinzenta.     
Melancolias, mercadorias espreitam-me.  
Devo seguir até o enjôo?      
Posso, sem armas, revoltar-me?     

Política e Poesia: demais para um homem só. E o poeta protagonista decide pelo caminho da luta armada, revolucionária e suicida, contra o sol, o céu, contra o sal e contra o mar, devoto louco de suas ideias: “imenso trabalho nos custa a flor”. E
não conseguindo “firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura” ainda que com violência e tanta ternura, não encontrando o ponto da chegada: morre. De fome. Dessa eterna fome do absoluto.



                                                                                                                Estela Basso