quinta-feira, 5 de junho de 2014

Poiesis - Caminhadas Literárias: O Som e a Fúria

Poiesis - Caminhadas Literárias

O Som e a Fúria, dia 07/06. Palestrante Luci Collin*, no Décimo Primeiro Andar da Reitoria (UFPR), Prédio Dom Pedro I (Das 14 às 18 horas).


O Poiesis é um evento de extensão da UFPR, organizado pelo Coletivo Atalante e sob a coordenação do professor Benito Rodrigues. Consiste em ciclos de palestras sobre grandes clássicos da literatura mundial, sendo tais palestras conduzidas por professores da UFPR, especialistas em tais obras. Por outro lado, este evento também faz parte de um esforço da universidade em abrir-se para a comunidade não acadêmica, fazendo circular um saber geralmente restrito ao público da academia. Todas as palestras ocorrem sábado à tarde, das 14 às 18 horas na Reitoria. 
Estamos no segundo ciclo, O Romance (ver programação abaixo), que se propõe a explorar este gênero tão multifacetado e desafiador, que vem espelhando a humanidade e pondo a nu, sem reservas, seus aspectos mais belos e sórdidos. As obras selecionadas para este ciclo se encontram no plano dos textos de ruptura, que problematizam as delimitações deste gênero.

Datas, obras e professores palestrantes:

22/02 - Ulysses, de James Joyce, com Caetano Galindo.
22/03 - O Processo, de Franz Kafka, com Paulo Soethe.
05/04 - A Paixão Segundo GH, de Clarice Lispector, com Lucia Cherem. 
26/04 - As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, com Ernani Fritoli.
17/05 - Madame Bovary, de Gustave Flaubert, com Sandra Stroparo.

07/06 - O Som e a Fúria, de William Faulkner, com Luci Collin. 

16/08 - Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, com Rodrigo Machado.
30/08 - O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, com Marcelo Sandmann.
13/09 - Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com Marilene Weinhardt. 
27/09 - Satyricon, de Petrônio, com Rodrigo Gonçalves. 
25/10 - Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, com Isabel Jasinski.
22/11 - Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, com Paulo Soethe. 

* Graduada no Curso Superior de Piano (Escola de Música e Belas Artes do Paraná - 1985), no Curso de Letras Português/Inglês (Universidade Federal do Paraná - 1989) e no Curso Superior de Percussão Clássica (Escola de Música e Belas Artes do Paraná - 1990). Concluiu o Mestrado em Letras/Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal do Paraná (1993), o Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês na Universidade de São Paulo (2003) e o Pos-doutorado em Literatura Irlandesa na USP (2010). É Professora Associada no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná. Como escritora tem 14 livros publicados (poesia e ficção). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literaturas de Língua Inglesa, literatura e outras artes e tradução literária. 

ABEL FERRARA: FILMOGRAFIA COMENTADA - THE ADDICTION


EUA, 1995

The Addiction é um filme de vampiros, e o é de uma forma inteiramente singular, pois mais do que retrabalhar códigos e convenções de gênero, ele faz as próprias imagens parecerem verdadeiras sugadoras de luz, que exaurem a energia do mundo para tornar visível sua face escondida. Depois tudo volta a ser escuro. Para sair da sombra e ser visto, o corpo precisa também vampirizar a luz, eclipsá-la como faz o personagem de Christopher Walken em sua primeira aparição, quando anda pela rua e é abordado por Kathleen (Lily Taylor). "Você quer ir a um lugar escuro?", ele pergunta e a arrasta para fora de quadro. No momento em que eles saem de quadro, uma luz estourada vaza para dentro da imagem pelo lado esquerdo, antes ocupado justamente pelo personagem de Walken, como se ele a estivesse represando e somente agora essa luz pudesse atingir o plano. É óbvio que em se tratando de Ferrara, o vampirismo é uma forma de representar a força incontrolável e destrutiva da droga, e de mostrar sua propagação violenta na sociedade. Assim como as drogas, as imagens – advenham da cultura pop ou do horror das guerras – detêm um enorme poder de contágio dentro do ambiente urbano. Kathleen a princípio não consegue entender as imagens das pilhas de corpos dos civis vietnamitas mortos no massacre de My Lai – imagens que nos fazem perceber que é da ambigüidade moral de toda a América que o filme trata, evocando um passado histórico irredimível e mostrando que sua tão frisada distinção entre bem e mal é mero discurso. Quando o corpo de Kathleen é dominado pela força maligna, ela compreende que essa força precede toda explicação. Lily Taylor está incrível, encarnando uma personagem cuja vida entra em convulsão e se afunda ao longo da narrativa, entre crises de abstinência e de overdose. Kathleen estava desde o início do filme se tornando doutora em filosofia, mas o que ela ainda precisava aprender é que o conhecimento verdadeiro só chega uma vez atravessado o sofrimento físico. Ao menos para Ferrara é assim. Uma operação interessante em The Addiction é que, sendo este o filme de Ferrara que mais se liga a uma iconografia muito específica, que pede uma dramaturgia um tanto fechada, ele exibe ao mesmo tempo as imagens mais frontais e documentais que o cineasta já fez em ruas nova-iorquinas. O preto-e-branco reitera uma atmosfera sufocante, auxiliada por potências obscuras, mensageiras de um mal eterno. Somente abandonando o corpo é possível se livrar da dependência nefasta. Por mostrar esse mundo ensombrado, em estado de putrefação ética, The Addiction é uma das bad trips mais inescapáveis e pesadas de Ferrara – ainda que no final o filme vislumbre retornar à luz do dia.

Luiz Carlos Oliveira Jr.
(Texto original: http://www.contracampo.com.br/86/artferrarafilmografia.htm)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cineclube da Cinemateca: "Boccaccio '70"

Neste sábado, dia 07, o Cineclube da Cinemateca apresenta Boccaccio '70, filme coletivo de Federico Fellini, Luchino Visconti, Mario Monicelli e Vittorio De Sica, que ainda apresentará "Um Dia Muito Especial" de Ettore Scola no dia 14. As projeções serão em película.



Cineclube da Cinemateca apresenta: "Boccaccio '70"



Inspirando-se no clássico Decameron, de Boccaccio, quatro grandes mestres do cinema italiano criaram uma comédia inesquecível em quatro episódios sobre a mulher contemporânea


Serviço:
Dia 07 de junho às 15hs
na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

Festa junina do Som de Preto (promoções e video)


terça-feira, 3 de junho de 2014

Cineclube da Cinemateca apresenta: Cinema Italiano


O Cineclube da Cinemateca apresenta no mês de junho um ciclo dedicado ao cinema italiano contando com alguns de seus maiores cineastas. As projeções serão em película, no espaço da Cinemateca. A entrada é franca!

Programação:

07/06 - "Boccaccio '70", de Federico Fellini, Luchino Visconti, Mario Monicelli e Vittorio De Sica

14/06 - "Um Dia Muito Especial", de Ettore Scola


Serviço:
Dia 07 de junho às 15hs
Dia 14 de Junho às 14hs
na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA


Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

Cineclube Sesi: "Os Viciosos" de Abel Ferrara

Nesta quinta-feira, dia 5, o Cineclube Sesi apresenta  "Os Viciosos", abrindo o ciclo Abel Ferrara que contará ainda com "Os Chefões" (13, excepcionalmente na sexta-feira), "Blackout" (19) e "O Enigma do Poder" (26) 
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  "Os Viciosos", de Abel Ferrara

Estudante de filosofia é arrastada para um beco por uma estranha mulher e mordida no pescoço. Aos poucos, sua necessidade por sangue começa a ser tão grande quanto à de um viciado por drogas. Alegoria que utiliza o vampirismo como metáfora para o vício, porém sem citar o termo "vampiro" em nenhum momento.

Serviço:
dia 05/06 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

O PODER DA EMOÇÃO

Qualquer melômano que se preze é arrebatado por Le Pont des Arts. Trata-se de um desses filmes que nos apanha violentamente, exaurindo-nos pela experiência emocional que é capaz de proporcionar, deixando-nos com a certeza de ter visto algo único. É, também, uma homenagem tortuosa ao vinil, ao poder que os sulcos têm de captar todas as profundezas musicais, e que o CD, e logo depois o MP3, enterraram de vez; uma homenagem disfarçada de filme atemporal, passado em uma época em que a Internet não existia, nem o CD e o DVD. Levemente nostálgico, celebra coisas que não estão no vocabulário do dia. Ao mesmo tempo satiriza uma imagem da intelectualidade parisiense, metida, propensa a tirar a música de sua esfera emocional para circunscrevê-la total e exclusivamente em uma redoma imaginária de teorias e disciplina. Mas não podemos dizer que Le Pont des Artsseja apenas um filme musical, nem mesmo uma ode a essa nobre arte. Porque o filme de Eugène Green mostra, principalmente, como a música pode balançar a frieza e a razão. Pode mais: pode impedir um suicídio, os sulcos do vinil levando sentido onde nada mais existia. Uma das cenas que descrevem com precisão esse poder musical ocorre aos 42 minutos, já conhecida pelos bem aventurados: começa com os três cantores (baixo, barítono e tenor, ou coisa que o valha); a câmera move-se levemente para a direita, revelando o exato momento em que Natacha Régnier entra para cantar a ária de Monteverdi. Antes de tomar sua posição no ensaio, ela pára na entrada da sala e sorri agradecidamente para Jéremie Rénier, que aconselhou-a a tomar um café para se tranquilizar após as ofensas de Guigui, conhecido como "o inominável" – o maestro vivido por Denis Podalydès. Esse pequeno movimento da câmera, que capta a entrada dela e o sorriso no canto esquerdo do quadro, é de uma precisão inacreditável e comprova que a habilidade de Green não se restringe aos enquadramentos estáticos. A cantora inicia seu trabalho, e emociona todos os presentes na sala, entre eles Rénier, o mais sensivelmente tocado. Mas a cena termina com o inacreditável Guigui sentenciando: "pas trop dégueulasse" ("não muito horrível"), numa atitude de superioridade que contrasta com seu olhar, visivelmente impressionado - e vale dizer, incomodado, com a capacidade que a cantora tem de conduzir a emoção presente no lamento. 

Toda essa sequência merece estudos à parte, pois nela estão contemplados os aspectos mais ricos do cinema de Green: a teatralidade que se assume com uma frontalidade radical; os cortes para planos médios com um único personagem no espaço, olhando para a câmera; o cuidado simétrico quase doentio com a posição do ator no quadro (no que ele se assemelha a Manoel de Oliveira e ao casal Straub-Huillet) e com a distância entre o ator e a câmera. Se Eugène Green é um dos maiores cineastas da atualidade é porque consegue trabalhar com essas preocupações sem sacrificar a fruição narrativa e, principalmente, o trabalho do ator. Mas existe também um outro dado. No cinema de Green, não se trata de saber se a cantora triunfou ou não tecnicamente, e não é à toa que ele zomba dos tecnocratas da arte. Não é isso que o interessa. Trata-se, somente, da capacidade de condução da emoção. Ela, claramente, alcançou esse intento. Mas como um tecnocrata não sabe lidar com isso, o inominável preferiu a agressão em forma de elogio ("pas trop dégueulasse").

Falei da frontalidade do teatro, mas não se trata apenas de frontalidade. É algo mais. Neste filme e em outros de Green, o ator, quando não dialoga olhando para a câmera, geralmente encerra a cena virando seu olhar para encontrar a lente, ou seja, nós, causando um efeito direto, como um lancinante raio de sua alma para nossos corações. No recente Vencer, de Marco Bellocchio, temos uma cena em que Ida Dalser, a razão de ser do filme, encara a câmera como se estivesse intimando uma tomada de posição do espectador. O efeito é certeiro. E é justamente esse efeito que Green persegue em seus filmes. Ao fazer o ator olhar diretamente para a câmera antes de encerrar uma cena o diretor forja uma cumplicidade que se dá entre a representação e o espectador de uma forma quase inexorável. Com esse estilo, mais do que radicalizar a frontalidade teatral, Green penetra em nossos espíritos assim como a música, arte mais propensa a extasiar-nos na emoção.

Contudo, uma curiosidade permanece no ar: por que o maestro Guigui é tão nojento, e ainda assim tão jocosamente patético? Por que em sua boca piadas como a que escutamos perto do fim ("você quer ver meu pinto?"), em um diálogo primoroso e muito esclarecedor com Adrien Michaux, soam engraçadas e nada grosseiras? Por que sua maior vitória é fazer naufragar qualquer traço de emoção que se sobressaia na música? Muito da força e do enigma desse personagem vem do ator, claro. Mas há um toque autoral em sua construção. Esse toque responde por um humor que talvez seja explicado por sua origem: norte-americano expatriado na França, mas em claro desconforto com a classe artística francesa, ainda que muitos lhe cubram de louros, Green é despojado, por vezes até vulgar, mas profundo em seus intentos, questionador e desconfiado da classe artística mais blasé, sensível às possibilidades do ator, às filigranas de emoção que pode captar. O que ele capta de Guigui é contraditório como todo humano. Nele convivem raiva e delicadeza, desprezo e dedicação, vaidade absurda e complexo de inferioridade por não saber lidar com sentimentos. 

A construção desse personagem autenticamente greeniano deixa evidente também o tom teatral. É como um bufão que já cansou de interromper o andamento da peça e resolveu atrapalhar a personagem que para ele revela um talento inexplicável. No "Lamento da Ninfa" reside seu trunfo: é com a peça de Monteverdi que ele doma a detentora das emoções, melancolia encarnada, deixando-a completamente vulnerável para mais tarde dar o golpe fatal. Outro belo exemplo de construção desse personagem é a sua entrada em cena. Temos uma panorâmica que sai do teto da sala até seus pés, afetados pelos floreios que dedilha no cravo. Em seguida ouvimos sua voz, para só depois de uma breve conversa com Jéremie Rénier conhecermos sua face, enquanto toca o cravo como um músico cheio de soberba. A composição do ator é quase circense, rasgada no humor, aberta às mais infames possibilidades, apesar de ser um personagem completamente highbrow, como dizem nos EUA. 

Podalydés e seus amigos da alta cultura, entre eles um igualmente inspirado Olivier Gourmet, são caricaturas de afetação, exageros usados para criticar a classe de artistas parisienses cheios de empáfia. Não se trata de uma crítica aos intelectuais, mas de satirizar o aprisionamento das pessoas incapazes de entender e externar suas emoções. Como Buñuel, Green é um grande crítico dos costumes da sociedade burguesa, e um parodiador mordaz daqueles que se julgam patrocinadores da alta cultura. E quando Adrien Michaux descobre que existe algo pelo qual vale a pena viver, "O Lamento da Ninfa", de Monteverdi, está sacramentado o amor de Green pela música, como iria ser confirmado no filme irmão, A Religiosa Portuguesa. Em seus filmes não há lugar para a pose ou a frivolidade, senão pela via cruel do escárnio.

 Sérgio Alpendre

Março de 2010

(Publicado originalmente em: http://www.contracampo.com.br/95/artgreensergio.htm)