domingo, 21 de agosto de 2016

Há um céu especial para os cinéfilos















A minha primeira experiência verdadeira de terror em cinema foi ver Pinóquio (Pinocchio, Norman Ferguson, T. Hee, Wilfred Jackson, Jack Kinney, Hamilton Luske, Bill Roberts, Bem Sharpsteen, 1940). Eu fui ao cinema e estava muito cheio. Era um cinema na rua Direita, no centro de São Paulo. E cheguei e sentei longe do meu pai e da minha mãe. Eu tinha sete anos. Quando o Pinóquio é engolido pela baleia, fiquei aterrorizado. Logo depois que terminou o filme eu não achava a minha mãe e meu pai e passei por três minutos de pânico. E até hoje não estou recuperado, foi uma tragédia na minha vida. Então esse filme foi para mim um paradigma. Depois eu escrevi uma crônica a respeito. E daí eu inventei que me perdi, que fiquei numa instituição de menores e todo ano eu ia ver o filme anual do Disney para ver se encontrava os meus pais. E nunca encontrava. Aí, dois anos depois conseguia encontra-los. Só que como eu tinha virado bandido, meu plano era assaltar a casa deles e fugir, enquanto eles iam ver outro filme do Disney. O nome da crônica é “Por que as crianças gostam de Valtdisnei”.     

Agora, eu não queria falar de nenhum outro filme, sabe, aquelas coisas de música da sua vida? Então, eu não tenho nenhuma. Os filmes da minha vida, eu não tenho. E que quer dizer isso? São 600 mil filmes, depende do dia. Porque tem momentos em que você fica “culto”, e que lascam a sua vida. Eu ia ao cinema para me divertir, era cinéfilo, via três filmes por dia; marquei em um caderno, durante sete ou oito anos, todos os filmes a que assistia. O cinéfilo é a pessoa mais doente do mundo; ele às vezes pode ser feliz, mas eu acho que tem um céu especial para ele. Isso era antes e durante a guerra. Eu via só duas coisas: cinema americano clássico e cinema argentino, olha a desgraça. Sábado e domingo eu via seis filmes, era maravilhoso. Tinha o filme classe B. Depois tinha o filme classe C, que era um policial ou de cowboy. E depois tinha o seriado, eu gostava de Os perigos de Nyoka (Perils of Nyoka, William Witney, 1942). Eu fui de uma cinefilia absoluta, deveria ter sido internado. E passava o cinema argentino. Não sei por que ninguém fala disso, porque até 1945, com o fim da guerra, o cinema mexicano não tinha entrado tanto. E eu conhecia todos os atores, chorava que nem um desgraçado. A vida de Carlos Gardel (La Vida de Carlos Gardel, Alberto de Zavalia, 1939), tinha um filme sobre a vida dele, era maravilhoso. No final de semana eu ia para casa da minha vó, porque meus pais eram separados e eu via filmes o fim de semana inteiro, e anotava tudo: o filme, o cinema, que cinejornal passava, que pessoas eu tinha visto no cinema. E comprava uma revista americana chamada Photoplay, que tinha a lista dos filmes do mês, com todos os atores, e também tinha anúncio dos filmes, críticas e outras publicações.    

Eu lamento que tive uma crise existencial uma vez e joguei tudo fora. E lamento porque tinha críticas que ninguém conhece hoje. Críticos que trabalharam em jornais que duraram pouco e que nunca foram citados. E que eram críticos, pelo menos, originalíssimos. Um deles trabalhou no jornal Radar, acho que era o Walter George Durst. E ele era violentíssimo nas críticas, falava no filme numa coluna, e embaixo dava as cotações do filme “imundo”, “repelente”, leproso”, asqueroso”, e quando era bom, sei lá o que ele dizia, “sublime”, algo assim. Mas gostava de falar dos filmes que ele detestava. E teve um crítico chamado Antonio José, e este fez a esquizofrenia verdadeira. Ele escrevia as críticas em duas colunas, uma era para o intelectual e a outra para o público comum. Eu me lembro de que tinha uma do Bergman, e em uma coluna ele falava coisas maravilhosas, que ele era um cineasta da alma e aquelas coisas todas, e na outra coluna ele se punha na pele do espectador que entrou no cinema para ver o filme de cowboy, e falava que o Bergman era chato, o filme era insuportável. Era maravilhoso isso, ele colocava nossa cisão para fora. Nunca vi publicados na história da crítica do Brasil esses críticos, que foram extremamente originais. E tinha um mais conhecido, o Rubem Biáfora, que foi durante anos crítico de O Estado de S.Paulo, e era muito doido, tinha umas visões proféticas e tal, era uma figura estranhíssima. E ele descobria uns filmes impossíveis, em certos lugares impossíveis. Existem vários bairros de São Paulo que eu só conheço porque fui ver o filme de que ele falou. Assim eu praticamente fiz a geografia de São Paulo por causa dos cinemas.

O cinema, junto com o rádio, ocupou um lugar absoluto na minha infância. E eu queria viver essas aventuras de filmes americanos com um amigo meu; de vagabundos, na estrada, e que encontram um posto de gasolina, aventura enfim. Então a gente cortou nossas roupas, se sujou todo, se fez de miserável, entrou num trem e foi para o interior. Mas como a gente era muito covarde, eu escolhi ir para um lugar onde tinha um parente longínquo porque, se não desse certo, a gente ia para a casa dele. A gente desceu na estação, andou duas horas, pediu carona na estrada e ninguém parou. E a gente se perguntava o que estava fazendo ali, onde estava o cinema americano, cadê aquela mulher linda que vai aparecer para ajudar a gente? Não tinha. A rotina é trágica. E no final do dia a gente desistiu e foi procurar meu parente. E nós contamos a história de por que estávamos lá – não tudo, claro, porque era muito vergonhoso. E eles acharam engraçado, nos acolheram, e ficamos dez dias lá, de férias, indo ao cinema, nunca vivemos a aventura do cinema americano.          

O que eu quero dizer é que todos nós fomos educados pela cultura de massas; eu fui educado pelo cinema americano, porque até 1945 não tinha cinema italiano, não tinha cinema francês, por causa da guerra. Os jovens de hoje foram educados pela televisão, claro, e também pelo cinema americano. Hoje você tem os cinemas daqui que passam cinema iraniano, filmes tchecos, mas o cinema americano alimenta 90% da população. Tem garotos que nunca viram um filme falado em outra língua. Porque se não for dublado ou falado em inglês eles saem do cinema. Por isso, foi uma luta desgraçada para o cinema brasileiro passar a existir.      

Além desses dois cinemas, o único cinema a que eu assistia era a chanchada, e por uma razão muito simples. Nos anos 1940 tinha uma coisa chamada baile de carnaval, que era uma instituição, um evento, onde nós arranjávamos nossa primeira namorada, nos divertíamos. E eu decorava as músicas, quarenta, cinquenta por ano; naquela época eu ainda tinha memória. E outra coisa, quando falo do cinema dessa época, eu tenho que falar da importância do rádio. Fui educado pelo rádio, ganhei dinheiro pelo rádio, e estou aqui hoje porque um dia ganhei um prêmio num programa já de TV e fui para a Europa, onde passei três anos. Eu fiz de tudo em rádio, decorava as coisas, sabia os autores de oitenta óperas, e pergunta se eu conhecia uma? Eu tinha que decorar um monte de tolices. O rádio então tem uma importância fundamental para mim por causa disso, porque eu conheci gente no rádio, porque ia lá quase profissionalmente. A Rádio Tupi ficava no Sumaré, a Rádio Record ficava no centro, não era só a Rádio Nacional, tinha gente famosa aqui que ninguém conhecia no Rio, e vice-versa. Tinha um humorista genial que ninguém conhecia fora de São Paulo, o Pagano Sobrinho, que inclusive o Rogério Sganzerla botou em O Bandido da Luz Vermelha (1968); ele fez o papel de um político corrupto. Mais aí em 1952, 1953, eu ia entrar na faculdade e comecei a ficar “culto” – entre aspas -, e que tudo começa a ficar complicado, desse período eu não quero falar. Você aprende que não deve gostar de tal artista, e você aprende um monte de coisas boas e um monte de coisas ruins. A gente tem um panteão, mas eu não vou ficar falando disso aqui.

(...)

Eu sempre tive a visão de que o documentário era uma coisa chata, e assisti a seu filme Jogo de Cena (2007), que mudou completamente a minha visão sobre documentário. Que filmes você acha que têm essa coisa humana como nos seus, que te marcaram?        

Quando eu vi esses filmes, com doze, quinze anos, eu não sabia que John Ford e Welles eram grandes autores, eu não era “culto” ainda. Então eu me permitia ver um melodrama e chorar, e dar cinco estrelas. Eu tinha uma coisa, sempre gostei de melodrama, chorei muito em cinema. E mesmo quando eu comecei a virar “culto”, vi um filme que tenho até vergonha de falar, que revi outro dia e me perguntei como pude chorar nesse filme – já tinha uns 22 anos – chamado Suplício de uma saudade (Love is a Many-Splendored Thing, Henry King, 1955). Tem um filme chamado Amar foi minha ruína (Leave Her to Heaven, John M. Stahl, 1945), que é a história de uma mulher que se casa com um cara, só que a paixão dela é totalmente doentia, então ela não quer que ninguém se aproxime dele, e ela mata o irmão paraplégico do cara, vai fazendo uma maldade atrás da outra, e ele não percebe, ele é muito lento. E aí quando ela percebe que está perdida, quando fica grávida dele, se joga da escada para ver se mata o filho, só que acaba morrendo. E, é claro, no finalzinho, ele se casa com a irmã dela, que é boa, uma santa... Esse filme é maravilhoso, é um modelo do que é o melodrama, sentimentos violentos e tal. Como sempre, acabei não respondendo a tua pergunta.

Você já fez documentários de assuntos diversos, e hoje você está sentado aqui no cinema falando sobre filmes. Você não tem vontade de fazer um documentário sobre cinema, sobre cinéfilos?           

Não. Eu sempre digo isto: por que índio tem que filmar só índio, favelado tem que filmar só favelado, sabe esse negócio? Por exemplo, um filme sobre como vive o cineasta. Eu acho que seria maravilhoso, porque eu não sei como um cineasta vive. Você tem viver, e se você casa e tem filho? Como pagar as contas? Eu queria que esse filme fosse feito por um camelô, um pobre, um camponês, porque eu não faço filme sobre cineastas velhos? Não, que faça isso um garoto de dezoito anos, eu não vou fazer. Eu faço coisas que estão longe de mim, sobre aquilo que não conheço. Aquilo sobre o que conheço eu não quero fazer. O que eu vou perguntar? Então sobre esse assunto eu nunca farei, prometo.     

Nem de um jeito esquizofrênico, com a tela dividida em dois?          

Eu não divido, é outra coisa que eu não divido, eu não faço experiência de trucagem, instalação. O que eu gosto no cinema é que tem uma sala, apaga a luz e as pessoas ficam assistindo a um negócio por uma ou duas horas. E o difícil é fazê-las ficarem assistindo o filme durante uma ou duas horas. Numa instalação as pessoas podem ficar quinze ou vinte minutos. No cinema não, e eu acho uma coisa maravilhosa. É um desafio, de como eu vou manter uma pessoa no cinema por uma ou duas horas. Há limitações que você não tem em um museu. E eu acho esse desafio maravilhoso. Eu tento fazer o que quero, mas ao mesmo tempo sei que tem que manter o público na sala. Como fazer isso com um documentário? Este é o desafio: a sala escura. Que vai acabar, porque agora tudo vai ser digital, quer dizer, não vai acabar, mas vai diminuir, a internet vai ter tudo, vão acabar as videolocadoras. Mas enfim, acho fundamental que continue a sala, que é feita de gente que não se conhece, que estão juntas por acaso e não são iguais umas às outras. A sala de cinema para mim é indispensável, a experiência é totalmente diferente de ver televisão. É coisa de velho, mas eu espero que a sala de cinema fique. Se bem que com essas salas multiplex, com um balde de pipoca de catorze toneladas e um de Coca-Cola de cinco, o barulho deve ser insuportável. Eu acho que se você ainda conseguir pensar no filme no dia seguinte já é maravilhoso. É por isso que nós fazemos cinema.           

Você apresentou um filme ano passado aqui na Mostra que era uma mistura de coisas da televisão.

A gente passou aqui porque falamos com o Leon Cakoff, não podia passar no Festival de Brasília, tinha que ser numa mostra grande. Eu falei para o Cakoff que faríamos um troço estranho e ele topou. Aí a gente mandou um vídeo do copião para ele, que aceitou, e falou que iria arranjar um lugar. E nem tinha nome, eu inventei Um dia na vida (Eduardo Coutinho, 2010) porque não podia falar em televisão no nome. Tinha que botar uma fotografia do filme, e eu não podia colocar nenhuma porque todas eram roubadas da televisão. Resolveram colocar uma foto minha. E a gente tinha combinado com o advogado que não podia ter publicidade, que não podia sair em jornal, que a entrada teria que ser gratuita. Nós já passamos em uns oito lugares, quase mil espectadores. Daqui a pouco nós vamos ter mais público do que muitos filmes que passam por aí. Passamos em várias faculdades, mas eu quero passar nas favelas do Rio de Janeiro, nos lugares onde tenha pessoas que gostam desse tipo de programa, porque saber o que eu penso daquilo é pouco importante. Eu quero saber o que as pessoas pensam, principalmente as mulheres que são o público-alvo, que gostam desses programas. A maioria eram “programas de beleza” – entre aspas – e os evangélicos. Mas tem um público para aquilo, e eu queria saber a opinião dessas pessoas, que é muito mais importante.       

(...)

Eu filmei na Paraíba, e me contaram a novela Maria do Bairro. As mulheres me contavam como era a história, e só de me contar a história já era maravilhoso. Fico horrorizado quando as pessoas ficam com as suas palavras, falando daquilo que não é feito para elas. É como querer passar no shopping Cidadão Kane e querer que as pessoas que nunca viram gostem.  

Queria ser presidente durante um dia, para tomar o poder e cassar a licença de todas as televisões.   

O argumento ia ser muito simples, de que a televisão é capitalista, então vamos copiar ou adaptar a Federal Trade Comission americana, porque o modelo europeu é (ou foi) o da televisão pública. No modelo capitalista você não pode ter “laranjas”, você não pode dizer que a televisão do bispo não é dele. E tem centenas que são assim, tem dezenas de deputados e senadores que são donos de televisão e tal, e quando não são, é o sobrinho, o chofer etc. Então seria uma limpeza geral. Mas eu seria deposto no terceiro dia e deportado para a Guatemala.   

É proibido vender programa, está na lei, a televisão é concessão pública. A CNT não tem um tostão, é capitalismo de quinto mundo, mas ela existe porque cede todos os horários para a religião e para aquele programa da cinta que tira trinta centímetros, o Polishop. E o Polishop é ótimo porque é o seguinte, tinha seis horas de Polishop, aí vinha uma mulher e media a cintura, mas media bem frouxo, e dava 120 centímetros de cintura. Aí ela ia para o vestiário e quando voltava elas apertavam bem e diziam que tinha perdido vinte centímetros. A segunda coisa, que a gente tirou, era uma mulher de cem quilos, e a mulher dizia “viu como você se sente bem?” e a outra dizia “eu me sinto um brotinho”, e ela aparecia mais baleia do que antes.      

A TV Brasil não é uma televisão pública, é uma televisão estatal, porque é o Estado que manda lá. A TV Cultura, que é melhor do que nada, é uma televisão em que no dia que o governador de São Paulo quiser, tira os 80 milhões que manda e fecha. A BBC é uma televisão em que a comunidade participava, não pode ser o governo que manda. E a BCC é sustentada porque parte do valor de todo aparelho de televisão vendido na Inglaterra vai para a BBC, ela não precisa de favor do governo. A gente sempre faz filmes sabendo que os resultados podem ser inúteis, mas a gente faz, não porque a gente é padre, é porque a gente gosta de fazer. E quem sabe se daqui a trinta anos acabou a TV Globo, morreu a Ana Maria Braga, aí o filme pode ficar como peça de museu. No filme, o que eu achei mais bonito foi o Chaves, e eu fiz questão de ter o Chaves, porque tinha que ter uma coisa pura naquele programa. Eu adoro o Chaves, porque ele foi feito há trinta anos, a imagem é horrível e até hoje está no ar e tem audiência. E é maravilhoso, crianças veem, adolescentes veem.                                                                                                                                                                                              Excerto de entrevista com Eduardo Coutinho retirado do livro Eduardo Coutinho/Milton Ohata (org.)   
                                                                                                                                                

(Os filmes da minha vida, v.4. Renata Almeida (org.). São Paulo: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/Imprensa Oficial, 2012.)

Cine FAP: Férias Frustradas de Verão, de Greg Mottola


Em agosto o Cinefap discute a Comédia Americana Contemporânea, com Metropolitan, de Whit Stillman (08/08); O Casamento do meu melhor amigo, de P.J. Hogan (15/08); Férias Frustradas de Verão, de Greg Mottola (22/08); e Como você sabe, de James L. Brooks (29/08).


Sobre Férias Frustradas de Verão:
1987. James Brennan (Jesse Eisenberg) acaba de se formar na faculdade e sonhava em passar as férias de verão na Europa. Entretanto, a difícil situação financeira de seus pais impede que realize o sonho e, além disto, tenha que conseguir o quanto antes um emprego de verão. James consegue uma vaga no Adventureland, um parque de diversões onde atende o público junto aos brinquedos. De início ele não gosta do local, mas tudo muda quando começa a se interessar por Em Lewin (Kristen Stewart), uma colega de trabalho.

Toda segunda-feira, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
Férias Frustradas de Verão (Adventureland, EUA, 2009
, 107 min.)
dia 22/08 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA


Realização: Cine FAP 

Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Cineclube da Cinemateca: "O Fim e o Princípio" de Eduardo Coutinho

Neste domingo, às 16h, o Cineclube da Cinemateca apresenta "O Fim e o Princípio", dando continuidade ao ciclo Eduardo Coutinho, cineasta brasileiro que contará ainda com "Jogo de Cena" (28/08). Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"O Fim e o Princípio" de Eduardo Coutinho



Sem pesquisa prévia, sem personagens, locações nem temas definidos, uma equipe de cinema chega ao sertão da Paraíba em busca de pessoas que tenham histórias para contar. No município de São João do Rio do Peixe a equipe descobre o Sítio Araçás, uma comunidade rural onde vivem 86 famílias, a maioria ligada por laços de parentesco. Graças à mediação de uma jovem de Araçás, os moradores - na maioria idosos - contam sua vida, marcada pelo catolicismo popular, pela hierarquia, pelo senso de família e de honra.

Serviço:
21 de agosto (domingo)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

domingo, 14 de agosto de 2016

Filme apresenta mundo como ficção plena


Quem espera de Edifício Master grandes revelações sobre a vida secreta em um cortiço vertical, esqueça. Tudo se passa como se Eduardo Coutinho tivesse feito esse filme antes de tudo para frustrar nosso voyeurismo.        
            Os personagens que habitam esse prédio de Copacabana com mais de vinte apartamentos por andar não têm nada de especial a dizer; a sua diversidade é grande o bastante para configurar uma espécie de representação em escala do que seja o Rio de Janeiro na virada para o século XXI.      
            Moram ali jovens músicos, senhores aposentados, técnicos de futebol, camelôs, prostitutas, mães solteiras.           
            A amplitude da amostragem é desnorteante, e é apenas isso que credencia o edifício, entre tantos, a se tornar o lugar privilegiado de um filme. Aliás, já nas cenas iniciais, o síndico avisa que tempos de decadência são passado. O Master é um prédio como qualquer outro. O que vem a seguir não irá desmenti-lo.
            Qual, então, o interesse do filme? Santo forte (1999), do mesmo Coutinho, tinha a propriedade de atirar o espectador em um registro muito particular: captava discursos de natureza religiosa, isto é, que dizem respeito diretamente ao imaginário, de tal modo que a ficção se instalava no coração das imagens e de certa forma nos arrastava.      
            No Master, nada disso. Lá estão a garota renegada pelos pais por ter engravidado, o senhor que encontrou a mulher nos anúncios de jornal, as imãs solteiras que passaram a vida juntas (uma delas se ocupando da outra e da mãe, ambas doentes), a poetisa desempregada etc.         
            Com exceção do aposentado que emigrou para os EUA quando jovem e, à parte deixar seus filhos por lá, cantou certa vez com Frank Sinatra, as histórias são prosaicas. Talvez a cena final, noturna, em que os apartamentos são vistos de fora pela câmera, desminta tudo o que foi dito aqui (ou seja, antes, seu corolário).           
            Nesse rápido instante, vemos não mais que silhuetas, figuras que não chegamos a identificar. Existências fechadas em si mesmas, cujo mistério permanece intacto apesar de tudo que, agora, sabemos a seu respeito (a cena lembra um pouco os quadros de Edward Hopper que, à força de realismo, acabam nos falando da irrealidade do mundo).    
            Talvez, na verdade, Edifício Master comece depois que termina. Isto é, quando saímos à rua e deparamos com nossos semelhantes.    
            E, por um momento, podemos pensar que habitualmente não conhecemos das pessoas nada mais que a casca, a aparência. E que qualquer uma delas (isto é, qualquer um de nós) tem um discurso, um ponto de vista, uma história a contar. E que qualquer história pode ser interessante, porque todas as vidas o são.       
            É apenas então – já terminado – que o filme nos restitui à atmosfera ficcional de Santo Forte, embora num grau de radicalidade maior. Se neste entrávamos em contato com a ficção que cada um cria para si (sob a forma, no caso, de um discurso religioso), aqui é o mundo que se apresenta como ficção plena, fascinante, na medida em que cada corpo é investido de uma história: aquela que cada um narra a si mesmo e que faz de cada ser um mistério.         
            Daí, talvez, o formidável achado que é Edifício Master: cada cubículo contém um mundo particular e fechado em si mesmo. Vistos de perto, esses cubículos configuram um labirinto. Talvez esse labirinto seja cada um de nós, talvez a soma de todos.       
            Talvez, por fim, seja preciso ver Eduardo Coutinho como o criador de um gênero paradoxal: o documentário fantástico.      

Inácio Araújo 

Folha de S. Paulo, Ilustrada, 22/11/2002.    
Texto retirado do livro Eduardo Coutinho/Milton Ohata (org.)

sábado, 13 de agosto de 2016

Cine FAP: O Casamento do Meu Melhor Amigo, de P.J. Hogan


Em agosto o Cinefap discute a Comédia Americana Contemporânea, com Metropolitan, de Whit Stillman (08/08); O Casamento do meu melhor amigo, de P.J. Hogan (15/08); Férias Frustradas de Verão, de Greg Mottola (22/08); e Como você sabe, de James L. Brooks (29/08).


Sobre O Casamento do Meu Melhor Amigo:
Julianne (Julia Roberts) e Michael (Dermot Mulroney) combinaram que, se ambos continuassem solteiros quando completassem 28 anos, se casariam. Quando recebe um telefonema do amigo, às vésperas da fatídica data, anunciando que está prestes a se casar, mas com outra (Cameron Diaz), Julianne se descobre apaixonada por ele e aceita o convite para ser madrinha, mas com segundas intenções.

 
Toda segunda-feira, às 19h, na FAP do Cabral. Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos estudantes do cineclube.

Sessão:
O Casamento do meu melhor Amigo (My best friend's wedding, EUA, 1997
, 105 min.)
dia 15/08 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA


Realização: Cine FAP 

Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão
Coletivo Atalante

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Cineclube da Cinemateca: "Edifício Master" de Eduardo Coutinho

Neste domingo, às 16h, o Cineclube da Cinemateca apresenta "Edifício Master", dando continuidade ao ciclo Eduardo Coutinho, cineasta brasileiro que contará ainda com "O Fim e o Princípio" (21/08) e "Jogo de Cena" (28/08). Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"Edifício Master" de Eduardo Coutinho
Durante sete dias, uma equipe de cinema filmou o cotidiano dos moradores do Edifício Master, situado em Copacabana, a um quarteirão da praia. O prédio tem 12 andares e 23 apartamentos por andar. Ao todo são 276 apartamentos conjugados, onde moram cerca de 500 pessoas. Eduardo Coutinho e sua equipe entrevistaram 37 moradores e conseguiram extrair histórias íntimas e reveladoras de suas vidas.


Serviço:
14 de agosto (domingo)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA


Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

domingo, 7 de agosto de 2016

Do épico-pedagógico ao documentário

 
Quem vem acompanhando as lutas dos boias-frias de São Paulo, a degradação dos trabalhadores nordestinos nas “frentes de trabalho”, as previsões de gigantesca mortalidade infantil no campo, há de indagar o que foi a propalada “modernização” da economia brasileira nos últimos vinte anos. Os mais jovens talvez queiram saber o que teria ocorrido, no início dos anos 1960, para que um presidente da República decidisse abandonar o posto para evitar “derramamento de sangue” no país. Nada melhor, para uma avaliação desses vinte anos, do que o filme de Eduardo Coutinho Cabra marcado para morrer.                  
Pouco antes do golpe de 1964, Eduardo Coutinho e um grupo de jovens cineastas do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE foram a Pernambuco com o intuito de filmar a vida e a morte de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas de Sapé, assassinado em 1962, pelo latifúndio. As filmagens foram interrompidas pelo golpe, o grupo precisou abandonar no local equipamentos, copião, fotos, roteiro, livros e os personagens do cinema-verdade: líderes camponeses e suas famílias, Elizabeth, mulher de João Pedro, e seus oito filhos. Em 1980, graças a Ofélia Amorim, advogada das Ligas, presa pelo 4° Exército, o copião foi entregue a Coutinho, que resolveu retomar o antigo trabalho, voltando ao local das lutas e  filmagens.
Cabra marcado para morrer, título do antigo filme conservado pelo documentário de agora, intercala passado (cenas do filme, fotos, recortes de jornais) e presente (depoimentos e conversas dos sobreviventes). Sabemos agora que Elizabeth fugiu, viveu todos esses anos clandestina (passou a chamar-se Marta e saiu de Pernambuco), que uma de suas filhas se suicidou por não suportar o assassinato do pai e as pressões exercidas sobre a mãe, que conservou consigo apenas um filho, que os outros (dois deles com sérios problemas psicológicos, vistos ou mencionados no documentário) foram dispersados, distribuídos a membros da família, alguns sem lembrança do pai e da mãe, todos marcados pelo signo daquele que fora “o marcado para morrer”. Ficamos sabendo, pela boca dos antigos protagonistas, sobreviventes da luta vencida, como foram os dias imediatamente posteriores ao golpe (buscas policiais, prisões, torturas, mortes) e as lembranças que ficaram do tempo das filmagens, conferidas, agora, pela mostra de fotos e partes do antigo filme aos seus atores.                                     
Momentos cômicos: polícia e Exército procurando pelos "cubanos e armas”, indagando se os “forasteiros” falavam o português ou o castelhano, se “falavam como a gente”; recortes de jornais anunciando a apreensão de armas e farto “material subversivo” no local das filmagens (isto é, câmera, holofotes, fotos, livros), criando o fato inexistente, orwellianos malgré eux-mêmes. Momentos comoventes: um dos sobreviventes, menino na época das filmagens, retira de uma velha mala um velho livro que guardara, pertencente a um dos membros da equipe do CPC. Livro de Malaparte, que redigira um diário sobre a dominação nazista e a resistência, na esperança de que (lê com dificuldades o nordestino) o “camponês o conserve como testemunho” de uma época. Momentos dramáticos: os filhos de Elizabeth relatam suas vidas em dispersão; sobreviventes das Ligas narram prisões e mortes.                                          
Qual a diferença entre o filme de 1964 e o documentário de hoje? 
Na linha cultural do CPC, o filme de 1964 pretendia ser exemplar: épico e pedagógico, lição de política e construção de heróis, lutadores, clara partição entre o bem e o mal, personagens funcionando mais como arquétipos do que como seres humanos reais. Em contraponto, o documentário nos coloca na presença de criaturas de carne e osso, com dúvidas e indecisões, medos e esperanças, meditando sobre o passado e avaliando o presente. Ao filme épico-pedagógico sucedeu o documentário preciso, conciso e dramático: a saga da família destruída, o recuo de alguns camponeses face ao passado revolucionário, a ironia de alguns no relato dos eventos de 1964 e a esperança de outros, como João Virgínio, após a narrativa da tortura, afirmando: “Não se pode tratar o povo dessa maneira. Deus está vendo. Nada como um dia depois do outro, com uma noite no meio”. Longa noite.                                                                        
A complexidade real é, por vezes, insuportável para o público juvenil (como o que esteve presente na exibição feita na Folha), que reclama apontando a “incoerência” de homens e mulheres que Coutinho não mais permitiu ficassem reduzidos a modelos e fórmulas, próprios de quem possui a “linha justa” porque imagina conhecer “as leis necessárias do desenvolvimento histórico”, perante as quais os seres humanos são apenas “suportes empíricos” de um “sentido inelutável”. Em outras palavras: simples marionetes.                                                                                                                        
Talvez sob a influência da epopeia Jango, de Sílvio Tendler, uma parte do público desejasse uma espécie de reparação simbólica: visto ter havido “derramamento de sangue”, deseja-se um “final feliz”. Coutinho foi interpelado por pessoas que queriam saber por que ele não reunira a família dispersa, já que encontrara todos os seus membros. No fundo, inconscientemente talvez, parte do público espere que o cineasta seja o executor da “vontade histórica”, que ocupe o lugar vago do demiurgo, do caudilho salvador, do messias que redime um povo de sua própria história e anule o estilhaçamento de tantas vidas.                     
Como se cada uma das pessoas que vemos e ouvimos no documentário não possuísse a densidade da vida pessoal, das contas a acertar com seu próprio passado e da compreensão acerca de seu presente. Como se o documentário em cores, contrastando com o branco e preto do antigo filme, o asfalto cobrindo as velhas estradas de terras nordestinas, a camioneta substituindo as montarias de 1964, devesse ser a “correção justa” da “modernização injusta” – milagre por milagre, olho por olho, dente por dente.                                                                                                                              

Cabra marcado para morrer realiza reflexões. Por um lado, enquanto obra de arte e de comunicação, realiza a reflexão do projeto anterior: da epopeia ao drama documentado, dos arquétipos perfeitos à complexidade real, da intenção pedagógica à percepção do outro como consciente de si.            
Por outro lado, reflexão histórica: ouvimos a voz dos vencidos escutando seu silêncio. Sabemos que Marta-Elizabeth fugiu e viveu clandestina, que se sente conhecida pela anistia e pela abertura. Curiosamente, porém, vemos Marta-Elizabeth lavando roupa num ribeirão, alfabetizando crianças e auxiliando no sindicato local. Basta que nos lembremos do que significou a alfabetização no Nordeste (tanto assim que o governo federal tentou apagar a memória da educação popular impondo o projeto fracassado do Saci-Exern, como tão bem o mostrou Laymert Garcia dos Santos) e da morte da sindicalista Margarida Maria Alves, em Alagoa Grande, para que percebamos o quanto nos mostram Marta-Elizabeth e Coutinho, sem nada nos dizerem. A história da resistência ali está. Sem heróis. Sem retórica triunfalista. Concisa. Precisa.                                                       

Mas é, talvez, a cena final de Cabra marcado para morrer o momento mais alto da reflexão. Quando Elizabeth julga que as câmeras e os microfones estão desligados, que o documentário e o espetáculo (cujos destinatários ela ignora) estão terminados, em suma, no momento em que o filme acabou, fala e fala torrencialmente sobre as injustiças e a necessidade da luta por uma democracia real. Essa fala final nos leva a rever o filme, a perceber a reflexão que nele se opera porque, desde o início, tudo quanto será dito no fim já estava lá, nos gestos, nas frases curtas e entrecortadas, pedindo ouvidos que saibam escutar e olhos que saibam ver. Elizabeth nos dá a medida e o sentido do medo, das marcas que foram deixadas nestes últimos vinte anos naqueles que foram marcados para morrer.                              
Por que reflexão? Porque o documentário é o momento da quebra da clandestinidade, momento em que Marta se torna Elizabeth outra vez, mas a quebra da clandestinidade se operou clandestinamente. Tão clandestina foi a desmontagem da clandestinidade que nos fazia ver o documentário sem enxerga-lo, ouvi-lo sem escutá-lo. A chave aparece no final, mas a porta estava aberta desde o início.

P.S.: Eduardo Coutinho precisa de 45 milhões para transformar o documentário em filme comerciável. Seria bom se os que dispõem de fundos para a promoção da cultura oferecessem ao cineasta os meios que permitirão a um vasto público ver e rever sua obra magistral.          

Folha de S. Paulo, Ilustrada, 09/06/1984                                                                                                   

Marilena Chaui