terça-feira, 2 de agosto de 2016

Cineclube da Cinemateca apresenta:

                 Eduardo Coutinho, cineasta brasileiro

Um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro. Prefere a companhia dos homens comuns, das histórias miúdas onde se esconde a essência da humanidade.

Obs: Todos os filmes têm a classificação indicativa 14 anos.

07/08: Cabra Marcado para Morrer














(1984/BR – 119 min.)
Início da década de 60. Um líder camponês, João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos própios camponeses, foram interrompidas pelo golpe militar de 1964. Dezessete anos depois, o diretor retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos, espalhados pela onda de repressão que seguiu ao episódio do assassinato. O tema principal do filme passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.

14/08: Edifício Master
(2002/BR – 110 min.)
Durante sete dias, uma equipe de cinema filmou o cotidiano dos moradores do Edifício Master, situado em Copacabana, a um quarteirão da praia. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar. Ao todo são 276 apartamentos conjugados, onde moram cerca de 500 pessoas. Eduardo Coutinho e sua equipe entrevistaram 37 moradores e conseguiram extrair histórias íntimas e reveladoras de suas vidas.

21/08: O Fim e o Princípio













(2006/BR – 110 min.)
Sem pesquisa prévia, sem personagens, locações nem temas definidos, uma equipe de cinema chega ao sertão da Paraíba em busca de pessoas que tenham histórias para contar. No município de São João do Rio do Peixe a equipe descobre o Sítio Araçás, uma comunidade rural onde vivem 86 famílias, a maioria ligada por laços de parentesco. Graças à mediação de uma jovem de Araçás, os moradores - na maioria idosos - contam sua vida, marcada pelo catolicismo popular, pela hierarquia, pelo senso de família e de honra.

28/08: Jogo de Cena













(2007/BR – 105 min.)
Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio. Em junho de 2006, vinte e três delas foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas. O que está em discussão é o caráter da representação. Neste filme, o jogo a ser jogado inclui pelo menos três camadas de representação: primeiro, personagens reais falam de sua própria vida; segundo, estas personagens se tornam modelos a desafiar atrizes; e, por fim, algumas atrizes jogam o jogo de falar de sua vida real.
Serviço:
Sessões aos domingos
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

domingo, 31 de julho de 2016

Viver e morrer em Los Angeles

  

O que William Friedkin, expert em corridas de carro (Operação França, 1971) e especialista em efeitos visuais (O Exorcista, 1973), faz em companhia de cineastas que nós celebramos aqui há alguns dias, Vincente Minnelli, Kenji Mizoguchi, John Ford? A resposta resume-se a três palavras. É um clássico. Um pequeno clássico, mas ainda assim um clássico. Formado pela lei tecnicista da televisão (entre 17 e 27 anos, ele assina centenas de documentários, de telefilmes, de emissões escolares), o ex-sr. Jeanne Moureau pode se deixar levar por uma valsa se o roteiro tem senso de ritmo. E o pouco que podemos dizer é que Viver e Morrer em Los Angeles balanceia como os filmes não sabem mais fazer há muito tempo.                                                                                                                                                                                                                      
Passaram-se uma quinzena de anos entre o sucesso comercial de O Exorcista e de Operação França, e esse thriller muito pessoal. Mais habituado à encomenda e ao cinema multi-estilístico, o próprio Friedkin adapta o universo bastante Jim Thompson do romance de Gerald Pitievich. O resultado é um filme estranho e desestruturado, quase desarticulado, do qual o belo título americano exprime bem o pessimismo. A partir de um argumento clássico, uma história contada cem vezes (dois jovens policiais decidem vingar o seu chefe, baleado a alguns dias de sua aposentadoria), Viver e Morrer em Los Angeles embarca o espectador em uma corrida mortal, uma corrida em pleno dia e em cores em que a luminosidade contrasta com a escuridão. Sem desvendar a arritmia do filme, nós diremos que ele reedita em um tom menor, deslocando-o para o meio da intriga, o terrível basculamento inaugural de Os Corruptos (The Big Heat), obra-prima ultra-noir de Fritz Lang (nós podemos encontrá-la ainda em DVD zona 1 por menos de 20 euros). É o tipo de roteiro no qual Mel Gibson e Bruce Willis se aventuram em vão em versões insípidas. Os atores levam a história sobre seus ombros como uma cruz: Willem Dafoe, certamente, mas acima de tudo o estranho William L. Petersen cujos olhos azuis furam a tela de tanta incandescência. Bertrand Travernier escreve em Cinquenta Anos de Cinema Americano que Friedkin “não pôde se decidir em tornar o personagem desagradável, nem em adotar o ponto de vista (dramático ou moral) que uma tal opção pedia”. É preciso muito talento para conseguir fazer isso. É todo o mal que desejamos à Tavernier.                                                                

Louis Skorecki        

Police fédérale, Los Angeles RTL9, 22 h 35.   

Publicado no jornal Libération, 06/02/2002.    

Tradução: Letícia Weber Jarek

sábado, 30 de julho de 2016

Cine FAP: O Último Golpe, de Michael Cimino


O Cine FAP volta de suas breves férias com homenagem ao realizador Michael Cimino, que faleceu recentemente, exibindo seu primeiro filme, Thunderbolt and Lightfoot (O Último Golpe, 1974), com Jeff Bridges e Clint Eastwood.

Nossas outras quatro sessões de agosto serão dedicadas à Comédia Americana Contemporânea, com Metropolitan, de Whit Stillman (08/08); O Casamento do meu melhor amigo, de P.J. Hogan (15/08); Férias Frustradas de Verão, de Greg Mottola (22/08); e Como você sabe, de James L. Brooks (29/08). Em setembro, nosso ciclo será dedicado ao cinema de Abbas Kiarostami.


Sobre O Último Golpe:
Thunderbolt (Clint Eastwood), parece um pastor de igreja mas é, na verdade, um veterano assaltante que, sete anos atrás, realizou um ousado roubo à banco. Quando seu disfarce é descoberto por seus antigos comparsas, que acreditam que ele os havia traído, o homem foge pelo interior dos Estados Unidos. Seu caminho cruza com o do jovem bandido Lightfoot (Jeff Bridges), que o ajuda e o segue na fuga. Mas os dois são capturados por seus perseguidores. Então Lightfoot faz uma proposta radical: repetir o antigo golpe, assaltando o mesmo banco do roubo original.


Toda segunda-feira, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
O Último Golpe (Thunderbolt and Lightfoot, EUA, 1974
, 115 min.)
dia 01/08 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA


Realização: Cine FAP

Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão
Coletivo Atalante


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Cineclube da Cinemateca: "Viver e Morrer em Los Angeles” de William Friedkin

Neste domingo, dia 31, às 16h, o Cineclube da Cinemateca exibe "Viver e Morrer em Los Angeles", encerrando o ciclo William Friedkin. Em agosto, estudaremos a obra de Eduardo Coutinho. Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"Viver e Morrer em Los Angeles” de William Friedkin

William l. Petersen  e Willem Dafoe enfrentam-se em um mortal jogo de gato e rato neste suspense cheio de ação do diretor William Fredkin vencedor do Oscar com "Conexão França". Esta história impiedosa de corrupção e vingança apresenta uma das mais audaciosas caçadas de carros já apresentadas no cinema e um final chocante e explosivo. O agente federal Richard Chance (Petersen) têm contas a acertar, e está cansado de jogar de acordo com as regras. Mesmo que para isso tenha que chantagear uma bela garota, desobedecer as ordens diretas ou andar na contramão em uma movimentada estrada, ele jura que, custe o que custar, irá agarrar um assassino (Dafoe). Mas à medida que as coisas ficam mais sérias, será que a vingança de Chance pode acabar destruindo a ele mesmo?

Serviço:
31 de julho (domingo)
às 16h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cineclube da Cinemateca: "Parceiros da Noite” de William Friedkin

Neste sábado, dia 23, às 16h, o Cineclube da Cinemateca exibe "Parceiros da Noite", dando continuidade ao ciclo William Friedkin que contará ainda com "Viver e Morrer em Los Angeles" (dia 31). Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"Parceiros da Noite” de William Friedkin




















Jovem policial (Al Pacino) é designado para investigar um caso de violentos homicídios contra homossexuais. Disfarçado, ele se infiltra num universo que lhe é completamente estranho, repleto de sexualidade e sadismo. Na busca pelo serial killer, passa a questionar seus próprios valores, seus desejos íntimos e se depara com uma assombrosa realidade.


Serviço:
23 de julho (sábado)
às 16h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

domingo, 17 de julho de 2016

O Caminho da Última Vez

O primeiro mandamento da poesia épica diz: “... e Todos os caminhos levarão ao Fim.” Homero, Raoul Walsh e tudo o que se aparenta a eles, que se encontra entre eles. Mais precisamente: aqueles que viram os convalescidos se reerguerem (como, por exemplo, Meryl Streep em O Franco Atirador, levantando-se após ser espancada pelo pai bêbado, agarrando-se a um guarda-roupa repleto de livros no seu teto e erguendo-se em um gesto análogo ao de Mickey Rourke no final de O Ano do Dragão), os heróis caírem (mesmo quando essa queda acaba por confundir, como nos filmes de John Milius e Sam Peckinpah, o heroísmo à injustiça, a glória à vergonha, o sangue à lama), as mulheres lutarem (e, aqui, nenhuma ambiguidade: as mulheres dos filmes de Monte Hellman, sem dúvida, o que desta matéria vimos de mais revelador e tocante no cinema). Poetas (porque dão sentido às coisas através daquilo que toca verdadeiramente a poesia: a descrição lírica dos elementos que, sem deixar de fazer parte dela, transcendem a realidade contingente) e épicos (se entendermos que, como Virgílio e Camões, Fernando Pessoa e James Joyce também foram grandes pintores de epopeias, criadores de mundos).  

O cansaço que o xerife Marlon Brando carrega nos ombros caídos e os jatos de hemoglobina das jornadas peckinpahnianas manifestam o mesmo incômodo, apontam o mesmo limite, algo como o fôlego dos últimos passos quando se sabe que se está próximo do fim do caminho: a película que se inflama com a imagem da estrada se estendendo no horizonte, em um filme, Two-Lane Blacktop, que oportunamente teve, aqui no Brasil, o título de Corrida Sem Fim.    
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Cruzar a linha de chegada. É disto que se trata. O fim da linha.    

As travessias, as grandes migrações, os comboios; cruzar de carroça um novo país (uma miragem); lutar contra os índios por um pedaço de terra e, mais tarde, contra o próprio vizinho (sujar-se); finalmente, plantar-se em um lugar, construir um casebre no meio do deserto, recostar-se sobre uma cadeira de balanço, balançar essa cadeira, e ter, agora, tempo para contemplar as coisas, para compreendê-las (o que se fez, o que não se pôde fazer, o que resta a ser feito); eventualmente alcançar a visão total (amadurecer); ver uma cidade sendo construída lá onde não havia nenhuma, lá onde só havia pó, e mais tarde ver uma delegacia sendo instalada nesta cidade, seguida de um banco, seguido de uma escola, seguida de novos habitantes... (cada vez mais numerosos); procurar outros lugares, perder-se, dever ao banco, fugir da polícia; ver as escolas, os bancos, as delegacias virando pó novamente, e com isso tentar começar tudo de novo (impossível). Resta, ao fim e a cabo, nada além disto: um homem, com roupas batidas, em um carro cheio de peças de reposição, trocando as peças mas mantendo o carro, tendo em vista um horizonte já desbravado.      

Nas obras de todos os cineastas que, de Edwin S. Porter na Michael Cimino, participaram na descrição dessa epopeia (a qual, como vimos acima, transformar-se-á lentamente em epitáfio), não existe algo como uma linha tênue que opõe em um esquema binário (apogeu/queda) as duas pontas dessa grande narrativa que funda o que de mais frutífero e de mais longevo se produziu no cinema americano. Nenhum maniqueísmo, e por uma razão tão lógica como simples: nenhuma fraqueza de mcaráter nesses cineastas, nenhuma hesitação formal nos seus trabalhos, nenhum abatimento no gesto de enraizamento que os permitiu, anos mais tarde, incidir o olhar mais penetrante sobre o homem e a terra. Sem desculpas e sem arrependimentos: eis o lema do grande cinema americano, ao qual cada cineasta, cada participante (atores, produtores, roteiristas, técnicos, público) contribui com o seu quinhão.           

Os sonhos de prosperidade dos que vieram se instalar no novo mundo e o desejo de serenidade daqueles que de fato se instalaram nele cedem lugar, nessa história, à deterioração desses sonhos, desse desejo e desse mundo, e o que os nossos cineastas americanos extraíram, o que nos narraram disso tudo foi, como bem se sabe, a ação. Devido à sua densidade (a massa de componentes, fatores e variáveis que entram na sua composição), sua ambivalência (o exame metódico de todos os elementos sociais, econômicos e geográficos que determinam as vidas dos que por lá se estabeleceram; todas as matizes, todas as riquezas exploradas), sua violência intrínseca (sua intensidade), seus discursos serão necessariamente os mais opacos, por mais que a forma adotada seja a da transparência, a da nitidez, a da simplicidade (D. W. Griffith, Thomas H. Ince).  

O que faz, no que acarreta esta tão falada transparência do famoso classicismo americano?  
Ela faz com que as contradições, os conflitos, as divergências se tornem ainda mais distintas e suas consequências ainda mais evidentes (e, como já sabemos, é a evidência que prova o gênio nesse cinema).   
É aqui que uma linha precisa ser traçada. É aqui que um limite começa a ser avistado.
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Do motor que tosse antes de arrancar (Hellman), da entropia (Peckinpah), da rarefação (Milius, Cimino) ou do desmoronamento (Penn), é uma nova imagem que se descortina, uma nova maneira de se descrever os frutos das expedições que plantaram no solo americano uma nação. No próprio início de sua narrativa fundadora o cinema americano já lidava – sob a forma de grande espetáculo e, de um ponto de vista exclusivamente estrutural, como diagrama rudimentar de todo o cinema por vir – com o seu desdobramento mais degenerado: a Ku Klux Klan em O Nascimento de Uma Nação (D. W. Griffith, 1915). O que assistiremos anos mais tarde, primeiramente em filmes como O Fugitivo de Santa Marta (Joseph Losey, 1950) e O Quimono Escarlate (Samuel Fuller, 1959), depois em filmes como Caçada Humana (Arthur Penn, 1966) e O Franco Atirador (Michael Cimino, 1978), não é exatamente uma crítica a essa faceta espetacular fundamental do cinema americano que tem no filme de Griffith seu alicerce, seu lugar geométrico, mas sim a diluição coordenada, o apagamento progressivo do seu ímpeto espetacular. Se há uma contribuição específica do que hoje chamamos de Nova Hollywood às páginas desse grande romance de formação da identidade (afirmada ou criticada: é a mesma coisa) e da alma norte-americanas, esta se localiza na vontade que leva um cineasta como Monte Hellman a querer apagar tudo – história, memória, lembranças, passado – pela simples velocidade com que faz suceder os fatos e os eventos, pela acumulação de uma matéria narrativa que reitera apenas sua própria velocidade e não mais aquilo que em outros filmes era narrado através dessa velocidade (o assentamento de um povo em uma nova terra, a superação individual sobre as dificuldades materiais, o heroísmo exemplar de homens da lei e de foras da lei).        

Nos seus melhores momentos (penso aqui em O Portal do Paraíso, de Michael Cimino, em Amargo Reencontro, de John Milius, em A Volta do Pistoleiro, de Monte Hellman, em Um Lance no Escuro, de Arthur Penn, em Pat Garrett & Billy the Kid, de Sam Peckinpah), esses filmes comunicam um fastio melancólico que é a contraparte dos oásis de serenidade, da fé na aventura e das promessas de paz que vimos anteriormente em filmes como os de Allan Dwan e Delmer Daves. Esse fastio de forma alguma deve ser visto como sinal de enfermidade ou como manifestação de complacência e de má consciência, nem muito menos como o naufrágio da energia compartilhada tanto pelos pioneiros que atravessaram o vasto território americano como pelos párias que já não encontravam um pedaço de terra para ocupar. Esse fastio, ele nada mais é que o fardo, o peso carregado por personagens privilegiados (o xerife Kristofferson no filme de Cimino, o soldado William Katt no filme de Milius, o fazendeiro Warren Oates no filme de Hellman, o detetive Gene Hackman no filme de Penn, todos sucessores do velho Pat Garrett do filme de Peckinpah) em momentos difíceis, nas encruzilhadas definidoras desta longa, inacabada história.    

Esse fastio, suas imagens icônicas, está nos finais de Caçada Humana (Marlon Brando deixando com a esposa Angie Dickinson a cidadezinha sulista da qual foi o delegado), O Portal do Paraíso (Kristofferson em um iate no meio do oceano, de uma vez por todas longe da terra que outrora visou defender) e Amargo Reencontro (a lenda do surfe Jan-Michael Vincent mancando para chegar ao topo de uma acrópole improvisada), está também na voz de Bob Dylan durante os créditos finais da elegia de Peckinpah e principalmente na inconclusão de Corrida Sem Fim.    

Essa inconclusão é, por assim dizer, a própria metahistória desta trajetória que descrevemos até agora.
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E, milagre do cinema americano, essa inconclusão também faz parte de sua história.   
Ela não é um apêndice, uma nota de rodapé desagradável, um álibi safo para ser reconhecido e aceito por setores culturais. A própria contracultura participa desse grande esquema narrativo (através dos filmes de Bob Rafelson, de Jerry Schatzberg e, inclusive, de alguns de Penn) positivamente ou de forma neutra como em Corrida Sem Fim, e isso apenas mostra o alcance da generosidade natural desse cinema. Ela completa esse retrato da formação da sociedade americana, fornecendo-lhe contrastes sólidos que o tornam ainda mais compacto, mais robusto. Se o heroísmo foi substituído pela velocidade – velocidade da marcha do homem na tentativa de acompanhar eventos que o ultrapassam, isto quer dizer da própria velocidade da história, a qual o cinema americano absorveu e esquematizou como nenhum outro –, então o que são John Dillinger, Thunderbolt e Lightfoot, os competidores de Corrida Sem Fim, Bonnie e Clyde, Junior Bonner senão heróis de tempos sem heroísmo?       
É desse ponto que devem partir nossas indagações, nossos esforços, nossas expectativas.     
Pois esse é o ponto de partida desse cinema.        

Filmes mencionados ou em remissão:
• O Nascimento de uma Nação (Birth of a Nation, 1915, David W. Griffith)         
• O Fugitivo de Santa Marta (The Lawless, 1950, Joseph Losey)  
• O Quimono Escarlate (The Crimson Kimono, 1959, Samuel Fuller)       
• Dillinger - Inimigo Público n° 1 (Dillinger, 1973, John Milius)       
• Amargo Reencontro (The Big Wednesday, 1978, John Milius)   
• Corrida Sem Fim (Two-Lane Blacktop, 1971, Monte Hellman)   
• A Volta do Pistoleiro (Amore, piombo e furore, 1978, Monte Hellman)   
• Dez Segundos de Perigo (Junior Bonner, 1972, Sam Peckinpah)          
• Pat Garrett & Billy the Kid (1973, Sam Peckinpah)          
• Caçada Humana (The Chase, 1966, Arthur Penn)          
• Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, 1967, Arthur Penn)          
• Um Lance no Escuro (Night Moves, 1975, Arthur Penn) 
• O Último Golpe (Thunderbolt and Lightfoot, 1974, Michael Cimino)       
• O Franco Atirador (The Deer Hunter, 1978, Michael Cimino)     
• O Portal do Paraíso (Heaven’s Gate, 1980, Michael Cimino)      
• O Ano do Dragão (Year of the Dragon, 1985, Michael Cimino)              

Bruno Andrade          

Publicado no catálogo Easy Riders – O Cinema da Nova Hollywood.

sábado, 16 de julho de 2016

Cine FAP: Aprile + O Dia da Estreia de Close-Up, de Nanni Moretti


O Cine FAP encerra o ciclo Cinema Político Italiano com uma sessão Nanni Moretti - cineasta italiano realizador de, entre outros, Palombella Rossa e O Quarto do Filho - com seu filme Aprile, precedido por seu curta-metragem em homenagem ao cinema de Abbas Kiarostami, Il Giorno della Prima di Close-Up.
O Dia da Estreia de Close-Up: Em seu cinema em Roma, Nanni Moretti prepara ansiosamente a estreia italiana de Close-Up, o filme de Abbas Kiarostami, enquanto O Rei Leão da Disney toma conta de todos os outros cinemas da cidade.

Aprile: Nanni Moretti mostra, em forma de comédia, o vai-e-vem de sua vida no momento em que se torna pai pela primeira vez e luta contra distrações de todo tipo para realizar um documentário político sobre as eleições italianas.

Toda segunda-feira, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
Aprile + O Dia da Estreia de Close Up (Aprile
, Itália, 1998; Il Giorno della Prima di Close-Up, Itália, 1996)
dia 18/06 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA
 


Realização: Cine FAP 
Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante