Nunca confie em quem tem mais de 30 anos. Esse poderia ser o lema da APJCC, Associação Paraense dos Jovens Críticos de Cinema. A associação é formada por membros de três grupos: os “Fellinianos”, fundado por Aerton Martins, o “Trashformação”, fundado por Max Andreone, e o Cine-Uepa, fundado pelos alunos de letras Miguel Haoni e Mateus Moura. A soma da idade de todos os membros da associação certamente não ultrapassa a de um quinto dos membros da APCC.
Essas jovens figuras estão por trás da primeira Sessão Maldita deste ano no Cine Líbero Luxardo, do Centur. Será às 21:30h deste sábado, dia 22 de março, com “Dragões da Violência”, de Samuel Fuller. Isso é que é começar o ano com o pé direito.
“Forty Guns”, título original do filme, é um dos melhores faroestes da grande década dos faroestes, a de 50, um dos melhores filmes rodados no falecido processo de CinemaScope, antes que o sistema Panavision monopolizasse o formato anamórfico, e uma obra-prima entre obras-primas na carreira de Fuller. Acha pouco?
Volta e meia, o Telecine Classic exibe outra obra-prima de Fuller, e um dos meus filmes favoritos, “Casa de Bambu”. Só que é exibido com as laterais mutiladas. Sem exagero, é melhor não ver o filme assim do que vê-lo apenas para que conste do seu currículo de cinéfilo. Os filmes que Fuller fez em CinemaScope são sobretudo sobre o formato do CinemaScope. Depois são sobre outras coisas. Se alguém lhe perguntar sobre o que é “Dragões da Violência”, não hesite em responder: “É sobre CinemaScope”.
O processo anamórfico do CinemaScope tinha problemas sérios de profundidade de campo, foco e distorção da imagem. Essas limitações eram ainda maiores em filmes coloridos. “Casa de Bambu”, de 55, foi rodado em cores. Em “Dragões da Violência”, de 57, Fuller usou o preto e branco e pôde ousar ainda mais no formato, nos dando enquadramentos bizarros em profundidade e supercloses que antecipam os que Sergio Leone nos daria na década seguinte.
Apesar da delirante criatividade barroca de Fuller, com seus inusitados ângulos de câmera e enquadramentos criando composições quase abstratas, a seqüência mais bela de “Dragões da Violência”, e uma das mais belas da história do cinema, é clássica e pura como um vitral. Fuller nos mostra um funeral. Ou melhor, não nos mostra um funeral.
A primeira composição é, ao mesmo tempo, equilibrada e dinâmica, com a viúva repartindo o quadro em dois.
Uma lenta panorâmica para a esquerda, seguida de um travelling para frente, revela o único outro personagem da cena (se não levarmos em conta os cavalos).
O travelling termina enquadrando o personagem, que canta em homenagem ao morto.
Fuller corta para um plano ainda mais próximo do cantor.
Depois volta para o plano inicial (não precisaria ter cortado, mas o corte não é intrusivo e segue os parâmetros da continuidade clássica).
Outro travelling, agora para trás, e outra panorâmica, agora para direita...
...e a seqüência termina quase como começou, e o quase é importante, com a viúva mais próxima de nós, dominando o quadro.
Sem mostrar o enterro, sem sequer mostrar a cova, e com apenas dois personagens em cena, Fuller nos dá um dos mais memoráveis funerais da história, aproveitando ao máximo a possibilidade de encenação lateral do CinemaScope. Não tente fazer isso em casa.
Não há nada de vergonhoso em não ter visto um filme de Fuller. São difíceis de encontrar. Vergonha é ter a oportunidade de ver um filme dele no formato original e não aproveitar.
Texto extraído de: http://www.orm.com.br/blogdecinema/capa/?mes=3&ano=2008