sábado, 13 de julho de 2024

Nouvelle Vague (1990)

por Geraldo Veloso

Ao terminar o seu trabalho em Finnegans wake, Joyce declarou: “Levei quase duas décadas para realizar este texto. Agora espero que os leitores levem 300 anos para decifrá-lo”.

Aos 60 anos, Jean-Luc Godard (talvez o melhor tradutor da estratégia criativa de James Joyce no cinema) faz um retorno às origens de sua geração e nos dá Nouvelle Vague.

É o tempo de ouvir os quartetos da maturidade de Beethoven, Arnold Schönberg (visitado por alguns trabalhos de Jean-Marie Straub e Danielle Huillet), Bela Bartok, Arthur Honegger e Paul Hindemith. E Hindemith vira trilha sonora de Nouvelle Vague. Na calma de sua Suíça de origem, onde busca uma continuidade de sua trajetória de reflexão (etnográfica?) sobre a cultura de seu tempo.

Jacques Audiberti empresta a Godard o pretexto (e o texto) para o mergulho em uma obra de referência. Escritor pouco conhecido, ele foi contemporâneo da gênese da Nouvelle Vague revisitada por Godard, chegou a colaborar nos Cahiers du cinéma como crítico e resenhista (a convite de François Truffaut) e chegou também a conviver com Cocteau e Valéry. O primeiro levou a geração dos Cahiers para o festival de cinema maldito de Biarritz. O outro frequentou a casa dos pais e o avô de Jean-Luc, na Suíça.

Vamos interpretar Nouvelle Vague? Isso é papel dos acadêmicos, que poderão criar um corpus investigativo que chegará à conclusão habitual diante de qualquer obra de Godard (ou Hans Lucas): tudo é citação, coligida pela aleatoriedade poética de um investigador incansável do seu tempo. Atento, provocador, curioso, sofisticado, moleque (como Joyce), socrático etc.

Mas Elena Torlato Favrini (personagem central do filme de Godard, representada pela linda Domiziana Giordano) “não existe”. Explico melhor: seu pai, o conde Torlato Favrini, de A condessa descalça, de Joseph L. Mankiewicz (uma obra--prima), representado pelo ator Rossano Brazzi, era estéril/mutilado de guerra e não criou descendência: flagrando sua amada Maria Vargas (Ava Gardner) nos braços do chofer do castelo, carente de cuidados sexuais e afetivos, ele os matou. Mas a condessa conta para um interlocutor, no filme de Godard, que seu pai (o conde) era amigo do embaixador americano em Roma, Joseph Mankiewicz (!). E ouve dele a seguinte resposta: “M. Mankiewicz não fazia cinema como os outros. Só fazia o seu trabalho”.

Dona de um império econômico/industrial na nova Europa (dos anos 1990), Elena está cercada de serviçais (a fábula da luta de classes; uma governanta responde para a subordinada, quando perguntada, “por que os ricos são diferentes?”: “Porque eles têm dinheiro”), negócios (compra de 3% do capital da Warner), advogados e executivos, automóveis (Maserati, Mercedes, BMW e um antigo e clássico Citroën – paixão constante de Godard) e tramas inconfessáveis (uma transação com um quadro de Goya, La maja desnuda e seus seios separados).

Um andarilho (Alain Delon) é achado quase morto à beira de uma estrada e um balé de mãos o ressuscita. Mais tarde, é deixado morrer afogado pela condessa Torlato Favrini – “Je fais pitié”, repete ele. Depois “volta”, na forma de um irmão “igual”, mas completamente oposto: é um executivo dominador, dinâmico e agressivo, como bom yuppie. E se torna amante da condessa. Depois ela também se afoga (um corte rápido revela que ele não a deixa morrer). O cinema abole o raccord dramatúrgico (a continuidade lógica da narração). A Nouvelle Vague tinha abolido o raccord de movimento e transição (e instaurado o faux raccord).

E passeiam, diante de uma objetiva administrada por William Lubtchansky (colaborador da Nouvelle Vague “madura”: Rivette, Straub, Bonitzer, Varda, Garrel), por herdades verdes, águas e horizontes (como em Pierrot le fou, 1965? – “Ah, quelles térribles cinq heures du soir”).

Imagens conectadas apenas pela sensibilidade poética.

E ouvimos Dante, Erle Stanley Gardner, Schiller, Conan Doyle e sabe-se lá mais quem.

A água nos traz O sol por testemunha ou Um lugar ao sol.

Ao mesmo tempo, Godard dá mais uma guinada em seu processo criativo em direção ao profundo umbigo confessional (JLG/JLG, 1994, Passion, 1982 e Prénom Carmen, 1982, uma autoironia sobre a idade madura mostra um “titio” Godard tentando enfiar o dedo no c... de uma enfermeira, empunhando um álbum de Buster Keaton).

Um mistificador, um estelionatário, um ilusionista?

Apenas um poeta, dedicado ao amor e à invenção.

Retirado do catálogo da mostra "Godard inteiro ou o mundo em pedaços" (Org. Eugenio Puppo e Mateus Araújo, CCBB, Heco Produções, 2015).

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Cineclube do Atalante: Nouvelle Vague

O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Jean-Luc Godard, em projeção 35mm (cópia do acervo da Cinemateca de Curitiba). Entrada franca e seguido de conversa, sempre.


NOUVELLE VAGUE

Dirigido por Jean-Luc Godard
* Sessão em 35mm (cópia do acervo da Cinemateca de Curitiba)

(Nouvelle Vague, França, 1990, 90 min., drama, 14 anos.)
Com: Alain Delon, Domiziana Giordano, Roland Amstutz.

Uma condessa atropela um andarilho, o leva à sua mansão e cuida dele. Mas se irrita com seu mutismo e deixa que se afogue. Um tempo depois, um homem idêntico surge, sabe do crime e se diz irmão do morto. Em troca do silêncio, passa a dirigir uma empresa da condessa e se torna seu amante.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Nouvelle Vague” (1990), de Jean-Luc Godard
Sábado, 13/07
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante
Apoio: @fcccuritiba

PROJETO REALIZADO POR MEIO DA LEI MUNICIPAL COMPLEMENTAR 57/2005 DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA, FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA E PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, SECRETARIA DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL

sábado, 29 de junho de 2024

Adriano Aprà sobre "Francisco, arauto de Deus"

O crítico, curador e cineasta Adriano Aprà em depoimento de 2004 sobre "Francisco, arauto de Deus" (1950) de Roberto Rossellini para a Criterion Collection (legendas em inglês):


quinta-feira, 27 de junho de 2024

Cineclube do Atalante: Francisco, arauto de Deus

O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Roberto Rossellini. Sessão com entrada franca e seguida de conversa, sempre.



 

FRANCISCO, ARAUTO DE DEUS

 

(Itália, 1950, 85 min., drama, 14 anos.)

 

Direção: Roberto Rossellini.

 

O filme dramatiza uma série de doze vinhetas em que são narradas as proezas de São Francisco de Assis e seus primeiros seguidores, em seu percurso por várias cidades italianas a fim de pregar e praticar aquilo que consideram a suprema felicidade. No percurso, deparam-se com um violento tirano e são posteriormente abençoados pelo Papa.

 

Serviço:

 

CINECLUBE DO ATALANTE

“Francisco, arauto de Deus” (1950), de Roberto Rossellini

Sábado, 29/06

Às 16h

Na Cinemateca de Curitiba

(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)

(41) 3321-3552

ENTRADA FRANCA

 

Realização: Coletivo Atalante

 

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL





quinta-feira, 30 de maio de 2024

Cineclube do Atalante: Jogo de Cena

O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Eduardo Coutinho. Entrada franca e seguido de conversa, sempre.


JOGO DE CENA


(Brasil, 2007, 105 min., experimental/documentário, 14 anos.)

Direção: Eduardo Coutinho.

Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram sua história de vida em um estúdio. Vinte e três delas foram selecionadas e filmadas em junho de 2006. Em setembro do mesmo ano, várias atrizes interpretaram, a seu modo, as mesmas histórias. A plateia, contudo, não sabe quais depoimentos são interpretações ou próprios de quem conta.

Serviço:


CINECLUBE DO ATALANTE
“Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho
Sábado, 01/06
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Cineclube do Atalante: O Preço de um Prazer

 O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Robert Mulligan. Entrada franca e seguido de conversa, sempre.

O PREÇO DE UM PRAZER

Dirigido por Robert Mulligan.

(Love with the Proper Stranger, EUA, 1963, 102 min., drama/romance, 14 anos.)

Com Natalie Wood, Steve McQueen, Edie Adams.

Nova York. Um casal ítalo-americano se reencontra quando Angie Rossini (Natalie Wood), uma operária, procura um trompetista, Rocky Papasano (Steve McQueen), para lhe dizer que está grávida e que precisa de sua ajuda para conseguir um médico que faça um aborto. Deste momento em diante os dois vivem uma relação na qual a tensão do momento é o fator predominante. As possibilidades não são muitas e ninguém pode ajudá-los. Juntos, aprenderão a lidar com suas decisões e sonhos.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“O Preço de um Prazer” (1963), de Robert Mulligan
Sábado, 25/05
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Cineclube do Atalante: Nuvens Dispersas

O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Mikio Naruse. Entrada franca e seguido de conversa, sempre.


NUVENS DISPERSAS

Dirigido por Mikio Naruse.

(Midaregumo, Japão, 1967, 110 min., drama/romance, 14 anos.)
Com Yûzô Kayama, Yôko Tsukasa, Mitsukô Kusabue.

Yumiko e Hiroshi planejam mudar-se para os Estados Unidos, mas os planos são destruídos quando, poucos dias antes da viagem, ele é atropelado por um carro e morre. No julgamento, o motorista envolvido no acidente é inocentado e liberto da obrigação de pagar qualquer tipo de indenização à viúva, mas para se livrar do peso da culpa que massacra a consciência, resolve ajudá-la com uma quantia mensal. A partir de um acontecimento trágico as duas almas unem-se nesse pacto involuntário entre o instinto de sobrevivência e a tentativa de redenção, porém novos sentimentos surgem com a aproximação.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Nuvens Dispersas” (1967), de Mikio Naruse
Sábado, 11/05
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL