Mostrando postagens com marcador expressionismo americano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador expressionismo americano. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sternberg expressionista


O Expressionismo chega a Josef Von Sternberg através do contato com o grande encenador Max Reinhardt e de sua curta estadia, a convite deste, em Berlim durante alguns meses de 1926, nos quais, supostamente, teria assistido a tudo do cinema e do teatro alemão. Desta experiência nasceram algumas “visões” que assombram o seu “O Anjo Azul”, única experiência germânica do realizador.


Já no primeiro plano do filme somos lançados em uma fantasmagórica composição de telhados pontiagudos, que remete ao gosto medieval dos vanguardistas alemães. A concepção dos espaços no filme é nitidamente expressionista: as formas tortas e angulosas são o transbordamento visual dos perturbados estados de alma dos personagens. Quando, na primeira parte do filme, o professor Immanuel Rath (interpretado pelo maior ator expressionista, Emil Jannings) caminha tropegamente pelas ruas rumo à taverna, as luminárias e construções bizarramente dispostas representam a antecâmara (sedutora e perigosa) do inferno que o personagem está na iminência de mergulhar.


Nos interiores, o que domina é o jogo de ambiguidades: a austeridade da sala de aula em contraste com o barroquismo de palco e camarim do Anjo Azul.  Se num primeiro momento a limpeza e a sobriedade encenada da sala de aula sufocam o professor, é justamente nesta “prisão” que ele procurará a redenção para o seu último suspiro, ao final do filme. Por sua vez, o universo de Lola Lola com seus brilho e véus radiantes encanta (personagem e público) para depois destruir, tal qual a aranha que seduz suas “refeições” pela complexa beleza de suas teias.
O brilho no filme, assim como a escuridão, está em todos os lugares. É a velha construção barroca dos contrastes acentuados, que desde “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919), de Robert Wiene, pontua a estética expressionista: luz e sombra podem ser lidas como bem e mal ou sagrado e profano; as forças em eterno conflito na alma humana.  O professor é, a princípio, ofuscado por um holofote, que o atordoa. Depois é ofuscado pela pele branca das pernas de Lola, cuja luminescência diáfana o arrebata. Em seguida é arremessado nas trevas da humilhação, para no fim expirar dentro de um recorte ínfimo de luz na escuridão circundante da velha sala de aula. 


O movimento dramático-plástico do personagem é o desenho do drama humano segundo o expressionismo: não importa se na luz ou na sombra, o homem ,onde estiver, será sempre as duas.

Miguel Haoni
(Cineclube Sesi – 2012)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Cineclube Sesi apresenta: "Almas Perversas" de Fritz Lang

 
Fritz Lang foi o diretor das superproduções na República de Weimar. "Dr. Mabuse" (1922), "Os Nibelungos" (1924), "Metrópolis" (1927); seus filmes conciliavam uma inventividade de matriz expressionista com espetáculos populares para as grandes massas.
Com a ascensão de Hitler, Lang recusou-se a assumir a função de diretor oficial do III Reich, deixando a cadeira para Leni Riefenstahl. A dificuldade de produção, o cerceamento das liberdades individuais e a censura de seu filme "O Testamento do Dr. Mabuse", de 1932, tornaram o ambiente na Alemanha nazista insuportável para o espírito independente do diretor, o que o obrigou a migrar para Hollywood (com uma breve parada na França, onde produziu "Liliom" em 1934).
Diferente de seus conterrâneos Ernst Lubitsch e F.W. Murnau, que fizeram a travessia do atlântico anos antes, Lang era um exilado que não queria ter que deixar seu país, abandonar seus amigos e parceiros profissionais e sobretudo sua roteirista, esposa e companheira inseparável, Thea Von Harbou que, nazista convicta, recusou-se a acompanhá-lo. Lang, dilacerado, foi a Hollywood porque precisava. O que fez toda a diferença.
Nos EUA construiu uma carreira prolífica, mas nunca mais teve acesso a grandes orçamentos. Foi reduzido a "funcionário dos estúdios", no nicho mercadológico dos filmes B no qual produziu pequenos faroestes e policiais. Para a indústria Lang era um problema: apesar da inegável eficiência técnica, sua postura política e seu "intelectualismo" o impediam de assumir grandes produções. Para o "povo do cinema" (cinéfilos, críticos e jovens realizadores) Lang era um Deus: sua
mise-en-scène única desenhava reflexões profundas sobre o Homem em sociedade. Nos 22 filmes que realizou nos 20 anos que trabalhou em Hollywood, desenvolveu a mais consistente obra sobre um tema quintessencial à nossa condição: a justiça.
Nestes filmes, a amargura do expatriado e a humilhação do profissional subvalorizado encontraram o ódio à hipocrisia do sistema americano. Enquanto a propaganda oficial (Holllywood na ponta da lança) pregava os mitos de liberdade, democracia e oportunidade, a América real era uma terra opressora, cruel e oportunista. Sob a maquiagem do
dream, a vida nos EUA era tão sombria quanto na Alemanha de Hitler.
Este olhar crítico está na base da leitura que Lang empreendeu do filme "A Cadela" de Jean Renoir (1931), na adaptação "Almas Perversas", de 1945. O que em Renoir era um elogio à vida e suas razões, Lang interpreta como uma parábola expressionista sobre a crueldade humana. A atmosfera ímpia que contamina esta visão de mundo (compartilhada por muitos realizadores do contexto) seria a matriz do que posteriormente a crítica francesa chamará de
film noir. Como diz o cliché, havia naquelas ruas algo mais escuro que a noite.
A história não poderia ter sido outra. Como escreveu o crítico francês François Truffaut, Renoir era um gênio, mas seu coração nunca sangrou como o de Lang. E é este coração que pulsa por baixo de cada linha de "Almas Perversas". 


Miguel Haoni
(Cineclube Sesi, 2012)

Serviço:
dia 19/09 (excepcionalmente na quarta)
às 19h30*
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep**
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

*Exibição seguida de debate em português e inglês.
** Sala com 25 lugares, sujeita à lotação.

Realização: Sesi
Apoio: Processo Multiartes

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Debatendo "Aurora"


Noites estrangeiras
Os mundos intrusos de F. W. Murnau (fragmento)

(...)
“Sempre há uma outra voz falando pela nossa voz quando realmente dizemos alguma coisa”.
(Nancy)

É com Aurora (1927) e City Girl (1930), porém, que Murnau tornará todo o raciocínio acerca da intrusão ainda mais complexo. Filmados em Hollywood – fábrica de aparências – os dois filmes podem, hoje, ser vistos como um díptico, um par harmônico que apresenta dois lados de uma mesma questão. Aurora (foto ao lado) leva as máscaras novamente aos rostos: um casal que vive no campo tem sua tranqüilidade matrimonial atormentada por uma sirigaita da cidade. Ela – morena, com traços fortes de vaidade – tenta convencer o rapaz a assassinar sua esposa – loira, com rosto de boneca inacabada – e fugir com ela para a cidade. A idéia de trabalhar com arquétipos fica ainda mais clara pelos nomes creditados às personagens: The Man (George O’Brien), The Wife (Janet Gaynor) e The Woman From the City (Margaret Livingstone).
Em um primeiro momento, acreditamos queAurora seria um filme sobre o paraíso maculado pela chegada dos turistas à pequena vila de veraneio. Qualquer possibilidade de uma crítica esquemática e anunciada ao mundo urbano cai, por completo, na segunda metade do filme: uma vez não consumado o assassinato, homem e esposa pegam um bonde para a cidade. Ao contrário do que poderíamos esperar, esse espaço não é retratado como antro de corrupção, mas sim como terra de luzes pulsantes, jorrando vivacidade em desordenado e maravilhoso movimento. Mais do que estabelecer uma oposição entre os dois espaços, Murnau os desenha como trajetória: as personagens precisam sair do campo e passar pela cidade (daí os nomes arquetípicos) para redescobrir o amor que as une. É preciso, portanto, delimitar as personagens por suas diferenças espaciais e culturais, para, assim, descortinar as projeções que as deformam. É preciso, acima de tudo, compreender o intruso como um intruso.
(...)


Fabio Andrade
(Texto na íntegra: 
http://www.revistacinetica.com.br/murnaufabio.htm)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cineclube Sesi apresenta: Expressionismo Americano

06/09 "Aurora", de F. W. Murnau
13/09 - "Cidadão Kane", de Orson Welles
19/09 (excepcionalmente quarta)- "Almas Perversas", de Fritz Lang
27/09 - "O Beijo Amargo", de Samuel Fuller

Serviço:
Sessões semanais*
às 19h30
Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep**
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

*Exibições seguidas de debate em português e inglês
** Sala com 25 lugares, sujeita à lotação.

Realização: Sesi
Apoio: Processo Multiartes