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sábado, 8 de julho de 2017
NADA ALÉM DO CORPO
Sobre o cinema de Lucio Fulci
Todo aquele que não consegue fazer frente à vida enquanto está vivo precisa de uma das mãos para afastar parte do desespero que sente perante o seu destino - com pouco êxito - mas com a outra ele pode anotar o que observa entre as ruínas, porque é capaz de ver qualquer coisa de diferente (e muito mais) do que os outros vêem; apesar de tudo, mesmo morto durante a vida, ele é o verdadeiro sobrevivente.
Trecho de Diários de Franz Kafka
Não é preciso ser um morto-vivo para sentir o vazio da existência. Nos filmes do italiano Lucio Fulci há essa mesma constatação niilista. Mas por se valer de meios “antinaturais” – histórias de zumbis, portais malignos, possessões e serial killers– para edificar sua poética, Fulci é menos óbvio e, sobretudo, menos "respeitável" que os demais. Geralmente associado ao cinema de gênero, de traço popular (da comédia no início da carreira, aos filmes de horror, passando pelos gialli e faroestes), ele é famoso pela maneira gráfica como filma eviscerações e toda sorte de mutilações. Porém, seu alcance é maior. Não apenas consolidou as bases criativas do que se convencionou chamar de cinema gore, como adicionou a esse subgênero rara inventividade e sofisticação. Pode parecer paradoxal que um cineasta capaz de rodar um homem sendo partido ao meio (Demonia) ou um jovem vomitando o próprio fígado (The City of the Living Dead) seja, em algum momento, sofisticado. No entanto, é. E, justamente, nas cenas mais extremas, tal o poder de fabulação de suas imagens.
Ainda mais relevante para sua poética niilista - e o que o torna um autor acima de tudo - é a sua utilização do corpo. Se para Pier Paolo Pasolini, em sua trilogia da vida, o corpo é o locus do prazer, vestígio possível do sagrado entre os homens, que, mais tarde, converte-se em objeto, fetiche mercantil, mercadoria do “prazer” alheio (notadamente em Saló), para Fulci não há nada além do corpo. Em oposição a Robert Bresson, por exemplo, para quem o corpo é travessia, indício do invisível, do SOBREnatural, meio pelo qual se manifesta a graça (na primeira metade de sua obra) ou o mal (na fase final); para o diretor de The Beyond, o corpo é o fim. Talvez por isso, a obsessão em filmar o corpo mutilado, vegetativo, sem vida, a ponto de, num último grau de paroxismo, mostrar um corpo sendo literalmente moído (The Sweet House of Horrors). Em comum a todas essas imagens a falta de transcendência. É como se Fulci perscrutasse se existe algo além do corpo, quem sabe a alma...
Não por acaso, uma imagem recorrente nos filmes do cineasta italiano é a de um olho – “a janela da alma” – sendo perfurado. Ele filma o movimento até o fim, seja um graveto ou uma furadeira perfurando o globo ocular, e não encontra nada além do orgânico. É interessante observar como mesmo a presença do mal, a evocação do diabo ou de outros fenômenos próprios dos filmes de terror sempre têm uma manifestação corpórea nos filmes de Fulci. Na sua obra não existem espíritos ou ectoplasmas, somente corpos - mesmo após a morte. É difícil imaginar algo mais pessimista.
Para além das imposições comerciais, os filmes de zumbis de Fulci são prodigiosos em reforçar sua visão niilista, ao mostrar sem rumo, debatendo-se como moscas contra a janela, esses corpos sem alma. E quando se chega ao fim da longa estrada emThe Beyond, só há o vazio e corpos soterrados. Então, os dois protagonistas do filme, que escaparam às mutilações durante a trama, são encerrados em seus próprios corpos – e, novamente, são os olhos, que se acinzentam como barras de metal, a senha para a danação final. Não há alma, apenas uma prisão intransponível (o corpo) da qual, reforça Fulci, não é possível transcender. Metáfora da vida? Fulci, que morreu em março de 1996, já deve ter a resposta.
Adolfo Gomes
Retirado do site: www.contracampo.com.br
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Cine FAP: "The Beyond", de Lucio Fulci
O Cine FAP apresenta nesta segunda-feira, dia 7 de outubro, às 19h00, o filme "The Beyond" de Lucio Fulci, abrindo a série Ameaça Desconhecida que contará ainda com "Prícipe das Sombras" (21/10), "Os Pássaros" (28/10), "Fim dos Tempos" (04/11) e "Tempo do Lobo" (11/11). Entrada franca sempre.
Cine FAP apresenta: "The Beyond", de Lucio Fulci
Sinopse:
Joe, o encanador, vai checar um vazamento de água no porão de um hotel que Lisa recebeu de herança, e abre acidentalmente a sétima porta do inferno, dando inicio a horrores sangrentos.
Sobre o filme:
Lucio Fulci é um dos maiores gênios da sétima arte. Louvado por muitos como o “Edgar Allan Poe do cinema”, “Godfather do gore”, o italiano, foi, por muito tempo desprezado por crítica e público, enquanto Federico Fellini e Luchino Visconti o aplaudiam de pé nos cinemas.
Em 1981, Fulci entrega a sua obra máxima: The Beyond. Filme apresentado em formato anamórfico (primorosamente utilizado com jogos de foco que são verdadeiras aulas de cinema), com história de Dardano Sacchetti, e atuações de Catriona MacColl, David Warbeck e Cinzia Monreale, é cultuado no mundo todo por especialistas como uma das obras primas do fantástico em toda a história da arte.
O poema visual que o diretor constrói é embaraçoso para qualquer crítico. Inefável é a palavra que melhor o descreve. Em 87 minutos, Lucio Fulci nos convida para o outro lado: o seu. O poema nervoso e calmo, belo e triste, nos comunica, através de nossa contemplação muda, todo o ser de um artista, toda uma reflexão sobre seu objeto de expressão. A reflexão vai tão longe que não pode mais ser dito com palavras, explicado racionalmente. É o próprio ser do grande artista que se imprime em cada plano. É o amor – e nada mais – o amor à sua obra de arte, e à sua ferramenta de expressão.
Mateus Moura (APJCC - 2009)
Lucio Fulci é um dos maiores gênios da sétima arte. Louvado por muitos como o “Edgar Allan Poe do cinema”, “Godfather do gore”, o italiano, foi, por muito tempo desprezado por crítica e público, enquanto Federico Fellini e Luchino Visconti o aplaudiam de pé nos cinemas.
Em 1981, Fulci entrega a sua obra máxima: The Beyond. Filme apresentado em formato anamórfico (primorosamente utilizado com jogos de foco que são verdadeiras aulas de cinema), com história de Dardano Sacchetti, e atuações de Catriona MacColl, David Warbeck e Cinzia Monreale, é cultuado no mundo todo por especialistas como uma das obras primas do fantástico em toda a história da arte.
O poema visual que o diretor constrói é embaraçoso para qualquer crítico. Inefável é a palavra que melhor o descreve. Em 87 minutos, Lucio Fulci nos convida para o outro lado: o seu. O poema nervoso e calmo, belo e triste, nos comunica, através de nossa contemplação muda, todo o ser de um artista, toda uma reflexão sobre seu objeto de expressão. A reflexão vai tão longe que não pode mais ser dito com palavras, explicado racionalmente. É o próprio ser do grande artista que se imprime em cada plano. É o amor – e nada mais – o amor à sua obra de arte, e à sua ferramenta de expressão.
Mateus Moura (APJCC - 2009)
Comentários: Cauby Monteiro e Miguel Haoni
Serviço:
dia 07/10 (segunda)
às 19h00
na Auditório Antonio Melillo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
Realização: FAP
Produção: Cine FAP e Grupo de Estudos de Cinema de Horror
Apoio: Coletivo Atalante
dia 07/10 (segunda)
às 19h00
na Auditório Antonio Melillo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
Realização: FAP
Produção: Cine FAP e Grupo de Estudos de Cinema de Horror
Apoio: Coletivo Atalante
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