quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Cineclube do Atalante: As Praias de Agnès, de Agnès Varda


Agnès Varda coloca-se em cena entre os excertos dos seus filmes, imagens e reportagens, em uma forma de auto-documentário. Faz-nos partilhar com humor e emoção o seu percurso, os primeiros passos como fotógrafa de teatro, cineasta nos anos cinquenta, a vida com Jacques Demy, a sua militância feminista, as viagens a Cuba, à China e aos EUA, o percurso de produtora independente, a sua vida em família e o amor das praias.

(Les Plages d'Agnès : FRA, 2008– 107 min. Com:  Agnès Varda, André Lubrano, Blaise Fournier. 16 anos.)

Serviço:
Sábado, 29 de setembro
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante


sábado, 1 de setembro de 2018

Lubitsch era um príncipe (A Viúva Alegre, 1934)

Sócios no Amor (1933)
  
Por François Truffaut

Antes de tudo, temos a imagem, aquela dos filmes de antes da guerra, e eu gosto muito dela. Os personagens são pequenas silhuetas sombrias na tela, eles entram em cena batendo portas que são três vezes maiores que eles. Não havia crise de habitação naquela época, e, nas ruas, por causa das bandeirolas de apartamentos a alugar, era 14 de julho o ano inteiro. Esses grandes cenários disputavam a atenção com os atores, o produtor pagava caro por eles, era preciso vê-los, e o sujeito dos charutos prezava muito seu dinheiro e eu creio que ele teria mandado à merda o diretor que tivesse a petulância de fazer o filme inteiro em closes. Nessa época, quando não se sabia exatamente onde colocar a câmera, ela era colocada bem longe. Hoje, na dúvida, eles a atocham nas narinas dos atores. Passou-se da insuficiência modesta à insuficiência pretensiosa.

Essa introdução nostálgica e reacionária não está deslocada para apresentar Lubitsch, que – mais do que Pierre Doris afirmando que era melhor chorar numa jaguar do que no metrô – pensava com firmeza que é melhor rir num palácio do que suspirar nos fundos da loja da esquina. Sinto que não terei o tempo de resumir.

Como todos os artistas da estilização, Lubitsch, conscientemente ou não, aproximava-se da narração dos grandes autores de contos de fadas. Em Anjo, um jantar tedioso e constrangedor vai reunir Marlene Dietrich, Herbert Marshall, seu marido, e Melvyn Douglas, seu amante de uma noite só que ela acreditaria jamais ver novamente, e que seu marido trouxe por acaso para jantar. Como acontece várias vezes nos filmes de Lubitsch – voltaremos a isso –, a câmera deixa o lugar da ação para ir ao lugar que permitirá observar as conseqüências. Estamos na cozinha. O maître vai e vem, ele leva primeiro o prato de madame: “Curioso, Madame nem tocou em sua costeleta.” Depois o prato do convidado: “Olha só, ele também não.” (Na verdade, essa segunda costeleta está cortada em cem pedacinhos inteiros.) o terceiro prato chega, vazio: “Já o patrão parece ter apreciado a costeleta”. podemos reconhecer Cachinhos Dourados na casa dos três ursos: a tigela de Papai Urso estava quente demais, a de Mamãe Urso fria demais, a do Bebê Urso “perfeita”. Vocês conhecem uma literatura mais necessária do que essa?

Este, então, é o primeiro ponto comum com o “hitchcock-touch”, e o segundo é provavelmente a maneira de abordar o problema do roteiro. Aparentemente, trata-se de contar uma história em imagens e é o que eles mesmos irão dizer em suas entrevistas. Não é verdade. Eles não mentem por prazer ou para rir da nossa cara, não, eles mentem para simplificar, porque a realidade é complicada demais e é mais importante passar o tempo trabalhando e aperfeiçoando, já que estamos falando de perfeccionistas.

A verdade é que trata-se de não contar a história e até de buscar o modo de não contá-la de forma alguma. Há, claro, o princípio do roteiro, resumível em algumas linhas, é geralmente a sedução de um homem por uma mulher que não o quer, ou o inverso, ou ainda o convite ao pecado de uma noite, ao prazer, os mesmos temas que Sacha Guitry, sendo que o essencial é não tratar o assunto diretamente. Então, se permanecemos por trás das portas dos quartos, se nós ficamos no escritório quando tudo acontece no salão e no salão quando tudo acontece na escada e na cabine telefônica quando tudo acontece no porão, é que Lubitsch, modestamente, quebrou a cabeça durante seis semanas para finalmente liberar os espectadores para fazerem o roteiro eles mesmos, com ele.

Existem dois tipos de cineastas, e o mesmo se dá com pintores e escritores: aqueles que trabalhariam mesmo numa ilha deserta, sem público, e aqueles que... bem.. de que serve? Não existe Lubitsch sem público, mas, cuidado, o público não é “a mais”, mas “com”, ele faz parte do filme. Na banda sonora temos os diálogos, os ruídos, a música e nossos risos, é o essencial, e sem isso não tem filme. As elipses de roteiro, prodigiosas, só funcionam porque nossos risos estabelecem a ponte de uma cena a outra. No queijo-Lubitsch cada buraco é genial.

De tempo em tempo a expressão “mise-en-scène” significa alguma coisa, e aqui ela é um jogo que só pode ser praticado a três e somente durante o tempo da projeção.

Logo, nada a ver com o cinema do Doutor Jivago. Se vocês me disserem: “Acabo de ver um filme de Lubitsch em que tem um plano inútil”, eu vou considerá-lo como um mentiroso. Esse cinema, o contrário do vago, do impreciso, do não-formulado, não comporta nenhum plano decorativo, nada que esteja lá “para ficar bonito”, não, estamos diante do essencial somente.

No papel, um roteiro de Lubitsch não existe. Não faz sentido, e tampouco depois da projeção, tudo acontece durante o momento em que assistimos.

Nós estávamos lá, no escuro, a situação era clara, ela se mantinha em tal nível que, para nos reconfortarmos, nós antecipamos a cena seguinte recorrendo evidentemente a nossas lembranças de espectador, mas Lubitsch, justamente, como todos os gênios, imbuído do espírito de contradição, passou em revista ele próprio as soluções preexistentes para adotar aquela que nunca tinha sido utilizada, o impensável, a enorme, o maravilhoso, o desnorteante.

Seria possível evidentemente falar do “respeito ao público” mas essa noção serve muitas vezes de álibi, deixemo-la de lado e tomemos um exemplo bem-vindo.

Em Ladrão de Alcova, Edward Everett Horton olha para Herbert Marshall de maneira suspeita. Ele crê que viu aquela cara em algum lugar. Quanto a nós, sabemos que Herbert Marshall é o batedor de carteira que, no começo do filme, roubou o pobre Horton num quarto de palácio em Veneza. Logo, é necessário que num certo momento Horton se recorde, e nove cineastas em dez, todos fingidores, o que fazem? O sujeito dorme em sua cama e, de noite, no meio do sono, ele acorda, e, mão na testa, diz: “É isso! Veneza! Ah, o canalha!” Quem é o canalha? Em todo caso, não é Lubitsch, que tem um trabalho do cão, que dá o seu sangue e que vai morrer de cinema vinte anos mais cedo. O que é que esse Lubitsch faz, hein, como diz Jean-Pierre Léaud em A Chinesa? Lubitsch nos mostra Horton fumando um cigarro, visivelmente perguntando-se onde ele poderia ter visto anteriormente Marshall, fumando mais uma vez seu cigarro, refletindo, e depois apagando o toco de cigarro num cinzeiro de prata em forma de gôndola... Veneza! Que diabos! Bravo, agora é o público que cai na gargalhada e Lubitsch está lá, em pé, no fundo da sala, vigiando sua ‘audience”, receando o menor atraso de riso como Fredric Marsh em Ladrão de Alcova, observando o ponto teatral que vê Hamlet se aproximar a rampa e diz prontamente dá a ele o texto: “To be or not to be”!

Eu falei do que se aprende, falei do talento, falei daquilo que, no fundo, eventualmente, pode se comprar e afixar um preço, mas o que não se aprende e tampouco se compra é o charme e a malícia, ah, o charme malicioso de Lubitsch. Eis o que fazia dele verdadeiramente um príncipe.

Tradução de Ruy Gardnier.
Retirado de http://www.contracampo.com.br/81/aviuvaalegre.htm

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Cineclube do Atalante: Sócios no Amor, de Ernst Lubitsch


Dividindo o mesmo apartamento em Paris, dois americanos acabam se apaixonando pela mesma mulher. Incapaz de se decidir por um dos dois, ela sugere que os três morem juntos, com duas condições: eles serão amigos e nunca farão sexo. Com tantas oportunidades, eles conseguirão manter o acordo?

(Design for Living: EUA, 1933 – 91 min. Com: Miriam Hopkins, Gary Cooper, Fredric March. 12 anos.)

Serviço:
Sábado, 1º de setembro
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Cineclube do Atalante: programação de setembro

01/09: Sócios no amor, de Ernst Lubitsch



(Design for Living: EUA, 1933 – 91 min. Com: Miriam Hopkins, Gary Cooper, Fredric March. 12 anos.)
Dividindo o mesmo apartamento em Paris, dois americanos acabam se apaixonando pela mesma mulher. Incapaz de se decidir por um dos dois, ela sugere que os três morem juntos, com duas condições: eles serão amigos e nunca farão sexo. Com tantas oportunidades, eles conseguirão manter o acordo?

29/09: As Praias de Agnès, de Agnès Varda


(Les Plages d'Agnès : FRA, 2008– 107 min. Com:  Agnès Varda, André Lubrano, Blaise Fournier. 16 anos.)
Agnès Varda coloca-se em cena entre os excertos dos seus filmes, imagens e reportagens, em uma forma de auto-documentário. Faz-nos partilhar com humor e emoção o seu percurso, os primeiros passos como fotógrafa de teatro, cineasta nos anos cinquenta, a vida com Jacques Demy, a sua militância feminista, as viagens a Cuba, à China e aos EUA, o percurso de produtora independente, a sua vida em família e o amor das praias.

Serviço:
Sessões no primeiro e último sábados do mês, excepcionalmente
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

domingo, 19 de agosto de 2018

Bazin e Skorecki escrevem sobre Preston Sturges


I) André Bazin sobre "Papai por acaso": 

Cada filme de Preston Sturges nos traz a confirmação de seu talento e de sua originalidade na produção americana posterior a 1940. Se seus filmes não encontram na Europa todo o sucesso que merecem, é sem dúvida porque estão muito intimamente ligados aos costumes americanos e porque muitos de seus pormenores mais saborosos são incompreensíveis fora de seu contexto.  

Não é, contudo, necessário ter vivido na América para apreciá-los, desde que se tenha sido um espectador atento das comédias americanas de antes da guerra; pois não se pode qualificá-las de comédias de costumes. Para além de certos modos de vida tipicamente americanos, Sturges critica as crenças, as superstições sociais, os mitos de que esses modos de vida são o signo. Em “Contrastes humanos” ele soube levar a operação ao seu limite denunciando a mistificação do cinema, ele próprio gerador de mito. “Papai por acaso”  não é, no fundo, de uma lógica menos implacável no roteiro. Sturges comprouve-se em acumular sobre personagens perfeitamente inadaptados a essas situações todo o peso de preconceitos, conveniências e imperativos sociológicos de que uma cidadezinha americana, em tempo de guerra, é capaz. 

As aventuras que ele os faz atravessar permitem avaliar com terror que não se trata de pouca coisa. O cineasta substitui o jovem galã clássico por um homem simples de espírito, aposentado por tensão arterial. 

O pobre coitado oscilará como uma rolha sobre a onda da opinião pública, das galés à glória internacional (é melhor deixar ao leitor a surpresa de saber por quê). 

Os personagens são literalmente anti-heróis e, como tais, incapazes de criar por si sós qualquer acontecimento, bom ou mau, de que devem sofrer todas as conseqüências. Não nos enganemos: essa nova comédia americana é rigorosamente contrária à que conhecemos; Sturges é o anti-Capra, pois o autor de Mr. Deeds só nos fazia rir para certificar-se melhor de nossa confiança na mitologia social que suas comédias confirmavam. O traço de gênio de Sturges consiste em ter sabido prolongar a comédia americana pela transmutação do humor em ironia. O que se pode temer é que por isso mesmo ele anuncie o fim de um gênero que foi, não obstante, dos maiores.

Disponível no livro “Cinema da Crueldade”, BAZIN, André. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 

II) Louis Skorecki sobre "As três noites de Eva": 

Não se deve esquecer Sturges. Não John, imbecil fabricante de westerns (“Sete homens e um destino”, “Sem Lei e sem Alma”), mas Preston, ex-roteirista de elegância hawksiana, irônico. Preston, dândi rebelde, artista passageiro, triste e alegre ao mesmo tempo. 

Não se deve esquecer “Contrastes Humanos” (1941), obra-prima do riso descompromissado, da fantasia social e também da leveza absoluta, com um dos dois casais mais belos do cinema (o outro é Montgomery Clift e Lee Remick em “O Rio Selvagem” de Kazan): Joel McCrea e Veronika Lake. Uma pequena dúzia de filmes em menos de vinte anos de atividade (1940-1957), é pouco, mas suficiente para deixar uma marca tão grande quanto as de Harry Langdon ou de Charles Laughton.

“As três noites de Eva” precede por alguns meses “Contrastes Humanos”, mas não se deve esquecer. Lourcelles fala em “comédia um tanto previsível e difícil”, salvando a bela interpretação de Barbara Stanwick bem como “a intrusão frequente do pastelão (atrapalhadas, quedas, acidentes)”.

Ele não vai tão longe em falar de pré-Video Gag, mas poderia. Lourcelles insiste no lado desajeitado e burlesco do personagem Henry Fonda, cujo desempenho brilhante "rapidamente se torna invasivo e quase insuportável". Nada a acrescentar. Com Lourcelles, nunca temos a última palavra. 

Disponível em signododragao.blogspot.com/2006/12/lady-eve.html. Traduzido por Giovanni Comodo.