terça-feira, 14 de maio de 2013

Cineclube Sesi: "A Verdadeira História do Barba Azul" de Claude Chabrol

Nesta quinta-feira dia 16/05 o Cineclube Sesi apresenta "A Verdadeira História do Barba Azul", de Claude Chabrol dando continuidade ao ciclo Nouvelle Vague que se encerra com o "O Demônio das 11 Horas", de Jean-Luc Godard no dia 23.
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi: "A Verdadeira História do Barba Azul" de Claude Chabrol

Inspirado por um golpe que tomou de seu chefe, o ex-soldado Henri Landru passou a aplicar golpes em viúvas até ser preso em 1900. Ao ser liberado em 1914, continuou com suas falcatruas, anunciando em jornais e focando seus esforços em esposas deixadas para trás pelos maridos que foram lutar na 1° Guerra Mundial. Seduzindo e forjando documentos para se apoderar de seus bens, Landru também as matava. A irmã de uma das vitimas desconfiou de Landru e começou a investigá-lo. Ela descobriu a ligação das mulheres desaparecidas com ele, e o golpista foi preso, depois de uma investigação na casa do homem abriu condições para que a policia o acusasse oficialmente. A imprensa o apelidou de Barba Azul, o mapa de sua casa que Landru entregou ao seu advogado em seu julgamento sugeria que as provas do crime foram queimadas no fogão. O ex-soldado foi condenado e perdeu a cabeça na guilhotina em 1922. 

Serviço:
dia 16/05 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi
Apoio: Atalante

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Exibição do curta: "Feliz Aniversário"


Hoje (14 de maio) às 20h00
Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174)
Estreia do curta-metragem "Feliz aniversário", dirigido por Felipe Aufiero Fonseca.

Apoio: Coletivo Atalante

Este filme foi contemplado no Edital 052/11 - Filme digital - categoria: Iniciante do Fundo Municipal da Cultura, Programa de apoio e incentivo à Cultura, Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

Sinopse: 
A festa de aniversário de 26 anos de João começa. Seus amigos e familiares vêm chegando para a grande comemoração, cheia de alegrias, recordações do passado e muito amor. Tudo vai bem... até que o relógio marca meia-noite.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

CRÔNICA DE UM VERÃO


Reflexo e invenção de seu próprio tempo

Uma das mulheres que interage com a câmera, ao final deCrônica de um Verão, verbaliza a problematização do filme: "Só somos verdadeiros quando estamos sozinhos e à beira da histeria". A citação é de lembrança, de uma única visão do filme, mas o sentido é aproximado. Talvez essas palavras exagerem um pouco, pois limitam o conceito de verdade a um ideal metafísico de um "eu essencial", mas, em linhas gerais, estão em sintonia com a proposta de Jean Rouch e Edgar Morin. A mulher em questão está reagindo, nesse momento citado, à sua própria imagem no filme. Fala depois de exibição promovida pelos diretores a seus entrevistados. Uns criticam a "interpretação" dos outros e acusam-se de estarem falsos no filme. A colocação da mulher citada aqui assume a auto-encenação para a câmera. A palavra chave de sua afirmação, porém, não é sozinho e sim a outra expressão, "à beira da histeria". Há na citação do estar quase histérico a constatação de que, ao contrário da suposição generalizada, a solidão em si não inibe a (auto)encenação. É preciso estar sem consciência de si mesmo. Essa é também uma retórica intuitivamente incumbida de constatar que, se sozinho o ser humano já encena para si mesmo um personagem, diante de uma câmera não há nada além de interpretação. Com o olhar de alguém sobre si, com a consciência da exposição pública da própria imagem, não há como não vestir um personagem. Não teríamos mais um número para a câmera nos momentos finais, compostos da própria (auto)crítica de Rouch e Morin? Um problematiza todos os conflitos não resolvidos no filme e no método de realização, o outro celebra esses conflitos como mobilizadores de uma continuidade do processo Morin afirma na frase final: "Estamos aqui para ter problemas". Sucinto. Encenações são pura problematização da imagem.

Nesse sentido, o cinema-verdade, oficialmente fundado por Rouch e Morin, estão em fina sintonia, na verdade muito ampla, com o cinema moderno. Temos nos dois casos uma disjunção dos elementos narrativos, a inserção de ruídos na produção de sentidos imediatos a partir da organização dos planos, o cinema se fazendo notar por meio da revelação do olho de quem dirige e, com essa articulação estilística, escancarando os artifícios ilusionistas para buscar outra forma de comunicação. O narrador onisciente é substituído pelo narrador em dúvida. No entanto, nesse paralelismo, em linhas gerais, há um paradoxo. Enquanto o cinema de ficção buscava a aproximação com a realidade, embora com outro estatuto, o cinema documental aproximava-se da ficção, mas sem querer organizar as atuações de seus atores, de modo a se extrair significações delas.

Crônica de um Verão coloca em crise o documentário clássico-idealista, simulador de apreensão ou síntese do real, e reiventa a não ficção como linguagem e como conceito. E não apenas por uma questão filosófica, a partir da impossibilidade de se encontrar uma essência em uma representação, mas por questão de metodologia. Porque na exibição para os entrevistados, quando uns falam das atuações dos outros, emerge outra problemática: o reconhecimento de si no recorte, gerado pela montagem, feita pelos realizadores. Temos duas camadas: a da representação de quem está diante da câmera e a da manipulação dessa representação pelos autores. Há a intervenção da câmera na filmagem e dos realizadores nos cortes das imagens-falas e na ordenação delas na estrutura narrativa. O documentário então assume-se como o registro da provocação de reações à câmera e como organização dessas reações para atender aos objetivos de quem faz o filme (seja quais forem). Simples assim. Complexo assim. Porque o objetivo de Jean Rouch e Edgar Morin, ao estimularem um grupo de pessoas a falar de si mesmos e de suas relações com o mundo ao redor, é a princípio filmar como vivem os franceses. Não se diz se buscam um padrão que relaciona uma vida com outra, de modo a se buscar naqueles indivíduos a parte de um grupo e nesse grupo a parte de uma sociedade, ou se pretendem captar modos de vida desconectados uns dos outros. Mostram cafés da manhã, reclamações sobre o trabalho, ideais hedonistas de felicidade, confissões de conflitos emocionais. Cada um dos entrevistados compõe personagens a partir da verbalização de pensamentos e sentimentos que tanto informam sobre o perfil psicológico deles como nos dão a visão de cada um sobre seu posicionamento na configuração social e política.

Não importa as respostas e afirmações se verdadeiras ou se invenções. Importa a crença nelas por parte de quem responde, a verdade na forma-resposta, a inventiva autenticidade de encenação. Importa a aparência, as evidências, a reação aos encontros, às intervenções. Até porque, vivendo em comunidade, sempre mediado pelo olhar do(s) outro(s) sobre suas palavras, gestos e posturas, o homem é ator. Tem de encontrar sua autenticidade na representação. E o conceito de cinema-verdade, estabelecido por Rouch, nisso difere do de cinema-direto (conceito de Ruspoli), no qual a intervenção, se existe, é tornada transparente (por meio da ausência de comentários, entrevistas, músicas, movimentos da câmera), ou, se não existe mesmo (câmera escondida), busca captar algo não captável caso a câmera se faça notar a seus filmados. Bill Nichols e Juliane Burton definiram o primeiro procedimento como "interativo" e o segundo como "observacional". O interativo partia da premissa, por parte dos franceses, de que a câmera viola intimidades e, sendo assim, implica em riscos e em uma ética. Sua proposta: assumir a intervenção e, a partir dela, provocar reações reveladoras. Buscar a verdade no "conflito" e nas trocas entre quem filma e quem é filmado. Assumir a invasão do cinema. A linha observacional perseguia a neutralidade, mais na forma-aparência que no conceito

Cabe aqui um paralelo com a mesma oposição na fotografia. O fotógrafo húngaro Georges Brassai (ou Gyula Halász) denunciou fotógrafos que, em nome da autenticidade, capturavam pessoas desprevenidas, sem elas terem consciências de estarem sendo fotografadas. Em seus ensaios sobre fotografia, publicados em 1977, Susan Sontag, em uma nota de pé de página, contrapôs-se a essa crença de Brassai. "No rosto das pessoas, quando ignoram que estão sendo observadas, existe algo que nunca aparece quando elas sabem disso", escreveu. O fotógrafo americano Walker Evans, na prática, também defendia o postulado da imagem roubada. Parte de seu trabalho é construído a partir da utilização de uma câmera oculta e em miniatura com a qual fotografa passageiros de metrô. Rouch estava além disso em termos estéticos. Havia virado a página da discussão sobre a maior ou menor autenticidade contida na imagem de quem não percebe a câmera. Queria essa autenticidade, que nem sempre acontece, diga-se logo, na reação à câmera. Em pelo menos dois segmentos de Crônica de um Verão, consegue essa proeza e atinge algo inominável. Primeiro na confissão dos conflitos psicológicos da mulher já citada nesse texto, que, pelo grau de exposição, provoca reações negativas entre outros entrevistados, acusada de mostrar demais as fragilidades. Segundo na cena em transe da judia que caminha pela rua em aparente suspensão da razão.

O MOMENTO HISTÓRICO

Estamos em 1960. É um momento de mudanças técnicas no cinema, que resultarem em mudanças estéticas, com a conciliação de circunstância com projeto artístico, como fez os diretores agrupados sob o guarda-chuva da Nouvelle Vague. Câmeras mais leves, som direto (gravador Nagra). Os meios determinam a forma e não apenas a produção. Michel Brault, o diretor de fotografia, vale-se das condições. Tem a possibilidade de filmar cenas mais longas e mover a câmera sem transferir peso aos movimentos. A platéia já estava se habituando com as imagens do telejornalismo e do cinejornalismo: uma imagem tremida, mal iluminada, pouco definida, editada com cortes bruscos e um som impuro - tudo contendo uma marca de autenticidade que contradizia o formalismo e a estilização característicos do documentário clássico. O som sincronizado com a imagem também ampliava a sensação de uma captação sem manipulação do real. Não era possível capturar a vida como ela é se não se podia exibir a fala na imagem, como escreveu o cinegrafista Richard Leacock, um dos patriarcas do cinema direto-observacional. Rouch irá pelo outro caminho, o do som direto produzindo vida com as câmeras leves, em vez de registrá-la como se a vida corresse alheia à presença da câmera. Uma pessoa fala para a câmera o que não falaria sem ela, age de uma forma como não agiria sozinha. Há na interpretação, portanto, uma experiência única. Jean-Louis Commoli enterraria em textos a transparência do documentário ao escrever que a câmera produz eventos, que o documento é fabricado pela técnica, formatado por opções estéticas, não existe em si e sem a intervenção do cinema.

Não há novidade nisso hoje, quando nos habituamos ao cinema de encontros de Eduardo Coutinho e com a exibição de imagens dos personagens vendo suas imagens(Cabra Marcado para Morrer e Boca do Lixo, de Coutinho,À Margem da Imagem e As Parteiras, de Evaldo Mocarzel,A Alma do Osso, de Cao Guimarães, Nem Gravata Nem Honra, de Marcelo Masgão), mas, nos anos 50-60, um castelo começava a ruir. E outro, pela diluição posterior e neo-convenção, foi erguido. Não há como tentar transpor em palavras a experiência de um primeiro contato comCrônica de um Verão sem fazer uso da primeira pessoa e da subjetividade contida nesse encontro (meu com o filme). Mesmo com todas as referências históricas sobre sua importância, sobre seu marco e sobre as características inaugurais de seus procedimentos, a apreensão do filme se deu sobretudo pela força das imagens e de sua articulação. Nada ali podia ser considerado uma novidade, para quem já tinha visto a reprodução, diluição, derivação e multiplicação das opções empregadas, mas ainda assim elas pulsam com vitalidade, sobrepondo-se a todo o processo decorrente desde então nos filmes documentais (ou de não ficção, expressão também problemática, se formos averiguar a natureza da ficção, em toda amplitude). Crônica de um Verão, para quem o acaba de conhecer, não é apenas um documento histórico, que exige a transposição do olhar para quando foi feito, dentro do contexto de então. É um tremendo filme. Ponto.

Mas a jornada pelo tempo é necessária para se entender seu processo de existência, até porque toda invenção artística, mas principalmente as artes ancoradas na tecnologia, respondem a seus momentos históricos e valem-se de conquistas técnicas. Pois no caso estamos também em fase seminal de um segmento da sociologia que, adiante, iria romper com o conceito de indivíduo produzido unicamente pela classe social, libertando a construção do sujeito das paredes generalizantes e resultando no conceito de "ator social", segundo a definição de Alain Toraine, par intelectual de Morin, que por sua vez colocaria contra o muro a noção de sociedade como um tecido quase homogêneo em seus conflitos e contradições ("Não suportamos mais as construções intelectuais que explicam todas as nossas condutas por meio de nossa relação com o poder ou de nosso lugar na divisão do trabalho", Edgar Morin). Os personagens deCrônica de um Verão, embora vivam em uma mesma cidade, em um mesmo tempo histórico, em segmentos diferentes de uma mesma classe social, não podem ser vistos como sintomas de nada, ou não como sintomas sobretudo de suas redes. Cada um deles vive sua condição social, sim, mas reage a ela com marca própria. Vemos questões surgirem nas conversas, questões daquele momento e daquele lugar, mas sem virar sistematização. Talvez o indício mais evidente dessa falta de indícios generalizáveis seja um operário da Renault que desmistifica a figura clássica do proletariado ao ver os colegas como burgueses.

ETNOGRAFIA FÍLMICA

Não se pode entender as conquistas e progressos de Jean Rouch sem compreender conquistas e progressos da antropologia. A etnografia pré-câmera tinha como elemento mediador entre o observador e os observados a escrita. O antropólogo via e relatava em palavras. A memória era seu filtro entre o real e o texto, e sua bagagem teórica e ideológica preenchiam os hiatos, de modo a se criar um fio condutor linear e aparar as contradições. A entrada em cena da câmera conferiu ao observado fílmico uma referência epistemológica mais legítima. Trata-se, afinal, de evidência. Pode ser vista. No entanto, conforme o uso se ampliou, surgiram problemas. Pois documentar não tem caráter divino e onisciente. Exige enquadramento e escolhas. Direção, enfim. Mudou-se, consequentemente, a procura. O filme etnográfico continuou a ter como base a observação do real, mesmo se esse real for provocado pelo cineasta-etnógrafo (ou etnógrafo-cineasta). Claudine de France definiu comoantropologia fílmica em Cinema e Antropologia (1982, editora Unicamp) essa modalidade de "registrar em imagens o homem como ele é apreendido pelo filme, na unidade e na diversidade das maneiras como coloca em cena suas ações, seus pensamentos e seu meio ambiente" . Só se apreende algo do homem, afirma Claudine de France, se ele for provocado a mostrar-se. E só revelando algo de si pode revelar, por extensão, algo da sociedade contido em seus gestos e palavras.

Já em 1952, durante um congresso em Viena, Rouch declarou: "Quando os cineastas fazem filmes etnográficos, na verdade fazem filmes e não etnografia. Quando etnógrafos fazem filmes etnográficos, na verdade fazem etnográfica e não filmes" O objeto da antropologia fílmica tornou-se, com o uso mais freqüente da câmera, não só o homem como também o instrumento da disciplina, ou seja, o próprio filme. A metodologia e o processo de observar, a misè-en-scene em suma, passa a ser tematizada direta ou indiretamente. "O estudo do homem pelo filme não significa somente o estudo do homem, mas igualmente o homem filmado tal como aparece no filme" (Claudine France em Cinema e Antropologia). Esse cocneito é mais avançado que o de Margaret Mead, no início dos anos 70, para quem o homem só é apreendido em ações, nunca em palavras, como se as ações não fossem como as palavras reações do observado ao observador. Ela se apóia em títulos dos anos 30 aos 50, como Sous les Masques Noirs, de Marcel Griaule (referência primeira de Jean Rouch),Trance and Dance in Bali, da própria Marguerit Mead e Gregory Bateson, e The Hunters, de John Marshall, antes da sincronização de som e imagem. Interessava apenas o que era filmável, a ação do homem sobre seu ambiente. A sincronização, como afirma Claudine de France, descobriu o tempo do homem. A filmagem em planos-sequências permitia maior intimidade da câmera com as pessoas, além da expressão verbal de emoções e pensamentos.

Historicamente, o processo da sincronização do som, sem o qual não haveria Crônica de um Verão e seu conceito de cinema-verdade, é contemporâneo da descolonização, cuja conseqüência, no documentário etnográfico, foi levar as câmeras voltarem-se para as próprias sociedades de quem filma. O observador deixa de ter imagem imparcial e tematiza o próprio olhar, seus métodos, suas incertezas sobre seus métodos. Também são apontadas os procedimentos de misè-en-scene. Rouch liderou essa turma de cineastas das ciências humanas, composta também por David MacDougall, Marc Piault, Eliane de Latour.

No entanto, como acusava Margared Mead, a antropologia fílmica, assim como parte dos documentários, tornaram-se tagarelas e, assim, subestimaram a capacidade expressiva das imagens. Esse talvez seja hoje um dos raros debates formais sobre o documentário no Brasil: a ditadura do entrevistismo. Isso não deixa de ser herança da etnografia original, cuja metodologia apoiava-se na história oral, em como a oralidade expressa uma cultura, mais até que rituais ou comportamentos. A palavra no documentário, porém, é uma produção histórica, convertida em estética (com toda a problematização dela). Antes do cinema falado, os documentários recorriam, quando precisavam referir-se ao contexto das imagens, aos letreiros explicativos. Nannok do Norte, de Robert Flaherty, tem um porção deles, alguns bem longos, que interrompem o fluxo visual. Seguiu-se a hegemonia do documentário com narrador, que lia os textos escritos pelos diretores, um dado sonoro subestimado e importantíssimo para a fluência do filme. Com Crônica de um Verão, a voz chega ao "objeto", mas, como expõe Rouch, o discurso continua mediado, mas agora assumindo e problematizando a mediação, não para encontrar soluções para se filmar o homem tal qual ele é, mas para se criar permanentes problemas nessas supostas soluções. "Estamos aqui para ter problemas", conclui Morin. Tanto a arte como as ciências (não só humanas), quando conscientes de sua inserção na vida e despidas de ideais totalizantes-enganadores, têm compromisso com as dúvidas. Rouch revela-se, assim, grande artista e cientista. Um homem embebido de seu tempo, com toda a significação dessa relação.

Cléber Eduardo

terça-feira, 7 de maio de 2013

Cineclube Sesi: "Crônica de um Verão", de Edgar Morin e Jean Rouch

Nesta quinta-feira dia 09/05 o Cineclube Sesi apresenta "Crônica de um Verão", de Edgar Morin e Jean Rouch, dando continuidade ao ciclo Nouvelle Vague que contará ainda com "A Verdadeira História do Barba Azul", de Claude Chabrol (16/05) e "O Demônio das 11 Horas", de Jean-Luc Godard (23/05).
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi: "Crônica de um Verão", de Edgar Morin e Jean Rouch

Paris, verão de 1960. O cineasta e etnólogo Jean Rouch, acompanhado do sociólogo Edgar Morin, leva a câmera às ruas para colher respostas à seguinte pergunta: “Você é feliz?” O que tem início como uma simples enquete logo se transforma num ambicioso e imprevisível retrato de um grupo heterogêneo de estudantes, operários e imigrantes que expõem seu cotidiano, suas dúvidas e angústias, suas concepções sobre a política e a vida. Em seguida, os realizadores registram as reações deles à projeção do material filmado, momento em que as fronteiras entre verdade e ficção são postas em crise. Unindo o método de Flaherty às teorias de Vertov, este filme-ensaio-manifesto inaugura o cinema-verdade.

Serviço:
dia 09/05 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi
Apoio: Atalante

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O show tem que continuar



Se o século XX é o século das imagens e se o século XX é o século dos EUA, não é difícil entender porque os EUA e a sociedade das imagens estão tão diretamente conectados. Sociedade midiática acima de todas as outras, os EUA dominaram como nenhum outro país o conceito de "espetáculo". O "espetáculo" é uma das noções que ajuda a explicar, por exemplo, o domínio mundial do cinema americano dos corações e mentes de pessoas de lugares tão diferentes e peculiares. A grande descoberta americana (e o cinema está longe de ser o único local para isso, mas sem dúvida é dos mais particularmente suscetíveis) foi a de que a vida, se tornada espetáculo, é muito mais vida do que a rotina do dia a dia, ou pelo menos é assim que se prefere vê-la. Essa mistura das noções de vida e espetáculo nos ajuda a entender desde a cobertura de guerras pela TV até o conceito de espetáculo esportivo (completamente diferente nos EUA do resto do mundo), até o onipresente fenômeno dos "reality shows" e das celebridades instantâneas.
O cinema americano, que tem outra de suas mais espetaculares capacidades em conseguir tematizar-se enquanto se faz, lidou com a noção do espetáculo e sua mistura com a vida (até, muitas vezes, tornarem-se um só) muitas vezes ao longo do século, mas em especial no cinema mais recente, onde a TV passa a ter a força e a onipresença que adquiriu recentemente. Não por acaso a TV, seu processo de realização e, mais do que tudo, o poder sobre o espectador, está presente em filmes tão diferentes quanto 15 Minutos e A Hora do Show, ou nos filmes que lidam mais diretamente com conceitos sobre a questão do reality show, desdeO Show de Truman a O Sobrevivente, passando por ed tv ouShowtime. Mas, talvez, a característica mais interessante que une estes filmes seja menos uma possível reflexão sobre mistura entre vida e espetáculo, e mais a constatação de que todos (seja em chave cômica-despretensiosa, seja num olhar mais sério) tomam para si um olhar crítico sobre o fenômeno desta mistura, e acima de tudo, sobre a TV em si. No entanto, nunca questionam a sua própria produção, a sua própria espetacularização da vida, a sua própria e muito mais profunda "ilusão de realidade", que faz as pessoas querendo viver "vida de cinema". Talvez o exemplo mais clássico seja mesmo Assassinos por Natureza onde Oliver Stone liga uma metralhadora giratória que atira para todos os lados, mas nunca completa o 360º e se volta para si mesmo. O que Hollywood parece tentar é muito parecido com a cobertura que as empresas jornalísticas costumam fazer quando cobrem crises econômicas ou negociatas: se auto-impõem o papel de defensoras do povo e da Humanidade, enquanto invariavelmente escamoteiam os problemas que dizem respeito a si mesmas ou a empresas do ramo, co-irmãs. Cria-se uma suspensão da realidade segundo a qual uma tal quarta parede deste jogo teatral nunca pode ser quebrada. Podemos criticar, mas fazendo força para que não olhem para mim.
Mas, nem sempre foi assim no cinema americano. Houve alguns cineastas que, nos anos 70 e início dos 80, se dedicaram a reflexões sobre o estado de espetáculo que seu meio criava com as pessoas, de forma bem menos complacente consigo mesmos (é importante que lembremos aqui que a expressão "estado de teatro" se refere classicamente à corte francesa do século 17, então não é nenhuma novidade pós-moderna). Tendo variado do olhar mais lírico (e ainda assim profundamente crítico) de Coppola em O Fundo do Coração à amargura de Martin Scorsese em O Rei da Comédia, o que se via era uma tematização de uma vida que parava de fazer sentido frente ao espetacular que era vendido o tempo todo para as pessoas como algo a se aspirar como objetivo de completude. Você não é ninguém se não está vivendo um sonho de constante e espetacular proporções.
Mas, nenhum cineasta tematizou tão obsessivamente estas relações e perdas de fronteiras quanto Bob Fosse, talvez um dos menos reconhecidos gênios do cinema contemporâneo. Se olhada em conjunto, sua obra (de apenas cinco longas) impressiona pela absoluta coerência. Em todos os filmes, o protagonista é um "entertainer" de algum tipo. Mas, se seus filmes lidam com o mesmo ambiente, ninguém pode chamá-lo de monotemático: ele discute desde questões afetivas e familiares (All That Jazz, Lenny), ao encontro com a morte (All That Jazz), drogas e liberdade de expressão (Lenny), bissexualidade, tolerância e ascensão nazista (Cabaret) até a emancipação sexual da mulher (Cabaret, Star 80). O que ele tem de coerente (e não de repetitivo) são algumas mesmas preocupações essenciais constantes: o ser humano ainda consegue diferenciar vida de espetáculo? Será que há diferenciação possível, mesmo se desejada?
A grande sacada de ver Fosse se dedicar a isso na sua carreira é justamente que sua origem seja como dançarino e coreógrafo, trabalhando naquele que é o mais espetacular dos meios artísticos recentes: os musicais da Broadway. Daí para os musicais no cinema, que são por definição os filmes de gênero mais sonhadores e descolados da realidade direta. Por isso tudo, o mais interessante em ver Fosse trabalhar estes conceitos é que ele não o faz a frio, distanciadamente, e sim enquanto manipula os mesmos objetos que questiona constantemente. Essa relação intrínseca entra forma de viver, objeto de trabalho e reflexão, encontra sua maior expressão na obra-prima de seu trabalho que é All That Jazz (que ganhou no Brasil o raro adequado subtítulo de O Show tem que Continuar). Neste, Fosse faz o derradeiro movimento na sua coerente trajetória: o de tornar sua própria vida (e, pasmem, morte) um espetáculo. Não é possível mistura semelhante de homem/criador de arte/objetivos como artista.
Mas se All That Jazz é um ápice, no primeiro filme de Fosse a mesma preocupação já estava presente. Charity Meu Amor, um musical pós-68 (na verdade, ele é de 68, mas a sensação é de estar à frente), Fosse encena a vida de uma dançarina de nightclub que sonha em viver a vida perfeita com um amor impossível ("just like in the movies", ela diz). Baseado em Noites de Cabíria (e já diz muito da sociedade americana e sua relação com o espetáculo que alguém possa ver o filme de Fellini e sair de lá com a certeza de que aquilo daria um musical!), o filme tem uma personagem de força bastante semelhante ao de Giuletta Masina (e uma Shirley MacLaine de poesia bastante próxima), onde melancolia e um otimismo muito próximo da demência se misturam criando uma personagem que é típico produto desta mistura da "busca do sonho de algo melhor" com os sonhos construídos pelo mesmo cinema clássico do qual o filme faz parte. Uma fala especialmente impressionante se dá quando Charity consegue entrar num bar de ricos e famosos e afirma "ser a única pessoa aqui de que eu nunca ouvi falar". Conhece-se mais o outro do que a si mesmo.
O final do filme surpreende pela sua tristeza, ou melhor, pela sua negação ao "happy ending". Ele não chega a ser triste por completo simplesmente porque sua personagem vive de ilusão, então não aceita que o final é ali. Mas, se este final surpreende pelo fato deCharity parecer se encaminhar para um clássico desfecho de musical romântico, em retrospecto é impossível que alguém que conheça a obra de Fosse se surpreenda. Seus outros quatro filmes terminam com: um suicídio, um assassinato seguido de suicídio pelo assassino, a morte dele mesmo, e a ascensão do nazismo. Uau, that's entertainment!
E é justamente esta corda bamba entre o mais declarado "entretenimento" e as reflexões mais profundas e tristes que fazem de Fosse um cineasta surpreendente. Como coreógrafo não é diferente, como podemos ver pelos filmes musicais: seus números nunca são banais, os movimentos dos bailarinos são cheios de estranhezas, ritmos sincopados e inesperados, movimentos muito pouco clássicos. Mas, principalmente: o Fosse cineasta nunca deixa de encenar seus números para a câmera. Para a câmera e para a moviola, aliás. Com completo domínio da linguagem do cinema, não faz com que tudo pare enquanto se dança e canta. Dança e cinema são uma arte só em seus filmes.
Mesmo seus filmes não-musicais têm um trabalho bastante elaborado de linguagem, como se vê na estrutura narrativa de Lennye Star 80, que misturam encenações de entrevistas (ambos são baseados em histórias reais), presente, passado, projeções. As semelhanças entre os filmes, aliás, são grandes porque seus protagonistas (Lenny Bruce e Paul Snider) são ambos personagens que perderam a briga com a sociedade de espetáculo: tentaram usá-la e acabaram completamente destruídos por ela (ambos se matam, sendo que Snider após assassinar sua mulher). Claro que o tipo de uso que tentam fazer é muito diferente (Snider sonha em ser "famoso" e usa a beleza da mulher para isso, através da revista Playboy, enquanto Bruce se torna famoso quase contra a vontade quando descobre que simplesmente ser "verdadeiro" numa sociedade hipócrita o tornava uma atração), mas os resultados são os mesmos: há algo de muito mais forte do que eles em ação.
Este limite ligeiro entre ter controle de sua vida e torná-la um espetáculo conscientemente, e perder o controle dele é a fronteira tênue onde passeiam todos os seus personagens. Em Lenny, All That Jazz e Cabaret montagens paralelas constantemente contrapõem a vida dos personagens com performances musicais (ou cômicas, no caso de Lenny), onde uma comenta a outra, a outra explica a uma, ao ponto de, mais uma vez, se perder o controle do que começa aqui e termina ali. Neste quesito o filme mais complexo talvez seja mesmo Cabaret, outro filme bem perto da perfeição. A cena em que uma simples cantoria no interior da Alemanha nos faz entender todo processo de ascensão do nazismo é uma dessas fronteiras quebradas que nos surpreendem completamente. O que parecia um simples número musical vira uma análise sócio-política, sem nunca deixar de lado seu caráter de "entertainment". O mesmo se dá mais adiante com o número entre o Mestre de Cerimônias (Joel Grey tem uma das mais antológicas atuações do cinema americano) e uma mulher vestida de gorila, que começa em chave cômica e se mostra um comentário surpreendente sobre a intolerância racial. Fosse controla plenamente (como Lenny Bruce não conseguiu fazer, como vemos pelo final do filme) a fronteira entre entreter e contestar.
Nesse ponto é que é quase irresistível colocar Chicago na discussão porque, embora não seja de forma alguma um filme de Fosse, é completamente baseado numa conceituação sua (que sonhava em filmar o musical quando morreu). Esta conceituação é menos a do filme que está na tela do que nos temas que ele levanta, que estão todos espalhados por toda a obra de Fosse. Chicago talvez seja o único caso de "filme de autor morto" na História do cinema. Mas o fato é que entre "Life is a cabaret", "we live in a should-be world instead of a what-is world" ("vivemos num mundo de deveria ser, ao invés de um mundo de é assim" - frase de Lenny Bruce) e "razzle dazzle", não há a menor diferença. São todas encarnações diferentes de um mesmo artista e suas preocupações. Preocupações que, como fica claro no próprio Chicago ou em All That Jazz, não o impedem de criar ou viver ou morrer (ao contrário de Lenny Bruce), mas não o podem permitir continuar vivendo na ingenuidade (como Charity), fingindo não conhecer as engrenagens que fazem rodar não apenas o mundo ("money makes the world go around"), mas especialmente o seu mundo - o mundo da Broadway, o mundo de Hollywood, os Estados Unidos da América. Bob Fosse fez, do primeiro ao último filme (ao filme que nunca conseguiu fazer) uma das mais subversivas obras do cinema americano, ao mesmo tempo que uma das mais autenticamente americanas. O show, afinal, tem que continuar.

Eduardo Valente.
(Texto original:  
http://www.contracampo.com.br/49/fosse.htm)

domingo, 5 de maio de 2013

Som de Preto: Liberdade, liberdade!


Em comemoração ao 13 de maio, data que marca a abolição e o inicio de uma nova luta dos negros em nosso país, não mas por liberdade, mas agora por igualdade! Pois se o negro é, como dizem Hélio Turco, Jurandir e Alvinho no samba enredo da mangueira de 1988, "livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela" de que vale essa "liberdade vazia"? Por isso esse dia é sim um dia de comemoração, mas também um dia de memória e luta, o povo que construiu esse país não deve viver marginalizado e "sutilmente" segregado do resto da população, devemos enfrentar essa "gigantesca Casa Grande chamada Brasil"!
Por isso viva Zumbi! Viva Chico Rei! Viva André Rebouças! Viva o Ceará! Viva os Caifazes e tantos outros! Celebre conosco essa festa!

"17 de Maio (sexta)
às 22:00 hrs
Na Casa Amarela
(No largo da Ordem,
Em frente ao Bebedouro)"

ATENÇÃO! O BAR NÃO ACEITA CARTÃO, PAGAMENTOS SOMENTE EM DINHEIRO!

Discotecagem:
Caetano; Murilo; Miguel
Convidados:
Joaquim Lima e Max D'Carmo
Participação do Maracatu Aroeira, às 22.40. CHEGUEM CEDO!

Entrada: 10 pila até à 01hr, após 15.
(7 pila na lista amiga, enive seu nome p/ festasomdepreto@gmail.com até 12:00 do dia 17)

Arte: Adara Guarbluglio
Realização: Som de Preto e Coletivo Atalante


Teaser da festa: http://vimeo.com/66209831

sábado, 4 de maio de 2013

Cine FAP: "Cabaret", de Bob Fosse



Berlim no início da década de 30. O nazismo fazia sua ascensão meteórica, mas a grande maioria das pessoas ainda não tinha noção do terrível poder que aquela força política se transformaria. Sally Bowles (Liza Minnelli), uma jovem americana que canta em um cabaré e sonha em ser tornar uma estrela, se apaixona por Brian Roberts (Michael York), que é bissexual. Ambos se envolvem com Maximillian von Heune (Helmut Griem), um rico e nobre alemão. Quando Sally fica grávida, Brian diz que quer casar e declara não se importar de quem seja o filho. Mas o futuro lhes reserva outro destino.

Serviço:
dia 06/05 (segunda)
às 19h00
na Auditório Antonio Melillo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

*Comentador convidado: Miguel Haoni (Coletivo Atalante)