por Joaquim Sapinho
Para a Ana Reis
António Reis (primeiro à direita), na Escola Superior de Cinema
1. António Reis foi meu professor na Escola de Cinema do Conservatório, no final dos anos 80. Mostrou-nos um filme em cada ano. Vimos na mesa de montagem Alemanha Ano Zero, de Rossellini (1948), bobina a bobina. Depois estudámos cada bobina separadamente, depois cada cena, depois cada plano, depois os raccords verticais de cena para cena e de bobina para bobina. No final do ano já havia poucos alunos na sala de montagem. A questão era o gigantismo das ruínas de Berlim em contraponto com Edmund, uma criança da juventude hitleriana. De como a forma humana intacta de Edmund era apenas uma sombra, também ele era uma ruína mas interior. Para António Reis as formas tinham vida. O que ele ensinava era a atenção às formas. Retirava-nos da distracção da história superficial. O exterior das formas revelava o interior da vida de Edmund. A cena mais importante não é a do seu suicídio, é o momento lírico em que caminha entre as pedras das ruínas, quase como num sonho, que verdadeiramente contém a decisão do suicídio. Partilhávamos um olhar em que, por um lado, as formas eram o centro de tudo, mas a verdadeira narrativa era a das sombras.
Também estudámos com todo o detalhe O Grito, de Antonioni (1957). O filme conta a errância de Aldo, um operário desempregado, e passa-se todo na estrada, para trás e para a frente. Tem um lado chaplinesco porque grande parte dessa caminhada é feita com uma filha. Mas a desesperança do filme já não tem nada de Charlot. Aldo, o protagonista, perde a mulher com quem vivia, arrasta-se pelos caminhos com uma filha que não é sua, e vai encontrando diferentes mulheres sem qualquer objectivo. Percebe que não pode continuar essa errância com a rapariga, e mete-a num autocarro para voltar à mãe. Lembra-se da fábrica em que trabalhava e da torre da refinaria de onde podia ver a sua casa, o rio e a escola da filha. É como se essa memória o guiasse. Regressa à fábrica, que vai ser demolida para dar lugar a um aeroporto, e sobe à torre de refinaria. Para António Reis, a decisão final do que vai acontecer no alto dessa torre está contida no momento em que se separou da filha e na miragem da memória da sua casa. O fim é apenas consequência.
Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954), foi o último filme que vi com António Reis. Johnny é um grande pistoleiro, mas no filme não dispara um único tiro. Esta ideia, esta estética, era central para António Reis. Punha-se uma pergunta: se nunca dispara, como é que sabemos que é um grande pistoleiro? O segredo está no comportamento de Johnny. Ele antecipa todos os seus prórpios movimentos. Não quer disparar porque tem medo. Sabe que um tiro leva sempre a outro tiro e que a vingança não tem fim (aliás, a única vez em que dá um disparo no filme é para desarmar um jovem pistoleiro que não sabe o que faz com a sua arma...). Mas, voltando à pergunta, como é que sabemos em concreto que ele é um grande pistoleiro se não dispara? Johnny também é um grande vistuoso da guitarra, isso fascinava António Reis, mas o momento essencial para ele é um momento quase escondido na narrativa, quando no início chegam os antagonistas e Johnny consegue acalmá-los conversando, mas no momento crítico há um acidente e uma chávena vai cair do balcão do saloon e despoletar a violência. Sub-repticiamente apanha a chávena com um gesto do braço para trás. A surpresa deste anticlímaz pára o crescendo da violência e a tensão desfaz-se. Inconscientemente, os antagonistas, e os espectadores, temem-no.
2. O primeiro filme de António Reis é Jaime, de 1974, sobre um camponês da Beira internado no hospital Miguel Bombarda, um hospital psiquiátrico. António Reis, o poeta tornado cineasta (e poeta esquecido), vai revelar que este camponês é afinal um poeta e um pintor de génio. Vai filmar os restos de uma vida esquecida, percorrendo os arquivos e os espaços do hospital onde viveu, construindo o retrato de uma pessoa anónima, salvando-a do esquecimento. Salvando-a? A sensação que fica é a de que a destruição do tempo foi interrompida por um momento.
No segundo filme, Trás-os-Montes, de 1976, co-realizado com Margarida Cordeiro, é como se António Reis tivesse decidido ir directamente ao campo (tinha participado, quando vivia no Porto, nas recolhas da poesia popular portuguesa, e do teatro, e mais tarde, no Alentejo, fez parte da equipa que investigou a arquitectura popular portuguesa) para filmar o povo esquecido. Mas a sua paixão etnográfica parecia guiar-se menos pela ideia de transformação do povo (neo-realismo) do que pela ideai de verdade no povo (romantismo alemão). Neste novo filme já não se trata de uma pessoa, um artista escondido, mas de uma comunidade, rural, que faz a sua vida, como sempre fez, quase fora do tempo. António Reis e Margarida Cordeiro filmaram este mundo no momento exacto em que ia desaparecer.
Neste filme há uma cena em que uma mulher recebe uma carta do marido emigrado em França. O filho, uma criança de sete ou oito anos, lê-lhe a carta. Os realizadores não nos dizem, nem comentam, que a mulher é analfabeta. O filho lê a carta à mãe. Com a voz do pai? No lugar dele? Esse é que é o assunto. Encontrar soluções. A economia da vida. Enquanto houver tempo.

1. António Reis foi meu professor na Escola de Cinema do Conservatório, no final dos anos 80. Mostrou-nos um filme em cada ano. Vimos na mesa de montagem Alemanha Ano Zero, de Rossellini (1948), bobina a bobina. Depois estudámos cada bobina separadamente, depois cada cena, depois cada plano, depois os raccords verticais de cena para cena e de bobina para bobina. No final do ano já havia poucos alunos na sala de montagem. A questão era o gigantismo das ruínas de Berlim em contraponto com Edmund, uma criança da juventude hitleriana. De como a forma humana intacta de Edmund era apenas uma sombra, também ele era uma ruína mas interior. Para António Reis as formas tinham vida. O que ele ensinava era a atenção às formas. Retirava-nos da distracção da história superficial. O exterior das formas revelava o interior da vida de Edmund. A cena mais importante não é a do seu suicídio, é o momento lírico em que caminha entre as pedras das ruínas, quase como num sonho, que verdadeiramente contém a decisão do suicídio. Partilhávamos um olhar em que, por um lado, as formas eram o centro de tudo, mas a verdadeira narrativa era a das sombras.
Também estudámos com todo o detalhe O Grito, de Antonioni (1957). O filme conta a errância de Aldo, um operário desempregado, e passa-se todo na estrada, para trás e para a frente. Tem um lado chaplinesco porque grande parte dessa caminhada é feita com uma filha. Mas a desesperança do filme já não tem nada de Charlot. Aldo, o protagonista, perde a mulher com quem vivia, arrasta-se pelos caminhos com uma filha que não é sua, e vai encontrando diferentes mulheres sem qualquer objectivo. Percebe que não pode continuar essa errância com a rapariga, e mete-a num autocarro para voltar à mãe. Lembra-se da fábrica em que trabalhava e da torre da refinaria de onde podia ver a sua casa, o rio e a escola da filha. É como se essa memória o guiasse. Regressa à fábrica, que vai ser demolida para dar lugar a um aeroporto, e sobe à torre de refinaria. Para António Reis, a decisão final do que vai acontecer no alto dessa torre está contida no momento em que se separou da filha e na miragem da memória da sua casa. O fim é apenas consequência.
Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954), foi o último filme que vi com António Reis. Johnny é um grande pistoleiro, mas no filme não dispara um único tiro. Esta ideia, esta estética, era central para António Reis. Punha-se uma pergunta: se nunca dispara, como é que sabemos que é um grande pistoleiro? O segredo está no comportamento de Johnny. Ele antecipa todos os seus prórpios movimentos. Não quer disparar porque tem medo. Sabe que um tiro leva sempre a outro tiro e que a vingança não tem fim (aliás, a única vez em que dá um disparo no filme é para desarmar um jovem pistoleiro que não sabe o que faz com a sua arma...). Mas, voltando à pergunta, como é que sabemos em concreto que ele é um grande pistoleiro se não dispara? Johnny também é um grande vistuoso da guitarra, isso fascinava António Reis, mas o momento essencial para ele é um momento quase escondido na narrativa, quando no início chegam os antagonistas e Johnny consegue acalmá-los conversando, mas no momento crítico há um acidente e uma chávena vai cair do balcão do saloon e despoletar a violência. Sub-repticiamente apanha a chávena com um gesto do braço para trás. A surpresa deste anticlímaz pára o crescendo da violência e a tensão desfaz-se. Inconscientemente, os antagonistas, e os espectadores, temem-no.
2. O primeiro filme de António Reis é Jaime, de 1974, sobre um camponês da Beira internado no hospital Miguel Bombarda, um hospital psiquiátrico. António Reis, o poeta tornado cineasta (e poeta esquecido), vai revelar que este camponês é afinal um poeta e um pintor de génio. Vai filmar os restos de uma vida esquecida, percorrendo os arquivos e os espaços do hospital onde viveu, construindo o retrato de uma pessoa anónima, salvando-a do esquecimento. Salvando-a? A sensação que fica é a de que a destruição do tempo foi interrompida por um momento.
No segundo filme, Trás-os-Montes, de 1976, co-realizado com Margarida Cordeiro, é como se António Reis tivesse decidido ir directamente ao campo (tinha participado, quando vivia no Porto, nas recolhas da poesia popular portuguesa, e do teatro, e mais tarde, no Alentejo, fez parte da equipa que investigou a arquitectura popular portuguesa) para filmar o povo esquecido. Mas a sua paixão etnográfica parecia guiar-se menos pela ideia de transformação do povo (neo-realismo) do que pela ideai de verdade no povo (romantismo alemão). Neste novo filme já não se trata de uma pessoa, um artista escondido, mas de uma comunidade, rural, que faz a sua vida, como sempre fez, quase fora do tempo. António Reis e Margarida Cordeiro filmaram este mundo no momento exacto em que ia desaparecer.
Neste filme há uma cena em que uma mulher recebe uma carta do marido emigrado em França. O filho, uma criança de sete ou oito anos, lê-lhe a carta. Os realizadores não nos dizem, nem comentam, que a mulher é analfabeta. O filho lê a carta à mãe. Com a voz do pai? No lugar dele? Esse é que é o assunto. Encontrar soluções. A economia da vida. Enquanto houver tempo.

Trás-os-Montes
O seu último filme seria Pedro Páramo, que estava a preparar com Margarida Cordeiro quando
morre, em 1991. Aqui a comunidade já não é o povo perdido. Um homem regressa à
sua aldeia e só no final da história descobre que todos estão mortos, incluindo
ele próprio. É uma aldeia de fantasmas. A comunidade dos mortos. Este filme o
que seria? Conseguimos vê-lo? António
Reis entrou no reino dos mortos mas já não trouxe imagens para nós... Seria Pedro Páramo o Trás-os-Montes dos mortos?
3. António Reis nasceu em 1927, e em 1957 publicou Poemas Quotidianos. Em 1960 publicou Novos Poemas Quotidianos. Depois calou-se enquanto poeta. O seu cinema não continua a sua poesia. É outra forma de dor. Na poesia havia o amor, o casal e os filhos. Tudo isso desapareceu dos seus filmes. Mas o esquecimento, o abandono e a tristeza já lá estavam: “vendo/ crescer/ os nossos filhos sem sorrir”; “A ver os retratos dos mortos/ nas paredes”; “Peço-te desculpa/ muitas vezes”; “(ah onde/ando eu)// para tua dor/ não ser minha”. Uma voz desamparada, um murmúrio difícil de ouvir entre os ruído, mas que na sua pobreza quer ser ouvido: “Eu não voo/ ando// quero que me oiçam”.
Mas porque é que ele nunca me falou da sua poesia?
Tinham passado vinte e cinco anos, é certo. Mas falávamos muito de Rilke por exemplo, ele andava a reler os Cadernos de Malte Laurids Brigge, que trazia consigo numa capa de papel de prata vermelho... Ao reler agora os seus poemas pergunto-me se a exigência de verdade que eles cntêm poderia continuar... Terá sido isso? Então, se foi assim, o cinema foi a única saída porque permitia dizer a verdade de outras coisas. A da comunidade e já não a do eu. O que liga todos os homens e já não apenas o que liga a família...
4. Na minha última aula com o António Reis, no Conservatório, acabámos de ver o filme e ficámos na penumbra. Ele não foi abrir as portadas da janela e ninguém se mexeu. A luz que vinha das frinchas ia caindo com o fim da tarde. Os outros alunos foram saindo, ficámos só os dois na sala. Mas o António não dava sinais de querer ir embora e eu esperei. Na sala de cima calou-se o piano. Senti o silêncio. Ouvi um soluçar. Apercebi-me, pouco a pouco no lusco-fusco, que vinha de António. Não sabia bem o que fazer. Tinha 20 anos. Costumávamos sair da escola ao fim do dia e ir a pé do Bairro Alto ao jardim do Príncipe Real, depois descíamos para a Cinemateca, para a sessão das 18h30 (antes passávamos sempre uma hora, meia hora, na Buchholz, a ver os livros de pintura). Desta vez percebi que não ia ser como nos outros dias. O António sussurrou, com os olhos a brilhar no escuro: Eles não me vão deixar voltar a filmar.
3. António Reis nasceu em 1927, e em 1957 publicou Poemas Quotidianos. Em 1960 publicou Novos Poemas Quotidianos. Depois calou-se enquanto poeta. O seu cinema não continua a sua poesia. É outra forma de dor. Na poesia havia o amor, o casal e os filhos. Tudo isso desapareceu dos seus filmes. Mas o esquecimento, o abandono e a tristeza já lá estavam: “vendo/ crescer/ os nossos filhos sem sorrir”; “A ver os retratos dos mortos/ nas paredes”; “Peço-te desculpa/ muitas vezes”; “(ah onde/ando eu)// para tua dor/ não ser minha”. Uma voz desamparada, um murmúrio difícil de ouvir entre os ruído, mas que na sua pobreza quer ser ouvido: “Eu não voo/ ando// quero que me oiçam”.
Mas porque é que ele nunca me falou da sua poesia?
Tinham passado vinte e cinco anos, é certo. Mas falávamos muito de Rilke por exemplo, ele andava a reler os Cadernos de Malte Laurids Brigge, que trazia consigo numa capa de papel de prata vermelho... Ao reler agora os seus poemas pergunto-me se a exigência de verdade que eles cntêm poderia continuar... Terá sido isso? Então, se foi assim, o cinema foi a única saída porque permitia dizer a verdade de outras coisas. A da comunidade e já não a do eu. O que liga todos os homens e já não apenas o que liga a família...
4. Na minha última aula com o António Reis, no Conservatório, acabámos de ver o filme e ficámos na penumbra. Ele não foi abrir as portadas da janela e ninguém se mexeu. A luz que vinha das frinchas ia caindo com o fim da tarde. Os outros alunos foram saindo, ficámos só os dois na sala. Mas o António não dava sinais de querer ir embora e eu esperei. Na sala de cima calou-se o piano. Senti o silêncio. Ouvi um soluçar. Apercebi-me, pouco a pouco no lusco-fusco, que vinha de António. Não sabia bem o que fazer. Tinha 20 anos. Costumávamos sair da escola ao fim do dia e ir a pé do Bairro Alto ao jardim do Príncipe Real, depois descíamos para a Cinemateca, para a sessão das 18h30 (antes passávamos sempre uma hora, meia hora, na Buchholz, a ver os livros de pintura). Desta vez percebi que não ia ser como nos outros dias. O António sussurrou, com os olhos a brilhar no escuro: Eles não me vão deixar voltar a filmar.
Texto
em português de Portugal, escrito como posfácio da edição portuguesa de “Poemas
Quotidianos” pela Tinta-da-China, junho de 2017, ainda indisponível no Brasil.
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