sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Cine FAP apresenta: "Cannibal Holocaust", de Ruggero Deodato

Sinopse:
4 documentaristas se aventuram nas florestas da América do Sul para realizar um trabalho e Desaparecem. O material filmado é encontrado e a verdade é revelada. 

Sobre o filme:
O polêmico filme de Ruggero Deodato aborda a tênue relação entre o real e o fictício. Numa ciranda de encenações, o autor explora os limites da linguagem cinematográfica ao abordar o documentário enquanto lugar de representação. 
Na era da imagem, Cannibal Hollocaust põe em questão o lugar do espectador no rito cinematográfico: qual a diferença entre o canibal e o homem que se regozija ao devorar imagens grotescas? Quem é o selvagem? Qual o limite entre a civilização e a barbárie? Ao jogar com estas fronteiras, o diretor nos apresenta um filme violento, inteligente e acima de tudo corajoso.

Miguel Haoni
(Comentador convidado)


Serviço:
dia 19/11 (segunda)
às 19h00
na Auditório Antonio Melillo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Diálogos Possíveis II


Nesta quinta feira temos um passeio por produções bastante distintas e premiadas realizadas aqui na capital paranaense, começando com o visceral Com as próprias mãos que nos leva a um grande galpão onde uma mulher aplica uma incansável tortura a um homem em busca de respostas em um clima claustrofóbico, o trabalho é de 2008, Aly Muritiba o realizador, a época era estudante de cinema na Faculdade de Artes do Paraná, encontrou certa resistência entre professores pela realização de um filme tão violento por um estudante, porém persistiu na sua ideia e foi feliz, o filme rodou o país e fora dele também, sendo premiado e reconhecido, um dos primeiros, senão o primeiro filme a sair da recente escola de cinema para ser conhecido mundo afora. Trajetórias similares de filmes de alunos de cinema seguiram Vó Maria de Tomás Von der Osten e O Muro de Diego Florentino, Diego que por sinal divide com Aly e mais três colegas de faculdade o roteiro e a direção do longa Circular.
Vó Maria de Tomás Von Der Osten volta no tempo, trás a tona memórias, um filme simples, mas não simplista, um trabalho surpreendente, uma boa ideia colocada em prática com maestria assim como O Muro, um argumento bastante delicado de um menino que perde a sua bola para outro lado do muro e trava uma “batalha” com o vizinho para recuperar o brinquedo.
E por último, mas com certeza não menos importantes dois dos principais cineastas que temos com seus bem humorados Aldeia de Geraldo Pioli, que fala sobre um padre que tenta ensinar os dez mandamentos a uma tribo de índios que não tem muita relação com aquilo, o filme realizado no ano 2000 teve uma excelente repercussão e até hoje roda o mundo e Mesera de Pedro Merege sobre um homem e uma encomenda que tenta atravessar a fronteira porém encontra uma bela mesera no caminho, com uma linguagem interessante e tom leve Merege realiza um grande trabalho.

Joel Schoenrock
(Curador convidado)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Os mistérios


Texto sobre Um Lago de Philippe Grandrieux (2008)

Uma arte impressionista é aquela que não valoriza a forma precisa das coisas, mas sim suas ressonâncias, e que ao dissolver os contornos em favor de uma representação vaporosa, substitui a concretude pela fluidez, a parte pelo todo (o que também inclui a luz e o ar).
No cinema, o Impressionismo foi introduzido por um grupo de realizadores franceses, que na década de 1920 ofereciam aos espectadores, por exemplo, não a imagem do movimento, mas a impressão do movimento (como Abel Gance em A Roda, 1923); não a imagem da perturbação, mas suas reminiscências (como Jean Epstein em A Queda da Casa de Usher, 1928).
Ao encontrar o cinema de Philippe Grandrieux reconhecemos que este tipo de abordagem audiovisual permanece relevante até hoje, em filmes concebidos como experimentos sensoriais, que abraçam corajosamente a imprecisão nas imagens e nos dramas. Seus filmes são convites a um exercício puro de olhar e ouvir. Suas imagens não visam a comunicação, mas desafiam nossos sentidos a mergulhar em seus labirintos orgânicos.
Em Um Lago temos a sensação de que o filme emerge de uma treva branca (como as silhuetas na névoa) ou preta (como os rostos dourados que flutuam no interior da casa), mantendo distância suficiente para que não consigamos divisar precisamente seus contornos. Como os personagens, só conseguimos nos aproximar da obra através do toque, sugerido pelos planos fechados nos rostos e mãos. Osclose-ups constroem o que provavelmente é a primeira paisagem do filme, um espaço que resiste ao silêncio e ao terror dos arredores. Uma tentativa de encontrar a Humanidade, naquilo que de longe (ou de muito perto) são apenas borrões.
Nossa percepção, contudo, transita essencialmente entre este longe e perto.  Não nos é concedido alívio para as inquietações que o filme suscita, tornando a experiência intelectualmente desconfortável. Quem são esses personagens, de onde vieram e qual a natureza de suas relações? Para cada pergunta da razão o filme, zombeteiramente, oferece uma resposta para os sentidos: a voz das entranhas da terra ou mãos desfocadas se agarrando. Parafraseando Jean-Luc Godard, é preciso primeiro aprender a ver.
Talvez as respostas aos silêncios do drama estejam nas igualmente silenciosas imagens. Nas luzes crepusculares, nos recortes pretos das árvores sobre o fundo branco do céu, mos sussurros e respirações, nos cumes epilépticos das montanhas, no interior de uma casa da qual não sabemos nada, em suma, nos mistérios que nossa percepção nunca visitou, mas de onde, segundo Grandrieux, nunca deveríamos ter saído.

Miguel Haoni
(Cineclube Sesi, 2012)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Cineclube Sesi: Diálogos Possíveis II - 5 curtas curitibanos


Nesta quinta feira dia 08 o Cineclube SESI continua com as mostras Panoramas do Cinema Curitibano, a partir das 19h, serão exibidos cinco curtas-metragens realizados na capital paranaense para dar continuidade às discussões sobre a produção local são eles Com as próprias mãos de Aly Muritiba, que narra a história de uma mulher à procura de respostas, O Muro de Diego Florentino com a história de um menino que vê sua bola cair do outro lado do muro e tenta resgatar seu brinquedo, Aldeia de Geraldo Pioli, a bem humorada trajetória de um padre na tentativa de ensinar valores cristãos aos índios, Vó Maria de Tomás Von Der Osten e a memória em três tempos além de Mesera de Pedro Merege com a trajetória de Emilio ao cruzar a fronteira. Após a exibição teremos debate com realizadores presentes.

Joel Schoenrock
(Curador convidado)

Cineclube Sesi: Diálogos Possíveis II - 5 curtas curitibanos

Com as próprias mãos 15’38”,
Sinopse: Em um imenso galpão abandonado, uma mulher inflige as mais diversas torturas em um homem a fim de obter respostas.
Direção: Aly Muritiba

O Muro 5’ 30’’
Sinopse: A bola de Igor, garoto novo em um bairro, vai para o quintal vizinho. Na tentativa de resgatar o brinquedo, duela com o desconhecido.
Direção, Roteiro e Produção: Diego Florentino

Aldeia
DIREÇÃO: Geraldo Pioli 11`
Sinopse: É um relato bem humorado da tentativa de um padre em ensinar os 10 mandamentos a uma tribo indígena, poligâmica, no início da colonização, no Brasil.

Vó Maria
Diretor: Tomás von der Osten
6 min
Sinopse: Memória em três tempos.

Mesera
Direção: Pedro Merege
11 minutos
Sinopse: Emílio Varela em seu carro vai cruzar a fronteira para uma “entrega especial” numa parada à beira da estrada conhece Camélia, a Mesera.


Serviço:
dia 08/11 (quinta)
excepcionalmente às 19h00
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep*
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
*Sala com 25 lugares, sujeita à lotação.


Realização: Sesi
Apoio: Processo Multiartes

Mais informações:

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Cineclube Sesi Portão apresenta: "Um Lago" de Philippe Grandrieux

O Cineclube Sesi Portão apresenta nesta quarta-feira, às 19h30, o filme "Um Lago" de Philippe Grandrieux. Em novembro vemos ainda o filme  "O Beijo Amargo" de Samuel Fuller (dia 21). Sempre com entrada franca.

Cineclube Sesi Portão apresenta: "Um Lago" de Philippe Grandrieux

Sinopse:
A história se passa em um país do qual nada sabemos: um país de neve e florestas densas em algum lugar ao norte. Uma família mora numa casa isolada, perto do lago. Alexi, o irmão, é um jovem de coração puro. Um lenhador. Extático, preso pelos ataques epilépticos, ele está completamente aberto à natureza que o cerca. Alexi é muito ligado à sua irmã mais nova, Hege. Sua mãe cega, seu pai e seu pequeno irmão mais novo são testemunhas silenciosas do seu imenso amor. Chega um estrangeiro, um jovem um pouco mais velho do que Alexi… 

Sobre o filme:
Um Lago parece uma representação audiovisual da pintura de Caspar David Friedrich. Não a primeira, já que F. W. Murnau e Aleksandr Sokurov empenharam suas câmeras na construção daquele tipo de “paisagens espirituais”, mas sem dúvida a que foi mais fundo na dimensão sagrada do Romantismo.
Philippe Grandrieux, o realizador, materializa em seu protagonista toda a angustiante incompletude evocada nos solitários de Friedrich. O medo, a solidão, a doença – Alexi é um ultra-romântico, condenado a ser um eterno fantasma perdido na natureza infinita.
Ao mesmo tempo reconhecemos nos enquadramentos, os rostos deformados de um Francis Bacon. A câmera convulsa, como um pincel, reconfigura traços e dissolve identidades.
É entre Friedrich e Bacon que Grandrieux erige sua obra: pintura de sons no tempo.

Miguel Haoni
(Cineclube Sesi, 2012)

Serviço:
dia 07/11 (quarta)
às 19h30
no Teatro do Sesi no Portão 
(Rua Padre Leonardo Nunes, 180 – entrada pela rua lateral Rua Álvaro Vardânega)

ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi
Apoio: Processo Multiartes

Panoramas do Cinema Curitibano – Diálogos Possíveis I

Tudo começou com um fogão! Assim Elói Pires Ferreira começa a contar a jornada de Valdir e Rute, este casal de catadores de papel que atravessa Curitiba com seu carrinho em busca de seu sustento. Ainda estamos na década de 1990, no entanto as diferenças e os problemas sociais expostos na tela são comuns ainda hoje. O cotidiano da metrópole retratado por uma outra visão, um cinema curitibano que crescia, Elói depois parte para os longas metragens O Sal da Terra e mais recentemente Curitiba Zero Grau, ainda em cartaz na capital, neste último ele referencia novamente a temática dos catadores de papel, emplacando o cinema curitibano nas salas comerciais por várias semanas. Já no inicio dos anos 2000, Marcos Jorge apresenta a sua cíclica e fantástica narrativa em Infinitamente Maio, a curiosa e criativa sequencia de fatos que se repetem e se reinventam a todo o momento, elementos de humor negro e sensualidade que também, assim como Elói, vão se repetir em seu longa Estômago, que dividiu as telas do cinema ao lado de O Sal da Terra, nessa ocasião pela primeira vez dois longas curitibanos em cartaz simultaneamente no circuito comercial, fato que se repetiu agora com o novo longa de Elói Pires Ferreira e o longa Circular dos jovens realizadores Adriano Esturilho, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diego Florentino e Fábio Allon. Falando em jovens realizadores que obtiveram êxito em suas produções não posso deixar de citar Rafael Urban e André Senna, Urban com seu belo e delicado documentário Ovos de dinossauro na sala de estar, que retrata a senhora Ragnhild Borgomanero, sua coleção de fósseis e sua paixão. Paixão também que pode ser vista em Decisão Real de André Senna, a trajetória da jovem Janine em seu dia a dia sufocante, mas que não perde a esperança e a vontade no que ela mais ama. Quatro diferentes trabalhos, de momentos diferentes da cinematografia curitibana, mas que revelam o intrínseco talento, criatividade e qualidade deste cinema que está ficando cada vez mais evidente.
 Joel Schoenrock

(Curador convidado)

Barba Azul

Catherine Breillat é um dos principais nomes do New French Extremism, movimento alcunhado pelo crítico James Quandt ao perceber uma nova safra de filmes franceses com conteúdos transgressores.  Ao lado de Catherine, Quandt listou outros nomes que vem recebendo destaque nos últimos anos por essa característica: Gaspar Nóe, Bruno Dumont, Claire Denis, Bertrand Bonello, Jean-Claude Brisseau, entre vários outros. O que melhor exprime esse conceito é a ousadia nas abordagens dos respectivos realizadores, ou seja, é bastante vago definir um tema ou estética comum a todos os possíveis nomes.
            Os filmes de Catherine Breillat são polêmicos, provocativos, estranhos. Uma das características de sua filmografia é a forma com que ela concentra suas narrativas em elementos autobiográficos e em confissões sexuais. Ela se apropria de temáticas universais como sexo e violência, exprimindo a condensação desses dois elementos (muito mais interessada em sexo do que violência, ou melhor, o sexo como a violência).
            Barba Azul é a adaptação de um conto moral de Perrault sobre uma jovem garota que se casa com o nobre assassino de esposas. A diretora alterna a representação fidedigna do texto (o filme é fiel em aspectos de espaço-tempo no qual foi escrito pelo escritor) com a leitura da história feita por duas crianças no sotão de uma casa, isso feito em outro período histórico. Esses dois universos paralelos são completamente distintos. Através desse contraste entre dois mundos que a realizadora explora o universo infantil, permeando a obra com pontuações dramáticas e satíricas, dificultando a classificação da obra em algum gênero específico. O interessante nesse embate é a interferência no processo do fluxo narrativo do filme, questionando o próprio ato de narrar artístico. Esse dispositivo é enaltecido pelo rigor formal imposto através da decupagem, dos enquadramentos e da movimentação de câmera. Esses três níveis cinematográficos ajudam a criar uma eficiência e densidade no mote aparentemente ameno. A encenação frontal, por exemplo, é uma das formas de questionar a artificialidade narrativa e revelar o dispositivo da mise-en-scène. O conto moral se esvai num lento processo de mistério auto-reflexivo. Se antes utilizamos a palavra estranho para definir a filmografia de Breillat, é muito mais num sentido de causar estranhamento/distanciamento que numa fuga de padrões fílmicos. Esses cacoetes estão em plena sintonia com algumas tendências contemporâneas francesas (Eugène Green) e mundiais.  O cinema de Catherine Breillat é consciente disso e pincela recursos extremamente funcionais. A influência mais direta é o cinema do cineasta Manoel de Oliveira. Em “Singularidades de uma Rapariga Loura”, o diretor português também utiliza um conto moral para questionar e dissecar os padrões da linguagem narrativa cinematográfica.  A frontalidade é um subterfúgio caro ao teatro brechtiano que alcança ares de mediação no meio fílmico. Barba Azul também recorre ao choque final, inesperado, como em outro filme de Manoel de Oliveira – “Um Filme Falado”. Barba Azul trabalha nas entrelinhas a tensão, o terror e o humor. O filme foge dos clichês de adaptação literária e cria um ambiente rico de nuances e problematizações quanto à linguagem e a narrativa. Uma obra contemporânea por excelência, no melhor sentido do termo.

Lucas Murari – Atalante, 2012
(Curador convidado)