quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Cineclube da Cinemateca: "Adeus ao Sul", de Hou Hsiao-Hsien

Neste sábado, dia 20, o Cineclube da Cinemateca apresenta o filme "Adeus ao Sul", dando prosseguimento ao ciclo Hou Hsiao-Hsien, que contará ainda com "Three Times" (27/09).

Cineclube da Cinemateca apresenta: 
"Adeus ao Sul" de Hou Hsiao-Hsien

A visão de Adeus ao Sul se acompanha e deixa atrás de si um sentimento pouco freqüente, mesmo que diga respeito a uma verdade constante do cinema, a de um filme inteiramente fabricado com a luz, em que haveria mais interesse em construir um diagrama luminoso do que em resumir o roteiro – as atribulações de três jovens, dois rapazes e uma menina, entre marginalidade e desejo de se instalar, puerilidade e confrontações – cômicas, dramáticas ou marcadas pela mediocridade do cotidiano – a uma realidade que eles não controlam nem compreendem, mas no seio da qual eles procuram todavia se inscrever.

Serviço:
dia 20.09 (sábado)
às 15h 
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cineclube Sesi: "Só a mulher peca", de Fritz Lang

Nesta quinta-feira, dia 18, o Cineclube Sesi apresenta o filme "Só a Mulher Peca", dando continuidade ao ciclo Fritz Lang Contra a América, que contará ainda com "Desejo Humano" (25/09). 
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta: "Só a mulher peca", de Fritz Lang


Mae Doyle (Barbara Stanwyck), na esperança de encontrar um marido rico, viveu em grandes cidades, mas só se envolveu com um homem casado. Após sua morte ela retorna para sua cidade natal para viver com Joe (Keith Andes), seu irmão. Ela começa a se relacionar gradativamente com Jerry D'Amato (Paul Douglas), um simplório pescador que é amigo de Joe. Através de Jerry ela conhece um projecionista de filmes, Earl Pfeiffer (Robert Ryan), que tenta conquistá-la declarando seus sentimentos, apesar de ser casado. Mae o evita e se casa com Jerry. Paralelamente Earl se divorcia. Pouco tempo depois, Mae e Jerry têm um bebê e tudo parece bem, mas Mae não está apaixonada pelo marido e logo se vê nos braços de Earl.

Serviço:
dia 18/09 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Evoé John Cassavetes


(Texto sobre John Cassavetes e o filme Maridos de 1970)

embriaguez
O que esperar de um alcoólatra? Frases mal pronunciadas, desejos obscuros escancarados, gestos aparentemente impossíveis ensaiados, erros (errâncias?).
A loucura, como o crime, a droga, a misoginia são fenômenos por vezes amiúde fetichizados, por vezes amiúde moralizados. Álcool. Fiquemos com o ethos de quem compartilha deste vício, com o pathos de quem alimenta essa virtude. Os efeitos deste líquido milenar construíram a História da Humanidade, destruíram Civilizações. Paliativo oficial do homem em todas as culturas ao redor do mundo, o álcool é a válvula de escape mais rudimentar e nobre ao lado da contemplação artística - ambas nos iludem do mundo externo, nos iluminam o mundo interno; ambas nos revelam, nos consomem.
Onde nasceu a embriaguez, quando ela se impôs como regra cultural em todo o mundo? São perguntas que eu não saberia responder... A conclusão é apenas que o álcool é um dos assuntos humanos mais importantes, tratado nesta obra não por quem o domina, mas mais propriamente por quem é dominado por ele.
John Cassavetes viveu, amou e filmou sob o signo da embriaguez, para atingir as trevas do ser, os traumas das relações e os fluxos dos corpos. Sua câmera, no momento errado (errante?) se colocou no fundo dos olhos desesperados dos que fogem de sua psiquê. Contemplamos faces. Entre a histeria e seus barbitúricos se vive esse balé trágico nesta selva escura. Entre a solidão e a relação com o próximo se constroem essas quimeras: casamentos, filhos, amantes, amor. Entre o complicado homem John Cassavetes e a não menos complicada sociedade americana surgiu este vômito bêbado, sincero e catastrófico, digno de revolta e de pena, fascinante e indigesto. Nasceram obras à eternidade.

utopia
Os maniqueísmos melodramáticos não são do feitio de John Cassavetes, que filma os dramas que o rodeiam, e muitas vezes com quem o rodeia. Ator antes de ser cineasta, Cassavetes, diferente dos jovens do Cinema Novo brasileiro ou da Nouvelle Vague francesa, trilhou, através principalmente da intuição, do amor à utopia, da amizade e do prazer no ato de criar, um caminho solitário nos EUA. "Cineasta independente" por excelência, Cassavetes e sua equipe decidiram aprender fazendo, ao largo da indústria. O "cinema americano" tal como é conhecido no mundo faz referência à "Hollywood", o "cinema industrial" por excelência, o cinema "hegemônico", "convencional", "do entretenimento", etc... É pouco conhecido porém o "cinema experimental americano", que notavelmente ocupa o posto de "mais experimental", e que tem nomes tão fortes quanto Michael Snow, Kenneth Anger, Maya Deren, Stan Brakhage, Andy Warhol, entre outros.
John Cassavetes nunca se interessou pelas reduções ao tratar dos conflitos humanos; é preciso tratar a América igualmente! O herói cassavetiano nunca seria reduzido a um estereótipo, menos ainda a heroína. Isso porque Cassavetes se interessa mais pela vida que pelos contos de fadas. Esse conto de fadas de que "o cinema americano é do mal" poderia até nos proporcionar um prazer estético se bem contado, mas se falamos historicamente, vamos acordar e analisar o que realmente importa.

improviso
Todo filme narrativo que se utiliza de atores para encenar egos experimentais em conflitos cênicos num tempo presente constitui-se indubitavelmente numa arte dramática. Ocorre neste caso um teatro, encenado para apenas um olho: o da eternidade. Quem compõe o drama é denominado dramaturgo, quem dirige a cena o "metteur-en-scéne". Cassavetes ocupava as duas funções, o que não quer dizer que os atores eram rigidamente controlados o tempo todo. Pelo contrário! Vindo da arte do ator, e extremamente ligado espiritualmente à liberdade jazzística de uma jam session, o cineasta americano julgava mais interessante para o seu projeto de filmar pela objetiva a alma através das relações subjetividades do corpo, um espaço para a ‘improvisação’ - que não passa de um estilo de interpretação. Um grupo de atores intima e artisticamente ligados, vivendo o teatro como vida e a vida como teatro, se constitui numa potencial "banda cênica", prontos, quando solicitados, para uma jam com seus instrumentos afinados e insuflados de inspiração e experiência. Por vezes a "improvisação" é tida como sinal de um "rigor frouxo" ou "um lance de dados". Se configurando porém como parte essencial do processo criativo de artistas como Jean Renoir e Glauber Rocha esta característica é fato incontornável para compreender de onde brota toda a emoção dramática dos filmes de John Cassavetes. Percebamos entretanto que não é o seu único modo de encenação, e - o mais importante! - não exclui os efeitos atingidos pela montagem, o enquadramento ou os movimento de câmera e de lente. Um ator que é indicado a agir de forma agressiva dentro de uma chave de interpretação de um personagem que ele já visitou espiritualmente com o seu corpo ganhará o seu contorno semântico total, enquanto cena dentro de um esquema narrativo cinematográfico, a partir apenas da conjugação desses vários elementos.
Se cinegrafado num plano geral e fixo, um sentido bem diferente de um close com a câmera na mão. Rigor e vigor - como deve acontecer - são, neste cinema, duas faces de uma mesma moeda, assim como ator e personagem.


Maridos
O que é ser um homem? O que é ser um homem para Cassavetes? Acima de tudo é trágico. Trágico, pois a raça é frágil, é vaidosa, é neurótica, é violenta, é egoísta, é burra, é triste. É feio, o submundo moral onde se esgueiram os artistas, viciados, agiotas, jogadores, alcoólatras, maridos, por entre as putas, os chefes, as sogras, os amigos e esposas é acima de tudo decadente. É horrível, as relações que se criam entre esses filhos da psicose são patéticas, vulgares, odiosas, insuportavelmente medíocres. O drama desta sociedade segundo Cassavetes tem conceito: o mal-estar. Nela desfilam homens grosseiros, mulheres compulsivas, senhores autoritários, senhoras obsessivas. A histeria e o narcisismo são a tônica, o álcool e o sexo a fuga do eu (tão complicado). O princípio de prazer negativo no esquivar-se do desprazer. Traumas, sublimações, neuroses; o mundo mental, que já fora dissecado por Freud nos sonhos, é agora perscrutado por Cassavetes nos corpos. Colhe-se a alma, e todos os seus complexos. Decanta-se a dança dos relacionamentos, e todos os seus fluxos. O diagnóstico é patológico, crônico e degenerativo.
Ser um homem para Cassavetes? Acima de tudo é mágico. Mágico pois a raça é forte, fascinante, sedutora, honrada, vigorosa, engraçada, inteligente, doce. É belíssima a relação que os homens são capazes de criar entre si; o companheirismo é sagrado, todos sentem isso. E apesar de todos os problemas, de todas as complicações, de todas as chatices, os defeitos, as decepções, as traições, o homem pode ter abrigo - acima do colo feminino - no olhar do amigo, no abraço do parceiro. Uma noite de bebedeira ou uma partida de futebol com aqueles do peito pode curar várias doenças, ressuscitar o prazer pela vida. Apostar uma corrida, se esbofetear, disparar tiros, entornar cachaças, gargalhar, é desses ritos inúteis que se constitui esse sentimento precioso e inefável que só os homens conseguem estabelecer. 


Maridos (1970) - comédia humana sobre a vida, a morte, a liberdade, a paternidade, o casamento e a responsabilidade - é uma dessas odes ao homem e o seu poder emocional oceânico (tão fascinante quanto catastrófico, tão apaixonante quanto repugnante). O único “hang out marcha fúnebre” da História do Cinema, este filme, como a maioria dos filmes de John Cassavetes, é uma obra única, diamante da originalidade criativa. É o testemunho de um estilo artístico e de um universo ficcional.
Como expressar – para este homem cassavetiano - o amor presente na dor da perda de um parceiro com um momento de silêncio institucionalizado no funeral da sociedade? Não! Eram precisos três dias! Três dias na sarjeta da mais pura catarse!
O que se tornaram afinal aqueles homens? O que significa dentro deles assumir o papel social que assumem? Maridos, pais, trabalhadores, adultos... em breve defuntos burocraticamente enterrados. Como lidar com o espelho do patético fim? Com a potência da juventude esmaecida pelas rugas do cotidiano? Como agir quando escancarada a farsa? Quando perdida a batalha para o tempo?
Quando penso na cena cassavetiana por excelência me vem a imagem da mesa de jantar, muito álcool e a perdida tradição das canções cantadas à palo seco contaminando os presentes a plenos pulmões. Cena presente em outros filmes de sua carreira, nesta obra ganha contornos metalinguísticos inegáveis. Como uma audição, os diversos povos imigrantes que constituem a América vão cantando as tradicionais músicas do velho e do novo continente. “I dream of Jeanie with the light brown hair...”, canta uma jovem, e nos remete à Faces, à Gena Rowlands, presente no filme aí, exatamente nesse momento de lembrança, o próprio John se emociona e beija-a na boca. Gena estará presente também nas fotos do passado que iniciam o filme, do outro lado da linha quando Gus falar com “sua esposa” pelo telefone público e no último plano, dentro da casa e fora do quadro, quando seus filhos chamam-na para presenciar o retorno do pai pródigo. A cena do bar se estende nessa espécie de audição com Gus, Archie e Harry dirigindo estas pessoas, buscando as interpretações verdadeiras nas músicas escolhidas por elas e na embriaguez das emoções que devem ser suscitadas. Não podemos nos esquecer que, acima de tudo, o poder de Maridos é sobre a paixão entre John Cassavetes, Peter Falk e Ben Gazarra.
É também uma obra ímpar acerca do poder expressivo de uma ausência presente: seja no quarto mosqueteiro que é a causa de tudo; na nostalgia do passado e na utopia do futuro, tão presentes quanto o presente; nas elipses entre sequências, radicalmente experimentadas em cortes sempre impressionantes; e principalmente no fora-de-quadro, elemento que ganha um status de “ritmo da essência”, como se sem ele o filme não balbuciasse nada. Em nenhum outro filme o “plano de conjunto” foi tão expressivo. Povoado e despovoado, rasgado, sufocado pela tríade que, pagando o seu luto, erra pelo intervalo que a morte de um parceiro desencadeou, este espaço - às vezes escuro no fundo de um boteco, às vezes claro nas ruas de Nova York, às vezes claro-escuro na solidão de um metrô ou uma de quadra vazia - é onde o drama vomita-se.

Cassavetes, com sua câmera e seus atores desvelou-se e desvelou-os acima de tudo, para compreender o cinema, a sociedade, e a vida. Só um desgraçado pode amar de forma pura, por momentos. A vida é uma festa encruzilhada à sua ressaca, vamos vivê-la juntos. Evoé Cassavetes, e viva o cinema, que nos ensina sobre a liberdade, a vida e a morte. 

Mateus Moura
(Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema -2011)

sábado, 13 de setembro de 2014

Cine FAP: "Homens Indomáveis", de Allan Dwan

Na próxima segunda-feira, dia 15, o Cine FAP apresenta o filme "Homens Indomáveis" de Allan Dwan, dando prosseguimento à mostra Faroeste. Ainda em setembro teremos: "Vera Cruz", de Robert Aldrich (22/09); e "Dominados pelo Terror", de William Wellman (29/09)

Sempre com entrada franca!

Cine FAP apresenta: "Homens Indomáveis", de Allan Dwan

Um respeitado cidadão de uma cidade do interior é preso durante seu casamento sob a acusação de ter matado seu irmão e pelo roubo de grande quantia de dinheiro. Sua inocência fica cada vez mais difícil de ser provada, após a desconfiança do povo.

Serviço:
dia 15/09 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Cineclube Sesi da Casa: "Maridos" de John Cassavetes

Neste domingo, dia 14, às 16h00, O Cineclube Sesi da Casa apresenta "Maridos", de John Cassavetes abrindo o ciclo A ficção nos anos 70, que contará ainda com "A Mãe e a Puta" de Jean Eustache (21/09, excepcionalmente às 15h00) e "Shock" de Mario Bava (28/09). 
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi da Casa apresenta: 
"Maridos" de John Cassavetes


A morte de um amigo reúne três homens de meia-idade, todos casados. Deprimidos, eles vagueiam pela cidade, jogam basquete e se embebedam. Depois resolvem partir juntos, sem as respectivas famílias, para uma viagem à Europa, onde reconsideram suas vidas. 

Serviço:
dia 14/09 (domingo)
às 16h00
no Sesi Heitor Stockler de França 
(Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)
 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MINISTRY OF FEAR / 1944


(Prisioneiros do Terror/Quando descerem as trevas)

Um filme de Fritz Lang


São conhecidas e tem sido muito comentadas as relações entre o mundo de Lang e o de Hitchcock. Ministry of Fear é um exemplo paradigmático dessas relações. Num certo sentido, esta obra é o North by Northwest de Fritz Lang.

É-o pelo modo como Ray Milland é apanhado na teia. Se não se levantou acidentalmente, como Cary Grant no filme de Hitchcock, por puro acidente lhe foi parar às mãos o bolo trocado que desencadeia todas as peripécias do filme. Quando, no final, Marjorie Reynolds lhe dá de novo um bolo para as mãos, estamos num efeito tipicamente hitchcockiano (languiano, também, porque Milland podia dizer, como Edward G. Robinson no final de The Woman in the Window - filme do mesmo ano - “nem por um milhão de dólares”).

É-o ainda pela utilização do nazismo como um “mac guffin” (para utilizar terminologia hitchcockiana), ou seja um falso cerne da obra (não nos interessa nada saber dos segredos contidos no bolo, nos filmes, etc.)

É-o pela fabulosa sucessão de efeitos de “suspense”, desde a aparição do falso cego, à “morte” de Cost, sua “ressurreição” como Travers e suicídio deste.

É-o pelos espaços escolhidos, desde o bazar de caridade à sede da “Mothers of Free Nations”; desde a livraria à alfaiataria, desde os hospitais aos hotéis.

É-o pela permanente dúvida sobre identidades: além do falso cego, o psiquiatra anti-nazi, “acima de qualquer suspeita”, o irmão de Marjorie Reynolds, a espírita, até ao polícia da Scotland Yard cuja aparição inicial, recortado em sombra ameaçadora nos faz hesitar durante algum tempo sobre a possibilidade de nova armadilha, sobre o seu real estatuto de polícia (como ele próprio duvida da inocência de Ray Milland em tudo aquilo).

É-o por múltiplas frases ou pormenores: quase ao acaso, cito o “don’t get envolved with the police in any way” inicial (o “Jovens, evitem a prisão” de Hitchcock); a transformação do décor da casa e da identidade da espírita; a eliminação do cadáver; o plano, no abrigo, em que Ray Milland esconde a cara; as peripécias em torno da mala; o quarto de hotel vazio onde a dita mala revela o seu conteúdo; a descoberta do bolo, através dos pássaros (sequência das ruínas); a tesoura de Dan Duryea; o plongé sobre a escada da perseguição final (Vertigo “avant la lettre”); a batalha final nos telhados.

Podia multiplicar exemplos, e ir ao ponto de perguntar quantas vezes terá Hitch visto este filme. Mas também tudo isso é pouco importante. Porque dizer que Ministry of Fear é North by Northwest ou procurar o essencial deste filme pelas bandas do mundo da culpa e do do desejo do autor de Rear Window é outro “macguffin” para este filme.

Não porque as coordenadas não sejam aproximáveis (e daí as semelhanças aparentes) não porque se não esteja também num mundo de culpa e desejo ( e nem falta aqui uma loura - Marjorie Reynolds - que bem podia ter vindo dum filme de Hitchcock), não porque o herói não seja tipicamente da galeria hitchcockiana (e até o foi - muito mais ambiguamente - no Dial M For Murder), mas porque, uma vez mais (mas usar de efeitos de repetição é languiano e hitchcockiano) , a confabulação prodigiosa não nos leva à inanidade da culpa (ou à do desejo) a estarmos neles espelhados, mas à sua explícita subjectivação e a vermos o espelho deles (culpa e desejo). E, nesse sentido, o caminho é inverso.

Ao contrário dos heróis de Hitch, Ray Milland não é um falso culpado. Nunca se desprende ao longo do filme da história passada com a sua primeira mulher, que assassinou eutanasicamente. Essa história que não vemos: (qualquer “flash-back” logicamente possível, destruiria a sua carga mítica) constitui o objecto do longo racconto de Milland na sequência-chave do esconderijo. “In a dark corner” e junto de outra mulher, Milland dá uma versão dividida e culpada dessa morte, divisão e culpa acentuadas pelo magistral grande plano que se mantém durante toda essa confissão. Quando acaba e diz “and there isn’t any pain anymore”, a câmara avança para enquadrar Marjorie Reynolds e em “off” ouvimo-lo esperar que ela responda à pergunta sobre a sua culpa. Contracampo rápido e o protagonista, revendo os seus inimigos, esconde a cara, representando essa figura de ocultação a mais clara das respostas à questão que pôs.

Num dos planos seguintes, vemos Marjorie Reynolds a dormir no colo dele. Mas Ray Milland não adormeceu. Só que tudo ficou claro. Mas os jornais não fazem qualquer referência à morte do misterioso Mr. Cost e a culpa regressa de novo. Sabemos, nessa altura, porque razão, diante da “fortune-teller”, Ray Milland não quer saber do passado, mas do futuro; porque razão não resiste à sessão de espiritismo (montada para ele, encenada para ele, ou melhor dizendo, montada para a sua culpa e encenada para a sua culpa), porque razão assume a culpabilidade da morte final dessa sessão. Porque razão o personagem sempre fugiu da luz e dos olhares directos (embora sempre perseguido por visões, mesmo a daquele que tomou como cego).

Se Ray Milland é tão profundamente envolvido naquela teia é porque todos exploram essa culpabilidade exposta, espelhada nele. Por isso, na fabulosa sequência da sessão de espiritismo, todos surgem - num efeito tipicamente languiano - isolados e recortados do escuro como outros tantos juízes que o viessem de novo acusar; por isso, nessa mesma sequência é tão importante para ele o “don’t break the circle” que efectivamente acaba por quebrar; por isso vacila quando depois do suicídio de Duryea acusa e ouve como eco o “you killed your wife”; por isso, a sua libertação só se dá quando Marjorie Reynolds repete o gesto dele, matando - eutanasicamente também - o irmão (“You won’t shoot your own brother”). Mas Marjorie, não se move nesse mundo de culpas e o tiro parte (num dos mais geniais planos de Lang) através da porta, nesse pequeno buraco que permanece como um dos efeitos de olhar mais misteriosos da sua obra (Lotte Eisner conta em pormenor o modo e o tempo como esse plano foi filmado).

Mas (sob a figura irónica) os fantasmas regressam  no final, com o segundo bolo, que não é, pois, uma pontuação hitchcockiana, mas o sinal da permanente ameaça que continua a pairar sobre Ray Milland.

Daí que este filme (que começa com o fabuloso grande plano do pêndulo do relógio) seja sobretudo um filme sobre o tempo: nesse início, sentado na penumbra, Ray Milland parece esperar uma libertação da prisão (sabemos depois que estava num hospital). Quando é libertado, os seus actos falhados continuam a ser (e até ao fim) auto-punitivos, tudo se repetindo, tudo pontuado por esses relógios (de novo, a sequência do espiritismo) que parecem espelhar para ele a agonia da culpa (sentida junto à primeira mulher) e a do desejo (por e de Marjorie Reynolds).

Primeira incursão de Lang nos domínios da psicanálise, Ministry of Fear é um filme detido (nas inúmeras peripécias que o compõem) entre esse lento decorrer de segundos (inicial) e a vertiginosa sucessão de acontecimentos finais. O foco da luz da enfermeira e o ponto luminoso aberto na porta pelo tiro fratricida de Marjorie Reynolds. Só que nenhuma dessas “pequeninas luzes” consegue clarificar a teia de culpa em que o protagonista definitivamente se enredou.

Por isso Luc Moullet tem razão quando diz que não é de Graham Greene que Ministry of Fear releva mas de Kafka. E quando acentua que a teia de Lang nunca foi tão elaborada. Todos ficamos presos e enredados nela. Todos quebrámos o círculo.


JOÃO BÉNARD DA COSTA

(folhas da Cinemateca Portuguesa)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Cineclube da Cinemateca: "Um Tempo para Viver, Um Tempo para Morrer", de Hou Hsiao-Hsien


Neste sábado, dia 13, o Cineclube da Cinemateca apresenta o filme "Um Tempo para Viver, Um Tempo para Morrer", dando início ao ciclo Hou Hsiao-Hsien, que contará ainda com "Adeus ao Sul" (20/09) e "Three Times" (27/09).

Cineclube da Cinemateca apresenta: "Um Tempo para Viver, Um Tempo para Morrer"



Inspirado na infância do próprio diretor, o filme apresenta a história de uma família chinesa que se muda para Taiwan. A princípio temporária, a nova moradia acaba se tornando definitiva.

Serviço:
Aos sábados
às 15h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA