domingo, 18 de maio de 2014

Minicurso de história do cinema: o Film Noir

INSCRIÇÕES ENCERRADAS.

Dando prosseguimento ao que foi iniciado com as Oficinas de Formação de 2013 (cineclube, cinema na escola e crítica), o Sesi oferecerá em 2014 mini-cursos mensais sobre diversos capítulos da teoria e da história do cinema. 
Ministrados pelo cineclubista Miguel Haoni, do Coletivo Atalante, os mini-cursos terão carga horária de 8 horas, inscrições gratuitas e vagas limitadas. Em maio o Mini-curso será sobre o Film Noir (dias 24 e 25, das 14 às 18 horas na Casa Heitor Stockler).

De que maneira o cinema B americano reagiu à crise dos ideais nos anos 40 e 50, integrando a fotografia expressionista, a ficção hard-boiled e o existencialismo no mais indefinível dos gêneros?

Unidades:
1 - Contrabando
2 - História de um termo
3 - Propriedades
4 - Dramaturgia

Referências:
1 - SCORSESE, Martin e WILSON, Michael Henry. Uma viagem pessoal pelo cinema americano. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
2 - MASCARELLO, Fernando (org). História do cinema mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006
3 - "Laura". Otto Preminger. 1944. EUA. p&b. 88 min.
4 - GOMES DE MATTOS, A.C . O outro lado da noite: Filme Noir. Rio de Janeiro: Rocco, 2001

Serviço: 
dias 24 e 25 de maio (sábado e domingo)
das 14 às 18 horas
no Sesi Heitor Stockler de França
(Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro - Curitiba/PR)

Realização: Sesi (http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br)

sábado, 17 de maio de 2014

Hatari! convida: “Uma historia do cinema independente americano”

O Hatari! Revista de cinema convida todos a participarem da palestra/bate papo com Richard Peña. Professor de cinema na Universidade de Columbia e diretor do New York Film Festival, ele fará uma breve passagem por Curitiba, e vai propor um encontro com os alunos e interessados por cinema em geral na próxima terça feira. Apareçam!

Data: 20 de maio (terça-feira)
Horário: das 9h às 11h
Local: Auditório Antonio Melillo - Unespar - Campus de Curitiba II - FAP 
(Rua dos Funcionários 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

Richard Peña foi o Diretor do Programa da Sociedade de Cinema do Lincoln Center e Diretor do New York Film Festival de 1988 a 2012. Na Film Society, Richard Peña organizou retrospectivas de Michelangelo Antonioni, Sacha Guitry, Abbas Kiarostami, Robert Aldrich, Gabriel Figueroa, Ritwik Ghatak, Kira Muratova, Youssef Chahine, Yasujiro Ozu, Carlos Saura, Roberto Gavaldon e Amitabh Bachchan, bem como grandes séries de cinema dedicado ao cinema Africano, chinês, cubano, polonês, húngaro, árabe, coreano, soviético, turco e argentino .
Desde 1992, organizou com o Ministério da Cultura da Espanha " Spanish Cinema Now" série anual no Lincoln Center, bem como "Rendez -vous com o Cinema Francês", com a Unifrance desde 1996.
É palestrante frequente com uma ampla variedade de temas de filmes, é professor de Estudos de Cinema na Universidade de Columbia, onde se especializou em teoria do cinema e do cinema internacional, desde 2006 até 2009 foi professor visitante em espanhol na Universidade de Princeton . Ele também é atualmente o co-apresentador do programa semanal Reel 13 no canal 13.

Apoio: Consulado Geral dos Estados Unidos
Coletivo Atalante

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cine FAP: "Coisas Secretas", de Jean-Claude Brisseau

Nesta segunda-feira, dia 19, o Cine FAP apresenta "Coisas Secretas", dando continuidade ao ciclo Jean-Claude Brisseau que contará ainda com "A Garota de Lugar Nenhum", no dia 26.
Sempre com entrada franca!

Cine Fap: "Coisas Secretas", de Jean-Claude Brisseau

Educadas em meio a dificuldades, a inocente garçonete Sandrine (Sabrina Seyvecou) e sua colega stripper Nathalie (Coralie Revel) se esforçam para sobreviver em Paris. Juntas, elas descobrem que o sexo pode ser uma valiosa arma para subir na hierarquia social. Próxima vítima de sua manipulação, o esperto Christophe (Fabrice Deville) é herdeiro de uma fortuna e tem igualmente uma estratégia para manipulá-las.  

Serviço:
dia 19/05 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cineclube da Cinemateca: "O Segredo da Porta Fechada", de Fritz Lang

O Cineclube da Cinemateca apresenta neste sábado, dia 17, "O Segredo Atrás da Porta", de Fritz Lang, encerrando o díptico "Os Clássicos Americanos". A entrada é franca.

Cineclube da Cinemateca: 
"O Segredo da Porta Fechada", de Fritz Lang

Uma jovem mulher viaja para o México de férias e conhece um homem ideal, por quem se apaixona. Eles se casam e mudam para uma mansão, onde ocorreram vários assassinatos. Curiosa, a jovem descobre os mistérios que a casa guarda, mas ainda deseja descobrir um último segredo: o que tem atrás da porta de um quarto que seu marido mantém sempre trancado.

Serviço
Dia 17/05 (Sábado)
15hs
na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Poiesis - Caminhadas Literárias: Madame Bovary

Poiesis - Caminhadas Literárias

Madame Bovary, dia 17/05. Palestrante Sandra Stroparo*, no Décimo Primeiro Andar da Reitoria (UFPR), Prédio Dom Pedro I (Das 14 às 18 horas).


O Poiesis é um evento de extensão da UFPR, organizado pelo Coletivo Atalante e sob a coordenação do professor Benito Rodrigues. Consiste em ciclos de palestras sobre grandes clássicos da literatura mundial, sendo tais palestras conduzidas por professores da UFPR, especialistas em tais obras. Por outro lado, este evento também faz parte de um esforço da universidade em abrir-se para a comunidade não acadêmica, fazendo circular um saber geralmente restrito ao público da academia. Todas as palestras ocorrem sábado à tarde, da 14 às 18 horas na Reitoria. 
Estamos no segundo ciclo, O Romance (ver programação abaixo), que se propõe a explorar este gênero tão multifacetado e desafiador, que vem espelhando a humanidade e pondo a nu, sem reservas, seus aspectos mais belos e sórdidos. As obras selecionadas para este ciclo se encontram no plano dos textos de ruptura, que problematizam as delimitações deste gênero.

Datas, obras e professores palestrantes:

22/02 - Ulysses, de James Joyce, com Caetano Galindo.
22/03 - O Processo, de Franz Kafka, com Paulo Soethe.
05/04 - A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, com Lucia Cherem. 
26/04 - As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, com Ernani Fritoli.

17/05 - Madame Bovary, de Gustave Flaubert, com Sandra Stroparo.

07/06 - O Som e a Fúria, de William Faulkner, com Luci Collin. 
16/08 - Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, com Rodrigo Machado.
30/08 - O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, com Marcelo Sandmann.
13/09 - Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com Marilene Weinhardt. 
27/09 - Satyricon, de Petrônio, com Rodrigo Gonçalves. 
25/10 - Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, com Isabel Jasinski.
22/11 - Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, com Paulo Soethe. 

* Sandra Stropara é graduada em Letras Francês pela Universidade Federal do Paraná (1992), onde também fez seu Mestrado em Letras (1995). Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina (2012), com trabalho sobre Mallarmé. Trabalha na Universidade Federal do Paraná como professora de Literatura Brasileira e Teoria Literária (desde 1998). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, Literatura Francesa e Tradução .

terça-feira, 13 de maio de 2014

Cineclube Sesi: "Dublê de Corpo", de Brian De Palma

Nesta quinta-feira, dia 15, o Cineclube Sesi apresenta "Dublê de Corpo" de Brian De Palma, dando continuidade ao ciclo Cinema Maneirista que contará ainda com "A Divina Comédia" de Manoel de Oliveira (dia 22) e "Estrada Perdida" de David Lynch (dia 29)
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  "Dublê de Corpo", de Brian De Palma

O fracassado e claustrofóbico ator de filmes B Jake Scully acaba recebendo uma proposta irrecusável de Sam Bouchard: ficar no belo apartamento de um amigo seu enquanto procura lugar para ficar, após presenciar a traição de sua esposa. No novo apartamento, ele presencia estranhos acontecimentos com uma vizinha, e passa a persegui-la e a querer ajudá-la, mas não sabe o perigo que estará correndo.

Serviço:
dia 15/05 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A miraculosa


Como ele é professor, Jean-Claude Brisseau professa. Como ele ama o cinema, Jean-Claude Brisseau faz cinema. Como ser professor, no senso etimológico, é “ensinar em público”,  Jean-Claude Brisseau faz do cinema um anfiteatro. Seus filmes tem a ver com o teatro de paixões e tem de ser vistos como uma lição do cinema. Não de cinema. Não o cinema que educa, mas o cinema como – possível - educação. As salas de cinema frequentemente, e justamente, foram comparadas à igrejas; mais raramente à escolas: o meio onde vamos sentar para ver, para escutar, para se completar, para se confrontar com o Outro, se informar. Para ver, saber, e saber ver. Em Brisseau “o professor”, o filme perfurou o quadro negro, a professora (maitresse) dança com o aluno, o professor faz da aluna a sua amante (maîtresse) e o espectador, que ajuda a transgressão, participa assinando a nota de liberação. Nós apagamos tudo e recomeçamos.
            Em Som e Fúria, há o momento em que a professora dança com o menino (Aux marches dupalais...), e em Boda Branca, há o momento em que o barco desembarca o homem e a menina sobre uma colina de flores (ainda Aurora). Os dois momentos flertam com o ridículo,  com a graça rasa do ridículo e que “do ridículo ao sublime vai apenas um passo” (disse Michelet), mas são realmente dois momentos de graça onde o tempo não tem curso, a cena da escola, a vastidão imensa da natureza compõem a cena primitiva, livremente ingênua – como a arte, ingenuamente livre. Céline inteiro se abisma nesses momentos, nessa cena, nessa passagem feitapela janela aberta no mundo, o filme passa pela janela, e o olhar até o fundo da paisagem, acaba por se confundir com ele no negro – do quadro, como em um sonho de Akira. Assim se delineia Céline. Fazendo cinema, Brisseau gazeia a escola.
            Trata-se então, tratou-se sempre, de um aprendizado. Nos filmes precedentes, o aprendizado era alguma coisa como “aprenda a vida para aprender a morrer”, amores defuntos frequentemente entrevistos, corpos de crianças vítimas de sua clarividência. Céline começa na queda mas não é preciso muito tempo para sentir o filme cair para cima, uma aspiração resultado de uma expiração.  Aprender a não mais existir para aprender a viver. Não pensar mais em nada para estar no tudo. A aprendizagem, dessa vez, nasce do nada e se revela em sua plenitude, o filme chega depois da morte e, se fazendo, ele está “além”: na terra, sob a chuva, nada resta a Céline que seu nome; um homem que morreu e não é seu pai, um homem que a abandonou e não é mais seu amante; ela mesma se deserda, e depois se joga na água. Que uma outra mulher a salve, não importa: Céline é de agora em diante uma miraculosa – para não dizer uma ressuscitada. Mas o que importa, é que Geneviève, a outra mulher, já pode, desde o início, permitir o milagre (arriscando a própria vida).
            Eu vejo bem, agora, a impossibilidade e a inutilidade que há em recontar Céline. E é por uma razão bem simples: a razão de ser do filme é de tornar visível o indizível. Poderíamos “falar” qualquer coisa sobre a morte, o milagre, a aparição, a levitação, a santidade, tudo aquilo que quisermos, estas palavras permanecerão clichés que não “falam” (do mesmo modo Céline, tentando descrever o que ela sentiu a Geneviéve, nada encontra a não ser dizer a palavra “Deus”– talvez o “cliché” supremo- e não se satisfaz). Ora, o filme é o contrário do cliché. Ele refuta visivelmente e sistematicamente toda fixação do movimento, da imagem, ele flui suavemente de fonte, pela concentração ( a própria ideia de uma imobilidade que se move – e permite avançar) de onde ele retira sua energia luminosa (como o fogo ateado no carro concentra subitamente nele toda a luz: a noite apareceu de repente).
            Célineé um filme feito (de) intensidade. Portanto emocionante (émouvant) (em inglês “moving” quer dizer tanto “emocionante” e “em movimento”, assim o filme extrai seu movimento de uma tensão interna: o que me emociona (émeut), me move (meut)). E aquilo que ele mais é – emocionante e em movimento, é que Brisseau não faz cinema como se ele fosse o primeiro, não é a inocência do começo, é mais como se ele fosse o último dos homens com uma câmera – é uma fragrância de fim. Brisseau chega depois, mais uma vez. Depois da morte e depois do cinema (Murnau antes de tudo, Bresson, Godard sobretudo) . Chegar depois, saber disso, é forçosamente estar no além, aí está porque Céline não é fúnebre mas transcendente, aí está porque o cineasta não é religioso mas místico. Aí está porque o seu filme é fantástico.
            “A religião egípcia, voltada inteiramente contra a morte, fazia a sobrevivência depender da perenidade material do corpo. Ela satisfazia com isso uma necessidade fundamental da psicologia humana: a defesa contra o tempo. A morte nada mais é que a vitória do tempo. Manter artificialmente as aparências carnais do ser é retirá-lo da correnteza da duração: fixá-lo à vida. [...] Assim se revela, nas origens religiosas do estatutário, sua função primordial: salvar o ser pela aparência.”
            Esse possível resumo de Céline assinado por André Bazin, um outro “professor” – e que, eu penso, Brisseau refletiu em sua introdução “faraônica” do filme-, diz bem o que é a questão maior: o resgate, depois a salvaguarda do espírito pelo corpo (a yoga), passando pela iniciação de Céline por Geneviéve, depois do corpo pelo espírito (o milagre), passando pela última aparição –aparência- para Geneviéve do espírito de Céline. Dialética literalmente extraordinária que, em termos de arte-mística, se produz entre o talento e o gênio. Entre Geneviéve e Céline. E sua união faz a sua força, pois, se há uma vida  após a morte (algo que o cinema se apercebe às vezes), o filme mostra também que há uma “morte após a morte” (algo que o cinema toca raramente): Céline começa no drama e culmina no trágico – mas  não é triste por isso, e é o amor de duas mulheres que é trágico. Elas estão condenadas. Estejam em um convento ou na grande mansão do filme.
            As palavras de Bazin, antes de dar uma ideia do que é o filme de Brisseau, dão uma ideia do que é o cinema. Daí a pensar que o filme de Brisseau constitui por ele mesmo uma “ideia de cinema”... Essa ideia gira sempre em torno da inocência, e de sua perda. E de como a reter ou retornar a ela – pelo cinema. Para Bazin, o trabalho de embalsamento, para Brisseau, o da restituição. Salvar o ser restaurando a ele a aparência (mais que) humana. Revelá-lo. Fazer de uma forma que o cinema possa registrar o milagre, e que esse milagre pareça com a vida (um joelho que sangra sem ferimento, um paraplégico que se recupera porque lhe dizem que ele pode). Não somente que isso tenha uma aparência verdadeira, mas que isso seja verdade. O trabalho de Brisseau consiste não na restituição de um cinema-verdade mas, o que é mais difícil, de uma verdade do cinema. E se ele consegue, é porque ele conhece o cinema: uma moral das imagens.
            Quando Céline “aparece” a Geneviéve várias vezes, por exemplo, depois desaparece, é um simples caso de reenquadramento: ela está lá, ela não está mais. É uma imagem que se constrói de uma outra imagem – em relação a uma terceira, aquela de Céline em meditação, fora da casa. Quando Geneviéve presencia a levitação, questão de ponto de vista, nós vemos Geneviéve que vê Céline, em seguida vemos Céline, as duas não estão reunidas no plano porque (montagem proibida, ao inverso) nós só podemos ser as testemunhas do olhar de Geneviéve, não as testemunhas da cena: para cortar, isso seria trapacear, teria uma aparência verdadeira sem ser (haveria montagem na imagem, uma redundância grosseira já que Célinemonta sozinha), então que a verdade venha do olhar de Geneviéve sobre Céline (ela dirá a seu amigo que ela não sabe se Céline levitou, simplesmente que ela acreditou tê-la visto levitar). É preciso acreditar em seus olhos.
            À parte talvez Órfãs da Tempestade, de Griffith (uma certa perversidade ao menos), nós nunca vimos filme igual colocando em cena o amor entre duas mulheres. Geneviéve, a lunar, e Céline, a solar, são duas figuras inesquecíveis. Dois anjos do pecado (angesdupeché). A energia luminosa que cada uma emite – luz negra de uma, luz ofuscante de outra – que ambas se transmitem alternadamente quando necessitam aquecer seus corpos entorpecidos, que renunciam, é um calor humano praticamente visível na imagem, como uma aura (não realmente uma auréola) que emanaria de seus corpos e irradiaria tudo aquilo que as rodeia. Como o encontro de duas “atmosferas”...
            Entre elas, por elas, não há rastros, via-crúcis, as coisas acontecem quase brutalmente, ou melhor, de uma forma bruta; e Céline salta aos olhos, se impõe à nós: é um filme que, da mesma maneira que o recolhimento leva subitamente ao milagre, estabelece um suspense que resulta de súbito em um efeito de surpresa. É um filme que atordoa. Geneviève, demasiada humana, e Céline, demasiada evidente, se completam, como dois polos de energia que se atraem. Quem é a mais santa das duas? Esta já é outra história. A história de amor, ela, exala um odor de santidade, na troca absoluta do filme – e depois a troca de dois olhares: dar e receber. É simplesmente muito belo.    
            Eu percebi que esqueci de dizer que isso se passa em pleno campo, em uma grande mansão branca, que Geneviève é enfermeira e que Céline não é. Mas que bom: dizer isso não é dizer grande coisa. Em revanche, é preciso dizer que Brisseau não realizou um filme ecológico (écolo) de bom tom ou new age do tipo certo. Esses filme nós podemos reconhece-los porque eles são de um só modo e de uma só época, eles envelheceram rápido com a sua imagética galopante. Céline é de outro temperamento, daquele que vemos raramente no cinema francês, o temperamento místico (indubitavelmente a única maneira na França de ter direito a um olhar sobre o gênero “fantástico). O filme de Brisseau (que me faz decididamente muito pensar no Nouvelle Vague do Godard) toma uma dimensão “sobrenatural” porque ele consegue fundir o ser na natureza, que o enraíza. Alguma coisa se passa, se comunica entre Céline e o campo (os campos, a árvore sob a qual ela medita). Na “perspectiva” da mística do filme,do tratamento de seu espaço, a natureza abre a Céline “o caminho”. Ela suscita uma exaltação melancólica, um sentimento de plenitude que absorve literalmente a jovem mulher na paisagem. Em Brisseau, a natureza é sobrenatural...
            Natureza e panteísmo. Contemplação, meditação e iluminação. A relação trágica do ser no tempo, no amor, na morte. “Salvar o ser pela aparência.” E fazer um filme do cinema... Acreditando que o cinema  dessa vez, de fato, entrou em sua era romântica.
Esperando, Céline e Geneviève irão de bicicleta.

CamilleNevers,
Cahiers du Cinema nº 454, abril de 1992

(tradução Cauby Monteiro)