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quinta-feira, 20 de março de 2014

“Iracema”, por uma semana



Edição de 23/01/2011
Filme narra a aventura entre dois brasis desiguais. foi proibido pela ditadura e pode ser visto de graça em Belém.

Miguel Haoni
Especial para o jornal Amazônia
 "Iracema - Uma transa amazônica", filme de 1974 (censurado no Brasil até 1981), dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, será exibido durante esta semana no Cine Olympia, às 18h30, com entrada franca. Um encontro peculiar.
De um lado temos a opulência da "Belém do já-teve", símbolo do falso fausto da Belle Époque, representação máxima dos rituais burgueses, dos tapetes vermelhos e daquilo que historicamente chamam de "vestir-se para ir ao cinema". Do outro, um retrato cruel e sincero de um Brasil (o nosso) marcado pela miséria, pela luta diária por comida e pelas estradas do abandono.
"Iracema..." é uma obra revolucionária que precisa ser revisitada sempre, pois além de guardar imagens importantes do estado do Pará (território afirmado pela segurança nacional, mas desprezado pelo desenvolvimentismo da ditadura militar), é uma aula de método cinematográfico.
O filme narra o encontro de dois brasis carregados na carne dos personagens principais. Paulo César Pereio, grande personalidade do cinema brasileiro, é Tião Brasil-Grande, um carreteiro gaúcho que tenta a sorte nas estradas do Norte transportando madeira e pregando os chavões ufanistas dos anos 70. "Ninguém segura esse país" diz ele enquanto passeia pela paisagem de guerra do subdesenvolvimento. O personagem encontra num prostíbulo em Belém a maravilhosa Iracema, interpretada num desempenho hiperrealista por Edna de Cássia, a mulher-bebê cabocla, que representa o sonho logrado de uma terra prostituída. Depois do encontro, a aventura.
A trajetória dos personagens pelas estradas paraenses é só o pivô de uma aventura muito maior. A equipe de filmagem que topou este desafio, capitaneados pelos cineastas Bodanzky & Senna tinha uma ideia muito particular de realização: o filme seria o amálgama absoluto entre o documentário e a ficção.

Um documentário-ficção revolucionário, produzido em 1974

O filme recupera o cine-olho do cineasta russo Dziga Vertov ("O homem com a câmera"). Um dos mestres pioneiros do documentário, Vertov tinha como princípio a tomada de assalto da realidade, sem efeitos, para a posterior recriação na mesa de montagem. A realidade aqui flagrada é a de um povo abandonado pelo poder público, país que o cineasta Glauber Rocha ("Deus e o Diabo na Terra do Sol") chamava de Brasil pré-histórico em oposição ao Brasil moderno de Rio e São Paulo.
"Iracema..." recria o método da entrevista confrontando personagens semi-fictícios com a realidade dos trabalhadores paraenses, antecipando a tendência do falso-documentarismo norte-americano de Michael Moore ("Fahrenheit 11 de Setembro") ou Sacha Baron Cohen ("Borat - O segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América"). Aqui, entretanto a verdade domina a tela e o efeito câmera, recorrente nos documentários, que modifica o comportamento dos entrevistados, acentua ainda mais o sentido do improviso e da urgência na captação das imagens. Os passantes que olham diretamente para a câmera atribuindo à equipe de filmagem uma corporeidade dramática são sempre bem vindos.
O filme, que teve uma co-produção alemã, trouxe as primeiras imagens das queimadas da floresta amazônica a correr o mundo e foi fundamental para o fortalecimento do movimento ambientalista mundial. Também é notável o registro de vários fenômenos como o Círio de Nossa Senhora de Nazaré e o transporte do açaí na embarcação a motor.
Não é, entretanto um filme de imagens belas, mas sim de imagens fortes, que provocou e ainda provoca reações de horror aos obedientes asseclas da ditadura do "plasticamente correto". "Iracema..." é uma anti-Amelie Poulain. Sua dor é real e representa no corpo as feridas de uma região.

As imagens finais são premonitórias: a ficção do "Brasil Grande" abandona Iracema à própria realidade, no meio da estrada, rindo prostituída no País dos Banguelas. Imagino que os palavrões ecoarão nas paredes quase seculares do Cine Olympia com muito mais raiva.

terça-feira, 18 de março de 2014

Cineclube Sesi: "Iracema, Uma Transa Amazônica"

Nesta quinta-feira, dia 20, o Cineclube Sesi apresenta "Iracema, uma Transa Amazônica", de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, seguindo a programação de março que contará ainda com "O Ataque do Presente Contra o Resto do Tempo", de Alexander Kluge, no dia 27.
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta:  "Iracema, Uma Transa Amazônica", de Jorge Bodanzky e Orlando Senna

O Brasil é o país dos dilaceramentos. A realidade geopolítica é tão ancorada em disparidades que por vezes o brasileiro se surpreende com um país alienígena, que também é seu. Em 1974, uma equipe de filmagem resolveu mergulhar no desafio de construir uma narrativa tomando esta premissa como base, cujo resultado – o filme “Iracema, uma transa amazônica” – é talvez o trabalho mais inovador sobre os limites entre documentário e ficção já feito.
Paulo César Pereio e Edna de Cássia representam o abismo entre o “Brasil Grande” propagandeado pelo regime e a precariedade do povo que sobrevive à margem da ilusão de progresso. Orlando Senna desenvolve tal roteiro não numa escrita de ferro mas, sobretudo, no suor dos personagens.
Nesta perspectiva destaca-se, entretanto, o cine-olho de Jorge Bodanzky que ao resignificar a “realidade tomada de improviso” vertoviana dá novo sentido ao método da entrevista e das relações entre a equipe de filmagem e o universo registrado/representado.
Reexibir “Iracema” em Belém é oportunidade, não só para celebrar os 35 anos desta obra-prima, como também para reavaliarmos enquanto amazônidas o dilaceramento que abandona no meio da estrada, prostituído e banguela, este Brasil alienígena que sempre foi o nosso.
Miguel Haoni  (APJCC – 2009)

Serviço:

dia 20/03 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)


ENTRADA FRANCA
 


Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Cineclube Sesi: programação de março

06/03 - "O Buraco", de Tsai Ming-Liang 

13/03 - "Funky Forest: The First Contact", de Katsuhito Ishii, Hajime Ishimine, Shunichiro Miki
Comentários de Igor Viana Mueller

20/03 - "Iracema, uma Transa Amazônica", de Jorge Bodanzky e Orlando Senna

27/03 - "O Ataque do Presente Contra o Resto do Tempo", de Alexander Kluge 
Comentários de Cristiane Senn

Serviço:
Toda quinta 
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi 
Produção: Atalante