domingo, 12 de junho de 2016
Jacques Tourneur ou um dos mais subestimados e esquecidos cineastas de que há memória.
Jacques Tourneur ou um dos mais subestimados e esquecidos cineastas de que há memória. Desde logo porque um dos seus essenciais estetas, que ainda por cima trabalhou com orçamentos baixíssimos, na América, em diversos gêneros, mas tocando muitas das vezes em temas negríssimos, e ao lado, dos seus comparsas nesse mítico período. Para demonstrar a sua importância e a sua audácia posso dizer que é, para mim, um dos únicos – o único – que ousou aproximar-se do universo e da estética de um cineasta tão imenso e absolutamente singular como Georges Franju. Bruxarias, maldições, cultos, zombies e demónios de qualquer espécie. Um domínio da luz e das trevas (e da luz das trevas), dos sons e da temeridade, que nos casos mais vertiginosos – “I Walked With a Zombie” ou “Night of the Demon”, que acabo de ver – atingem altitudes semelhantes às de um Mizoguchi, do Mankiewicz de “The Ghost and Mrs. Muir” ou “Night of the Hunter”, a obra única de Charles Laughton. Bem como um desafio à crença muito mais abissal do que os celebres solilóquios pseudo metafísicos de Tarkovsky.
"Mizo", Franju, Laughton, é desse lado esotérico e desmesuradamente ascético que fluem e se moldam as imagens e os sons de Tourneur. Poucos perceberam tamanho legado. Se hoje em dia o cineasta que mais cita Tourneur é Pedro Costa, isso é tão justo como lógico. O trabalho artesanal sobre a luz e o som, o tal respeito/compreensão total pela realidade antes e ao invés de a submeter a qualquer fascização formal, o dar tempo ao tempo e espaço ao espaço, uma moral e um principio – ideias – fortíssimas sobre o trabalho de pôr em cena.
Tanta coisa para uma dúvida que tenho: já nem pergunto porque é que só um ou dois cineastas, hoje em dia, trabalham com tais pressupostos, mas – porque é que já não se fazem filmes que tematicamente e em termos de ambientes se aproximem dos filmes-zombie de Tourneur? Porque é que hoje em dia, quando se ousa traçar tais tangentes, ou se provoca riso e se cai no ridículo, ou simplesmente tudo é plastificado e estupidificado por horríveis efeitos especiais ditos “modernos”? Porque é que já não se ousa assim?
José Oliveira
Publicado em http://raging-b.blogspot.com.br/2008/10/jacques-tourneur-ou-um-dos-mais.html
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Cineclube da Cinemateca: "A Morta-Viva” de Jacques Tourneur
Neste domingo, dia 12, o Cineclube da Cinemateca exibe "A Morta-Viva", dando continuidade ao ciclo Os Filmes de Horror de Jacques Tourneur que contará ainda com "O Homem-Leopardo" (dia 19) e "A Noite do Demônio" (dia 26). Sempre com entrada franca!
Cineclube da Cinemateca apresenta:
"A Morta-Viva” de Jacques Tourneur
Quando a jovem e séria enfermeira Betsy (Frances Dee) chega à ilha para cuidar da doente Jessica (Christine Gordon), ela encontra-se inesperadamente no meio de um triângulo amoroso entre Jessica, o seu marido Paul Holland (Tom Conway), e o meio-irmão Wesley (James Ellison). Há aqui um passado misterioso, uma sugestão de traição e amor ilícito que imediatamente precede a descida súbita de Jessica a uma condição quase de comatose. O filme não só conta uma história, como sugere ainda outra, traçando os contornos de um conto que reside sobretudo no passado, as suas partes mais importantes já foram contadas.
Serviço:
12 de junho (domingo)
às 16h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
Serviço:
12 de junho (domingo)
às 16h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
domingo, 5 de junho de 2016
Cat People, Tourneur
Antes
de tudo, não esquecer que se trata aqui de um filme essencial, não apenas na
carreira de seus dois principais artesãos (o produtor Val Lewton e o realizador
Jacques Tourneur), na história do gênero fantástico mas também e sobretudo na
evolução do cinema como um todo. Borges consagrou um de seus estudos, “O pudor
da História”, a mostrar que as datas mais importantes da história não são
forçosamente as mais espetaculares. “Veio-me a suspeita, escreve ele, que a
história, a verdadeira história, é mais pudica, e que as datas essenciais podem
também permanecer por longo tempo secretas”. Se isto é verdadeiro em relação à
história política e social, o é ainda mais em se tratando da estética. Cat people representa no cinema uma
destas datas essenciais e secretas. A gênese do filme é demasiado conhecida, já
que Jacques Tourneur e o roteirista DeWitt Bodeen a contaram (respectivamente,
em Présence du Cinema número 22-23 e
Films in Review, 1963) e que Joel Siegel, em seu notável Val Lewton. The Reality of Terror, recolheu os testemunhos mais
próximos do produtor. Charles Koerner , o novo responsável pela RKO, pede a Val
Lewton para realizar um filme a partir do título Cat people, que lhe parece suficientemente excitante e atrativo.
Ele julga que os monstros do pré-guerra ( vampiros, lobisomens) já tiveram sua
época e que é preciso buscar alguma coisa nova e insólita.
Val Lewton encomenda o roteiro a DeWitt e a direção a Tourneur. Mas a história propriamente será pensada a três. Val Lewton tinha primeiro pensado em adaptar uma novela de Algernon Blackwood, depois decide contar uma história contemporânea, inspirada de uma série de desenhos de moda franceses que mostravam modelos carregados por manequins com cabeças de gatos. Cada um dos três autores trará sua pedra à construção do filme e, por exemplo, a cena da piscina será suscitada por uma lembrança de Tourneur, que quase tinha se afogado, sozinho numa piscina. Lewton aprecia particularmente estes momentos de angústia, como na cena em que Alicem se sente perseguida por uma presença invisível. Tudo passará, no estágio da escritura do roteiro como na realização, pela sugestão, pela sábia progressão das cenas que exprimem o terror e a violência sem que elas jamais sejam totalmente representadas na tela. Os paroxismos serão obtidos por uma certa doçura insidiosa e paradoxal do estilo, que se põe a seguir de muito perto os personagens e os mergulha em uma atmosfera cada vez mais irrespirável, atmosfera esta que o espectador é levado a partilhar com eles, embora esta não provenha de nenhum elemento horrífico concreto.
Val Lewton encomenda o roteiro a DeWitt e a direção a Tourneur. Mas a história propriamente será pensada a três. Val Lewton tinha primeiro pensado em adaptar uma novela de Algernon Blackwood, depois decide contar uma história contemporânea, inspirada de uma série de desenhos de moda franceses que mostravam modelos carregados por manequins com cabeças de gatos. Cada um dos três autores trará sua pedra à construção do filme e, por exemplo, a cena da piscina será suscitada por uma lembrança de Tourneur, que quase tinha se afogado, sozinho numa piscina. Lewton aprecia particularmente estes momentos de angústia, como na cena em que Alicem se sente perseguida por uma presença invisível. Tudo passará, no estágio da escritura do roteiro como na realização, pela sugestão, pela sábia progressão das cenas que exprimem o terror e a violência sem que elas jamais sejam totalmente representadas na tela. Os paroxismos serão obtidos por uma certa doçura insidiosa e paradoxal do estilo, que se põe a seguir de muito perto os personagens e os mergulha em uma atmosfera cada vez mais irrespirável, atmosfera esta que o espectador é levado a partilhar com eles, embora esta não provenha de nenhum elemento horrífico concreto.
Rodado
em 21 dias e ao custo de um orçamento bem modesto de 130.000 dólares, Cat people será o primeiro de uma série
de quatorze filmes produzidos por Lewton (dos quais 11 para a RKO) e, na
carreira de Tourneur, o primeiro no qual ele se tornou verdadeiramente ele
mesmo, graças à influência ultra-criativa de seu produtor, Lewton. Este o
inicia, disse Tourneur, em uma “poesia da qual ele tinha muita necessidade” (vide
sua entrevista televisionada para FR3 por Jean Ricaud e Jacques Manley, maio
1977).
Uma
vez terminado, o filme foi muito pouco apreciado pelos chefões da RKO, e vai
sair como “tapa buraco” no Hawai Cinema de Los Angeles, que tinha acabado de
terminar sua exibição de Cidadão Kane. Cat
people teve mais sucesso que seu ilustre predecessor, e seu triunfo tirou
da lama a RKO em 1941, ano muito difícil para a empresa.
Cat people permitiu a Val Lewton produzir entre
1942 e 1946, sempre com orçamentos muito reduzidos que lhe asseguraram uma
total liberdade de concepção e execução, um dos mais extraordinários conjuntos
de filmes fantásticos do cinema hollywoodiano (dentre os quais se destacam
particularmente o sublime A sétima vítima e Bedlam, que fecha a série). Cat people lança também a verdadeira
carreira de Tourneur, que dará em seguida na mesma linha duas obras ainda mais
perfeitas (I Walked with a Zombie e Leopard Man), antes de impor um olhar
extremamente inovador sobre os outros gêneros hollywoodianos que ele ilustra.
Com
o passar dos anos, mais a contribuição do filme parece incalculável. Com ele, o
fantástico- que nunca será como antes- descobre que pode retirar sua máxima
eficácia da discrição, que pode inventar novos meios de empolgar o espectador
dirigindo-se à sua imaginação. A riqueza do trabalho sobre a luz sobretudo vai
contribuir para interiorizar o conteúdo do filme nos personagens e a provocar
uma identificação mais sutil e marcante do espectador com os personagens. É aí
que, de forma pudica, se situa a revolução radical do filme. Pode-se resumi-la
com uma única palavra: é a revolução do intimismo. Ela delineia, por assim
dizer, uma linha de fratura entre o cinema do pré-guerra e o cinema moderno. O
que o cinema vai ganhar é uma maior proximidade, uma maior intimidade- que se
poderia quase qualificar de psíquica- do espectador com os personagens,
explorados nas profundidades de seus medos, suas angústias, seu inconsciente.
Esta contribuição não é contraditória - longe disso - com o neo-realismo , que
vai chegar igualmente, ao menos em Rossellini, a intensificar a intimidade do
espectador, sob o plano social e em seguida espiritual, com os personagens.
O
recuo agora é suficiente para que Cat
people e os primeiros filmes de Rossellini depois da guerra apareçam, um
secreta e subterraneamente,os outros de maneira espetacular e talvez um tanto
quanto tonitruante, como os filmes mais fecundos destes últimos cinqüenta anos.
O caso de Cat people é particularmente
estranho, uma vez que ele nos leva a privar de mais intimidade com uma
personagem (aquela de Simone Simon) que não pode ser íntima de ninguém. Sua
maldição está de tal maneira engastada na profundidade de seu ser que apenas
uma investigação aprofundada pode permitir entrevê-la. Antes desse filme, o
cinema era um espelho mais ou menos fiel, atravessado ao longo do caminho. A
partir de Cat people, ele tende a se
tornar este instrumento de mergulho que penetra no mais profundo dos
personagens como em um poço. Durante os anos que se seguiram, o filme noir vai
reforçar esta evolução, colocando a seu serviço, sob uma forma atual e
contemporânea, as aquisições distantes do expressionismo, casadas à uma
descoberta recente e com freqüência rudimentar da psicanálise. Ponto de partida
da obra real de Tourneur, Cat people
estabelece o que será o credo dessa obra e seu modo de abordagem da realidade.
Toda realidade é da ordem do mistério, do estranho e do inefável. É preciso
apreendê-la do interior, pela sugestão e pela imaginação. O olhar que penetra
mais profundamente nela tem todas as possibilidades de ser o olhar de um
estrangeiro, e Tourneur vai permanecer na América um dos cineastas mais
estrangeiros a este país, aberto a uma contínua surpresa, a uma engenhosa e
total engenhosidade. Elas vão fazer dele o pioneiro secreto, um explorador
radical de vários territórios diante (e antes) do mundo.
Nota:
a filmagem de Cat people é evocada
sob forma de referência nos primeiro dos três flash-backs que constituem a trama
de Assim estava escrito, filme demasiado brilhante mas um tanto convencional
que queria ser para Hollywood o que A malvada de Mankiewicz foi para a
Broadway. O personagem do produtor Jonathan Shields (Kirk Douglas), arrivista e
perfeccionista, não tem quase nada a ver com Val Lewton, e se assemelha muito
mais a David Selznick. No entanto, é este personagem que decide que será
preciso criar a atmosfera fantástica pela sugestão, pela discrição, a
obscuridade e mostrando o menos possível. Uma continuação bem distanciada foi
dada a Cat people em The Curse of the Cat People (saído na
França em 1971), com uma parte dos atores e personagens de Cat People. O filme é um conto de fadas, aliás muito bem realizado,
que tem mais a ver com o maravilhoso do que com o horror. Ele foi começado por
Gunther Von Fritsch e terminado por Robert Wise, que assina aí, como
co-realizador, seu primeiro trabalho de direção. Remake homônimo de Cat people sem nenhuma magia por Paul
Schrader (1982) com Nastassja Kinski.
Jacques Lourcelles
(Traduzido por Luís Soares Júnior e republicado em http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2009/01/cat-people-tourneur.html)
sábado, 4 de junho de 2016
Cine FAP: Os Companheiros, de Mario Monicelli
Em plena efervescência da Revolução Industrial em solo italiano, os
operários de uma grande fábrica têxtil são submetidos a jornadas de
trabalho desumanas. Muitos são os acidentes de trabalho, que resultam
num elevado índice de inválidos e muito sofrimento e insatisfação entre
os operários. No centro destes acontecimentos, chega à cidade o
professor Sinigaglia, um intelectual socialista que percorria a Itália
espalhando o seu sonho de conscientização política e mobilização dos
trabalhadores. A partir de seu encontro com os operários e da difusão de
seus ideais, os trabalhadores voltam a acreditar e lutar por seus
direitos, ainda que isso possa significar um alto preço a ser pago.
Em junho, o Cine FAP apresenta o ciclo Cinema Político Italiano, que contará também com Nós que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola (20/06), Pai Patrão, dos irmãos Taviani (27/06), e se estenderá com mais três filmes em julho.
Toda segunda, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.
Sessão:
Os Companheiros (I Compagni, Itália, 1963)
dia 06/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
Realização: Cine FAP
Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão
Coletivo Atalante
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Cineclube da Cinemateca: "Sangue de Pantera” de Jacques Tourneur
Neste domingo, dia 5, o Cineclube da Cinemateca exibe "Sangue de Pantera", abrindo o ciclo Os Filmes de Horror de Jacques Tourneur que contará ainda com "A Morta-Viva" (dia 12), "O Homem-Leopardo" (dia 19) e "A Noite do Demônio" (dia 26). Sempre com entrada franca!
Cineclube da Cinemateca apresenta:
"Sangue de Pantera” de Jacques Tourneur
Serviço:
5 de junho (domingo)
às 16h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Jacques Tourneur em junho na Cinemateca
Cineclube da Cinemateca: Os filmes de horror de Jacques Tourneur
Famoso por alguns clássicos de terror da década de 1940, realizou obras importantes em diversos outros gêneros, incluindo policiais, noir, aventuras de pirata, melodramas e faroestes. Voltou ao terror em 1958, e seu último filme para o cinema é uma comédia macabra, com um elenco de antigos astros do terror.
05/06: Sangue de Pantera
(Cat People, 1942/EUA – 73 min)
Bela jovem que sofre constantes alucinações com felinos descobre ser descendente de um grupo de mulheres-pantera à beira da extinção. Seu lado monstruoso começa a ficar mais saliente quando entra em contato com fortes emoções, colocando em risco o casamento e a vida das pessoas que a cercam.
12/06: A Morta-Viva
(I Walked with a Zombie, 1943/EUA – 68 min)
Jovem enfermeira canadense (Betsy) viaja para as Antilhas para cuidar de Jessica, esposa de um importante administrador de plantações (Paul Holland). A mulher parece sofrer de um tipo de paralisia mental provocado por uma febre muito alta. Enquanto cumpre com suas obrigações profissionais, Betsy acaba se apaixonando pelo patrão - e parece ser correspondida. Mas o dilema da enfermeira a leva a participar de uma cerimônia de magia negra com a finalidade de oferecer a Paul aquilo que ela acha que o homem realmente necessita.
19/06: O Homem-Leopardo
(Excepcionalmente às 14h)
(The Leopard Man, 1943/EUA – 66 min)
Kiki Walker, atriz de um clube noturno, resolve entrar no palco com um leopardo negro, parte de uma jogada publicitária idealizada por Jerry Manning, para impressionar todos os ali presentes. Assustado por sua rival de palco, Clo-Clo, o leopardo escapa da coleira e foge para o centro da cidade, espalhando o pânico e a histeria pelo Novo México.
26/06: A Noite do Demômio
(Night of the Demon, 1957/EUA – 95 min)
Em Night of the Demon acompanhamos um psiquiatra renomado, Dr. Holden, que se envolve numa trama de assassinato e misticismo colocando em dúvida suas posturas contrárias a superstições, cultos e fenômenos sobrenaturais.
Serviço:
Sessões aos domingos
às 16h (Execepcionalmente, no dia 19, a sessão será realizada às 14h)
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
Marcadores:
A Morta-Viva,
A Noite do Demônio,
Cineclube da Cinemateca,
Cinemateca de Curitiba,
Filmes de Horror,
Jacques Tourneur,
O Homem-Leopardo,
Sangue de Pantera
domingo, 29 de maio de 2016
A MALDIÇÃO DE CIMINO
por Miguel Marías
O Franco Atirador recebeu um punhado de Óscares, teve um enorme êxito de público e, em uma época em que se discutiam essas coisas, suscitou na Europa grandes polêmicas ideológicas. Em 1980, Michael Cimino rodou um ambicioso e anômalo western histórico, O Portal do Paraíso, mas ultrapassou o orçamento previsto e pôs a sua produtora à beira da falência: aqueles que lhe deram carta branca acabaram perdendo seus empregos, e toda a Hollywood, com seu aparato propagandístico, decidiu pulverizá-lo, além de retalhar o filme. Hoje, mesmo que O Portal do Paraíso circule com a sua montagem original restaurada, ainda mais longa e mais complexa, e que muitos de nós a tomemos, junto da anterior, por uma das poucas obras-primas do cinema americano das últimas décadas, isto não serviu para que a carreira de Cimino voltasse à normalidade. Realiza o que pode, quando lhe deixam. Agora nos chega, com meio ano de atraso, sua última obra, Na Trilha do Sol, e apesar de ser a primeira nos últimos seis anos, ninguém deu muita atenção.
Para mim, é o terceiro maior filme de Cimino, mesmo que - ao modo de La buena estrella de Ricardo Franco, com o qual vejo estranhos paralelismos - não seja “a priori” nem promissor nem apreciável; por isso, como não explora a história nem deprecia seus personagens, como não conta com atores famosos (ainda que Woody Harrelson e Jon Seda estejam esplêndidos) nem se dedica a chamar a atenção, ninguém se incomoda em ir vê-lo. A meu ver, perdem um dos filmes do ano, de cujo roteiro deveriam aprender vários desses “jovens gênios” do cinema espanhol, inflados somente de ar, que tentam se impor na base da publicidade à americana. Poucas vezes vi um filme com menos elementos de partida, aos quais o diretor vai-se centrando mais e mais à medida em que avança a ação, despojando-se de todo o excesso, para nos dizer ou sugerir, ao modo de quem não quer nada, um bocado de coisas e desvelando a verdadeira forma de ser dos personagens, que não são aquilo que nos pareciam ser à primeira vista, nem se consideram mutuamente, até ficar tão-somente com o tempo, a paisagem e a emoção. Cimino segue parecendo-me o único herdeiro de Ford deste atual cinema americano. Talvez por isso não lhe queiram.
Para mim, é o terceiro maior filme de Cimino, mesmo que - ao modo de La buena estrella de Ricardo Franco, com o qual vejo estranhos paralelismos - não seja “a priori” nem promissor nem apreciável; por isso, como não explora a história nem deprecia seus personagens, como não conta com atores famosos (ainda que Woody Harrelson e Jon Seda estejam esplêndidos) nem se dedica a chamar a atenção, ninguém se incomoda em ir vê-lo. A meu ver, perdem um dos filmes do ano, de cujo roteiro deveriam aprender vários desses “jovens gênios” do cinema espanhol, inflados somente de ar, que tentam se impor na base da publicidade à americana. Poucas vezes vi um filme com menos elementos de partida, aos quais o diretor vai-se centrando mais e mais à medida em que avança a ação, despojando-se de todo o excesso, para nos dizer ou sugerir, ao modo de quem não quer nada, um bocado de coisas e desvelando a verdadeira forma de ser dos personagens, que não são aquilo que nos pareciam ser à primeira vista, nem se consideram mutuamente, até ficar tão-somente com o tempo, a paisagem e a emoção. Cimino segue parecendo-me o único herdeiro de Ford deste atual cinema americano. Talvez por isso não lhe queiram.
(23 de junho de 1997. Traduzido por Felipe Medeiros e extraído de http://focorevistadecinema.com.br/FOCO2/marias-maldicao.htm)
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