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sábado, 30 de setembro de 2017
Às coisas sérias
Claude Chabrol critica Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock em 1955
...1 Seja como for, penso que o lançamento de Rear Window é suscetível de unificar a frente da crítica cinematográfica. Os próprios críticos anglo-saxônicos, que desde há algum tempo atacavam os filmes de Hitchcock, consideram Rear Windowseriamente e com simpatia. Na verdade, Rear Window apresenta, desde a sua primeira visão, um centro de interesse imediato, digamos: mais elevado do que a maior parte das obras precedentes, o que em si mesmo é suficiente para o fazer entrar na categoria das obras sérias, para além do simples divertimento policial.
Deste modo, não desejaria sublinhar aqui o que se tornou já tão aparente: a má consciência do personagem principal, ‘voyeur' no sentido menos brilhante do termo; mas antes dedicar-me a esclarecer alguns elementos menos evidentes, mas ainda mais interessantes, que enriquecem a obra com ressonâncias muito especiais e permitem afastar as objeções e as críticas provocadas por uma visão superficial de Rear Window na última Bienal de Veneza.
Desde os seus primeiros minutos, Rear Window apresenta-nos um conjunto de tocas de coelhos perfeitamente isoladas, observadas a partir duma toca de coelho fechada e incomunicável. Daí a concluir que o comportamento dos coelhos é ou deveria ser o centro do interesse, vai apenas um passo rapidamente rompido, visto que igualmente nada se opõe a esta interpretação dos elementos presentes. Basta apenas admitir que o estudo deste comportamento é feito por um coelho essencialmente idêntico aos outros. O que conduz à idéia de um deslocamento perpétuo entre o comportamento real dos coelhos e a interpretação dada pelo coelho observador que, em definitivo, é a única que nos é comunicada, visto que na continuidade deste comportamento, continuidade multiplicada pelo número de tocas observadas, toda a ruptura e todo a escolha nos são impostas. Se o coelho observador é ele próprio observado com uma objetividade total, a de uma câmara que não se autoriza a saída da toca deste observador, somos forçados o admitir que todas as outras tocas e todos os coelhos que elas contêm se resumem a uma deformação múltipla da toca e do coelho objetivamente, isto é diretamente, apresentado. Deste modo, em Rear Window, o outro lado do pátio deve ser considerado coma uma múltipla projeção dos problemas amorosos de James Stewart.
Os elementos constitutivos desta múltipla projeção são, com efeito, outras tantas relações emotivas possíveis entre indivíduos de sexo oposto, incluindo mesmo a ausência de relações emotivas, traduzida pela solidão respectiva de dois seres vizinhos, incluindo mesmo o ódio finalmente assassino, passando pela fome sexual dos primeiros dias.
Posto isto, convém acrescentar a estes elementos um outro, capital, que é o que se poderia chamar a tomada de posição do autor, cuja tomada, combinando-se com os dados artísticos impostos pela idéia, se desenvolvem diretamente nos personagens apresentados, e manifesta-se abertamente cristão, pela fé da evidência e o testemunho de três citações evangélicas.
Devidamente estabelecidas estas premissas, deixo ao leitor a conclusão deste silogismo que duma vez por todas situa o clima moral da obra, para passar ao seu significado propriamente dito.
A janela que dá para o pátio compõe-se, como sublinha o genérico, de três partes. Observemos esta trindade. A obra compõe-se, com efeito, de três elementos, três temas, se se quiser, concomitantes e finalmente unificados.
O primeiro é uma intriga sentimental opondo e reunindo sucessivamente James Stewart e Grace Kelly. Ambos procuram um terreno de entendimento, porque, se estão apaixonados um pelo outro, os respectivos 'eu', um tudo-nada divergentes, são um obstáculo.
O segundo tema é de ordem policial, situado, por sua vez no outro lado do pátio, e por conseguinte com um caráter semi-obsessivo bastante complexo. Combina-se, de resto, com grande habilidade com um tema da indiscrição, que percorre toda a obra e lhe confere uma parte da sua unidade. Este elemento policial apresenta além disso todos os caracteres habituais das obras anteriores de Hitchcock, levados aos extremos limites, visto que jamais se chega a saber se o crime não terá sido concretizado pela única vontade de Stewart.
Finalmente o último tema é mais complexo para ser definido numa palavra: apresenta-se como uma espécie de pintura realista do pátio, embora realista seja um termo particularmente mal escolhido para o caso, visto que esta pintura refere-se a seres que são a priori entidades, projeções mentais. O fim, aqui, é esclarecer, justificar e afirmar a concepção fundamental da obra, o seu postulado: a existência da estrutura egocentrista do mundo, estrutura de que a relação dos temas entre si procura dar uma imagem fiel. Assim, o indivíduo é o átomo altamente diferenciado, o par a molécula, o edifício o corpo composto de um número X de moléculas, e ele mesmo altamente diferenciado do resto do mundo. Os dois personagens exteriores têm o duplo papel de confidentes inteligentes, um inteiramente lúcido, outro inteiramente mecanizado, e testemunhas também comprometidas, generalizando o exposto.
Se quisermos arriscar uma comparação musical para esclarecer a relação dos temas, pode dizer-se que os três se compõem das mesmas notas, mas expostas numa ordem diferente, e em tonalidades diferentes, servindo cada um de contraponto aos outros. Uma tal comparação não é excessiva, visto que seria fácil determinar, no ritmo da obra, quatro 'tempi' diferentes, ou quatro formas constituintes, definíveis em termos musicais. Como convém a uma obra tão elaborada como esta, encontra-se em Rear Window um momento de cristalização dos temas numa única lição, um gigantesco acordo perfeito: a morte do cãozinho. Esta seqüência, a única que é tratada à margem do ponto de vista narrativo enunciado mais acima (a única em que a câmara desce ao pátio, quando 0 herói não se encontra lá) é, a partir de um elemento em si mesmo pouco dramático, duma intensidade trágica, comovente. Creio que uma tal veemência, uma tal seriedade possam parecer um pouco deslocadas na circunstância: um cão é apenas um cão e a morte de um cão pode parecer um acontecimento cujo lado trágico não tem relação com as palavras pronunciadas pela dona do animal, e as próprias palavras: 'Não podemos estar mais perto uns dos outros, entre vizinhos?', que resumem o sentido moral do filme, parecem algo desajeitadas e sobretudo ingênuas para justificar um estilo tão solene. Mas essa deslocação anula-se a si própria, porque o tom não deixa subsistir qualquer dúvida, e dá às coisas e sentimentos a sua intensidade real: trata-se do massacre de um inocente e de uma mãe que chora o seu filho2, e invectiva.
Desde logo, as implicações desta cena são vertiginosas, onde as responsabilidades se perseguem umas às outras em todos os planos imagináveis e condenam um mundo monstruosamente egocêntrico, onde todos os elementos, em todos os escalões, se enclausuram numa ímpia solidão.
Enquanto que no plano dramático ela apresenta o duplo interesse de um salto policial, exasperando a suspeita, e a ilustração de um tema caro ao seu autor: a materialização de um ato criminoso indiretamente desejado (no caso preciso: esta morte confirma as esperanças de Stewart.
Deste ponto de vista, a cena do confronto entre o assassino e o 'voyeur’ apresenta um grande interesse: a comunicação procurada pelo primeiro, 'Que quer de mim2' seja chantagem ou confissão, compromete o segundo que a recusa no reconhecimento da sua abjeção e autentifica, em certa medida, a sua responsabilidade. A recusa de Stewart ilumina assim a razão profunda da solidão do mundo, que se verifica ser acima de tudo a ausência de comunhão entre os seres, numa palavra, a ausência de amor.
Outras obras de Hitchcock, tais como Rebecca, Under Capricorn ou Notorious mostraram o aspecto inverso do problema, a saber, o que pode ser a força do amor; e este aspecto não está apesar de tudo ausente de Rear Window em que a personagem encarnada por Grace Kelly apoia a sua preciosa ambigüidade numa oposição entre o seu 'possível' e o seu 'ser'. Sendo o 'possível' justamente a irradiação tangível da sua beleza e do seu encanto, suficientemente poderosa para transformar a atmosfera triste e solitária do quarto do doente num jardim de flores onde a cabeça de James Stewart repousa num plano inesquecível: a introdução em simultâneo com a donzela dessa poesia inefável que é o amor entre dois seres, justificada além disso, essa poesia, por uma brincadeira de autor inteligente, no conjunto da obra que dá, na atmosfera sufocante de Rear Window, que é a própria atmosfera da nossa cloaca, uma visão fugitiva do nosso paraíso terrestre e perdido3.
Não querendo repetir o que é evidente, deixo ao espectador o cuidado de apreciar, neste filme, a perfeição técnica e a extraordinária qualidade da cor.
Rear Window dá-me a satisfação de acolher a lamentável cegueira dos céticos com uma doce e misericordiosa hilaridade.
1 Ninguém ignora que os Cahiers du Cinéma se debruçam com regularidade sobre o ‘caso’ Hitchcock e os sarcasmos dos nossos colegas acerca disso. De Georges Sadoul a Denis Marion, de Jean Quéval a George Charensol, nenhuma ironia nos foi poupada. Procurou-se mesmo fazer chicana pelos terrenos mais movediços: até quererem fazer crer que um dia traduzi ‘larger than life’ por metafísico, do que todos os que me conhecem sabem que sou incapaz.
2 O casal do cão representa além disso o casamento estéril, no espírito de Stewart; o que explica que o cão não seja de fato uma criança. Desde Sabotage que Hitchcock desconfia terrivelmente das mortes de crianças, que uma sensibilidade normal tem dificuldade de suportar.
3. A última seqüência de Rear Window é característica da maquiagem de uma cena no seu contrário, em que Hitchcock passa por mestre. As coisas voltam à ordem, e duas notações divertidas fazem um ‘happy end’; de fato, trata-se pura e simplesmente de uma constatação terrível: as coisas e as pessoas ficaram as mesmas, cegamente.
Claude Chabrol
in Cahiers du Cinéma, n.° 46, abril de 1955. Tradução de Manuel Cintra Ferreira, com modificações de Ruy Gardnier.
Texto retirado de http://www.contracampo.com.br
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Oficina de crítica cinematográfica: Problemas contemporâneos
Cinema é a arte das imagens em movimento. Como arte é o canal de expressão de homens e mulheres que concebem o mundo sob um prisma poético. Como imagens é o espelho da humanidade nos últimos 120 anos: suas ilusões, vergonhas, vitórias e medos projetados em 24 quadros por segundo. E como movimento é a música da luz, a montanha russa nas mais impressionantes paisagens do inconsciente.
Tudo isso, porém, quase sempre passa batido na nossa convencional fruição de filmes. A dieta viciada de audiovisual imposta pela indústria de imagens nos impede de observar o universo por trás dos "roteiros e atuações".
Nesse sentido a Oficina de Crítica Cinematográfica: Problemas Contemporâneos, ministrado por Miguel Haoni (do Coletivo Atalante), propõe, com a ajuda da História Contemporânea e da Filosofia da Arte, lançar outro olhar sobre o fenômeno audiovisual artístico.
A oficina pretende observar como diferentes cineastas concebiam a arte em contextos chave de sua história recente. A partir do debate crítico, leitura de textos e análise de filmes investigaremos de que maneira esta linguagem de imagens é tecida na construção de discursos e sensações, configurando parte fundamental de nossa experiência no mundo contemporâneo.
1° Unidade: Cinema hitchcockiano: A influência dos filmes de Alfred Hitchcock no cinema moderno e contemporâneo;
2° Unidade: Cinema publicitário brasileiro: Uma análise sobre a crise ética-estética no cinema brasileiro dos últimos anos;
3° Unidade: O caso Pedro Costa: Investigação do projeto estético de um dos mais importantes cineastas portugueses.
Sobre a oficina:
A Oficina de crítica cinematográfica: Problemas Contemporâneos (ministrada por Miguel Haoni do Coletivo Atalante) oferecerá uma abordagem teórica do cinema a partir do estudo de textos fundamentais e da apreciação de filmes. Filmes e textos, permitirão um percurso geral e específico em alguns capítulos essenciais da história recente do cinema.
Começaremos abordando a herança dos filmes de Alfred Hitchcock no cinema moderno e contemporâneo a partir dos projetos de José Luis Guerín, Chantal Akerman, Stanley Kubrick, Brian De Palma, Dario Argento entre muitos outros.
Na sequência estudaremos a ascensão do modelo publicitário no cinema brasileiro recente e seu contraponto nos filmes de cineastas veteranos, avaliando a crise estética decorrente desta fratura.
Por fim, uma entrada no cinema português contemporâneo apresentado nos filmes de Pedro Costa. Mais especificamente a trilogia das "Cartas de Fontainhas", produto do encontro entre o cineasta e os imigrantes cabo verdianos nas favelas de Lisboa.
Com este recorte, ao mesmo tempo amplo e restrito, a Oficina pretende a formação do olhar crítico com embasamento histórico sobre a arte cinematográfica e suas diversas dimensões.
Programa:
Sobre o "mestre do suspense":
"A arte de criar o suspense é ao mesmo tempo a de botar o público 'por dentro da jogada', fazendo-o participar do filme. Nesse terreno do espetáculo, um filme não é mais um jogo que se joga a dois (o diretor + seu filme) e sim a três (o diretor + seu filme + o público), e o suspense, como as pedrinhas brancas do Pequeno Polegar ou o passeio de Chapeuzinho Vermelho, transforma-se em um elemento poético, já que seu objetivo é nos emocionar mais, é levar nosso coração a bater mais forte. Censurar Hitchcock por fazer suspense equivaleria a acusá-lo de ser o cineasta menos maçante do mundo, equivaleria também a criticar um amante por dar prazer à sua parceira em vez de só se preocupar com o seu."
(François Truffaut, Introdução do livro Hitchcock/Truffaut: entrevistas)
Sobre o cinema publicitário:
"Desde a sua saída, Le Grand Bleu incomodou os profissionais da cinefilia. Demasiado inconsistente do ponto de vista estético, o filme tornou-se esta coisa triste: um fenômeno social. Não é portanto o fenômeno que foi analisado mas sim o que revelava do seu público jovem que, radiante, o via, a ele, dez vezes. Ora Le Grand Bleu não é, como Jean de Florette ou Camille Claudel, o lifting acadêmico de um cinema cujo prazo acabou há muito, nem um enorme sintoma cujas falhas estéticas obrigam a abandoná-lo aos sociólogos. Se deu a tal ponto a sensação de “acertar” foi precisamente porque tinha qualquer coisa a ver com a estética. A única questão é saber se se trata ainda da do cinema. Voltemos à água e mergulhemos mais à frente. O que é desarmante em Le Grand Bleu é a forma como Besson parece contentar-se com o look que o mar há muito tempo tem em todo e qualquer spot publicitário (lembremo-nos do aterrorizador Ultra-Brite). Menos por inaptidão a filmá-lo do que porque o mar, para ele, é isso: um “grande azul” de síntese no qual se “hidrodesliza” sem fazer ondas."
(Serge Daney, O cinema e a memória da água)
Sobre o cinema de Pedro Costa:
"Esta relação entre a grande arte e a arte de viver dos pobres, é o tema do filme. Uma ilustração espectacular é o episódio da visita ao museu, se é que se pode chamar de visita: de facto, o filme transporta-nos sem transição narrativa para uma sala da Fundação Gulbenkian onde Ventura já se encontra, apoiado na parede, entre o Portrait d'Hélène Fourment de Rubens e oPortrait d'homme de Van Dyck. Silenciosamente, um empregado do museu, negro, como o funcionário da câmara municipal, vem dizer a Ventura que saia, tirando um lenço para limpar as marcas do intruso no chão, tal como o funcionário público já tinha feito, limpando as manchas da sua cabeça da parede branca do apartamento novo. Mais tarde vem buscar Ventura, sentado meditativo num sofá Régence, e fá-lo sair, sempre em silêncio, pela porta de serviço. O segurança está satisfeito com o seu trabalho: não tem nada a ver com a fauna cosmopolita e trafulha dos hipermercados. Aqui, diz ele sobriamente a Ventura, temos paz, a não ser quando vêm pessoas como nós, o que é raro. Ventura não revela ao que vem. Sentado abaixo dele e sem o olhar, com as árvores do jardim em fundo, Ventura fala do país de onde veio, do pântano que era este terreno cheio de sapos que se multiplicavam, terreno que ele cavou e limpou, e onde colocou pedras e relva, apontando então com um gesto imperial, o lugar de onde um dia caiu do andaime. Não se trata de opôr o suor e as dores dos construtores de museus ao prazer estético dos ricos. Trata-se de confrontar história com história, espaço com espaço e palavra com palavra."
(Jacques Rancière, A carta de Ventura)
Referências bibliográficas:
CABOS, Ricardo Matos (org.). Cem Mil Cigarros - Os filmes de Pedro Costa. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.
Contracampo revista de cinema: http://www. contracampo.com.br/
OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno. São Paulo, 2015.
Referências fílmicas:
A Erva do Rato. Julio Bressane. BRA. 2008. cor. 80 min.
Falsa Loura. Carlos Reichenbach. BRA. 2007. cor. 103 min.
Juventude em Marcha. Pedro Costa. POR. 2006. cor. 156 min.
No Quarto da Vanda. Pedro Costa. POR. 2000. cor. 179 min.
Síndrome Mortal. Dario Argento. ITA. 1996. cor. 120 min.
Unas fotos en la ciudad de Sylvia. José Luiz Guerín. ESP. 2007. p&b. 67 min.
Serviço: Carga horária: 24 horas
dias 18, 19, 20, 21, 25, 26, 27 e 28 (segunda quinzena de janeiro)de segunda a quintadas 19 às 22 horasno Núcleo Cine(Rua Belém, 888 - Cabral- Curitiba/PR)
dias 18, 19, 20, 21, 25, 26, 27 e 28 (segunda quinzena de janeiro)de segunda a quintadas 19 às 22 horasno Núcleo Cine(Rua Belém, 888 - Cabral- Curitiba/PR)
Inscrições pelo email: coletivoatalante@gmail.com
Investimento: R$120,00
VAGAS LIMITADAS
Investimento: R$120,00
VAGAS LIMITADAS
Realização: Núcleo Cine e Coletivo Atalante
domingo, 9 de novembro de 2014
Hitchcock Libertário Simbólico (fragmento)
por Ruy Gardnier
INTRODUÇÃO. Hitchcock só no parágrafo seguinte.
A crítica no Brasil é devedora do trabalho dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. No caso de 50% da presente revista, idem. No caso desse que escreve, também. Foram eles os que mais fizeram pela divulgação e pelo questionamento dos processos artísticos da literatura nesse século (e no que esse século considera como seus antepassados, dos provençais a Poe). No plano da crítica, trouxeram os formalistas, Ezra Pound e os estruturalistas. De modo que grande parte das vanguardas brasileiras se apóia, quando escreve, na herança Pound / Fenollosa / Barthes. O mote da crítica concretista, que veio num momento cheio de raiva contra toda uma geração crítica acadêmica e conteudista, dizia: "A forma é o conteúdo", ou à maneira de Marshall McLuhan, "O meio é a mensagem". É claro, o que se tratava naquele momento era tirar de circulação os grandes temas, a fábula moralizante, para, no século da linguagem, fazer a análise poética da linguagem. Resta, porém, um resíduo que não é criação do concretismo mas que lhe veio com o tempo (e é de se acreditar que com o tempo os pós-concretos tenham cristalizadas e plácidas as suas questões outrora vivas). Esse resíduo é a crítica veemente a qualquer coisa que possa parecer à primeira vista uma análise do conteúdo, do assunto da obra. Ora, justo onde parece que estamos falando de conteúdo, vai aí que falamos apenas de formas — pois nos parece evidente que o assunto, o desenrolar de um filme ou de uma peça, vai desenhando, a seu modo, uma gama de formas que um desviar de olhos fatalmente deixaria escapar parte importante da obra em questão. Se você me disser que arte é forma, eu concordarei. Se você me disser que arte não é conteúdo, você se enganou muitíssimo. Numa obra vemos formas — mas formas de expressão e formas de conteúdo. Estilo e assunto, se se quer. Uma análise conjunta dos dois é sempre mais abrangente do que isolar um ou outro numa análise formal (e o estruturalismo esgotou as suas possibilidades há algum tempo, embora ainda tenha heranças bem-vindas). Por isso essa guisa de introdução a um texto de análise das formas do conteúdo.
A crítica no Brasil é devedora do trabalho dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. No caso de 50% da presente revista, idem. No caso desse que escreve, também. Foram eles os que mais fizeram pela divulgação e pelo questionamento dos processos artísticos da literatura nesse século (e no que esse século considera como seus antepassados, dos provençais a Poe). No plano da crítica, trouxeram os formalistas, Ezra Pound e os estruturalistas. De modo que grande parte das vanguardas brasileiras se apóia, quando escreve, na herança Pound / Fenollosa / Barthes. O mote da crítica concretista, que veio num momento cheio de raiva contra toda uma geração crítica acadêmica e conteudista, dizia: "A forma é o conteúdo", ou à maneira de Marshall McLuhan, "O meio é a mensagem". É claro, o que se tratava naquele momento era tirar de circulação os grandes temas, a fábula moralizante, para, no século da linguagem, fazer a análise poética da linguagem. Resta, porém, um resíduo que não é criação do concretismo mas que lhe veio com o tempo (e é de se acreditar que com o tempo os pós-concretos tenham cristalizadas e plácidas as suas questões outrora vivas). Esse resíduo é a crítica veemente a qualquer coisa que possa parecer à primeira vista uma análise do conteúdo, do assunto da obra. Ora, justo onde parece que estamos falando de conteúdo, vai aí que falamos apenas de formas — pois nos parece evidente que o assunto, o desenrolar de um filme ou de uma peça, vai desenhando, a seu modo, uma gama de formas que um desviar de olhos fatalmente deixaria escapar parte importante da obra em questão. Se você me disser que arte é forma, eu concordarei. Se você me disser que arte não é conteúdo, você se enganou muitíssimo. Numa obra vemos formas — mas formas de expressão e formas de conteúdo. Estilo e assunto, se se quer. Uma análise conjunta dos dois é sempre mais abrangente do que isolar um ou outro numa análise formal (e o estruturalismo esgotou as suas possibilidades há algum tempo, embora ainda tenha heranças bem-vindas). Por isso essa guisa de introdução a um texto de análise das formas do conteúdo.
***
Hitchcock é um artista um pouco avesso a uma interpretação de sentido nos seus filmes. Os estudos sobre seus filmes tendem
sempre a tentar penetrar em seu (denso) estilo. Seu cinema já chegou inclusive
a ser pensado como pura forma e nenhum conteúdo, a expressão máxima da arte
visual no cinema. Contudo, as formas de conteúdo são recorrentes, vários filmes
são organizados de acordo com o mesmo parti-pris. E, antes disso, sob uma mesma forma de conteúdo
geral: o suspense. O suspense é uma forma. Ele trabalha tanto na forma de
expressão quanto na forma de conteúdo. Como expressão, ele trabalha com o que
está ausente na tela, em suspensão. Como conteúdo, ele opera os complexos semânticos de medo e de passagem
de tempo.
O suspense pode ser desenhado a partir de diversas formas, e o próprio
cinema de Hitchcock pode ser considerado como um grande inventário, ou antes
como um grande evangelho das formas do suspense. Mas a visão contínua de sua
obra permite que se veja que o velho Alfred tem uma predileção imensa por uma
delas: a do percurso. O percurso começa com um fator desencadeador, a partir do qual o
personagem terá que provar algo,
enfrentando com isso a franca oposição dos poderes instituídos (polícia,
política, cidadãos "idôneos", etc.). É esse percurso que na maioria
das vezes constitui o suspense, por exemplo, em Sabotador, Os 39 Degraus, Correspondente Estrangeiro, A Dama Oculta, até filmes tardios, como Cortina Rasgada.
Mas esse percurso envolve outra coisa — o objetivo. Óbvio, a estrutura
narrativa tenta resolver isso de forma simples, através da simples realização
do percurso e da inocência por fim encontrada. Mas as linhars subliminares de
Hitchcock, ou ao menos de suas principais obras, nos dizem mais. Através do
caminho percurso-prova-inocência, se desenha uma outra linha discursiva, um outro
fluxo de enunciação que não tematizam mais justiça ou inocência, mas sim os
valores de casamento, maturidade e desejo. Quanto a isso, dois filmes colocam
isso especialmente em evidência: Janela Indiscreta e Intriga Internacional. Os signos de sexo e casamento são tão patentes
nesse filme que é impossível pensá-los como acesssórios à trama. Ao contrário,
é a trama que parece colocar-se em segundo plano e servir apenas de metáfora
para o que o verdadeiro filme está mostrando.
Em Janela Indiscreta, filme-tese sobre o casamento, vemos L.B. Jeffries
com a perna quebrada. Em dois travelings se desenvolve a dialética do filme: um mostra, numa virtuosidade
surpreendente, tudo o que envolveu o acidente do personagem, como a câmara de
fotografia, as fotos de carros de corrida, até mostrar o gesso e Jeffries
dormindo numa cadeira de rodas; no outro traveling, observamos o que Jeff pode ver através da sua
janela traseira, como o casal feliz que compartilha todos os seus momentos, a
jovem bailarina que freqüenta o bas-fond e vive num mundo vazio à procura de um amor, o pianista que não consegue
completar a sua obra por falta de inspiração, a senhora que tem crises nervosas
por viver sozinha e um casal que briga infernalmente. O elemento que vai operar
essa dialética, que vai conjugar Jeff com a questão do outro prédio (a questão
da vida amorosa) é Lisa Fremont, jovem da alta classe que tenta desposar o
desajeitado fotógrafo1. Jeff não parece descontente de viver
sozinha: namora a jovem, que é rica, bonita e inteligente, e trabalhando em
viagem pelo mundo, acompanhando as corridas de carros. O que impede o desejo de
Lisa de se realizar é justamente o fato de Jeff encarar a vida no casamento
como tediosa e sem-graça. A operação de Janela Indiscreta é a passagem ao ato. Se temos razão, Jeff observa a questão do casamento
através da janela traseira de seu prédio, mas jamais chega a tomá-la para si.
Vendo, ele pode viver esse momento sem entretanto correr o risco de sofrer as
decepções causadas pelos relacionamentos. Mais uma vez, a questão do medo de
sociabilidade em Hitchcock, a vida social sendo sempre o terreno do mal e da
sordidez.
Janela Indiscreta tematiza um procedimento caro à obra de Hitchcock (mas nem tanto à sua
vida): a passagem ao ato, ir do ver até o ser. Lisa é o operador simbólico da
passagem ao ato de Jeff, algo como um "operador de maturidade": ele
começa o filme como uma criança, a empregada/enfermeira servindo como uma
figura de mãe (as figuras de mãe são recorrentes nos filmes de Hitchcock), e
termina o filme casado, feliz com Lisa Fremont. Lisa é operador porque é ela
quem consegue fazer ver que o casamento não é (como o menino Jeff pensava) a
submissão a um modo sedentário do relacionamento amoroso. A incursão de Lisa
pelo prédio em frente é exemplar do universo de desejo hitchcockiano: ela penetra
no mundo do casamento, ela penetra no universo do outro, da sexualidade. É só a
partir daí que Jeff percebe que pode se entregar ao casamento; o casamento,
depois disso, passa a ser uma verdadeira economia política do desejo, nunca
mais uma partilha sedentária dos afetos. E só a partir daí o filme pode se
completar.
(...)
1.Na verdade, a metáfora é
impressionantemente mantida até o final do filme, pois na hora de exercer
alguma ação sobre o que acontece no prédio em frente, quem vai fazê-lo é Lisa,
e só isso, o espírito aventuresco de Lisa, é que vai fazer com que Jeff finalmente
queira se casar com a moça.
Texto na íntegra: http://www.contracampo.com.br/01-10/hitchcocklibertariosimbolico.html
sábado, 5 de maio de 2012
Coletivo Atalante e Bicicletaria Cultural apresentam: A TELEVISÃO LEVADA A SÉRIO
Programação:
05/06 - Episódios de "Alfred Hitchcock Apresenta" e "Além da Imaginação"
12/06 - Intervenções de Glauber Rocha no programa "Abertura"
19/06 - Episódios de "The Office"
26 /06 - Episódios de "Família Soprano"
12/06 - Intervenções de Glauber Rocha no programa "Abertura"
19/06 - Episódios de "The Office"
26 /06 - Episódios de "Família Soprano"
Serviço:
Toda terça de junho
às 19h30
Na Bicicletaria Cultural
(Rua Pres. Faria, 226 – Subsolo, Centro – Ao lado da UFPR – Pç. Santos Andrade)
ENTRADA FRANCA
Realização: Coletivo Atalante e Bicicletaria Cultural
Apoio: Cinemateca de Curitiba e DVD10 Videolocadora
Mais informações: 9706-8837
coletivoatalante@gmail.com
http://coletivoatalante. blogspot.com.br/
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