quinta-feira, 13 de junho de 2013

Impressões sobre “Mothlight” e “Dog Star Man” de Stan Brakhage

nadaadeclarar 
Stan Brakhage colocou em cheque, todas as minhas tentativas de definição do cinema. Em “Mothlight”, de 1963, colou diretamente na película virgem asas de mariposa, flores, formigas, folhas, raízes, lama e outros resíduos, e projetou essas coisas numa tela por 3 minutos e 26 segundos. O filme (vou arriscar chamar de filme) não era resultado de um registro, apesar de partir do real, não passou pela câmera*, nem saiu da folha em branco, como na maioria das artes plásticas (a animação inclusive). O filme de Brakhage é um enigma, um problema teórico, uma anomalia poética.
“Mothlight” me fez lembrar da fragilidade da “essência cinematográfica” (movimento e duração) ou do “específico fílmico” (enquadramentos, mise-en-scène, corte). Me fez lembrar da experiência confrontadora de “La Jetée” (1962), de Chris Marker, onde a fotonovela, e suas imagens estáticas, são redimensionadas na imposição temporal do filme, pois cada plano é dado ao nosso olhar por uma duração determinada, que diferente da fotonovela impressa, não podemos nos deter por mais ou menos tempo em cada imagem.
“La Jetée” derrubou a idéia do cinema como “arte das imagens em movimento”. “Mothlight” derrubou a idéia de “escrita com a câmera” ou “arte da mise-en-scène”. Mas o cinema insiste em aparecer neles…
Eu sempre soube que cada obra exigia do espectador um olhar. O que aprendi com “Mothlight” é que o cinema não existe. A partir de hoje só poderei falar em cinemas.
*Coisa que sempre aconteceu na animação – uma arte autônoma, independente do cinema – de Norman Mclaren, por exemplo, que pintava formas e cores diretamente na película.

 Cachorro Estrela Homem

Na torrente de imagens que seguimos nos quase 76 minutos de “Dog Star Man”, podemos tentar agarrar as bordas fragmentadas. Para que o nosso cognitivo trabalhe sobre esse terreno movediço, é preciso abandoná-lo e reencontrá-lo no fim. Desfigurado.
O meu disse o seguinte:
1 – O filme trata dos conflitos entre carne e espírito, homem e universo, céu e terra, dentro e fora, natureza e civilização, lua e sol. As eternas dualidades;
2 – O filme brinca sobre as cores, misturando-as, dissolvendo-as, recriando-as. Vermelho, azul e verde são sempre indefinições;
3 – O filme assume as distorções da imagem e anamorfizações reconfigurando corpos e sexualidades num permanente devir de formas;
4 – O filme penetra peles, pelos, nervos e vísceras, buscando a Humanidade nos seus abismos;
5 – Ao mesmo tempo que o filme realiza um movimento pra dentro (furando as carnes) ele desenha um trajeto para fora: na eterna subida do homem que nunca chega no cume da montanha;
6 – O Bebê, o Homem e a Mulher são a equipe do filme. Eles realizam sua autobiografia cósmica;
7 – A inexorabilidade do tempo é o inimigo a ser destruído;
8 – O Homem percorre uma paisagem hostil, feita de neve e árvores mortas. Ao mesmo tempo a  perspectiva percorre também uma geografia do corpo, como nas rugas hiper ampliadas do mamilo lactante (um vulcão de carne).
Miguel Haoni (ou não)
(Textos originalmente publicados em http://verobranco.wordpress.com)

terça-feira, 11 de junho de 2013

Cineclube Sesi: curtas de Stan Brakhage

Nesta quinta-feira dia 13/06 o Cineclube Sesi apresenta uma seleção com 13 curtas do realizador americano Stan Brakhage dando continuidade ao ciclo Cinema Experimental que contará ainda com trabalhos de Martin Arnold (20/06) e Peter Tscherkassky (27/06).
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi: curtas de Stan Brakhage

Brakhage desenvolveu várias obras em diversos formatos. O artista experimentou técnicas como: o corte seco, pintar o negativo, a edição diretamente na câmera, a múltipla exposição na película, dentre muitas outras.
Stan foi um grande pesquisador e curioso nas áreas da mitologia, música, poesia e fenômenos visuais. Ainda, procurou revelar o universo em particular, explorando temas como nascimento e morte, questões de gênero, inocência e memória. São características em sua obra a desconstrução da narrativa, a exploração de texturas e a utilização do loop como recurso discursivo.
Fernando Velázquez (http://www.livecinema.com.br)
1 - Window Water Baby Moving (1959, 12 min.)
2 - Cat’s Cradle
 (1959, 6 min.)
3 - Mothlight (1963, 4 min.)
4 - Dog Star Man – Parte 3 (1964, 11 min.)
5 - Eye Myth (1967, 15 seg.)
6 - The Wold Shadow (1972, 3 min.)
7 - Night Music (1986, 30 seg.)
8 - The Dante Quartet (1987, 6 min.)
9 - I…Dreaming (1988, 8 min.)
10 - Glaze of Cathexis (1990, 3 min.)
11 - Stellar (1993, 3 min.)
12 - Black Ice (1994, 3 min.)
13 - Lovesong (2001, 11 min.)

Sobre "Window Water Baby Moving"
Entre formas e cores, um homem, uma mulher, a mulher na água, a janela que prisma a luz, o bebê. De onde vem o bebê? Brakhage tem noção que o bebê (o SEU bebê, e isso é fundamental) vem da barriga daquela mulher. Que ele está onde sua câmera não chega, mas de onde ele pôs seu(ua) sêmen(te), onde uma parte dele se cria e que, agora, sai para o mundo. E o mundo? O mundo é cruel e homens cruéis impõem seu “absoluto realismo” à todos, adultos, crianças e bebês também. Brakhage pertence a outra esfera, seu mundo é calcado no amor que sente pelas coisas e em seus olhos que enxergam como ele apenas poderia enxergar. O ato de ver com seus próprios olhos é o de formar um mundo que lhe pertença. Se o mundo de um bebê, de uma criança, é aquele que os pais criam para ele, o que Brakhage cria para sua filha, para a nossa felicidade, transborda pela câmera, do parto de um artista nasce uma obra, juntar o parto de um ser humano e o de um filme é a realidade em si. Realidade de que Brakhage ama tanto a sua filha quanto o cinema e os dois, ao se chocarem, tornam-se um só. A luz é criadora, a janela e a água refletem ela, se formam dela. O bebê se move porque é cinema.
Serviço:
dia 13/06 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi
Apoio: Atalante

domingo, 9 de junho de 2013

Poiésis - Caminhadas Literárias

O "Poiésis - Caminhadas Literárias" é um evento de extensão, organizado e idealizado por alunos da UFPR (membros e parceiros do Coletivo Atalante) e coordenado pelo professor Benito Rodrigues. Tal evento consiste em um conjunto de palestras ministradas por professores da mesma instituição. O objetivo principal deste evento é oferecer palestras, sobre obras literárias clássicas, à comunidade acadêmica e, especialmente, à comunidade não acadêmica. Nosso intuito é abrir as portas da universidade a todos os públicos, para assim tornar o saber acadêmico, constituído em torno do universo literário, acessível a quem de direito: o leitor! Dividido em três módulos - Grandes Narrativas, O Romance e A Poesia - este evento terá três anos de duração (2013-2015), sendo que em cada módulo (que terá um ano de duração) os organizadores optaram por dispor as palestras em uma ordem que não obedecesse à cronologia de publicação das obras (como geralmente é feito), mas sim ordená-las ao acaso (a ordem das palestras foi determinada em lances de dados, em homenagem ao poema "Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso", do poeta Mallarmé) para assim nos aproximarmos mais da experiência real de qualquer leitor, que lê antes movido por desejos e impulsos do que seguindo cronologias rígidas, dai o nome "Caminhadas Literárias", que nos sugere uma mobilidade intermitente e não vetorizada. Outro objetivo importante está atrelado à estrutura das palestras, que serão divididas em dois momentos: um destinado à uma consideração teórica e crítica sobre a obra em questão e o outro voltado à leitura de um trecho (ou trechos) da obra, ou seja, um momento de fruição, sendo que a ordem destes "momentos" será determinada por cada palestrante. O evento é gratuito e terá certificado para todos aqueles que tiverem 90% de frequência, sendo que, para estes, serão também sorteadas as obras abordadas em cada palestra, sendo este sorteio realizado no término de cada módulo.

- Local: Anfiteatro 1100 do Ed. Dom Pedro I (UFPR Reitoria), Rua General carneiro 460.
- Horário: 14h às 18h. Todas as palestras ocorrerão aos sábados.
- Inscrições (mediante documento com foto) na Secretaria do Departamento de Linguística, Letras Clássicas e Vernáculas, Rua General Carneiro 460, 11° andar, sala 1117. Vagas Limitadas (100 vagas).
- Quem não fizer questão do certificado não precisa se inscrever.
- A inscrição é por módulo, assim como a carga horária de 40h corresponde somente ao primeiro módulo.
- informações: poiesiscaminhadasliterarias@gmail.com 


Programação:

- 22/06: Os Lusíadas, com Marcelo Sandmann.
- 13/07: Fausto, com Paulo Soethe.
- 27/07: Odisseia, com Roosevelt da Rocha.
- 31/08: Metamorfoses, com Rodrigo Gonçalves.
- 14/09: Ilíada, com Bernardo Brandão.
- 21/09: Canção de Rolando, com João Arthur.
- 28/09: A Divina Comédia, com Ernani Fritoli.
- 19/10: As Tragédias de Shakespeare, com Liana Leão.
- 09/11: Teogonia, com Roosevelt da Rocha.
- 14/12: Bíblia, com Bernardo Brandão.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Oficina Nômade de Desenho entre lençóis


Domingo, 9 de Junho de 2013
Rua Celeste Santi, 90. Ahú
15 hs.

Projeto experimental prático de desenho coletivo voltado para iniciados ou não no mundo dos rabiscos. A proposta desta oficina é oferecer a experiência de desenhar junto, de perceber a cidade coletivamente. 
A oficina é gratuita e o participante é livre para levar o material que preferir. Lápis e papel são sempre bem vindos.

Nesta edição entraremos com a proposta do "entre lençóis" e trazer a oportunidade de praticar desenho de observação do corpo humano, explorando técnicas e perspectivas construídas coletivamente.



A Oficina acontecerá na sede do Água Viva Concentrado Artístico, com instruções de Adara Garbuglio e Lara Lima.

A casa é pertinho do MOM. Pra ser mais exato, duas quadras pra frente, sentido bairro. Rua Celeste Santi, 90. Ahú.

Esta edição também traz a novidade da parceria do Coletivo Atalante e Água Viva Concentrado Artístico.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Cineclube Sesi: curtas de Hans Richter

Nesta quinta-feira dia 06/06 o Cineclube Sesi apresenta uma seleção com 8 curtas do realizador alemão Hans Richter abrindo o ciclo Cinema Experimental que contará ainda com trabalhos de Stan Brakhage (13/06), Martin Arnold (20/06) e Peter Tscherkassky (27/06).
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi: curtas de Hans Richter

Hans Richter (Berlim, 1888-Locarno, 1976) é, nas palavras do historiador de arte Herbert Reed, "um nome que ficará para sempre ligado às origens do modernismo". Artista plástico, Richter reconheceu muito cedo que a nova técnica cinematográfica que surgia no início do século oferecia ao artista uma possibilidade única. A sua especial contribuição para o modernismo é fruto desta intuição. Foi sempre difícil descrever a arte de Hans Richter, pois ela condensa, em síntese única, a ação do pintor e do cineasta. Cronologicamente falando, o pintor é anterior ao cineasta. Foram certas experiências com a arte abstrata e geométrica pura que levaram Richter a tentar o cinema. Por volta de 1919, descobriu que os ritmos abstratos de um quadro podiam prolongar-se até quase o infinito. Não a limitando ao retângulo convencional da tela, a imagem poderia ser pintada ininterruptamente sobre rolo, tal como fizeram os chineses de outrora com as paisagens e as fábulas. Pintando destarte o rolo, restava apenas esse passo lógico: transferi-lo para uma película de celulóide e projetar o desenho numa tela em vez de o desenrolar penosamente à mão.

Aramis Millarch, Estado do Paraná, 1987

1 - Rhythmus 21 (1921, 3 min.)
2 - Rhythmus 23 (1923, 2 min.)
3 - Filmstudie (1926, 7 min.)
4 - Inflation (1927, 3 min.)
5 - Vormittagsspuk (1928, 6 min.)
6 - Rennsymphonie (1929, 7 min.)7 - Alles dreht sich, alles bewegt sich
 (1929, 3 min.)
8 - Two Pence Magic (1930, 2 min.)

Serviço:
dia 06/06 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi
Apoio: Atalante

segunda-feira, 27 de maio de 2013

All That Jazz - O Show Deve Continuar, de Bob Fosse


All that jazz, EUA, 1979

Será que um filme indicado a nove Oscars (tendo ganhado quatro), e vencedor da Palma de Ouro em Cannes precisa realmente ser revisto? Há ainda o que se dizer depois de tamanho reconhecimento? No caso de All That Jazz a resposta não poderia ser mais positiva, e em especial pelas circunstâncias conjunturais e estruturais que o ligam a hoje, a 2002. Quais circunstâncias são essas? Estruturalmente falando, a história do cinema americano contemporâneo (e por definição do cinema mundial). Conjunturalmente o recente relançamento de Apocalypse Now, que trouxe aos cinemas um dos outros concorrentes, junto com o filme de Fosse, ao Oscar de melhor filme em 1979; além do ainda mais recente lançamento do Episódio 2. De que formas estas idéias se unem? É mais simples do que parece.
Na década de 70 o cinema americano viveu um de seus momentos centrais de definição, talvez como antes só tenha acontecido na década de 20/30 (que marca o início do domínio do mercado mundial e do estabelecimento de Hollywood como capital do reino do cinema). Na verdade os EUA como um todo viviam um momento central: saídos da ressaca do fim dos anos 60, com todas as suas revoluções (sexuais, políticas, raciais, sociais), viam os valores mais caros a si, tão prezados e louvados nas décadas de 40 e 50 com especial ênfase no cinema como forma de construção do imaginário do american way of life, passarem a ser frontalmente questionados. O cinema especialmente vivia uma crise ainda maior, com a popularização rapidíssima da televisão. A brecha aberta por essa crise, junto com a politização crescente e a chegada ao "poder" da primeira geração de cineastas criados nas universidades de cinema ou como "cinéfilos", assistindo e problematizando os clássicos de Hollywood e também os filmes estrangeiros que a eles chegavam, tudo isso permitia que houvesse um clima altamente favorável para a renovação das propostas do cinema americano dominante.
É neste momento (a partir do fim dos anos 60, mas com seu ápice decididamente nos anos 70) que surgem as primeiras obras de uma geração que une Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Woody Allen, Michael Cimino, Robert Altman, Terence Malick, Brian De Palma, Mike Nichols, ou ainda é quando fazem alguns de seus principais filmes John Cassavetes, John Schlesinger, Sidney Lumet. A liberdade que rondava a criação dos filmes em plena Hollywood só podia ser entendida dentro deste contexto de relativa crise de reavaliação, onde o questionamento era parte natural do momento. Tudo estava por ser posto em cheque: o país, o mundo, o ser humano, o cinema.
Só isso explica que, no mesmo ano, dois verdadeiros ensaios filosófico-audiovisuais, como eram Apocalypse Now e All That Jazz,não só fossem realizados por grandes estúdios, mas também lançados com sucesso e concorressem a tantos Oscars e ganhassem ambos a Palma de Ouro em Cannes. Claro que não convém aqui esquecer os detalhes específicos das dificuldades enfrentadas pelos diretores de ambos os filmes, não só no que tange a realização dos mesmos, como com relação ao relacionamento com os donos dos estúdios. Mas, ainda assim, os filmes foram feitos, lançados e vistos, e isso em si mesmo é um fenômeno.
Se poderia julgar pelo conjunto das obras e de tantos cineastas consagrados naquela década, que se apresentava ao cinema americano um novo caminho de contestação, reflexão e liberdade narrativa e estética como nunca antes visto. Mas, também não se pode ignorar que dos mesmos bancos universitários e cadeiras de cinéfilos, surgem nesta década outras duas figuras que ajudariam ainda mais a mudar o cinema americano do futuro: George Lucas e Steven Spielberg. Porque, se os diretores citados mais acima viveram, em sua maioria, o momento-ápice de suas carreiras naqueles anos 70, estes dois apenas estabeleceram os alicerces não só para seu domínio pessoal sobre o cinema americano de décadas seguintes (até hoje, como se pode ver pelo fato de ambos terem enormes sucessos de bilheteria recém-lançados no verão americano de 2002, enquanto a maioria dos outros citados está sem filmar, ou sem um grande sucesso há anos), mas também uma virada mais do que estética, e sim de direcionamento no cinema mundial. Principalmente com Guerra nas Estrelas e Tubarão os dois reinventaram o cinema americano, trazendo para ele o conceito do "filme de verão", da aventura e ficção científica como gêneros "nobres", do espectador-ideal não mais como o adulto mas sim o adolescente. Os anos 80 e 90 viram a pragmatização extrema destas noções, muito mais do que seus criadores podiam prever (façamos justiça, aliás, em dizer que ambos não estiveram à frente deste processo conscientemente, e que seus diluidores são infinitamente inferiores a eles), levando ao cinema que vemos hoje. Um cinema onde Brian De Palma e David Lynch precisam ir buscar financiamento na França, onde Coppola, Cimino e Nichols não têm lugar, onde Scorsese parece tentar manter-se vivo como pode, e onde Allen se repete a todo filme.
Foi muito em função do que aconteceu em Hollywood nos anos 70 que podemos entender o cinema americano que vemos hoje. Ali, claramente, o cinema pôde ver duas correntes distintas de suas potencialidades. Seria muito possível dizer que não eram excludentes, e que poderiam conviver pacificamente, mas não é o que a história mostrou. Uma das correntes foi praticamente sufocada pela outra, a possibilidade da arte e da experimentação pela indústria do lucro exacerbado (é claro que há inúmeras "exceções de regra", mas tratamos aqui, grosso modo, de um retrato macro da produção e seu sistema). Assim, Apocalypse Now e All That Jazz, que podiam ser lidos à época como o ápice da consolidação de uma liberdade de linguagem inédita no grande cinema americano, eram na verdade o canto do cisne de uma década. O que, aliás, se visto pelos temas e idéias trazidas em ambos os filmes, parece absolutamente adequado, e quase premonitório.
Para fechar esta idéia, nada melhor do que a história contada por Roy Scheider no comentário que acompanha o DVD do filme de Bob Fosse: Scheider, também ator de Tubarão, foi assistir a uma sessão de All That Jazz com Spielberg. Ao final, o diretor estava eufórico com o que tinha visto. Dias depois, Scheider recebe uma ligação de Bob Fosse, dizendo que Spielberg tinha ligado para ele. "Você sabe o que ele me disse?", perguntou Fosse. "Que eu devo estar louco de terminar um filme daquele jeito, que eu vou perder milhões de dólares de bilheteria por conta disso." Quem viu o filme sabe: não havia outro jeito de encerrar um filme que, afinal, trata de morte acima de tudo. Mas, o "novo cinema" que então engatinhava já tinha o seu ideólogo: deve-se trocar coerência por lucro, sempre. Aqui jaz.
* * *
Mas, vamos deixar de lado o fator histórico, tão relevante neste caso, e falar um pouquinho do filme em si. Afinal, o que torna All That Jazz uma obra tão admirável? Para começar, a coragem de seu autor (que de fato pode ser creditado como tal, por ser diretor, roteirista, coreógrafo) de fazer, basicamente, uma autobiografia no cinema. Mas, não apenas uma autobiografia congratulatória ou nostálgica, e sim a biografia de um homem que é tão destrutivo com os outros quanto consigo próprio por ser, basicamente, um viciado em viver ao máximo, o que o coloca muito perto de morrer. Nesta biografia Fosse tem a coragem de retratar o seu próprio processo clínico, que o levaria eventualmente à morte (e assim o filme pode ser considerado, mais uma vez, premonitório), assim como apresentar de forma absolutamente próxima do real uma série de pessoas que estavam ainda vivas e muito perto dele. Além de se mostrar um viciado, mulherengo, manipulador, perfeccionista, entre outras qualidades.
Somente esta coragem, porém, não levaria o filme a um patamar especial, pois poderia resultar em simples sensacionalismo ou na crítica ácida e ao mesmo tempo vazia e moralista de um sistema, de um "negócio" ou de uma forma de vida. Porém a esta coragem se somava uma dose ainda maior de generosidade e entrega à vida, que transborda de cada sequência do filme. Só assim Fosse consegue transformar a história de uma morte anunciada numa ode a estar vivo. Na época, ele foi muito criticado justamente por pintar um retrato final onde sua morte era gloriosa e ele era chamado de egocêntrico. Bom, todo artista é, a priori, um egocêntrico. No entanto, o que faltou enxergar é que a morte era gloriosa apesar de profundamente dolorida, e isso se dava por se tratar de um personagem que ao invés de se entregar a ela enfrentou-a não com um desafio tolo, mas como um complemento natural ao que se optou na vida.
É assim que o filme consegue fugir do moralismo barato reinante, segundo o qual um personagem sempre sofre por ter sido infiel, por ser viciado em drogas, alcoólatra, mau pai ou marido. O protagonista de Fosse sofre sim, e muito, em consequência disso tudo. Mas não se arrepende nem por um segundo porque suas "fraquezas" são o que o manteve vivo a cada dia, o que o fazia levantar da cama e querer viver para início de conversa. Quando todas as campanhas anti-drogas ou a favor dos valores familiares fracassam por tentarem retratar apenas o inferno destas situações, Fosse é realista: estas coisas matam sim, mas antes disso elas completam muitas vezes um ser humano, e fazem ele viver. Cabe a cada um decidir até onde está disposto a ir, mas que ninguém se prive do que precisa viver só porque isso "mata". Viver mata, e ainda assim nós insistimos em fazê-lo.
E o mais incrível: todas estas questões não estão num filme preto e branco, escuro e cheio de fog feito na Suécia, e sim num musical hollywoodiano. Assim como Coppola no Apocalypse Now, o que mais impressiona em All That Jazz é justamente que ele consegue tocar em todas estas notas e muitas outras, sem deixar de ser um autêntico exemplar do maravilhamento típico do cinemão americano mais popular. Onde Coppola virava as convenções do cinema de guerra e aventura de cabeça para baixo, e ao mesmo tempo que refletia sobre o vazio da existência criava um espetáculo audiovisual hipnotizante e deslumbrante, Fosse faz o mesmo com o estilo musical: reinventa as possibilidades e regras que regem o andamento dos números, a utilização dramática e/ou cômica da música, os momentos adequados a uma canção. Encanta e enlouquece, simultaneamente.
E, acima de tudo, filma bem demais. Cada sequência é uma aula de decupagem, de montagem, de ritmo. A câmera se integra com seus atores e bailarinos de forma quase hipnótica, os cortes antecipam ou interrompem ações. Há tantas sequências antológicas no filme, e ao mesmo tempo sem que cada uma queira simplesmente chamar atenção para si: todas estão completamente integradas a um projeto. Assim, são igualmente fenomenais os grandes números musicais (como o inicial, o final e o do ensaio da peça) e as pequenas cenas entre os atores. Atores, aliás, fantásticos, capitaneados por um Roy Scheider possuído. Mas, mais do que isso, atores que a câmera lê como poucas, sabendo onde está a inflexão mais importante, o momento mais significativo, a reação mais expressiva. Assim é que cenas de dois personagens como a de pai e filha dançando, ou a da ex-mulher com o ex-marido, ou a namorada na cama com o namorado, ou o produtor com o cineasta, ou em especial um pequeníssimo momento entre o personagem principal e uma mulher moribunda no hospital são tão completamente apaixonantes como os grandes números.
Da primeira à última sequência All That Jazz exala aquela que talvez seja a mais rara e necessária qualidade de um filme: a simples necessidade que seu autor tenha de que o filme exista. Cada fotograma é sentido, é vivo, é pulsante, é humano, é vital. Humano como são todas as tantas falhas de caráter deste personagem, que só o tornam mais e mais fascinante. All That Jazz é um filme para quem ama cinema, mas acima de tudo para quem ama a vida e tudo que faz parte dela, incluída aí a morte. Iguala vida e arte, como deve ser.

Eduardo Valente
(Texto original: 
http://www.contracampo.com.br/41/allthatjazz.htm)

sábado, 25 de maio de 2013

Cine Fap: "O Show Deve Continuar", de Bob Fosse



Relato semi-autobiográfico da vida do escritor, diretor e coreógrafo Bob Fosse. No filme, ele sofre um enfarte e, entre a vida e a morte, revê momentos de sua vida, transformando-os, em sua imaginação em números musicais.

Serviço:
dia 27/05 (segunda)
às 19h00
na Auditório Antonio Melillo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

*Comentador convidado: Miguel Haoni (Coletivo Atalante)