sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Cineclube Sesi: filmes de Standish D. Lawder e E. Elias Merhige


sinopse Necrology:
Uma longa fila de corpos anónimos desfilam lentamente, às arrecuas, de baixo para cima do ecrã, onde são absorvidos pela obscuridade. Como se resvalassem para trás ou fossem descritas por uma interminável panorâmica vertical, as silhuetas deslizam e desaparecem sem nunca regressarem, engolidas por um negro fúnebre. Não se trata de uma cadeia, cada corpo é diferente dos outros, mas da vista parcial de uma sombria escada de Jacob. (...)
Forma minimal da maneira como o cinema agita corpos, pedindo-lhes uma simples comparência na fila indiana dos planos mais ou menos solidários, à escala da película. Necrology retoma isto pelo lado das trevas. É a linha geral fúnebre das imagens em movimento, ou um bizarro limite átono entre a multidão e o desfile, Griffith e Eisenstein, as escadarias de Babilónia e as de Odessa - depois da derrota.

Sobre o filme: Uma cine-piada sobre a morte, o sentido da existência e o anonimato. A forma e o conteúdo dos seres.

Sobre E. Elias Merhige
Merhige vê o cinema como a única forma de arte significativa da era presente. Ele considera a literatura e o teatro como formas que estão fora do seu tempo e que tenham sido substituídas pelo cinema. Ele é também muito interessado no ocultismo e paranormal, e as imagens e temas derivados dessas tradições são muito presentes em seus filmes.

Serviço:
Necrology e Corridor + Din of Celestial Birds e Begotten
Comentários: João Krefer

dia 20/02 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
  
  (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Cine Fap: "Beijos de Emergência", de Philippe Garrel


Mathieu (Philippe Garrel), diretor, se prepara para gravar um novo filme. Ele escolhe para a liderança do sexo feminino, uma atriz famosa (Anémone). Porém, sua esposa Jeanne (Brigitte Sy), acredita que a história do filme é autobiográfico. Ela considera essa escolha como uma traição. Eles se separam

Serviço:
dia 17/02 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Som de Preto comemora 1 ano neste sábado


1 Ano de Som de Preto: Festival Soçobrante Na Cidade Sem Mar

Sábado 17:00

Seguinte mermão! Depois de merecidas e bem aproveitadas férias a Som de Preto volta pra comemorar um ano de atuação com muita classe! Para essa comemoração decidimos fazer um festival com uma programação que vai te deixar ligado a noite toda!

- Atrações:

.Festival Soçobrante Na Cidade Sem Mar (início às 17.00):
17.00 - Sarau Tupiniquim - Pintura Corporal, Literatura e Poesia autoral – traga seus livros e poemas e venha curtir a matinê!
Enquanto isso estará rolando do lado de dentro o "Projetor Aberto", traga seu curta num pendrive ou CD que nós colocamos pra passar!
20.00 - Show com e/ou, logo após Microfone Aberto, pra quem quiser se aventurar e mostrar suas composições.

.Som de Preto (a partir das 22.00):
- Na pista:
Discotecagem Som de Preto pra ninguém ficar parado com o melhor da música negra brasileira e mundial.
+ nosso convidado especial Rimbwe (Rimom Guimarães) -"This Is Afrobeat"
E ainda, uma incrível batucada de samba com Joaquim Lima, Esquerda Garcia e seus espetaculares convidados.

-No jardim:
Vinil com Gustavo Pinheiro e Luciano De Mesquita Faccini (Água Viva Concentrado Artístico)

Arte: Adara Garbuglio
Vídeo: Har Cas Alves
Fotos: Kely Kachimareck
-
Nosso preços camaradas:
Entrada livre até às 20.00
Das 20.00 até às 22.00 - 7 pila
Das 22.00 até às 24.00 - 10 pila (lista amiga até 24.00, 7 pila. Envie teu nome para festasomdepreto@gmail.com até o meio dia do dia 15).
Após... 15 pila

Só não vai quem já morreu!



Video da festa: http://vimeo.com/86354627

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Cine FAP ESPECIAL: "Um Dia Na Vida" (Homenagem a Eduardo Coutinho)

Grupo de Estudos de Cinema promoverá sessão especial em homenagem ao cineasta Eduardo Coutinho

O Grupo de Estudos de Cinemas promoverá na quarta-feira, dia 12 de fevereiro, às 19h, no Auditório Antonio Melillo da Unespar/FAP, uma sessão especial do Cinefap em homenagem ao cineasta brasileiro Eduardo Coutinho. 

O filme exibido será “Um dia na vida” (2010), documentário composto a partir de imagens extraídas da programação de canais da televisão aberta brasileira gravados pelo diretor ao longo de um dia inteiro. 

Este trabalho jamais foi lançado comercialmente por Coutinho devido aos problemas inevitáveis envolvendo os direitos autorais das imagens que serviram de matéria-prima ao projeto, tendo sua circulação sido por muito tempo restrita a algumas raras exibições. 

Espera-se que a sessão sirva para trazer ao público este filme já célebre, porém pouquíssimo visto, bem como para fomentar o debate mais amplo.

Sinopse:
Coutinho tentou fazer um recorte da sociedade brasileira através do maior veículo de comunicação de massa do País. Ele faz um passeio por coisas nonsense como aberrações em programas de auditório, Chaves, métodos para colocar silicone na bunda, brigas em Marcia Goldsmith, ricos bajulados em Amauri Jr., entre outros exemplos clássicos da TV brasileira.

Serviço:
dia 12/02 (quarta)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

domingo, 9 de fevereiro de 2014

INSCRIÇÕES POIESIS - CAMINHADAS LITERÁRIAS

Comunicamos que as inscrições para o segundo Módulo do Poiesis (evento de extensão da UFPR, com certificado de 48 horas), O Romance, estarão abertas a partir do dia 14 de fevereiro de 2014, na secretaria do DELIN – Dom Pedro I, Reitoria da UFPR – Rua General Carneiro, 460 – 11º andar

As vagas serão limitadas e as inscrições serão finalizadas assim que a marca de 100 pessoas for atingida.

É necessário apresentar um documento oficial com foto no ato da inscrições.

Para informações referentes ao horário de funcionamento da Secretaria, entrar em contato através do telefone: 3360-5097

Poiesis - Caminhadas Literárias

O Poiesis - Caminhadas Literárias é um evento de extensão proposto por alunos de Letras da UFPR e coordenado pelo professor Benito Rodrigues. Sua premissa básica é oferecer um conjunto de palestras sobre grandes obras literárias, as obras consideradas como clássicas, isto é, parafraseando Italo Calvino, aquelas obras que nunca perdem a sua relevância, pois se mantêm atuais e pertinentes naquilo que nos tem a dizer. Cada palestra se centra em um autor e obra, por exemplo, O Processo de Franz Kafka, assim como cada uma é ministrada por um professor da UFPR, no caso da obra citada será o professor Paulo Soethe. Outra característica importante deste evento é que ele é destinado ao público acadêmico e não acadêmico. Nosso desejo de abarcar o público não acadêmico não é fortuito: acreditamos que a universidade precisa estar sempre em busca de estreitar seus laços com a comunidade. São muitos os projetos que visam este estreitamento, o Poiesis é mais um deles. Todos esses esforços buscam superar o distanciamento da academia das pessoas que não desfrutam dos saberes ali veiculados. Desta maneira esperamos contribuir nesta empreitada cuja importância nunca deve ser negligenciada. Ao lado disso, os organizadores do evento também se encontram empenhados em oferecer algo de qualidade, e gratuito, para a cena cultural da cidade, a saber, uma grande história da literatura ocidental ofertada por professores especialistas em determinados autores e obras, lembrando que este evento tem duração de três anos e se encontra dividido em três módulos: Grandes Narrativas, O Romance e A Poesia.
No ano de 2013 se deu o primeiro módulo, Grandes Narrativas, que se debruçou sobre obras escritas desde o século VIII a. C. (Ilíada e Odisséia) até o XIX (Fausto). Foram ao todo dez obras contempladas, além das já citadas tivemos: Bíblia, Canção de Rolando, A Divina Comédia, Teogonia, Os Lusíadas, Metamorfoses e Tragédias de Shakespeare. A adesão do público ao evento nos surpreendeu e nos deixou muito animados com o futuro do Poiesis, tivemos mais de 150 inscrições entre acadêmicos e não acadêmicos, com uma média de 78 pessoas por encontro, sendo que em palestras como a da Bíblia os cem lugares do anfiteatro não foram suficientes para acomodar a todos, algumas pessoas tiveram que sentar no chão. Isso nos leva a duas observações importantes: eventos dessa natureza são bem quistos pelo público e, assim sendo, seria interessante se eles se tornassem cada vez mais comuns não só no curso de Letras como nos demais cursos da UFPR (como negar a relevância, por exemplo, de um curso de Direito Constitucional, Psicanálise, Filosofia e Sociologia gratuitos, ministrados por especialistas e abertos a toda comunidade?). 
Em 2014 daremos continuidade ao Poiesis, com seu segundo módulo, O Romance. Sabe-se que o romance é o gênero literário mais bem acatado pelos leitores e o que dá maior retorno financeiro aos escritores. Sabe-se também que o romance foi, durante um bom tempo, visto como o gênero por excelência da burguesia, que adorava ver-se refletida em suas páginas. Porém, hoje sabemos que o romance é não só um gênero de longuíssima data como também de inusitados desdobramentos: Marcel Proust, James Joyce, Samuel Beckett, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Alain Robbe-Grillet são romancistas que tornaram explícita a plasticidade deste gênero. Mal podemos acreditar que estes escritores escreveram sobre a mesma fôrma que os Romancistas Gregos, Miguel de Cervantes, Johan Wolfgang Von Goethe e Honoré de Balzac. Porém, isso é uma evidência histórica, evidência esta que buscaremos tornar reconhecível aos participantes das palestras por meio desta imensa e ambiciosa caminhada pelos bosques deste tão belo e multifacetado gênero literário. 
Ao todo serão doze palestras (as obras, datas e palestrantes estão designados abaixo), sendo que os participantes podem se inscrever e participar de todas (caso queiram ganhar certificado, que exige um mínimo de 90% de frequência) ou participar somente das palestras que sejam do seu interesse, sem inscrição, basta comparecer no dia. A ordem das palestras não segue a cronologia de publicação das obras, ou seja, Satyricon, escrito nas primeiras décadas d. C., será uma das últimas palestras, e Ulysses, escrito no início do século XX, será a primeira. Tal organização se fundamenta em um desejo de transmitir ao público a noção de que uma história da literatura pode sim ser pensada sob outros vieses que não os do historicismo clássico que a muitos anos grassa, predominantemente, nos estudos literários. Constatamos que esta escolha, assim como o fato de o evento ser ministrado por vários professores ao invés de só um, acaba permitindo aos participantes uma ampla margem para que os mesmos infiram suas próprias conclusões e tracem suas próprias linhas de concatenação entre os temas e as obras. Portanto, temos uma história da literatura algo dispersa, mas que, justamente por essa dispersão, acaba oferecendo ao público uma maior liberdade de co-participação na formulação de hipóteses que tragam (ou não) uma certa coerência ao escopo que iremos abordar. 
As inscrições estarão abertas no início do mês de fevereiro (ainda não temos a data certa, mas os interessados podem se informar enviando e-mail para poiesiscaminhadasliterarias @gmail.com), as vagas são limitadas, cem, e as inscrições serão feitas na secretaria do DELEM no décimo primeiro andar da Reitoria (Dom Pedro I). Todas as palestras ocorrerão aos sábados, das 14 às 18 horas, com quinze minutos de intervalo, no Anfiteatro 1100 da Reitoria (também décimo primeiro andar, Dom Pedro I). Ao término deste módulo iremos sortear, para os inscritos que tiverem um mínimo de 80% de frequência, todas as obras que serão abordadas durante este módulo.

Obras, datas e professores palestrantes:

22/02 - Ulysses, de James Joyce, com Caetano Galindo.
22/03 - O Processo, de Franz Kafka, com Paulo Soethe.
05/04 - A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, com Lucia Cherem. 
26/04 - As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, com Ernani Fritoli.
17/05 - Madame Bovary, de Gustave Flaubert, com Sandra Stoparo.
07/06 - O Som e a Fúria, de William Faulkner, com Luci Collin. 
16/08 - Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, com Rodrigo.
30/08 - O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, com Marcelo Sandmann.
13/09 - Memórias Póstumas, de Machado de Assis, com Marilene Weinhardt. 
27/09 - Satyricon, de Petrônio, com Rodrigo Gonçalvez. 
25/10 - Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, com Isabel Jasinski.
22/11 - Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, com Paulo Soethe. 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Cineclube Sesi: curtas de Richard Kern


O que mais me atrai no trabalho de Richard Kern é a documentação de um contexto e de uma cultura que sempre me fascinaram, e que se imprimem nos limites de seus filmes. O no wave, a estética da transgressão, as primeiras respirações do indie rock, o sadomasoquismo, capturados no seu caldo primal e expressos em sua total selvageria e potência transformadora como em nenhum outro registro audiovisual. No centro de tudo, o sexo. Concebido não como um dado natural, mas como uma máquina de guerra contra as hipocrisias e imposturas sociais. Os subterrâneos do desejo são aqui como um lança-chamas apontado contra a nossa superficialidade moral. Deixemos queimar.

Miguel Haoni (Cineclube Sesi, 2014)

Serviço:
X is Y, Fingered, Submit to Me Now, Horoscope e The Right Side of My Brain
Comentários: João Krefer

dia 13/02 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
  
  (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Triste estrada, paisagem sentimental


(Vincent Gallo, The brown bunny, EUA, 2003)

Esqueçamos por um instante de todo o bafafá veiculado a respeito de The Brown Bunny desde sua primeira exibição em Cannes. Considerado prematuramente pela crítica – especialmente a americana – um fracasso estético completo e "vendido" como tal ao mais influente jornal carioca, que estampou em sua primeira página uma foto do filme e estigmatizando a obra de Vincent Gallo como um exemplar de cinema trash impossível de respeitar – é assim, de fato, que grande parte do público se comporta na sessão –, The Brown Bunny não merece nem a recepção que teve nem o sensacionalismo barato que trabalha o filme pela cena final de felação (ao que tudo indica real) de Chloë Sevigny no ator/diretor do filme. Curiosa geopolícia do cinema: aceitaríamos de bom grado um Brown Bunny vindo da Tailândia, da Lituânia ou de Taiwan, mas jamais do berço do cinema narrativo clássico, a América. Pois o segundo filme de Vincent Gallo é menos um movie na acepção clássica (roteiro, relações entre personagens, evolução de trama) do que uma experiência de duração, paisagem e perdição existencial. Há nisso, convenhamos, muita preguiça e desconhecimento do cinema americano: Brown Bunny tem alguns primos notáveis, alguns já inscritos definitivamente na história do cinema americano: Five Easy Pieces de Bob Rafaelson,Two-Lane Blacktop de Monte Hellman, Blackout ou New Rose Hotel de Abel Ferrara ou os filmes de Andy Warhol. Mas Vincent Gallo, ao se fazer de ator, produtor, diretor, montador e fotógrafo de seu filme, acrescenta um dado novo à pequena história dos cineastas-filmes desajustados no seio de uma América nada acolhedora: faz o filme-de-viagens mais sentimental da história do cinema.

A coisa que mais impressiona em The Brown Bunny, assim como em alguns dos mais estimulantes filmes vistos recentemente, é a atribuição de sentimentalidade a objetos ou paisagens filmados que originalmente não se prestariam muito a isso. Da high-school em Elefante de Gus Van Sant à fabulosa seqüência do desfile em Shara de Naomi Kawase, a câmera sexualiza aquilo que está à sua frente, incorpora o objeto ao sentimento do sujeito filmante (a câmera, não o diretor por trás dela) e produz um inaudito sentimento de que tal diferenciação e separação entre coisa filmada e consciência filmante jamais existiu. Em The Brown Bunny, pouco importa se o caminho da Costa Leste americana até a Costa Leste, de Ohio a Las Vegas para chegar a Los Angeles – o verdadeiro tema do filme, muito mais do que qualquer interiorização de sentimentos –, pouco importa sinceramente se aquilo tudo já está lá. De dentro da van que dirige Vincent Gallo ao longo dos Estados Unidos, toda espécie de paisagem americana de estrada adquire um significado especial, completamente diferente de tudo que já vimos anteriormente. Estamos num terreno francamente experimental de travelogue sentimental, onde o que importa exatamente não é nem como a paisagem prolonga o sentimento interior do personagem principal e tampouco como o personagem se relaciona com o mundo que vê à sua volta (duas coisas que já vimos à exaustão). Trata-se antes de uma relação fantasmática de impalpabilidade: pouco importa que estejamos diante das verdadeiras paisagens, sempre nos parece faltar alguma coisa, ou talvez até sobrar: o carro e a trip de Vincent Gallo ressignificam a paisagem que, por sua vez, está sempre lá, à espera de ser decifrada e, em última instância, desfrutada.

O fiapo de ficção que sustenta The Brown Bunny é uma viagem: Bud vai de New Hampshire à Califórnia fazer a entrega de uma motocicleta de corridas. Ao longo do caminho, ele se aproxima de algumas mulheres que, no entanto, depois das primeiras leves carícias em espaços públicos (uma loja de conveniência de beira-de-estrada, um banco de praça), abandona inexplicavelmente. O motivo nos aparece aos poucos, fugazmente: um amor também fantasmático, Daisy (Chloë Sevigny), cuja lembrança ocupa toda a atenção do personagem durante seu trajeto pelo território americano. As outras mulheres também têm nomes de flores: Lilly, Violet, Rose... Seriam elas um prolongamento de Daisy, ou antes figuras míticas de feminilidade, a grande mãe, a desequilibrada, a puta? Daisy, por sua vez, ao fim do filme, nos aparece como um pouco das três, mas ao mesmo tempo como nenhuma: tudo aquilo que vemos diante de nós, na impressionantemente bem filmada cena de briga e sexo entre os dois, não passa de um sonho/recordação de Bud deitado em sua cama de hotel. A mulher falta, a paisagem falta: The Brown Bunny realiza toda uma operação de presença/ausência de sentido para além de qualquer referente: Daisy estar ou não lá, o deserto estar ou não lá, as outras mulheres quererem acompanhá-lo ou não, isso pouco importa. A paisagem ou as mulheres afetam Bud para além de sua palpabilidade. Retrato do amor como doença fatal degenerativa ou da mente como o maior de nossos vícios, The Brown Bunny vai até o fim na entrega de seu personagem a um pesadelo de vigília muito mais estarrecedor do que qualquer sono assustador.

Para acessar de alguma forma a perdição existencial de Bud, naturalmente, é preciso dar ao filme a mesma densidade e a mesma falta de horizontes presentes em seu personagem. The Brown Bunny realiza isso prolongando todos os seus planos, dilatando como pode qualquer episódio banal a ser filmado (convém lembrar que a versão exibida em Cannes, em torno de meia-hora mais longa, prolongava ainda mais essa idéia), fusionando sem bula as experiências "reais" (as paisagens) com as "imaginárias" (Daisy, muito embora Daisy seja muito maisreal, de certa forma, do que toda outra coisa para Bud). Um mundo inteiro de imersão que Vincent Gallo consegue construir com um impecável senso de plasticidade e ritmo – malgrado as críticas à duração do filme, cada plano parece ter exatamente a duração que deve, do ponto de vista rítmico tanto quanto do ponto de vista dramático. O pesadelo dos insones é mais devastador do que qualquer sonho ruim. The Brown Bunny nos coloca nesse redemoinho e não nos dá a chave de saída. Diário de viagens, road movie, filme-experimento de duração, pornô explícito, reality show ou contemplação paisagística, todos esses gêneros se fundem aqui para constituir uma experiência inédita e estimulante de cinema contemporâneo a ser mais vivida do que compreendida. Então vivamos.

http://www.contracampo.com.br/71/imagens/bullet_seta.gif Ruy Gardnier
(Texto original: http://www.contracampo.com.br/71/brownbunny.htm)