quinta-feira, 23 de maio de 2019

Cineclube do Atalante: Intendente Sansho


Japão, século XI. Zushio e a irmã Anju, filhos de um governador exilado pelas suas ideias humanitárias, são enviados para um campo de trabalho escravo comandado pelo temido Sanshô, enquanto sua mãe é dada como desaparecida.
 
Dirigido por Kenji Mizoguchi.

(Sanshô Dayû: JPN, 1954 - 124 min. Com Kinuyo Tanaka, Kyôko Kagawa, Eitarô Shindô. 14 anos.)

Serviço:
Sábado, 25 de maio
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Clube do Filme: Lola, a flor proibida

O Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias continua em maio. À semelhança de um clube do livro, toda quarta quarta-feira do mês nos encontramos para a discussão de um filme e textos relacionados. Com foco na Nouvelle Vague, o Clube se propõe a discutir as renovações técnicas, temáticas e filosóficas propostas pela crítica da época e seu cinema, que tomou de assalto a França e o mundo.

Neste mês, o ponto de partida é  "Lola, a flor proibida" (1961) de Jacques Demy - uma escolha natural após abordarmos sua cara-metade, Agnès Varda, no mês passado.



O que torna Lola tão importante é primeiramente sua beleza evidente, a elegância de sua forma, a indiferença em cada traço e a firmeza do todo, a graça em seu desdobramento, enfim, a felicidade contínua da mise en scène. É difícil de nomear essa beleza e se há um termo que se impõe desde o princípio, ele não é o mais preciso: charme. Não se trata, convenhamos, do termo mais usado hoje em dia, enquanto a moda está em um cinema afetado, teatral, empoeirado, reunindo o melhor e o pior sob a bandeira brechtiana. Tal noção de "charme" poderia, por mais que fosse imponderável, designar o último avatar da famosa especificidade cinematográfica. De um filme, o charme não seria o resto, mas a soma. Deixando de ser clandestino, aqui está o cinema "puro" tomado como objeto do filme. A mise en scène não pode mais ser considerada como instrumento de implementação, mas como intenção principal.   
François Weyergans em "Lola no país dos homens". Cahiers du Cinéma nº 117, março de 1961.

O uso inovador do espaço e do corpo dos atores e sua relação com a Nouvelle Vague, a atmosfera de sonho que é recorrente no trabalho do diretor, a musicalidade inerente em suas obras e a paixão como fundamento essencial na crítica de cinema serão alguns dos temas abordados.


"Lola, a flor proibida" foi lançado em DVD no Brasil, disponível em locadoras e sebos. Também é possível encontrá-lo no YouTube. Qualquer dúvida, estamos aqui para ajudar. 

Os textos para leitura (recomendada, não obrigatória):
1) "Jacques D. por Agnès V.", de Paulo Ricardo de Almeida: http://www.contracampo.com.br/83/artjacquesdemyporagnesv.htm
2) "Lola no país dos homens" por  François Weyergan: https://coletivoatalante.blogspot.com/2019/05/lola-no-pais-dos-homens.html [tradução inédita feita especialmente para o Clube do Filme]
3) Crítica de "Os Guarda-chuvas do Amor" por João Bénard da Costa: http://luckystarcine.blogspot.com/2019/04/les-parapluies-de-cherbourg-1964-de.html

Serviço:
Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias
"Lola, a flor proibida" (Lola, 1961), de Jacques Demy
Dia 22/05 (quarta quarta-feira do mês)
Das 19h15 às 21h45
Na Casa do Contador de Histórias
(Rua Trajano Reis, 325, São Francisco - Curitiba)
ENTRADA FRANCA
* Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.

Realização: Coletivo Atalante e Casa do Contador de Histórias
 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Lola no país dos homens

por François Weyergans


O que torna Lola tão importante é primeiramente sua beleza evidente, a elegância de sua forma, a indiferença em cada traço e a firmeza do todo, a graça em seu desdobramento, enfim, a felicidade contínua da mise en scène. É difícil de nomear essa beleza e se há um termo que se impõe desde o princípio, ele não é o mais preciso: charme. Não se trata, convenhamos, do termo mais usado hoje em dia, enquanto a moda está em um cinema afetado, teatral, empoeirado, reunindo o melhor e o pior sob a bandeira brechtiana. Tal noção de "charme" poderia, por mais que fosse imponderável, designar o último avatar da famosa especificidade cinematográfica. De um filme, o charme não seria o resto, mas a soma. Deixando de ser clandestino, aqui está o cinema "puro" tomado como objeto do filme. A mise en scène não pode mais ser considerada como instrumento de implementação, mas como intenção principal. Esperamos que Lola torne todos claramente cientes desta evolução. Tomada de consciência da crítica, entenda-se, uma vez que nem Murnau nem Renoir precisavam de Jacques Demy, claro, da mesma maneira que nem El Greco nem Scève contavam com Van Gogh ou Mallarmé.

Mas é inútil escrever mais sobre isso. Basta dizer claramente que Lola é uma das primeiras obras do cinema moderno que não pode ser amada pelas razões erradas. E será suficiente ter visto Lola para entender sem esforço o que me resta e o que vem adiante. Por exemplo, Lola é o golpe definitivo, parece-me, em obras como O Grito ou O Sétimo Selo, que parecem distantes, fora de moda, debatendo-se em vão nos níveis dos signos e da alegoria.

Não acredito que essas declarações sejam subjetivas e inaveriguáveis. Antes de fundamentá-las mais diretamente, gostaria de examinar o roteiro, onde já se amarra a forma da obra.

A Fênix e a pomba 

Abertura da íris. Um Cadillac branco, cinemascópico, sem capota, registrado como “10.000 Lakes”, se aproxima e para. Estamos na beira do oceano. Um homem vestido de branco desce e olha para as ondas.

É fabuloso. Estes primeiros planos – planos americanos em um filme francês – são autoritários, incontestáveis, insolentes. Servem para Demy instaurar desde as primeiras tomadas um clima de sucesso inexorável: esta “aparição” branca encarna um Fatum benéfico.

Após o motorista “olhar o mar uma última vez e voltar ao seu carro como os cowboys em seus cavalos brancos nos Westerns”, note a decupagem. Não haverá grandes surpresas depois, uma vez que já sabemos que vamos testemunhar a história de um desses Retornos Afetivos, como prometidos pelos videntes de parques de diversões.

Segundo tema: Roland. Enquanto alguém chega, Roland sonha em ir embora. Ele fixou um mapa-múndi na parede do seu quarto. Ele verá um filme que o faz querer ir para as ilhas de Mangareva. (Aprenderemos mais tarde que aquele que acaba de chegar, Michel, chega precisamente dessas ilhas.)

Então Frankie, marinheiro americano, terno branco também, nas ruas de Nantes cruza com Michel, Roland. Lola, bailarina no Eldorado, recebe Frankie, porque lembra um primeiro amor, Michel. Ao mesmo tempo, Roland dá um dicionário para uma garota de catorze anos porque ela parece uma amiga de infância com o mesmo nome, Cécile. O nome de Lola é Cécile.

Precisamente Roland reencontra Lola. Eles se reconhecem. Lola está esperando há sete anos por um marinheiro cuja roupa branca e aparência imponente a seduzira aos catorze anos. No dia de seu décimo quarto aniversário, Cécile é seduzida pela presença de Frankie; ela o ama.

Roland ama Lola. Lola espera por Michel. Michel e Lola se reúnem sem se encontrarem. No dia em que Lola deixa Nantes, Michel chega para buscá-la no Eldorado, “Michel surge em um raio de sol” diz a decupagem. Ele é rico. Ele vai se casar com Lola.

Roland deixa Nantes.

Nantes desempenhou o papel de encruzilhada das tragédias gregas. Todo o cenário é banhado por uma atmosfera de fatalidade paradoxalmente inofensiva. Inofensiva? Sim e não.

A chegada de Michel em Nantes desencadeia uma cascata de coincidências sobre as quais não é inapropriado evocar os universos paralelos, os círculos de Euler ou o Retorno Eterno do Mesmo. A mistura dessas vidas, despertada por Michel, que é ao mesmo tempo o personagem mais distante e mais implicado na intriga, assume a aparência de um sonho. Entre a primeira e a última sequência de Lola, como na queda da chaminé da fábrica em Sangue de um Poeta, "nem visto nem conhecido", um sonho.

Isso explica por que Jacques Demy não teve a ambição de apresentar as relações entre os personagens como "psicologicamente" plausíveis, mas de ligá-los por essa evidência poética que é a coincidência (os personagens de Lola rimam entre si). É evidente que as relações entre homens e mulheres em Lola, mesmo que estejam ligadas a situações semelhantes, não têm nada em comum com as descritas por Astruc, Kast ou Moreuil, uma vez que estes se baseiam na observação objetiva e realista, enquanto Jacques Demy nos faz sentir seu universo como um de sonhos, portanto subjetivo (mas que pode expressar, sob outras formas, as estruturas fundamentais da existência). Disto para desprezar os personagens de Lola, que se perderiam em um sonho perpétuo, e para taxar Demy de esquizofrênico (ou quase), é só um passo rapidamente tomado por alguns. 

Mais verdadeiro que a verdade 

Tal seria julgar (ou pré-julgar) de acordo com critérios realistas que nada têm a ver com o tom da obra. Lola rejeita imediatamente o verdadeiro e o falso para chegar ao mais verdadeiro que a verdade: Demy sabe até que ponto deve admirar Cocteau.

Ele elabora um universo formal sem referência a significações convencionais e é constantemente fiel ao seu ponto de partida. Portanto, contestar o final de Lola é tão irracional quanto culpar Giraudoux de não ser Zola. Ao contrário, admiro sem reservas a coerência do caráter de Michel consigo mesmo, que age de acordo com sua existência cinematográfica, e de quem, se o compreendermos corretamente, não poderíamos esperar outra coisa senão o que ele faz: "É apropriado que a poesia seja inseparável do previsível, mas não do formulaico", propõe René Char.

O propósito de Jacques Demy é um pouco um propósito de ópera. Os personagens existem através do cinema como Fígaro através da música, de um livreto ou de uma realidade, rapidamente ultrapassados. Eu quero dizer que a criação artística lá também é predominante, que é vinculada tanto a uma como a outras disciplinas a fim de destacar a presença dos seres (enquanto em um romance literário, trata-se de preencher uma ausência). Em Massimilla Doni, Balzac faz a Duquesa explicar como Rossini une já com a melodia dois seres que se odeiam, prevendo sua união. Em uma situação um pouco diferente, é o mesmo caminho tomado pelo estilo de Demy e da mesma forma ele atinge o sublime: o abraço final de Michel e Lola é tão comovente quanto os mais comoventes acentos mozartianos.

Em Lola, os personagens são sempre ligeiramente divididos, em representação. O diálogo denota claramente esta tendência, como evidenciado por este surpreendente "recitativo" de Madame Desnoyers:

Madame Desnoyers - Estou morta. Essas compras na cidade me deixam louca. Todos esses carros. Todas essas pessoas.

Cécile - Sim, mamãe

Madame Desnoyers - Todas as pessoas são gentis, Cécile. Salvo talvez algumas. Você não tem que acreditar que a humanidade é totalmente podre. É preciso confiar nas pessoas às vezes. Haverá sempre os bons, mesmo se as aparências nos enganam. No entanto, o "hábito não faz o monge". Não fique agitada assim. Você me cansa. Ele tem uma boa aparência. Sabe se expressar bem. Eu me pergunto o que ele faz da vida. Cécile, traga meus chinelos cinza, seja um anjo.

Cécile – Sim, mamãe.

Madame Desnoyers - Afinal, ele não foi obrigado a trazer-lhe este livro. É muito amável da parte dele. Você não pode esquecer de lhe agradecer, não esqueça. Nós poderíamos convidá-lo para jantar, seria um modo de conhecê-lo melhor. Mas isso é realmente necessário? O que você acha, Cécile? Você não diz nada. O que você está fazendo?

O autor de um filme falado precisa saber, escrevia Malraux, quando seus personagens devem falar. Raramente tive a impressão de um diálogo tão bem "distribuído" como este de Lola, muitas vezes um pouco à frente daquele que o diz; as palavras e seu ritmo parecem desenhar em um espaço fictício o caráter daqueles que as pronunciam, com um pouco de fantasia o suficiente para corrigir a seriedade de uma confidência.

 Um viés de irrealismo também inspira a direção dos atores: Lola sobretudo, como um pássaro em um galho, tratada em silhueta, andando enquanto esboça passos de danças (pernas que patinam, se aproximam).

Irrealista em sua intenção, Lola, no entanto, se fundamenta em uma fidelidade mais essencial à realidade, e que é peculiar ao que eu chamaria de cinema horizontal: a linguagem usada é sempre uma linguagem universal, veículo por sua vez de uma linguagem pessoal. Renunciando às facilidades arbitrárias do sonho filmado e do flashback, Jacques Demy consegue impor a sensação do imaginário, a presença do tempo, pelos meios mais simples, mais diretos. Quando Lola sobe a escada da rua, enquanto um movimento de grua baixa a câmera em direção a ela, que é tipicamente um movimento de comédia musical, o filme milagrosamente se abre para um momento mais raro, uma espécie de elevação lírica. Quanto às três mulheres, Cécile, Lola e Madame Desnoyers, elas aparecem como as três idades do mesmo personagem, e esse atalho é mais bonito do que qualquer flashback.

Um dos grandes momentos de Lola, e um dos menos explicáveis, é a câmera lenta de Cécile e Frankie na festa. A extraordinária delicadeza (sim, é necessário usar esta palavra desgastada) deste momento desautoriza a proposição de uma análise. É possível constatar o ritmo do amor descoberto e agradecer a Demy por ter forçado o ritmo de sua arte a se basear no ritmo do amor, mas ao mesmo tempo perfura uma nostalgia: essa câmera lenta não propõe já o ritmo da memória que se tornará um dia? 

Um filme resolutamente moderno 

Lola é um filme perpetuamente entreaberto, que deve por isso agradar ao autor de "La Poétique de la Rêverie". E a ocasião é boa demais para não citar a sentença essencial de André Bazin: "Sendo o cinema por essência uma dramaturgia da natureza, não pode haver cinema sem a construção de um espaço aberto, que substitui o universo em vez de incluir-se nele."

A graça do filme de Demy vem dessa extrema disponibilidade do campo. A belíssima fotografia de Coutard constantemente desvanece os personagens ou os cantos do cenário, em um halo que não é falta de jeito, mas estilo (Demy trabalhou no laboratório a película), e isso ajuda a dar ao filme esse caráter relaxado e de esboço, de negligência fingida (após aquele pelo qual tantos outros ficaram acossados).

Não vejo por que o respeito por um quadro sacrossanto seja uma condição necessária para fazer um bom cinema. Deve ser entendido que não há uma verdade eterna. O cinema moderno conquista uma forma que vem da sua necessidade à sua liberdade. E não é um dos menores méritos de Lola de nos oferecer o filme nesta liberdade como de um esboço vista também em outras obras convergentes como O Almoço na relva, Eu, um negro e Shadows.

A liberdade total da forma, em Lola, é o elemento natural do jogo: "A arte é um jogo", escreveu Max Jacob em seu “Conseils à un jeune poète", pena de quem a realiza cumprindo um dever. Este jogo, que é antes de tudo um jogo da forma consigo mesma (vejam como os encontros entre Roland e Lola são organizados, durante a longa confissão de Lola, no restaurante, nas ruas), impede que a tragédia se manifeste. "Você tem que agradar", dizem Lola e Mozart, bem próximos. E como decididamente esse filme me parece mozartiano, talvez por meio de Renoir e Ophüls, repito sobre Lola o que o teólogo protestante Karl Barth disse sobre Wolfgang: com ele, tudo que é pesado plana, enquanto o que é leve pesa infinitamente.

Demy, tão naturalmente um cineasta como Mozart um músico, fez com Lola um filme onde o prazer de filmar justifica tudo. E isso o dispensa do mesmo golpe de preocupação com a metafísica que desconcertou os bons espíritos que viram em Lola apenas um mero entretenimento sem significação precisa. O Concerto do Prazer de Vivaldi, Moça com brinco de pérola de Vermeer tampouco têm um significado preciso. Mas eles nos ajudam a viver. 

Despacho 

Ainda há muito a dizer, mas também não há nada a dizer. Vamos esperar que a estupidez não se detenha sobre esta obra frágil. Nós não culpamos Jacques Demy por ter dedicado o seu trabalho a Ophüls: nisso ele participa do mesmo movimento moderno que faz Stravinsky recriar Pergolesi, Picasso Velásquez e já Mozart “emprestava” de Handel!

Demy e Cocteau: encontro nas notas de lançamento de A Bela e a Fera algumas anotações que combinam com Lola: os personagens não vivem, mas vivem uma vida contada; um clima que corresponde mais aos sentimentos que aos fatos.

Gostaria também de ressaltar a objetividade de Jacques Demy, a serenidade de seu filme, essa repulsa à autobiografia que, contudo, não sucede em mascarar completamente uma sensibilidade que nem deveria interessar ao crítico se ela não guiasse toda a construção do filme.

O que é Lola?

A palavra final não existe, sobre uma obra de arte. Lola é um filme tão belo, tão fictício, tão verdadeiro, tão efêmero, tão gracioso quanto uma asa de borboleta. Fico feliz em aprender por Roger Caillois que no homem essa asa é chamada precisamente de obra de arte.


Disponível em Cahiers du Cinéma nº 117, março de 1961. Tradução de Giovanni Comodo.

sábado, 4 de maio de 2019

Visages, villages (2017), de Agnès Varda e JR

por Ricardo Vieira Lisboa
 

Há certos gestos cinematográficos que me emocionam sempre. Coisas formais, na maioria das vezes. Um em particular é quando um realizador passa, sem cortes, de um plano objectivo a subjectivo. Este exercício de subjectivação diegética do olhar (dentro de um filme, que é já, de partida, um olhar subjectivo) tem o poder de literalizar, em continuidade, o acesso a uma interioridade do personagem. Expondo portanto os mecanismos da construção da empatia pelo cinema e, por outro lado, afirmando a própria ideia de que é (ainda, pelo menos no cinema) possível um acesso à experiência do Outro. Isto é, de que existe um dispositivo fílmico que re-apresenta a possibilidade de um encontro inter-subjectivo.

Pensei nisto, pela primeira vez, aqui há uns anos quando Agnès de ci de là Varda (2011) foi apresentado (apenas os dois primeiros episódios, salvo erro) no DocLisboa. Logo no primeiro tomo desta mini-série, que a “avozinha punk” do cinema francês fez para o canal Arte, há um desses emocionantes gestos: quando a realizadora se encontra (fisica e “inter-subjectivamente”) com Manoel de Oliveira. Esse encontro faz-se através da pequena câmara digital que Varda sempre enverga. Ela filma-o. Ele repete o seu costumeiro gag do Charlot, em que imita a postura do personagem de Chaplin, arqueando as pernas, agitando a bengala, fingindo um bigodinho [como já fizera para outra câmara, dessa feita a de Wim Wenders, em Lisbon Story (Viagem a Lisboa, 1994)]. Se a candura da performance infantil, daquele que já era o mais antigo realizador em actividade, deleita qualquer um, o que se segue reveste-se de pura emoção. Varda passa a sua câmara para as mãos do colega de profissão. Filma-me, pede-lhe (Shoot me, dir-se-ia em Inglês). E ele, desprevenido, aponta o objecto ao alvo. O resultado, um enquadramento torto e desfocado daquele que é o “mestre” do cinema nacional [como desfocados também são vários dos planos filmados por Varda neste Visages, villages (Olhares Lugares, 2017)]. Esta franqueza e esta disponibilidade de uma realizadora que oferece a sua ferramenta de trabalho ao Outro, que partilha com ele o gesto de criação, e assume no espaço da sua subjectividade a subjectividade do outro, isto, emociona-me. E aqui está, a meu ver, a grande força do trabalho de Agnès Varda dos últimos anos, a disponibilidade face ao Outro. Varda é a grande patroa do exercício da alteridade, esse esforço que parece vir escasseando cada vez mais nos nossos dias.

Há aquela ideia feita (da qual desconfio muito, mas que neste momento não me interessa pôr demasiadamente em causa) de que são as vanguardas que alimentam a arte popular, em particular, que é o cinema experimental que renova e re-inventa o cinema mainstream. Pois bem, o mesmo será verdade para a influência dos pioneiros da vídeo-instalação. Há duas peças de filme instalado de Dan Graham e Michael Snow, respectivamente Helic/Spiral (1973) e Two sides to every story (1974), que quase coincidindo no mesmo momento histórico exploram de formas muito semelhantes este gesto cinematográfico que venho sublinhando na sua qualidade mais formalista. São os dois filmes de duplo canal sicrano e em loop, produzidos em película 16mm, onde duas câmaras apontam uma para a outra (ora através de dois operadores que rodopiam, como numa valsa entre amantes iconófilos, ora através de um vidro que se materializa, costas com costas, na superfície de projecção). As duas peças procuram reflectir sobre a própria natureza do processo cinematográfico mas, de novo, abrem-se a um universo onde há espaço para um Outro. Um outro que Me infecta o olhar.

As repercussões destes exercícios no cinema de grande público dá-se com popularização dos filmes de terror de found footage. Nestes é muito comum uma câmara filmar outra e, logo na abertura do “revolucionário” The Blair Witch Project (O Projecto Blair Witch, 1999) de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, parece haver uma citação à espiral de Dan Graham. Nestes filmes, nos melhores pelo menos, a câmara reveste-se de ferramenta bélica. No recente remake de Adam Wingard, por exemplo, o ecrã do pequeno aparelho de vídeo devem escudo de Perseu na sequência final, e no subvalorizado Diary of the Dead (Diário dos Mortos, 2007) de George A. Romero um recém mordido humano grita “shoot me!” (como a Varda a Oliveira) para o personagem/realizador que numa mão tem uma câmara e noutra uma pistola – até na morte a câmara como possibilidade de encontro do Outro, a câmara como utensílio de eutanásia (o mais extremo exercício da alteridade).

Tudo isto para dizer que Visages, villages, de Agnès Varda e JR é um filme cujo cerne está precisamente nesta possibilidade da partilha de subjectividades, entre Varda e fotógrafo/artista plástico JR. Mas também com as pessoas que a dupla vai conhecendo neste que é um road movie atípico pela França rural. Para isso os dois realizadores embarcam num carro-objectiva – a fazer lembrar os agit-train da propaganda soviética de, entre outros, Dziga Vertov – que deambula pelas vilas (villages) e produz fotografias de grande formato dos rostos (visages) que encontra. A isto acresce ainda a proposta dos realizadores de cobrir as fachadas dos edifícios com os ditos rostos dos seus moradores (ou dos seus locais de trabalho). E aqui dá-se o impasse. O olhar de JR é coisa de estética pinterest, imagens de uma beleza fácil, emotiva, nostálgica, segura. O olhar de Varda é um olhar que procura a instabilidade, que se delicia no inesperado – a certo momento ouve-se, da sua boca, “É horrível, é lindo” olhando para a carcaça amputada de um peixe na praça. E o momento do embate entre esta divergência, momento triste aliás, dá-se quando Varda deseja colocar uma fotografia na fachada de um edifício em construção, fachada nua, de betão armado, e JR ri-se, às bandeiras despregadas, com a escolha tão inusitada (acabando por a demover). A ele só lhe interessa as paredes estragadas, as ruínas e os espaços industriais, locais onde há uma bagagem estética, histórica e emocional que preenche o vazio do seu trabalho fotográfico (que não anda muito longe das intervenções de Vhils).

Vertov diria que o “O cine-olho é entendido como ‘aquilo que o olho não vê'”, em JR não se trata de um cine-olho, mas sim de um olho-cínico (para não dizer oportunista ou vampírico). De facto ele é o pior de Visages, villages, como pior é o momento “o que dizem os teus olhos” à la Pedro Abrunhosa (ainda que a literalização, pelo desfoque, da maleita da vista de Varda traga uma saudável provocação). No entanto o melhor do filme, e faço esta leitura de máximos e mínimos porque um devém do outro, é o des-encontro com Jean-Luc Godard (esse sátiro de fino requinte) que escapa à maquinaria subjectiva de Varda resumindo a sua presença a uma nota num vidro (talvez citando a instalação de Michael Snow?). Porque se é belo quando uma subjectividade se abre a outras, também não deixa de o ser quando uma se reserva o direito à sombra.

E se dúvidas restassem sobre essa oposição entre os dois assinantes da realização, os créditos finais esclarecem os mais cépticos: mesmo no fim pode ler-se “de AV et JR, AV par Agnès Varda et JR par JR.” Em Varda há um fundo na sigla, em JR já só há sigla.


Retirado de https://www.apaladewalsh.com/2018/02/visages-villages-2017-de-agnes-varda-e-jr/

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Cineclube do Atalante: Visages, Villages


Agnès Varda e JR têm coisas em comum: sua paixão por imagens e, mais particularmente, o questionamento sobre os lugares onde elas são mostradas e a maneira como são compartilhadas e expostas. Agnès escolheu o cinema. JR escolheu criar galerias fotográficas ao ar livre. Em encontros aleatórios ou planos pré-concebidos, eles partem pelo interior da França em direção a outras pessoas e suas histórias.

Dirigido por Agnès Varda e JR.

(Visages, Villages: FRA, 2017 - 89 min. Com  Agnès Varda, JR, Jean-Paul Beaujon. LIVRE)

Serviço:
Sábado, 04 de maio
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

Cineclube do Atalante: programação de Maio

04/05:  Visages, Villages, de Agnès Varda & JR [Sessão em homenagem à Agnès Varda]
 

 
(Visages, Villages: FRA, 2017 - 89 min. Com  Agnès Varda, JR, Jean-Paul Beaujon. LIVRE)
 
Agnès Varda e JR têm coisas em comum: sua paixão por imagens e, mais particularmente, o questionamento sobre os lugares onde elas são mostradas e a maneira como são compartilhadas e expostas. Agnès escolheu o cinema. JR escolheu criar galerias fotográficas ao ar livre. Em encontros aleatórios ou planos pré-concebidos, eles partem pelo interior da França em direção a outras pessoas e suas histórias.
 
25/05: Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi
 

(Sanshô Dayû: JPN, 1954 - 124 min. Com Kinuyo Tanaka, Kyôko Kagawa, Eitarô Shindô. 14 anos.)

Japão, século XI. Zushio e a irmã Anju, filhos de um governador exilado pelas suas ideias humanitárias, são enviados para um campo de trabalho escravo comandado pelo temido Sanshô, enquanto sua mãe é dada como desaparecida. Um dos maiores filmes de todos os tempos.

Serviço:
Sessões no primeiro e no último sábados do mês (excepcionalmente)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

domingo, 28 de abril de 2019

Uma mulher que você precisa conhecer

por Matthew Eng

 
Desde que Marlon Brando pegou de surpresa a luva branca de Eva Marie Saint em Sindicato de ladrões não surgia uma forma inteiramente nova de atuação originada da potência de um ator na maior performance de sua vida. A atuação de Brando permanece – indisputável – como uma das maiores já vistas em celuloide, mas cada vez mais, francamente e com o devido respeito à Stella Adler, a de Rowlands neste filme parece a mais arriscada e, portanto, destemida façanha.

Na primeira vez em que vi Uma mulher sob influência na faculdade, eu fui muito intimidado pela volatilidade intramural da história e pela declarada falta de pudores do cinema de Cassavetes para realmente entender – muito menos apreciar completamente – as excelentes sutilezas do desempenho de Rowlands. Eu assisti a Uma Mulher novamente pela segunda vez em agosto passado, preparado para me submeter a essa experiência cinematográfica assustadora e emocionalmente desgastante mais uma vez. Eu esperava me emocionar, mas não esperava ter o ar praticamente arrancado dos meus pulmões, meus olhos jorrando e meu coração subindo rapidamente em direção à minha garganta enquanto Mabel tentava desesperadamente afastar seu marido amoroso mas violentamente exasperado, Nick (Peter Falk), o homem a quem ela é intrínseca e desesperadamente ligada, que acaba de recorrer à ajuda de um médico para levá-la para um manicômio no inesquecível e traumático colapso no meio do filme. 

Enquanto Brando e seus colegas do Método trabalhavam a partir de um sistema intensamente estudado de imersão, motivação e reação que havia sido fundado décadas antes por Stanislavski, Rowlands quase que sozinha liderou seu próprio movimento de ser na tela descomunalmente emocional enquanto psicologicamente guiada, uma escola de desempenho que só parece inconsequente para aqueles que observam as loucuras furiosas de Rowlands de uma perspectiva puramente superficial. A sublime atuação de Rowlands é de forma quase inédita dirigida pelo id: suas heroínas sitiadas operam a partir de reservas tão profundas que podem ser acessadas por Rowlands, que não apenas estabelece momentos, mas também luta com eles para extrair camadas ainda mais robustas de autenticidade. Esticando o corpo esguio e a voz maleável até seus pontos de completa ruptura, Rowlands exibe esta autenticidade, esta necessidade, com todos os brilhos de emoção que a tela poderia conter. Suas personagens encurraladas e instáveis ​​agem não porque Rowlands acha que deveriam, mas porque precisam, a fim de que sejam ouvidas, vistas e, quem sabe, compreendidas.


Uma mulher foi um divisor de águas no cinema americano, mas também uma marca sem paralelos da atuação norte-americana que foi recebida em êxtase pelos grupos de críticos e associações de premiação. Cassavetes recebeu uma indicação ao prêmio de Melhor Diretor e Rowlands, claro, conquistou uma vaga na maior disputa de Melhor Atriz de todos os tempos no Oscar de 1974, apenas para ver sua óbvia vitória entregue à reconhecidamente maravilhosa Ellen Burstyn em Alice não vive mais aqui. Em retrospecto, talvez a encarnação selvagem de Rowlands fosse chocante demais, a desesperança de sua Mabel perturbadora demais para os votantes da Academia, os quais acabaram por votar no papel de uma mãe solteira resiliente da classe trabalhadora que é, na verdade, uma encarnação muito mais heroica da feminilidade da era setentista?


De qualquer maneira, a obra-prima de Rowlands é aquela se tornou o critério, um momento inestimável na história do cinema americano que irá perdurar mais que qualquer disputa do Oscar. Ela se tornou, junto com o pai fundador Cassavetes, uma embaixadora vitalícia e defensora orgulhosa do cinema indie, tendo chegado a declarar “eu amo o cinema independente. Não concordo com muito dele, mas este é o ponto”.



Após Uma Mulher, Rowlands fez mais três filmes com Cassavetes até a morte prematura do diretor em 1989 aos 59 anos. E ela está estupenda em todos: como uma contrariada diva dos palcos em passos falsos que só nós podemos ver em Noite de Estreia, como uma irritadiça amante da máfia tornada protetora de criança e vingadora de batom em Gloria (sua segunda indicação ao Oscar) e como a emocionante e avoada mãe-esposa em Amantes, no qual Rowlands faz a mais melancólica performance screwball de todos os tempos na habilidosa carta de amor de Cassavetes a todos os laços imperfeitos de família. Todos esses filmes merecem ser vistos, bem como o contemplativo A Outra de Woody Allen, no qual Rowlands abre mão de todos maneirismos e consegue queimar um buraco na tela de forma sutil e cativante no papel de uma professora de filosofia cuja confiança começa a vacilar diante de um despertar pessoal desagradável.



Retirado de “It’s About Damn Time Gena Rowlands Got An Oscar” (novembro de 2015). Disponível em https://www.tribecafilm.com/stories/it-s-about-damn-time-gena-rowlands-got-an-oscar-john-cassavetes-honorary-oscar-2015. Tradução de Giovanni Comodo.