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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Cineclube do Atalante: Só a mulher peca

    Neste sábado às 16h na Cinemateca de Curitiba. Entrada franca!

    

Sábado, 15 de dezembro:

SÓ A MULHER PECA

Dirigido por Fritz Lang.

(Clash by night, EUA, 1952, 105 min., drama, 14 anos.)
Com Barbara Stanwyck, Marilyn Monroe, Paul Douglas e Robert Ryan.

Mae Doyle volta para sua cidade natal após a morte de seu amante. Ela começa a sair com Jerry, um pescador, mas seu amigo Earl percebe estar apaixonado por ela. Mae e Jerry se casam, mas ela logo fica entediada e começa a ter um caso com Earl.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Só a mulher peca” (1952), de Fritz Lang
Sábado, 15/02
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

sábado, 6 de abril de 2024

O Segredo da porta fechada: na água com Fritz Lang

por Giovanni Comodo

O que está abaixo da superfície da água? Mesmo as mais plácidas, além de distorcer formas, perspectivas e borrar os contornos, podem também esconder uma correnteza de forças desconhecidas. O Segredo da porta fechada (1947) é mais um filme de Fritz Lang que explora as misteriosas águas do inconsciente, suas profundezas traiçoeiras cujas superfícies não demonstram à primeira vista.

O filme abre com estas águas calmas em um não-lugar (que não pertence a nenhum cenário da trama) e a voz da protagonista vivida por Joan Bennett em um tom sussurrado, quase semiacordado – e é neste estado entre o sonho e o transe em que se desenvolve toda a película. Bennett (protagonista e produtora, em sua quarta e última colaboração com o diretor) vive Celia, uma jovem rica e solitária sob pressão para deixar de ser solteira e que se apaixona no México por um homem misterioso, o Mark de Michael Redgrave. Como o amor é também um estado de transe, casam-se rapidamente e ela vai viver em sua mansão afastada da cidade. Ali, Celia vai descortinando os segredos dos seus moradores e de seus cômodos trancados. Porque, em Lang, as calmas aparências enganam.

Nascido na Áustria em 1890, Lang se tornou o maior nome do cinema expressionista alemão com filmes como Dr. Mabuse, o jogador (1922) e Metrópolis (1927), em produções cada vez mais ambiciosas e ousadas. Em M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), já exibido no Cineclube do Atalante, o realizador explora pela primeira vez o som, em um filme em que tão assustador quanto o serial killer de crianças com sua aparência (e assovio) banal é o retrato da turba que o julga. M, inicialmente chamado “Os assassinos estão entre nós” (uma sentença central para toda obra languiana), teve seu título alterado para não sofrer represálias dos nazistas em ascensão – e que vestiram prontamente a carapuça. Já no poder, os nazistas censuraram seu filme seguinte (O testamento do Dr. Mabuse, 1933) ao mesmo tempo em que Goebbels pessoalmente lhe ofereceu o cargo de chefia da UFA, o grande estúdio de cinema da Alemanha; na mesma noite, Lang partiu para a França, praticamente apenas com a roupa do corpo, segundo seus relatos. Pois Lang é alguém que consegue sentir as pulsões pela violência a enormes distâncias, como um sismógrafo. Nos Estados Unidos, desenvolveu uma filmografia de menor prestígio porém não menos valiosa, cada vez mais sucinta e atmosférica, com desilusão e vertigem, explorando diversos gêneros, do filme de espionagem ao de aventura de piratas.

“A civilização pode muito bem nos ter aprisionado, ter dobrado nossos desejos destruidores em favor dos interesses da sociedade. No entanto, sobrevive ainda na maioria de nós muito da criatura selvagem e sem inibição, o suficiente para que possamos nos identificar momentaneamente com o fora da lei. O desejo de machucar e o desejo de matar são estreitamente ligados à necessidade sexual, sob o império da qual nenhum homem age de modo razoável. Nossa própria repugnância é a prova da angústia subjacente de que cada um de nós pode se transformar num assassino” escreveu Lang na época de lançamento de O Segredo da porta fechada[1], um filme em que trabalha o tempo todo com o sexo e a violência a ponto de irromper tal qual um gêiser: como na cena em que Celia se delicia ao ver dois homens lutando “até a morte” por uma mulher, sendo ela quase atingida pela adaga da briga, momento em que vê pela primeira vez Mark e se apaixona. Nos muitos jogos sexuais do filme, Celia morde Mark, empurra-o para o chão, sugere ela carregá-lo através da porta na chegada ao lar, subvertendo as tradições e subindo a temperatura – em outra rima, o perigo cessa por fim com Mark carregando Celia nos braços para fora da casa, praticamente um novo casamento, agora de fogo.

Nesta combinação entre o conto de fadas do Barba Azul, arquitetura e psicanálise em forças de magia sobre as personagens, há muitos mistérios, espelhamentos e pistas falsas que permanecem sem explicação, círculos incompletos que permanecem abertos – como em um sonho. É preciso mergulhar com Lang e se permitir submergir.



[1] O Segredo da porta fechada foi produzido por Lang, Joan Bennett e seu marido, Walter Wanger. Poucos anos mais tarde, Wanger foi condenado e cumpriu pena por tentativa de homicídio ao atirar no amante de Bennett.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Cineclube do Atalante: O Segredo da porta fechada

Cineclube do Atalante na Cinemateca em dose dupla neste sábado: às 16h, um filme de Dorothy Arzner e às 19h, um filme de Fritz Lang - em 16mm! Sempre seguido de uma conversa e com entrada franca.


O SEGREDO DA PORTA FECHADA

Dirigido por Fritz Lang.
* Sessão em 16mm (cópia do acervo da Cinemateca de Curitiba)

(Secret Beyond the Door, 1947, EUA, 99 min., drama/suspense, 14 anos.) 
Com Joan Bennett, Paul Cavanagh, Michael Redgrave.

Prestes a se casar com um amigo, a jovem Celia tira férias e viaja para o México. Lá ela conhece o homem dos seus sonhos, Mark, com quem se casa dias depois do primeiro contato. Os dois vão morar juntos na mansão dele, misteriosa e sombria como o dono. Com o passar do tempo ela vai desvendando os segredos do local, mas um quarto especial, sempre trancado, continua intrigando-a. 

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Quando a mulher se opõe” (1932), de Dorothy Arzner
Sábado, 06/04
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante
Apoio: @fcccuritiba

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL

sábado, 21 de setembro de 2019

M: O Vampiro de Düsseldorf

por Luiz Carlos Oliveira Jr.



O Lang arquiteto-urbanista é sempre ressaltado na análise de filmes como M, Sepulcro Indiano, Os Corruptos, ou mesmo Metropolis. Mas quase nunca se destaca o principal da arquitetura langiana: sua capacidade de construir um teto sobre o espectador, de encobri-lo com uma ficção que, de tão perfeitamente ficcional, acaba parecendo real e nos tornando parte dela. Sua dupla saga indiana, embora no desfecho revele um mergulho às fundações da construção (ou seja, ao subsolo), é um excelente exemplo desse cinema-teto, pois bastam alguns minutos de filme para que estejamos efetivamente dentro daqueles palácios (invertendo a fórmula: tão reais que se fazem crer imaginários). O projeto é construir um teto, mas revolver o subterrâneo – esgotos, fundações, arcabouços secretos, populações reclusas (ou excluídas) – se mostra uma etapa fundamental.

M, cânone dos cânones quando o assunto é a transição mudo-sonoro, segue o mesmo princípio, dando a cada espectador a chance de, simultaneamente, mergulhar na dinâmica da organização urbana e compor o coro histérico da cidade aterrorizada por um serial killer (provavelmente o primeiro a aparecer no cinema de forma tal que, na sua esteira, adviria um subgênero). Com o mapa da cidade sobre a mesa, o comissário de polícia traça uma enorme circunferência, cujo centro é a casa da vítima recém-descoberta (a casa desenhada detalhadamente, em escala completamente desproporcional ao resto do mapa – mesmo num cenário realista, Lang abre espaço para o lado fantástico de seu cinema), e em seguida o comissário aumenta o raio, aumenta a área em que os cidadãos serão interrogados, vigiados, sondados. Mais do que uma matriz para a exploração ficcional de assassinos em série, M forneceu um novo paradigma de espaço para o cinema clássico – justamente a organização espacial que os filmes policiais jamais abandonariam a partir de então (até porque a polícia é uma autoridade local, portanto se pressupõe uma integração com o espaço em que atua). A cidade, em sua dialética de mundo-submundo, como personagem de destaque: de Don Siegel a Clint Eastwood (Sobre Meninos e Lobos, por sinal, é o grande sucessor de M dos últimos tempos), todos aprenderam a lição – de que os esgotos resguardam a superfície das cidades, de que a sociedade democrática é apenas um outro modo de recolocar a lei do forte, de que a criminalidade e a lei nem sempre divergem em seus interesses, de que uma justiça paralela muitas vezes ultrapassa a justiça oficial.

Mas, para além de qualquer sociologia urbana, M é também o momento de um amadurecimento técnico e estético de que o som é apenas uma das muitas partes em funcionamento pleno. Por mais que o uso do espaço em off seja assustadoramente evocativo e invasivo, por mais que a montagem encontre uma feliz negociação entre a organização editorial do clássico-narrativo e a mais abstrata concepção de visualidade (nada de confusão, contudo: imagens encadeadas com uma clareza suprema), por mais que Fritz Arno Wagner tenha conseguido uma luz tão soturnamente bela e a câmera se movimente com tamanha criatividade (com destaque para o plano-seqüência pré-Welles-De Palma que passeia pela sede dos mendigos e chega a atravessar uma janela após ascender ao andar superior), enfim, por mais que haja uma força quase mística regendo as partituras desse filme de importância inqualificável, nunca sentimos a aura barroca de um esteta em autopromoção permanente. Muito pelo contrário: M é o resultado de uma concisão, do preenchimento do impulso de uma veia cronista diretamente proporcional à pretensão artística. Os enquadramentos (não raro sobre-enquadramentos, ou seja, quadros com moldura extra) que parecem já nascidos para a antologia, de tão perfeitamente equilibrados, com linhas e contrastes combinados à alusão de uma forma pictórica, são apenas o convite à fatalidade, ao gesto que, antes de romper um equilíbrio, põe harmonia e caos em pé de igualdade. Levar o assassino à forca significa tão-somente apagar os traços mais visíveis (logo menos ofensivos) de uma estrutura maléfica cuja cartografia se espelha no mapa da cidade, um desenho cabendo certinho no outro. Assim como no cinema haverá sempre o fora-de-quadro (de onde surge pela primeira vez o assassino, ou melhor, sua sombra), na sociedade existem instâncias que lhe são tão inseparáveis quanto inclassificáveis, incontroláveis. Do mal irremediável exposto por M, sobressai um rosto trágico que abre caminho para o que os filmes subseqüentes comprovariam ser o rosto langiano por excelência: neutro na maior parte do tempo, anestesiado pela mise en scène, ótimo condutor de sensações extremas, mas insensível a oscilações menores, esse rosto se oferece – como uma máscara branca à espera de um molde – às virtualidades contidas em toda e qualquer proposição da trama. Quando finalmente estimulado, o tal rosto responde com questões fundamentais: um olhar que só pode ser dor ou deleite, uma fala que só pode ser agonia ou vivacidade. A opacidade da tragédia, o seu inexplicável, ganha uma forma que Peter Lorre investe de uma estranha intensidade, e a contemplação do intolerável aparece-nos como o último e mais poderoso dos delírios estéticos.

Mais ou menos como Michel Mourlet indicou, M proporciona a embriaguez de uma palavra, àquela altura, ainda não domesticada por uma mise en scène que interioriza e esconde sua expressão nua e crua. Naquela cena clímax, Lang nos dá o som bruto das palavras, sua energia e não sua semântica; é possível acompanhar a seqüência inteira sem ler uma só legenda, ou sem dar atenção ao significado de uma só palavra. Perante a multidão que o ameaça engolir, Lorre mescla uma narrativa facial da era muda a uma eloqüência vocal ímpar, que o sonoro inventou e encerrou em cerca de dez minutos – a saber, os dez minutos em que o personagem de Lorre tenta se defender do júri popular que o quer morto. Seu rosto revela um devir inelutável, uma transformação não programada, uma monstruosidade para além do indivíduo, um mal que é patrimônio público. Não há melhor constatação do que a de Jonathan Rosenbaum: M traz a nostalgia de um tempo em que era possível ao artista, não sem ousadia, lançar-se a um exame de todo o organismo de uma grande metrópole, física e psicologicamente.

Sem negar a já mais que revisitada noção de M como a síntese precoce do valor estrutural do som (que rende desde piadas de humor negro – como na cena com a mulher semi-surda que leva o policial a falar cada vez mais alto – até a engenhosidade das escolhas dos pontos de escuta), é preciso destacar que a passagem de Lang ao sonoro incidiu prioritariamente na expansão da narratividade. M encheu o cinema de novas e sofisticadíssimas ferramentas narrativas (o hoje comum procedimento que transforma diálogo em narração e vice-versa tem sua origem ali). A montagem em cross fade (frases ou ações que começam num lugar/momento e terminam em outro), por seu turno, antecipa o famoso corte de Cidadão Kane em que, entre um "Merry Christmas..." e um "... and a happy new year", Welles faz a narrativa avançar 25 anos. Com M surge a possibilidade de começar a migração para o plano seguinte antes do término do plano anterior, criando-se uma nova espécie de elipse, que não é senão a interseção de tempos distintos. A mise en scène passa a poder se dar ao luxo de ser eterno movimento adiante, de se construir à medida que apaga os próprios rastros. Os flashbacks e os flashforwards – assim como outras modalidades de enxertos narrativos – adquirem um dinamismo estranho ao formato silencioso, mesmo se apanhado nos anos áureos do triunfo de sua linguagem visual.

Do exame completo da grande cidade (agora podendo ser mais detido, já que o DVD disponível pela Magnus Opus possui 110 minutos, ao invés dos 95 das cópias que conhecíamos antes), nenhum resultado parece reconfortar. É sob um céu de chumbo que Lang nos abandona após o arrepiante ciclo de julgamentos que encerra seu filme. O teto que Lang constrói através de M fica na iminência de desabar e soterrar o espectador num peso irredutível, que somente poucos tiveram a coragem e a responsabilidade de assumir (hoje, como já foi indicado, há Eastwood numa fase – pós-Dívida de Sangue – profundamente langiana). M é uma descida aos porões da vida urbana, que, no grosso da produção do início dos anos 30, estava mais acostumada a elogios entusiastas do que a radiografias críticas. Os ambientes excessivamente esfumaçados de M não deixam dúvida: esses homens vivem já no inferno. E ao inferno só se chega uma única e definitiva vez.

Texto originalmente publicado em: revista contracampo

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

História(s) Do Cinema - Cineclube do Atalante: Sessão Dupla Fritz Lang

A partir de agosto, o Cineclube do Atalante começou uma nova fase: História(s) do Cinema. Durante um ano, a cada sessão iremos exibir um filme (ou mais) que ajudou a definir os rumos da sétima arte.
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O formato continua o mesmo: um filme seguido de debate e a distribuição de uma folha da sessão com um texto escolhido especialmente.
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Quinzenalmente aos sábados, entrada gratuita, na Cinemateca de Curitiba.

Neste sábado, o então História(s) do Cinema - Cineclube do Atalante, em parceria com a Cinemateca de Curitiba, exibirá um programa duplo do diretor alemão Fritz Lang, com os filmes M: O Vampiro de Düsseldorf (1931) às 16h e O Segredo da Porta Fechada (1947) às 19h - esse, sendo projetado em película 16mm. Entrada franca, sempre!


No Instagram: @cineatalante

Serviço:
Sábado, 21 de setembro
16h (M)
19h (O Segredo da Porta Fechada)
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Coletivo Atalante  

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

sábado, 27 de maio de 2017

Excerto de "Fritz Lang, modo de usar"
























 

"Eu estou com amigos na Cinemateca Francesa... No programa: 
O Tigre de Bengala. A sala, cheia de intelectuais presunçosos, prolixos, desses que só encontramos na França e na Itália, me parece. Seguros de uma verborreia com a qual eles revestem o mundo para entregá-lo inteligível como a jiboia umedece sua presa para engoli-la.   
 A todo momento, e de preferência nas cenas mais belas — as mais pungentes na sua conclusão, sua simplicidade, sua evidência — eles riem. Eles riem à vontade, ignobilmente, convencidos de assistir algum desenho animado ingênuo que está na função deles de colocar no seu devido lugar. À distância que convém.  

Ainda hoje, eu não vejo outro comentário para essa experiência que o verso do prólogo de Zaratustra: “Amor? Criação? Desejo? Estrela? O que é isso? — Assim pergunta o último homem, num piscar de olhos.”

Michel Mourlet

Publicado em Sur un art ignoré - La mise en scène comme langage, Henri Veyrier, 1987. Tradução:  Letícia Weber Jarek.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Cineclube da Cinemateca: "O sepulcro indiano" de Fritz Lang

Neste sábado, dia 27/05 às 16h, o Cineclube da Cinemateca apresenta O sepulcro indiano, segundo filme do díptico indiano de Fritz Lang. Em junho, apresentaremos os filmes Amor, prelúdio de morte Clamor do sexo. Sempre com entrada franca!
Cineclube da Cinemateca apresenta:
O sepulcro indiano de Fritz Lang




















Na grande tradição de série de histórias de aventura, este filme retoma o ponto final de O Tigre de Bengala. Depois de descoberto o romance, o arquiteto alemão Harald Berger e a bela dançarina Seetha fogem pelo deserto indiano. Nesta segunda parte, o caos toma conta de Eschnapur. Além da caça ao casal, há um plano entre os sacerdotes para depor o marajá.

Serviço:
27 de maio (sábado)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

sábado, 20 de maio de 2017

Trajetória de Fritz Lang






















Michel  Mourlet

O que é um filme, senão um implacável e necessário escoamento de imagens no qual a consciência fascinada se afoga e se esquece, para se reencontrar no mais íntimo do ser? “O que é um filme?”, esta interrogação suscitada pela obra de grandes cineastas, Fritz Lang é um dos raros a tê-la sondado a fundo e resolvido. Sua obra inteira se apresenta como uma aproximação lenta e tenaz, uma vez estabelecidos os fins, da perfeição dos meios suscetíveis de conduzir até estes. E quais são estes fins? Trata-se, como em toda obra de arte, de impor uma certa forma do mundo com o máximo de intensidade, de forma a paralisar o reflexo crítico pela evidência da revelação. Sendo o cinema um olhar sobre as coisas e sobretudo sobre os seres, convirá imprimir às aparências um movimento tal que, presa na engrenagem, a consciência espectatorial torne-se o local passivo de uma liturgia na qual cada gesto remeta à totalidade do símbolo. A obra será então perfeitamente fechada sobre si, um círculo que aprisiona um universo que basta a si mesmo, pois é de uma margem de interferências entre a obra e a realidade cotidiana que nasceria um eventual recuo. (Seja pela recusa do banal, como inútil, ou do incerto, como prejudicial, ou do falso, como ineficaz.) Se o banal e o falso acordam o espectador do sono hipnótico e o devolvem a seu presente real, que campo resta a cultivar? A única resposta é: o possível. Em outras palavras, o que é percebido ao mesmo tempo como verdadeiro e como extremo, como a realização das virtualidades, saciando a sede original do homem. E, se o contingente rompe a unidade da obra e dispersa seu poder, a organização do possível necessário — de forma que a obra preencha inelutavelmente a postura de espera do espectador — nos conduz ao coração do problema de Fritz Lang. A eliminação do acaso e a dominação constante das formas, por uma arquitetura na qual todas as partes se comuniquem e se provoquem, resultarão numa fascinação, ou na impossibilidade do espectador se desconectar da ordem do espetáculo.      

    Não surpreende que a obra de Fritz Lang tenha seguido um itinerário que nada mais é do que o do próprio cinema contemplado em seu conjunto. Os meios que ele pôs a serviço de seus fins realçam ao mesmo tempo a permanência destes e um sentido de transformação. De As Aranhas (Die Spinnen, 1919) a A mulher na lua (Frau im Mond, 1929) esboça-se uma estética cujos elementos de base derivam naturalmente da situação do cinema nesta época, isto é, sobretudo de seu mutismo, sentido como falta e compensado por uma deformação das aparências em metáforas plásticas. O que se tornará uma geometria nas     almas deve começar se limitando a uma geometria no espaço. O expressionismo verteu-se num molde euclidiano que transpõe o seu valor. Sem poder apreender os seres nem desvelar suas profundezas, abstraímos seus gestos em direção a um traçado decorativo cujas leis são a simetria e a lentidão. Assim, é criada uma liturgia, fundada num hieratismo unicamente formal. Já se encontra prefigurado, nesta liturgia da qual os atores são os servidores, o caráter central da atitude ulterior de Lang em relação a estes. A saber: a de fazer deles o veículo mais neutralizado de uma mise en scène considerada como puro movimento, enquanto normalmente é o inverso que se produz em outros cineastas, para quem a mise en scène é o meio de exaltar os atores, como uma corrente imponderável que ilumina, ao passar, lâmpadas elétricas. Donde a predileção de Lang por atores mais negativos do que positivos, cuja retenção, o segredo ou a passividade toleram mais facilmente a aniquilação que lhes é imposta (Dana Andrews, Glenn Ford, Walter Reyer…).          
    O acesso do cinema ao universo sonoro parece desorientar Fritz Lang, que perde de vista o rigor ao qual tinha se dedicado para se conformar às ideias, à demonstração e à impureza dos postulados morais que intervêm na dinâmica dos seres e a falseiam. Entre outros, M., o vampiro de Düsseldorf (M, 1931) e Vive-se só uma vez (You Only Live Once, 1937) oferecem a imagem de um afrouxamento provocado pela embriaguez da palavra ainda não dominada e integrada a uma mise en scène que seja o resultado interior das premissas geométricas do período mudo. Seria preciso esperar o pós-guerra, com Quando desceram as trevas (Ministry of Fear, 1944) e O diabo feito mulher (Rancho Notorious, 1952), para encontrar o rascunho de tal resultado, que se desenvolve plenamente em Os corruptos (The Big Heat, 1953),Desejo humano (Human Desire, 1954), No silêncio de uma cidade (While the City Sleeps, 1956), O tesouro do Barba Rubra (Moonfleet, 1955) e Suplício de uma alma (Beyond a Reasonable Doubt, 1956), e se conclui na maturidade completa e na soma de O tigre de Bengala (Der Tiger von Eschnapur, 1959) e O sepulcro indiano (Das indische Grabmal, 1959). É evidente que a trajetória assim descrita não possui, nos detalhes, esta retidão que o distanciamento lhe confere. Há quebras e saltos para a frente seguidos de recaídas. Deste modo, as duas épocas de Dr. Mabuse, o jogador(Dr. Mabuse, der Spieler, 1922) apresentam um som mais moderno do que Os Nibelungos (Die Nibelungen, 1924) ouMetrópolis (Metropolis, 1927). Deste modo, Fúria (Fury, 1936), por ser o primeiro do período americano de Lang, não é nada menos do que o melhor de seus filmes do pré-guerra, com um posicionamento e direção dos atores, em particular durante o processo, que não deixam de anunciar Suplício de uma alma. Deste modo, sobretudo, o admirável O segredo da porta fechada (Secret Beyond the Door…, 1948) precede de três anos Só a mulher peca (Clash by Night, 1952), que nos dá a oportunidade de assistir a um singular rebaixamento do ponto de vista e do tom, a um incompreensível encolhimento do olhar. Na verdade, Lang só reencontraria completamente a altitude em Suplício de uma alma e nas duas épocas do Tigre. A era culminante de Fritz Lang começa, portanto, em torno de 1948, com uma mise en scène que cessa de ser o suporte do roteiro ou uma decoração superficial do espaço para se tornar afiada e íntima, um questionamento dos corpos e dos cenários, centrado em problemas fundamentais de olhares, de impulsos de mão e de bruscas iluminações de abismos. Doravante é o roteiro que sustenta a mise en scène, e esta se torna o filme. O que explica por que este período é também aquele a partir do qual as pessoas que chamam de mise en scène certa forma de submergir uma história numa tela, ou o desdobramento espetacular e pueril de uma plástica incapaz de atingir o essencial, abandonam Lang.         

    A altitude da qual eu falava, o tom propriamente languiano que procede de um olhar de águia sob o qual tudo se iguala, atesta um sentido do cósmico que subjaz totalmente aos últimos filmes e que explode bruscamente nos últimos planos do Tigre, no qual ele se encarna até se tornar símbolo, no gesto alucinado do fugitivo descarregando sua arma contra o sol. As motivações psicológicas e morais são incorporadas e ultrapassadas, a narrativa desemboca de saída no terreno das relações entre o homem e o mundo, este mundo que não lhe pertence. Temos aí o trágico no estado puro; não uma crítica derrisória dos homens, mas uma descrição da fatalidade. E não há melhor forma de tornar sensível esta elevação de tom do que comparando Só a mulher pecaDesejo humano e O tigre de Bengala. A mesma situação, o “triângulo eterno” — segundo a expressão do próprio Lang: um homem ama uma mulher que ama outro e que rechaça o primeiro —, gera três mises en scène, das quais a primeira é rente ao chão e se agarra em pequenos sulcos psicológicos cavados pelo roteiro, a segunda é mais decantada, e a terceira, perfeitamente cristalina, resplandece ódio e amor em estado bruto, não sendo mais do que a narrativa linear dos atos pelos quais estas paixões nuas e exacerbadas se inscrevem no mundo; atos cuja incandescência consome, apagando tudo até os personagens, para liberar a paixão de todo entrave e lhe conferir, assim, em sua condição mais global, sua acuidade mais obsedante. Os filmes de Lang, liberados da preocupação de exprimir ideias pela articulação dos acontecimentos, não são mais do que narrativas insignificantes cuja significação está encerrada na mise en scène, uma significação unicamente passional, portanto unicamente estética; não mais conceitual, mas melódica, e graças à qual, entre as mãos de Fritz Lang como entre as de alguns raros cineastas, o cinema acede à dignidade de arte.      
   Não há mais temas, não há mais “ideias de mise en scène”, não há mais personagens, e podemos ainda falar de vida? Mais nada além de uma espécie de linha que vemos progredir e que se une no fim. Os atores são mergulhados numa zona neutra onde, daqui em diante, apenas reluz a intimidade de suas relações, estabelecidas de acordo com o movimento nu de uma invencível marcha. Cada estado é apenas um momento do movimento, abolindo-se no momento seguinte: o filme se destrói à medida que se constrói e apaga seu rastro atrás de si. Cada elemento é indispensável ao conjunto sem existir por si mesmo. Não há plano dominante em Lang. A mise en scène no sentido mais etimológico da palavra é erguida em fim último e tritura em suas engrenagens impecáveis aquilo que alimenta sua rotação; os gestos, os rostos, as vozes e os cenários nos preenchem menos com o que são do que com o que se tornam, e mais precisamente com a forma inelutável deste tornar-se. Mencionemos de passagem que semelhante abstração experimenta a cor como um incômodo, ou ao menos como um elemento supérfluo, e tende ao preto e branco, que revela diretamente o essencial sem empregar os desvios — mesmo reluzentes — do realismo concreto. Logo, as cores do Tigre e do Sepulcro são admiráveis, pois estão distantes do reluzir das quentes luzes americanas (que convêm a cineastas mais carnais, como Losey ou Don Weis), elas brilham de um fulgor atenuado, por um requinte de sobriedade que não contradiz — mas, ao contrário, sustenta — este universo puramente inteligível.    
    Assim, conclui-se a fascinação buscada desde o início da obra: pela interiorização do traçado matemático, que não deforma mais as aparências, mas as escolhe e as ordena sobre um substrato passional. Trata-se de se livrar de assombrações dominando-as até torná-las desumanas, calculando-as, deduzindo-as e levando-as até seu fim; em suma, de reduzir a um teorema uma dificuldade de ser, para vencê-la e subjugá-la. Trata-se de objetivar suas obsessões, de arrancá-las de si, para se esquecer vendo-as viverem independentes, para colocar entre elas e si uma distância de silêncio e de lucidez. Trata-se, enfim, da busca, por meio da dominação enfurecida da matéria, de um equilíbrio tal que nele se possa inscrever e fazer aceitar, e até desejar, o intolerável. Os planos de horror (sobretudo em O segredo da porta fechada, No silêncio de uma cidadeO tesouro do Barba Rubra O tigre) mergulham a criatura no impasse de um meio inteiramente hostil, o que nos leva a considerar o papel do cenário na obra de Lang. Este cenário, ao assimilar desta forma a experiência alemã, se não é apagado (como em Suplício de uma alma, em particular) pelo mesmo movimento de abstração que o relevo físico dos atores, instala-se numa perspectiva puramente dramática, impregnada de um poder maléfico e de angústia (sendo os famosos relógios do período primitivo o esboço e o símbolo); são arquiteturas massivas, opacas, e cuja nudez acentua o mistério, quero dizer, a iminência de desabamento — ou o poder de cerco, de sufocamento e de espanto, quando a fenda do drama se abre.  
   O ódio, o assassinato pensado e um erotismo triste e destinado ao fracasso compõem um universo de uma hostilidade inalterável, de contatos gelados, no qual a única alternativa é: perseguir ou ser perseguido. Aqui, toda consciência quer a morte das outras, segundo uma dialética cujo rigor Hegel não teria desaprovado. Os pretextos constantes desta mise en scène — vingança pessoal, punição legal, perseguição coletiva — são múltiplos disfarces da selva, ou o lugar ideal da supressão do outro impossível. O plano languiano por excelência é aquele no qual o olhar do carrasco pesa sobre a vítima e a constitui enquanto objeto, espécie de implacável possessão à distância, evocando as relações da aranha e da mosca. (No que, aliás, Fuller coincide com Lang, só que se conformando muito mais ao arabesco.) Os corpos são atingidos por uma paralisia que reduz seus deslocamentos no interior de um quadro quase fixo. Os rostos são chaveados, impassíveis não apenas por pudor, mas porque este mundo já está morto, petrificado, cada ser aprisionado sem recurso, para além da angústia, para além da solidão, acabado por puras relações de antagonismo, de indiferença ou de desprezo. Os contatos carnais são da mesma natureza do gelo, alterados por um interesse exterior e envenenados de repulsão, tentativas de estupro sobre carnes frias ou simples junção de epidermes que se ignoram. As atrizes são frígidas como Joan Fontaine e Sally Forrest, ou aparamentadas para excitar um velho (Ida Lupino, Rhonda Fleming, Barbara Nichols). No melhor caso, o do Tigre, a mulher adornada, ao menos uma vez, com as suas mais sensuais seduções — o corpo oferecendo, pelos movimentos mais lascivos, todo o seu peso opaco e firme, leve bronze vivo no qual o sangue aflora — apresenta, na realidade, aos olhos de seu príncipe, apenas uma versão do suplício de Tântalo, no qual se combinam, rodeados de perigos, o desejo, seu objeto e seu obstáculo, que explodirão num longo grito mudo de impotência e de raiva, somente após o qual será possível a serenidade.     
    Mas tal abordagem da pessoa física é excepcional nesta obra. Enquanto Joseph Losey, seu vizinho por certa comunidade de motivações, solicita e esgota as virtualidades do ator pela proximidade mais sensível, Lang, recusando uma infinidade de possíveis, elimina-o até a trama de sua narrativa. O universo de Fritz Lang é irremediável. Como em todas as grandes obras infelizes, o paradoxo desta é de nos seduzir com seus malefícios, com o deleite sagrado de uma ordem trágica, da contemplação do inumano. O sublime nasce aqui da destruição de toda esperança, quando o homem é tomado por uma fatalidade à qual opõe a máscara fechada de seu desprezo. Um reviramento efetua-se, assim, no próprio seio da negação, que se inverte como uma pele e mostra seu avesso da vitória; a contradição testemunha pelo vencido; o homem maior do que o que o esmaga, de Pascal.        
    Suplício de uma alma e, mais ainda, O tigre e O sepulcro marcam o limite para além do qual a mise en scène, por um procedimento comparável ao de Mallarmé, cairia na ausência de mise en scène. Uma maior dominação da matéria desembocaria em sua supressão e ultrapassaria o papel mediador da arte. Esta loucura da perfeição, de um absoluto da arte pelo qual o criador tenta extrair do acaso o mais precioso de si mesmo, empurra o sistema de Lang ao extremo do audível e do crível. Daí vem o fato de ele ser tão pouco acreditado e tão pouco ouvido.          

Publicado originalmente sob o título “Trajectoire de Fritz Lang”, em La mise en scène comme langage. Paris: Henri Veyrier, 1987, pp. 129-138. Traduzido do francês por Tatiana Monassa.     

Retirado do catálogo Fritz Lang - O horror está no horizonte. Disponível em http://culturabancodobrasil.com.br/portal/wp-content/uploads/2014/08/fritzlang_catalogo_site.pdf