(Texto sobre John Cassavetes e o
filme Maridos de 1970)
embriaguez
O que esperar de um alcoólatra? Frases mal pronunciadas, desejos obscuros
escancarados, gestos aparentemente impossíveis ensaiados, erros (errâncias?).
A loucura, como o crime, a droga, a misoginia são fenômenos por vezes amiúde
fetichizados, por vezes amiúde moralizados. Álcool. Fiquemos com o ethos de
quem compartilha deste vício, com o pathos de quem alimenta essa virtude. Os
efeitos deste líquido milenar construíram a História da Humanidade, destruíram
Civilizações. Paliativo oficial do homem em todas as culturas ao redor do
mundo, o álcool é a válvula de escape mais rudimentar e nobre ao lado da
contemplação artística - ambas nos iludem do mundo externo, nos iluminam o
mundo interno; ambas nos revelam, nos consomem.
Onde nasceu a embriaguez, quando ela se impôs como regra cultural em todo o
mundo? São perguntas que eu não saberia responder... A conclusão é apenas que o
álcool é um dos assuntos humanos mais importantes, tratado nesta obra não por
quem o domina, mas mais propriamente por quem é dominado por ele.
John Cassavetes viveu, amou e filmou sob o signo da embriaguez, para atingir as
trevas do ser, os traumas das relações e os fluxos dos corpos. Sua câmera, no
momento errado (errante?) se colocou no fundo dos olhos desesperados dos que
fogem de sua psiquê. Contemplamos faces. Entre a histeria e seus barbitúricos
se vive esse balé trágico nesta selva escura. Entre a solidão e a relação com o
próximo se constroem essas quimeras: casamentos, filhos, amantes, amor. Entre o
complicado homem John Cassavetes e a não menos complicada sociedade americana
surgiu este vômito bêbado, sincero e catastrófico, digno de revolta e de pena,
fascinante e indigesto. Nasceram obras à eternidade.
utopia
Os maniqueísmos melodramáticos não são do feitio
de John Cassavetes, que filma os dramas que o rodeiam, e muitas vezes com quem
o rodeia. Ator antes de ser cineasta, Cassavetes, diferente dos jovens do
Cinema Novo brasileiro ou da Nouvelle Vague francesa, trilhou, através
principalmente da intuição, do amor à utopia, da amizade e do prazer no ato de
criar, um caminho solitário nos EUA. "Cineasta independente" por excelência,
Cassavetes e sua equipe decidiram aprender fazendo, ao largo da indústria. O
"cinema americano" tal como é conhecido no mundo faz referência à
"Hollywood", o "cinema industrial" por excelência, o cinema
"hegemônico", "convencional", "do
entretenimento", etc... É pouco conhecido porém o "cinema
experimental americano", que notavelmente ocupa o posto de "mais
experimental", e que tem nomes tão fortes quanto Michael Snow, Kenneth
Anger, Maya Deren, Stan Brakhage, Andy Warhol, entre outros.
John Cassavetes nunca se interessou pelas
reduções ao tratar dos conflitos humanos; é preciso tratar a América
igualmente! O herói cassavetiano nunca seria reduzido a um estereótipo, menos
ainda a heroína. Isso porque Cassavetes se interessa mais pela vida que pelos
contos de fadas. Esse conto de fadas de que "o cinema americano é do
mal" poderia até nos proporcionar um prazer estético se bem contado, mas
se falamos historicamente, vamos acordar e analisar o que realmente importa.
improviso
Todo filme narrativo que se utiliza de atores
para encenar egos experimentais em conflitos cênicos num tempo presente
constitui-se indubitavelmente numa arte dramática. Ocorre neste caso um teatro,
encenado para apenas um olho: o da eternidade. Quem compõe o drama é denominado
dramaturgo, quem dirige a cena o "metteur-en-scéne". Cassavetes
ocupava as duas funções, o que não quer dizer que os atores eram rigidamente
controlados o tempo todo. Pelo contrário! Vindo da arte do ator, e extremamente
ligado espiritualmente à liberdade jazzística de uma jam session, o cineasta
americano julgava mais interessante para o seu projeto de filmar pela objetiva
a alma através das relações subjetividades do corpo, um espaço para a
‘improvisação’ - que não passa de um estilo de interpretação. Um grupo de
atores intima e artisticamente ligados, vivendo o teatro como vida e a vida
como teatro, se constitui numa potencial "banda cênica", prontos,
quando solicitados, para uma jam com seus instrumentos afinados e insuflados de
inspiração e experiência. Por vezes a "improvisação" é tida como
sinal de um "rigor frouxo" ou "um lance de dados". Se
configurando porém como parte essencial do processo criativo de artistas como
Jean Renoir e Glauber Rocha esta característica é fato incontornável para compreender
de onde brota toda a emoção dramática dos filmes de John Cassavetes. Percebamos
entretanto que não é o seu único modo de encenação, e - o mais importante! -
não exclui os efeitos atingidos pela montagem, o enquadramento ou os movimento
de câmera e de lente. Um ator que é indicado a agir de forma agressiva dentro
de uma chave de interpretação de um personagem que ele já visitou
espiritualmente com o seu corpo ganhará o seu contorno semântico total,
enquanto cena dentro de um esquema narrativo cinematográfico, a partir apenas
da conjugação desses vários elementos.
Se cinegrafado num plano geral e fixo, um sentido bem diferente de um close com
a câmera na mão. Rigor e vigor - como deve acontecer - são, neste cinema, duas
faces de uma mesma moeda, assim como ator e personagem.
Maridos
O que é ser um homem? O que é ser um homem para
Cassavetes? Acima de tudo é trágico. Trágico, pois a raça é frágil, é vaidosa,
é neurótica, é violenta, é egoísta, é burra, é triste. É feio, o submundo moral
onde se esgueiram os artistas, viciados, agiotas, jogadores, alcoólatras,
maridos, por entre as putas, os chefes, as sogras, os amigos e esposas é acima
de tudo decadente. É horrível, as relações que se criam entre esses filhos da
psicose são patéticas, vulgares, odiosas, insuportavelmente medíocres. O drama
desta sociedade segundo Cassavetes tem conceito: o mal-estar. Nela desfilam
homens grosseiros, mulheres compulsivas, senhores autoritários, senhoras
obsessivas. A histeria e o narcisismo são a tônica, o álcool e o sexo a fuga do
eu (tão complicado). O princípio de prazer negativo no esquivar-se do
desprazer. Traumas, sublimações, neuroses; o mundo mental, que já fora
dissecado por Freud nos sonhos, é agora perscrutado por Cassavetes nos corpos.
Colhe-se a alma, e todos os seus complexos. Decanta-se a dança dos
relacionamentos, e todos os seus fluxos. O diagnóstico é patológico, crônico e
degenerativo.
Ser um homem para Cassavetes? Acima de tudo é mágico. Mágico pois a raça é
forte, fascinante, sedutora, honrada, vigorosa, engraçada, inteligente, doce. É
belíssima a relação que os homens são capazes de criar entre si; o
companheirismo é sagrado, todos sentem isso. E apesar de todos os problemas, de
todas as complicações, de todas as chatices, os defeitos, as decepções, as
traições, o homem pode ter abrigo - acima do colo feminino - no olhar do amigo,
no abraço do parceiro. Uma noite de bebedeira ou uma partida de futebol com
aqueles do peito pode curar várias doenças, ressuscitar o prazer pela vida.
Apostar uma corrida, se esbofetear, disparar tiros, entornar cachaças,
gargalhar, é desses ritos inúteis que se constitui esse sentimento precioso e
inefável que só os homens conseguem estabelecer.
Maridos (1970) - comédia humana sobre a vida, a morte, a liberdade, a
paternidade, o casamento e a responsabilidade - é uma dessas odes ao homem e o
seu poder emocional oceânico (tão fascinante quanto catastrófico, tão
apaixonante quanto repugnante). O único “hang out marcha fúnebre” da História
do Cinema, este filme, como a maioria dos filmes de John Cassavetes, é uma obra
única, diamante da originalidade criativa. É o testemunho de um estilo
artístico e de um universo ficcional.
Como expressar – para este homem cassavetiano -
o amor presente na dor da perda de um parceiro com um momento de silêncio
institucionalizado no funeral da sociedade? Não! Eram precisos três dias! Três
dias na sarjeta da mais pura catarse!
O que se tornaram afinal aqueles homens? O que
significa dentro deles assumir o papel social que assumem? Maridos, pais,
trabalhadores, adultos... em breve defuntos burocraticamente enterrados. Como
lidar com o espelho do patético fim? Com a potência da juventude esmaecida
pelas rugas do cotidiano? Como agir quando escancarada a farsa? Quando perdida
a batalha para o tempo?
Quando penso na cena cassavetiana por excelência me vem a imagem da mesa de
jantar, muito álcool e a perdida tradição das canções cantadas à palo seco
contaminando os presentes a plenos pulmões. Cena presente em outros filmes de
sua carreira, nesta obra ganha contornos metalinguísticos inegáveis. Como uma
audição, os diversos povos imigrantes que constituem a América vão cantando as
tradicionais músicas do velho e do novo continente. “I dream of Jeanie with the
light brown hair...”, canta uma jovem, e nos remete à Faces, à Gena Rowlands,
presente no filme aí, exatamente nesse momento de lembrança, o próprio John se
emociona e beija-a na boca. Gena estará presente também nas fotos do passado
que iniciam o filme, do outro lado da linha quando Gus falar com “sua esposa”
pelo telefone público e no último plano, dentro da casa e fora do quadro,
quando seus filhos chamam-na para presenciar o retorno do pai pródigo. A cena
do bar se estende nessa espécie de audição com Gus, Archie e Harry dirigindo
estas pessoas, buscando as interpretações verdadeiras nas músicas escolhidas
por elas e na embriaguez das emoções que devem ser suscitadas. Não podemos nos
esquecer que, acima de tudo, o poder de Maridos é sobre a paixão entre John
Cassavetes, Peter Falk e Ben Gazarra.
É também uma obra ímpar acerca do poder expressivo de uma ausência presente:
seja no quarto mosqueteiro que é a causa de tudo; na nostalgia do passado e na
utopia do futuro, tão presentes quanto o presente; nas elipses entre
sequências, radicalmente experimentadas em cortes sempre impressionantes; e
principalmente no fora-de-quadro, elemento que ganha um status de “ritmo da
essência”, como se sem ele o filme não balbuciasse nada. Em nenhum outro filme
o “plano de conjunto” foi tão expressivo. Povoado e despovoado, rasgado,
sufocado pela tríade que, pagando o seu luto, erra pelo intervalo que a morte
de um parceiro desencadeou, este espaço - às vezes escuro no fundo de um
boteco, às vezes claro nas ruas de Nova York, às vezes claro-escuro na solidão
de um metrô ou uma de quadra vazia - é onde o drama vomita-se.
Cassavetes, com sua câmera e seus atores
desvelou-se e desvelou-os acima de tudo, para compreender o cinema, a
sociedade, e a vida. Só um desgraçado pode amar de forma pura, por momentos. A
vida é uma festa encruzilhada à sua ressaca, vamos vivê-la juntos. Evoé
Cassavetes, e viva o cinema, que nos ensina sobre a liberdade, a vida e a
morte.
Mateus Moura
(Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema -2011)