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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

A mão leve de Claude Chabrol

por Giovanni Comodo

Há um tipo específico de cineasta cujo trabalho é essencialmente o mesmo de um batedor de carteiras: aproxima-se de você, da forma mais anônima e discreta possível, e, aproveitando-se de uma distração, mete a mão no seu bolso e deixa-o vazio. Trata-se de uma atividade que exige destreza, sangue-frio e prática. Quanto melhor seu trabalho, mais invisível e mais safo se torna para uma nova conquista. É um artista, afinal – e o próprio cinema já reconheceu isso, Fuller (Anjo do Mal, 1953) e Bresson (Pickpocket, 1959) que o digam –, cuja grandeza está em não deixar rastros.

Claude Chabrol (1930-2010) é da tradição dos batedores de carteira: deixa-nos de bolsos vazios e surpresos ao final de cada projeção, quase sem entender como que nos perdemos. De direção discreta e muitas vezes menosprezado em comparação aos seus colegas de geração da Nouvelle Vague, Chabrol parece deixar um conselho aos pretendentes de pequenos furtos (ou seja, fazer filmes) em Negócios à Parte (Rien ne va plus, 1997): “aprenda seu ofício, rapaz”, diz o veterano Michel Serrault ao frustrar a tentativa de um jovem candidato no metrô.

Chabrol de fato foi um aluno aplicado. Começou como crítico na revista Cahiers du Cinèma nos anos 1950, defensor de primeira hora do filme policial americano, co-autor (com Éric Rohmer) do primeiro livro que proclamava a arte de Alfred Hitchcock e tornou-se um realizador prolífico em mais 50 anos de filmes – sem fazer cerimônia entre produções para salas de cinema e para televisão. Amante de música e literatura, seu cinema combina forças dos seus dois escritores favoritos: Honoré de Balzac e Georges Simenon. Do primeiro, traz a crônica atenta da pequena burguesia francesa e seus costumes (aqui, especialmente a fora de Paris), do segundo, a virtuosidade no gênero policial, a velocidade e a secura – não há vírgula ou fotograma sobrando em seu cinema, tudo serve a um propósito. De ambos, um humor mordaz sobre as profundezas humanas. Não houve um cineasta – em sua geração ou depois – tão dedicado e constante em seu projeto de explorar a realidade e os esqueletos escondidos da boa civilidade francesa.

Negócios à Parte marca seu 50º longa-metragem e propõe um jogo de azar constante com a plateia, como se o filme em si fosse uma noite em um cassino, festivo, repleto de amigos, cores fortes, surpresas, looks, mas em que a banca sempre sai vencedora. Segundo ele próprio, “quis fazer um filme leve como uma bolha de sabão, um pouco como os filmes de Lubitsch dos anos 30, ainda que seja pretensão comparar. Os [meus] outros são pesados, sinistros. Negócios à Parte corresponde mais ao meu temperamento brincalhão.” Ora, também aqui há uma típica trapaça sua: se há muito de Lubitsch nas várias trocas, farpas e blefes em mesas de jantar entre os protagonistas, a bolha de sabão de Chabrol torna-se de ferro especialmente no terço final do filme, com a intromissão do gângster K – de aparência dócil, educado, amante de ópera, sentimental, controlador de todo o espaço (cujo piso de seu covil evoca tanto um tabuleiro de jogo de xadrez como um castelo mal-assombrado), sua música e suas pessoas, também este criminoso é um metteur en scène, um diretor.

Boa parte da graça do filme está dada já na primeira frase (“façam suas apostas”) e no prazer em sermos surpreendidos a cada momento, a cada reviravolta da trama. O traço quase invisível da mão leve de Chabrol verifica-se em cenas como a do primeiro golpe da personagem de Isabelle Huppert no bar, cedendo aos poucos informações à plateia sobre o que está havendo, mantendo o suspense sobre o que são e o que pretendem aquelas pessoas. Ou a conversa durante o teleférico, com a profundidade de campo mostrando o “alvo” do golpe à distância entre a dupla Serrault e Huppert, com cortes entre falas que nem se sentem. O filme possui uma fluidez invulgar: a passagem de planos e cenas não marca apenas mudanças espaciais, mas também de personalidades e papéis entre os seus protagonistas golpistas. O diretor cria a tensão ao oferecer ao mesmo tempo uma transparência na forma fílmica e uma completa opacidade nas intenções dos personagens e na trama. E nós, aqui, perdemos as nossas carteiras tentando acompanhar.

Contudo, a alma de Negócios à Parte tem nome e sobrenome: Isabelle Huppert. “A maldade dela me convém”, costumava brincar o diretor. Na quinta (de um total de sete) de suas colaborações com Chabrol, Huppert surge múltipla, mais misteriosa e instigante do que nunca, em uma interpretação que é a força-motriz do filme à semelhança de bonecas russas: uma mulher que se revela outra, depois outra, depois outra... Várias vezes o cineasta comentou o quanto ela conseguia lhe surpreender a cada cena, a cada parceria – e o quanto isso o provocava a mudar seus planos para o filme e para suas personagens. Se os “criminosos” (incluindo o diretor) aqui são todos à sua maneira metteurs en scène controladores sobre a sua personagem, Huppert-atriz-e-personagem se rebela contra as encenações que lhe são pretendidas o tempo todo, impondo seus próprios golpes (como bem lembrou Catalina Sofia durante o debate da sessão). É no mínimo justo afirmar que Huppert, com o seu trabalho, é tão criadora de Negócios à Parte quanto quem assina a direção.


No jogo do cinema, apostar em seu nome e no de Chabrol é sempre uma boa chance. Ainda que se perca a carteira. Olho neles.


Nota: este texto foi alterado desde que foi distribuído como folha da sessão de Negócios à Parte do Cineclube do Atalante. Foi incluída a penúltima frase no penúltimo parágrafo a partir de uma provocação da Catalina Sofia surgida durante o debate do filme, a quem agradeço e espero que não se sinta furtada.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Cineclube do Atalante: Negócios à Parte

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe um filme de Claude Chabrol com Isabelle Huppert. Entrada franca, sempre!

“Negócios à Parte”, um filme de Claude Chabrol.

(Rien Ne Va Plus, FRA, 1997, suspense/comédia, 105 min., 14 anos)


Direção: Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert, Michel Serrault, François Cluzet.


Betty (Isabelle Huppert) e Victor (Michel Serrault) formam uma dupla de trapaceiros que vive de golpes realizados com vítimas cuidadosamente escolhidas. No ano anterior, Betty mantinha um relacionamento com um homem que fazia lavagem de dinheiro. Agora, seu plano é acompanhá-lo na próxima missão e fugir com a mala recheada de francos suíços. Mas as coisas não acontecem exatamente como planejadas.


Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Negócios à parte” (“Rien Ne Va Plus”, 1997), de Claude Chabrol
Sábado, 26/11
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco) (41) 3321-3552.

ENTRADA FRANCA

Última sessão do ano!

Sala sujeita à lotação. Recomendamos o uso de máscaras durante todo o período de permanência na sala de exibição.

Está com sintomas gripais como tosse, dor de garganta, febre, congestão nasal, perda do olfato ou paladar? Procure ajuda médica e faça o isolamento.

Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Clube do Filme: Entre amigas

[Atualização: excepcionalmente neste mês, vamos assistir ao filme na íntegra e debater logo em seguida, como fazemos no Cineclube do Atalante. Agradecemos a compreensão e esperamos por você lá!]

O Clube do Filme continua em outubro, no dia 23, em novo local: na Confraria dos Viajantes. À semelhança de um clube do livr
o, toda quarta quarta-feira do mês nos encontramos para a discussão de um filme e textos relacionados. Com foco na Nouvelle Vague, o Clube se propõe a discutir as renovações técnicas, temáticas e filosóficas propostas pela crítica da época e seu cinema, que tomou de assalto a França e o mundo.


Neste mês, o ponto de partida é "Entre amigas" (Les Bonnes femmes, 1960) de Claude Chabrol.

A acumulação de detalhes não é feita para ser completamente apreendida pelo espectador, mas para que ele apreenda apenas um pouco e que sinta uma sensação bizarra...” 
- Claude Chabrol.
Vamos aproveitar a ocasião para explorar melhor a obra deste cineasta tão habilidoso quanto discreto que, saído da crítica da Cahiers du Cinéma, trilhou um caminho à margem de seus pares e é até hoje subestimado.


"Entre amigas" também foi chamado de "Mulheres fáceis" no Brasil, porém nem sempre é fácil de ser encontrado por meios tradicionais. Qualquer dúvida, estamos aqui para ajudar.

Os textos para leitura (recomendada, não obrigatória):
1) Crítica de "Janela Indiscreta" por Chabrol: http://www.contracampo.com.br/16/chabrolrearwindow.htm
2) Crítica de "Entre amigas" por Luiz Soares Junior: https://www.apaladewalsh.com/2017/12/les-bonnes-femmes-de-lobos-e-de-fabulas/

Serviço:
Clube do Filme na Confraria dos Viajantes
"Entre amigas" (Les Bonnes femmes
, 1960), de Claude Chabrol
Dia 23/10 (quarta quarta-feira do mês)
Das 19h15 às 21h45

Na Confraria dos Viajantes
(Rua Nilo Peçanha, 1080, Espaço Terracota, São Francisco - Curitiba)

ENTRADA FRANCA


*
Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias


Para o ano de 2019, o Coletivo Atalante traz uma novidade: o Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias. À semelhança de um clube do livro, a cada mês nos encontraremos para a discussão de um filme e textos relacionados. Com foco na Nouvelle Vague, o Clube se propõe a discutir as renovações técnicas, temáticas e filosóficas propostas pela crítica da época e seu cinema, que tomou de assalto a França e o mundo.

Com influência e impactos sentidos até hoje, a Nouvelle Vague compreende mais do que filmes. Em revistas e periódicos da época (nos anos 1950-60 principalmente) foram lançadas as primeiras armas e posições do movimento - dentre elas a valorização do cinema como grande arte independente das demais, o estabelecimento da mise en scène como elemento organizador da direção, a noção das implicações morais nas escolhas dos cineastas, a busca pelo presente e o verdadeiro no cinema. Assim, ganhe-se muito com o contato com estes textos seminais, os quais acabaram por dar bases teóricas essenciais para a sétima arte.

Toda quarta quarta-feira do mês, nos reuniremos para discutir um dos filmes do período, bem como um ou dois textos que serão indicados previamente para leitura - que não é obrigatória, apenas recomendada. Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.

Em fevereiro, no dia 27, o filme em questão será "Nas Garras do vício" (Le Beau Serge, 1958), de Claude Chabrol, considerado por muitos o primeiro filme da Nouvelle Vague.

Os textos indicados:
1) "Uma certa tendência no cinema francês" de François Truffaut (disponível em https://designvisualuff.files.wordpress.com/2011/08/franccca7ois-truffaut-uma-certa-tendecc82ncia-do-cinema-francecc82s1.pdf)
2) "Nascimento de uma nova vanguarda: a caméra-stylo" de Alexandre Astruc (disponível em http://focorevistadecinema.com.br/FOCO4/stylo.htm)


Serviço:
Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias
"Nas Garras do vício" (Le Beau Serge, 1958), de Claude Chabrol [todas as imagens são do filme]
Dia 27/02 (quarta quarta-feira do mês)
Das 19h15 às 21h45
Na Casa do Contador de Histórias
(Rua Trajano Reis, 325, São Francisco - Curitiba)
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante e Casa do Contador de Histórias

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Mulheres Diabólicas


(Mulheres Diabólicas, 1995)

Por Mehdi Bellanal 

(trecho retirado do texto "Sobre três filmes tardios de Claude Chabrol", na íntegra no site citado ao final)


– Eu não entendo os últimos filmes de Chabrol.

– Normal, Chabrol nunca foi tão genialmente sintético, além do que não sabemos mais ver um filme como um todo... Não sabemos mais nem o que isto quer dizer. Ainda sabíamos, talvez, por volta de maio de 68, mas desde que o fetichismo devastou tudo no seu caminho, não há mais do que pedaços de cinema. E no mais, Chabrol se ocupou justamente do fetichismo, dupla violação à época!

– Tome-me por um produto de minha época!

– Todos somos, mais ou menos...

– Você me tranqüiliza. Admita, ao menos, que eles são horríveis, esses filmes, os BellamyA Dama de HonraA Flor do MalUma Garota Dividida em Dois.

– Não acho, mas isso não nos levará muito longe. Há um Chabrol que todo mundo ama, que até mesmo o salvou aos olhos da crítica, é Mulheres Diabólicas, pelo menos deste você gosta?

– Eu odeio!

– Perdão?

– Eu nunca entendi o encantamento geral por esta merda!

– Você está delirando!

– Supõe-se que ele fala da luta de classes? Da burguesia e do proletariado?

– Sim, sim. Ainda que Chabrol tenha declarado que este foi “o último filme marxista da história do cinema.”

– Mas que nada! Penso que é uma repugnância mostrar os pobres daquela forma.

– De que forma?

– Estritamente falando, como bárbaros.

– Estritamente falando?

– Primeiramente como invejosos, como amargurados e, finalmente, como assassinos pura e simplesmente. Veja bem: no filme, os burgueses são todos extremamente delicados, cheios de bons modos, eles perdoam até mesmo os golpes baixos da carteira e, como recompensa, são massacrados. Como se Chabrol quisesse dizer a esta burguesia que transborda de boas intenções: não se misturem com essa gentalha e, sobretudo, não os deixem entrar em suas casas!

– Mas esses proletários não são quaisquer proletários...

– São sim, porque trata-se exatamente do proletariado e da burguesia tomados num sentido geral dos termos. O analfabetismo da empregada versus a alta cultura da família burguesa, o apartamento modesto da servente versus o castelo da família etc. Nós entendemos que Chabrol quis falar da oposição de classes entre os proletários e os burgueses em geral; aliás, você mesmo reconheceu isso!

– Sim, mas Chabrol passa um bom tempo a descrever essas duas proletárias.

– E daí? Elas terminam por matar da mesma forma. E mais, Chabrol tem a frieza de em seguida condená-las, matando uma em um acidente de carro e entregando a outra aos policiais! Já entendemos muito bem que ele não gosta delas, a menos que ele esteja senil a ponto de dar razão às assassinas, vitimizando-as ao extremo, ao passo que tudo indica que elas são completamente vis e que a razão estava do lado dos privilegiados!

– Você acha que os burgueses desse filme são razoáveis?

– Sim.

– E no entanto, eles não viram o golpe chegando.

– Eles não poderiam imaginar algo parecido, visto que eles sempre foram bem comportados com a empregada!

– Então eles estão quites?

– De quê?

– De fazer com que ela dependesse deles?

– Não se mata pessoas pelo fato delas nos sustentarem!

– Porém isso já aconteceu, quando os escravos assassinavam os seus donos!

– Sim, mas esses não são os episódios mais gloriosos da história.

– Glorioso ou vergonhoso, isso existiu, sim ou não?

– Sim, mas narrando isso, o que é que ele, Chabrol, procura dizer?

– O que você gostaria que ele dissesse?

– Que ele não fizesse parecer, de qualquer modo, os pobres como bárbaros!

– Perdoe-me por me repetir, mas não se trata de quaisquer pobres!

– Mas o que você quer dizer com isso afinal?

– Você gostaria que Chabrol “salvasse” essas duas garotas? Que ele as tornasse dóceis, respeitosas, isto é, de acordo com as prescrições burguesas? Embora elas sejam, desde o início, criminosas? Porque eu lhe relembro que elas já haviam matado antes do começo da história, certamente você se lembra disso...

– Precisamente! Por que ele as retrata como desajustadas?

– E por que não fazê-lo? É por causa disso que ele não trata de todos os proletários. Imagino que você saiba que nem todos os proletários são assassinos. Mas neste caso, são justamente duas assassinas.

– Concordo, e...?

– E pela força do ódio e da frustração, elas somam um novo crime aos seus crimes passados.

– Elas matam sem motivo.

– Pode ser que elas não tenham uma razão definida - elas não são revolucionárias - mas percebe-se que elas não suportavam mais sentirem-se inferiores sob todos os aspectos, incluindo o moral, aos burgueses. Então, depois de deixar cair a barreira moral que proibia a morte, elas encontram em si mesmas a força para reverter a situação e, de dominadas que são, passam a ser dominantes ao matar seus patrões.

– Sem motivo?

– Não é porque as razões aparentes são insuficientes que não há uma lógica subjacente no ato. Tudo se passa aqui exatamente como nos filmes de Buñuel.

– Mas por que elas chegam a matar essas pessoas que não lhes fizeram nada?

– Essas pessoas não lhes fizeram nada, é verdade, mas são. Eles são os que têm tudo. Elas, elas só têm mágoas. Tudo o que lhes resta é a força destrutiva que autoriza a sua falta de escrúpulos.

– Chabrol lhes dá razão, então?

– Não, ele apenas indica que há algo na desigualdade de classes que alimenta a possibilidade do crime, que o crime está de alguma forma inscrito na desigualdade de classes. E ele encena uma situação em que as condições de um crime são reunidas. Ao reprovar Chabrol por filmar as duas garotas como “gentalha”, você parece reivindicar que tranqüilizemos a burguesia sob a conta dos dominados. Chabrol se abstém de tranqüilizar ou de incomodar quem quer que seja, é por isso que seu filme não é aquilo que você diz que é.

– E então por que a crítica gostou tanto dele?

– De um lado, porque ela adora tudo. De outro, porque ela gosta de ver a burguesia entrar pelo cano, ao menos nos filmes.

– Mas Chabrol é um burguês, não me venha dizer o contrário!

– Não direi o contrário, responderei simplesmente com a frase de Friedrich Coupat: “A plebe pode ser encontrada em todas as classes.”

– “Simplesmente”! Mas como você faz o papel de esnobe...

– Fazemos o que podemos.

(Traduzido por Tiago Saldanha)

Retirado de http://focorevistadecinema.com.br/FOCO4/chabrolforever.htm

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Cineclube do Atalante: Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol


Sophie, uma jovem disléxica e analfabeta, é contratada como empregada doméstica da família Lelièvre, que vive numa mansão isolada na Bretanha. Na pequena aldeia perto da mansão, Sophie conhece Jeanne, a agente dos Correios. Elas passam a se ver com frequência, riem, passeiam no velho carro de Jeanne ou vão ajudar o padre local nos serviços sociais da igreja. Juntas, decidem tramar um plano contra os Lelièvre.

(La Cérémonie: FRA, 1995– 111min. Com:  Isabelle Huppert,  Sandrine Bonnaire,  Jacqueline Bisset. 14 anos.)

Serviço:
Sábado, 13 de outubro
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Cineclube do Atalante: programação de outubro

13/10 (sábado): Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol
 

 (La Cérémonie: FRA, 1995– 111min. Com:  Isabelle Huppert,  Sandrine Bonnaire,  Jacqueline Bisset. 14 anos.)

Sophie, uma jovem disléxica e analfabeta, é contratada como empregada doméstica da família Lelièvre, que vive numa mansão isolada na Bretanha. Na pequena aldeia perto da mansão, Sophie conhece Jeanne, a agente dos Correios. Elas passam a se ver com frequência, riem, passeiam no velho carro de Jeanne ou vão ajudar o padre local nos serviços sociais da igreja. Juntas, decidem tramar um plano contra os Lelièvre.

21/10 (domingo): Deus sabe o quanto amei, de Vincente Minnelli


(Some came running: EUA, 1958. 136 min. Com: Frank Sinatra, Shirley MacLaine, Dean Martin, Martha Hyer. 12 anos.)

Um escritor (Sinatra) que serviu na Segunda Guerra Mundial, retorna por acaso para sua cidade natal, onde tem problemas com o irmão. Perseguido por uma jovem apaixonada (MacLaine) e interessado por uma professora (Hyer) que o ajuda na carreira das letras, ele se vê dividido pelo destino, sem saber a qual caminho entregar seu coração.


Serviço:
No segundo sábado e terceiro domingo do mês, excepcionalmente
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

sábado, 30 de setembro de 2017

Às coisas sérias




















Claude Chabrol critica Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock em 1955

...1 Seja como for, penso que o lançamento de Rear Window é suscetível de unificar a frente da crítica cinematográfica. Os próprios críticos anglo-saxônicos, que desde há algum tempo atacavam os filmes de Hitchcock, consideram Rear Windowseriamente e com simpatia. Na verdade, Rear Window apresenta, desde a sua primeira visão, um centro de interesse imediato, digamos: mais elevado do que a maior parte das obras precedentes, o que em si mesmo é suficiente para o fazer entrar na categoria das obras sérias, para além do simples divertimento policial.

Deste modo, não desejaria sublinhar aqui o que se tornou já tão aparente: a má consciência do personagem principal, ‘voyeur' no sentido menos brilhante do termo; mas antes dedicar-me a esclarecer alguns elementos menos evidentes, mas ainda mais interessantes, que enriquecem a obra com ressonâncias muito especiais e permitem afastar as objeções e as críticas provocadas por uma visão superficial de Rear Window na última Bienal de Veneza.

Desde os seus primeiros minutos, Rear Window apresenta-nos um conjunto de tocas de coelhos perfeitamente isoladas, observadas a partir duma toca de coelho fechada e incomunicável. Daí a concluir que o comportamento dos coelhos é ou deveria ser o centro do interesse, vai apenas um passo rapidamente rompido, visto que igualmente nada se opõe a esta interpretação dos elementos presentes. Basta apenas admitir que o estudo deste comportamento é feito por um coelho essencialmente idêntico aos outros. O que conduz à idéia de um deslocamento perpétuo entre o comportamento real dos coelhos e a interpretação dada pelo coelho observador que, em definitivo, é a única que nos é comunicada, visto que na continuidade deste comportamento, continuidade multiplicada pelo número de tocas observadas, toda a ruptura e todo a escolha nos são impostas. Se o coelho observador é ele próprio observado com uma objetividade total, a de uma câmara que não se autoriza a saída da toca deste observador, somos forçados o admitir que todas as outras tocas e todos os coelhos que elas contêm se resumem a uma deformação múltipla da toca e do coelho objetivamente, isto é diretamente, apresentado. Deste modo, em Rear Window, o outro lado do pátio deve ser considerado coma uma múltipla projeção dos problemas amorosos de James Stewart.

Os elementos constitutivos desta múltipla projeção são, com efeito, outras tantas relações emotivas possíveis entre indivíduos de sexo oposto, incluindo mesmo a ausência de relações emotivas, traduzida pela solidão respectiva de dois seres vizinhos, incluindo mesmo o ódio finalmente assassino, passando pela fome sexual dos primeiros dias.

Posto isto, convém acrescentar a estes elementos um outro, capital, que é o que se poderia chamar a tomada de posição do autor, cuja tomada, combinando-se com os dados artísticos impostos pela idéia, se desenvolvem diretamente nos personagens apresentados, e manifesta-se abertamente cristão, pela fé da evidência e o testemunho de três citações evangélicas.

Devidamente estabelecidas estas premissas, deixo ao leitor a conclusão deste silogismo que duma vez por todas situa o clima moral da obra, para passar ao seu significado propriamente dito.

A janela que dá para o pátio compõe-se, como sublinha o genérico, de três partes. Observemos esta trindade. A obra compõe-se, com efeito, de três elementos, três temas, se se quiser, concomitantes e finalmente unificados.

O primeiro é uma intriga sentimental opondo e reunindo sucessivamente James Stewart e Grace Kelly. Ambos procuram um terreno de entendimento, porque, se estão apaixonados um pelo outro, os respectivos 'eu', um tudo-nada divergentes, são um obstáculo.

O segundo tema é de ordem policial, situado, por sua vez no outro lado do pátio, e por conseguinte com um caráter semi-obsessivo bastante complexo. Combina-se, de resto, com grande habilidade com um tema da indiscrição, que percorre toda a obra e lhe confere uma parte da sua unidade. Este elemento policial apresenta além disso todos os caracteres habituais das obras anteriores de Hitchcock, levados aos extremos limites, visto que jamais se chega a saber se o crime não terá sido concretizado pela única vontade de Stewart.

Finalmente o último tema é mais complexo para ser definido numa palavra: apresenta-se como uma espécie de pintura realista do pátio, embora realista seja um termo particularmente mal escolhido para o caso, visto que esta pintura refere-se a seres que são a priori entidades, projeções mentais. O fim, aqui, é esclarecer, justificar e afirmar a concepção fundamental da obra, o seu postulado: a existência da estrutura egocentrista do mundo, estrutura de que a relação dos temas entre si procura dar uma imagem fiel. Assim, o indivíduo é o átomo altamente diferenciado, o par a molécula, o edifício o corpo composto de um número X de moléculas, e ele mesmo altamente diferenciado do resto do mundo. Os dois personagens exteriores têm o duplo papel de confidentes inteligentes, um inteiramente lúcido, outro inteiramente mecanizado, e testemunhas também comprometidas, generalizando o exposto.

Se quisermos arriscar uma comparação musical para esclarecer a relação dos temas, pode dizer-se que os três se compõem das mesmas notas, mas expostas numa ordem diferente, e em tonalidades diferentes, servindo cada um de contraponto aos outros. Uma tal comparação não é excessiva, visto que seria fácil determinar, no ritmo da obra, quatro 'tempi' diferentes, ou quatro formas constituintes, definíveis em termos musicais. Como convém a uma obra tão elaborada como esta, encontra-se em Rear Window um momento de cristalização dos temas numa única lição, um gigantesco acordo perfeito: a morte do cãozinho. Esta seqüência, a única que é tratada à margem do ponto de vista narrativo enunciado mais acima (a única em que a câmara desce ao pátio, quando 0 herói não se encontra lá) é, a partir de um elemento em si mesmo pouco dramático, duma intensidade trágica, comovente. Creio que uma tal veemência, uma tal seriedade possam parecer um pouco deslocadas na circunstância: um cão é apenas um cão e a morte de um cão pode parecer um acontecimento cujo lado trágico não tem relação com as palavras pronunciadas pela dona do animal, e as próprias palavras: 'Não podemos estar mais perto uns dos outros, entre vizinhos?', que resumem o sentido moral do filme, parecem algo desajeitadas e sobretudo ingênuas para justificar um estilo tão solene. Mas essa deslocação anula-se a si própria, porque o tom não deixa subsistir qualquer dúvida, e dá às coisas e sentimentos a sua intensidade real: trata-se do massacre de um inocente e de uma mãe que chora o seu filho2, e invectiva.

Desde logo, as implicações desta cena são vertiginosas, onde as responsabilidades se perseguem umas às outras em todos os planos imagináveis e condenam um mundo monstruosamente egocêntrico, onde todos os elementos, em todos os escalões, se enclausuram numa ímpia solidão.

Enquanto que no plano dramático ela apresenta o duplo interesse de um salto policial, exasperando a suspeita, e a ilustração de um tema caro ao seu autor: a materialização de um ato criminoso indiretamente desejado (no caso preciso: esta morte confirma as esperanças de Stewart.

Deste ponto de vista, a cena do confronto entre o assassino e o 'voyeur’ apresenta um grande interesse: a comunicação procurada pelo primeiro, 'Que quer de mim2' seja chantagem ou confissão, compromete o segundo que a recusa no reconhecimento da sua abjeção e autentifica, em certa medida, a sua responsabilidade. A recusa de Stewart ilumina assim a razão profunda da solidão do mundo, que se verifica ser acima de tudo a ausência de comunhão entre os seres, numa palavra, a ausência de amor.

Outras obras de Hitchcock, tais como Rebecca, Under Capricorn ou Notorious mostraram o aspecto inverso do problema, a saber, o que pode ser a força do amor; e este aspecto não está apesar de tudo ausente de Rear Window em que a personagem encarnada por Grace Kelly apoia a sua preciosa ambigüidade numa oposição entre o seu 'possível' e o seu 'ser'. Sendo o 'possível' justamente a irradiação tangível da sua beleza e do seu encanto, suficientemente poderosa para transformar a atmosfera triste e solitária do quarto do doente num jardim de flores onde a cabeça de James Stewart repousa num plano inesquecível: a introdução em simultâneo com a donzela dessa poesia inefável que é o amor entre dois seres, justificada além disso, essa poesia, por uma brincadeira de autor inteligente, no conjunto da obra que dá, na atmosfera sufocante de Rear Window, que é a própria atmosfera da nossa cloaca, uma visão fugitiva do nosso paraíso terrestre e perdido3.

Não querendo repetir o que é evidente, deixo ao espectador o cuidado de apreciar, neste filme, a perfeição técnica e a extraordinária qualidade da cor.

Rear Window dá-me a satisfação de acolher a lamentável cegueira dos céticos com uma doce e misericordiosa hilaridade.

1 Ninguém ignora que os Cahiers du Cinéma se debruçam com regularidade sobre o ‘caso’ Hitchcock e os sarcasmos dos nossos colegas acerca disso. De Georges Sadoul a Denis Marion, de Jean Quéval a George Charensol, nenhuma ironia nos foi poupada. Procurou-se mesmo fazer chicana pelos terrenos mais movediços: até quererem fazer crer que um dia traduzi ‘larger than life’ por metafísico, do que todos os que me conhecem sabem que sou incapaz.

2 O casal do cão representa além disso o casamento estéril, no espírito de Stewart; o que explica que o cão não seja de fato uma criança. Desde Sabotage que Hitchcock desconfia terrivelmente das mortes de crianças, que uma sensibilidade normal tem dificuldade de suportar.

3. A última seqüência de Rear Window é característica da maquiagem de uma cena no seu contrário, em que Hitchcock passa por mestre. As coisas voltam à ordem, e duas notações divertidas fazem um ‘happy end’; de fato, trata-se pura e simplesmente de uma constatação terrível: as coisas e as pessoas ficaram as mesmas, cegamente.

Claude Chabrol
in Cahiers du Cinéma, n.° 46, abril de 1955. Tradução de Manuel Cintra Ferreira, com modificações de Ruy Gardnier.

Texto retirado de http://www.contracampo.com.br

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Cineclube do Atalante: "O terror das mulheres" e "A dama de honra"

Neste sábado, o Cineclube do Atalante apresenta O terror das mulheres (às 14h), em homenagem à Jerry Lewis, e A dama de honra (às 16h), de Claude Chabrol encerrando a programação de setembro. Sempre com a entrada franca!

Cineclube do Atalante apresenta:
O terror das mulheres, de Jerry Lewis
Rejeitado por seu grande amor, Herbert decide recomeçar a sua vida, de preferência longe das mulheres. Ele aceita um emprego de zelador em uma pensão sem saber que o estabelecimento só hospeda jovens solteiras.
 
A dama de honra, de Claude Chabrol
No dia do casamento de uma de suas duas irmãs, Philippe Tardieu (Benoît Magimel) conhece uma das damas de honra, por quem acaba se apaixonando. Ele, porém, um rapaz racionalmente equilibrado, não imagina o perigo que se esconde por trás do doce sorriso daquela atraente moça.

Serviço:
30 de setembro (sábado)
Às 14h e 16h, respectivamente
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Cineclube do Atalante: programação de setembro

02/09: O Trem, de John Frankenheimer
(The Train, EUA/FRA/ITA, 1964 – 127 min. Com: Burt Lancaster, Paul Scofield, Jeanne Moreau, Suzanne Flon, Michel Simon) 
Paris, agosto de 1944. Com o exército aliado cada vez mais próximo, o comandante alemão fanático admirador de arte, Coronel Van Waldheim (Paul Scofield), rouba uma vasta coleção de pinturas raras francesas e as embarca em um trem com destino a Berlim. Mas, quando um estimado patriota francês é assassinado durante a tentativa de sabotagem do plano de Von Waldheim, Labiche (Burt Lancaster), um corajoso membro da Resistência, jura deter o trem a qualquer custo. Fazendo uso de seu vasto arsenal de habilidades, Labiche causa uma verdadeira onda de devastação e destruição: trilhos soltos, passagens destruídas e colisões, em uma busca apaixonada por justiça, reconhecimento e vingança. 
09/09: A touch of Zen, de King Hu
*Excepcionalmente às 15 horas.
(Xia nü, China, 1969 – 200 min. Com: Ying Bai, Billy Chan, Ping-Yu Chang, Roy Chiao, Hsue Han)Um artista, Ku, vive com sua mãe perto de um forte abandonado que tem fama de ser assombrado. Uma noite, investigando barulhos estranhos no forte, ele conhece a bela Yang, que recentemente mudou-se para lá. Ela está sendo perseguida por agentes de um nobre imperial, que assassinou sua família. Ku resolve ajudá-la a enfrentar diversas ferozes (e acrobáticas) batalhas. Ação e aventura de tirar o fôlego, sob uma fotografia mais do que espetacular, conferindo grande lirismo aos plano. Além é claro, da presença de elementos espirituais zen budistas, tão constante nos filmes de Hu. A touch of zen é um grande épico, extremamente indicado para fãs de Sergio Leone e Akira Kurosawa.
30/09: A dama de honra, de Claude Chabrol
(La demoiselle d'honneur, FRA/ITA/GER, 2004 – 111 min. Com: Benoît Magimel, Laura Smet, Aurore Clément, Bernard Le Coq, Solène Bouton)
O bom moço Philippe (Benoit Magimel) vive com a mãe e as duas irmãs. Sophie, a irmã mais velha, vai casar-se, e Patrícia, a mais nova, é uma típica rebelde. No casamento da irmã, Philippe conhece Senta (Laura Smet), uma das damas de honra, prima do noivo. Naquele mesmo dia, os dois iniciam um romance voluptuoso, envolvente... e estranho. 
Senta transporta o convencional Philippe para seu insano, fantasioso e instável universo. Mas será que ela mente quando, com um sorriso, sugere que para provar amor é preciso matar? O premiado cineasta Claude Chabrol, transforma a adaptação do romance homônimo da inglesa Ruth Rendell num suspense romântico, irônico e perturbador sobre as profundezas da natureza humana.

Serviço:
Sessões aos sábados
16 horas
*Dia 09/09, excepcionalmente às 15 horas
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização:Coletivo Atalante

sábado, 8 de outubro de 2016

Cine FAP: Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol


Discreta e calada, Sophie (Sandrine Bonnaire) é escolhida pela rica família Lalièvre para tomar conta de sua mansão e faz amizade com a curiosa e intrometida Jeanne (Isabelle Huppert), dona do correio local. O problema é que Jeanne tem inveja dos Lalièvre e arquiteta um plano para prejudicá-los.
 
Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos integrantes do cineclube. Neste mês, nossa programação contará ainda com Victor ou Victória? de Blake Edwards (17/10), e Flammes, de Adolpho Arrietta (31/10).

Sessão:
Mulheres Diabólicas (La Cérémonie, França, 1995
, 112 min.)
dia 10/10 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná/UNESPAR
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA


Realização: Cine FAP
Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Oficina de crítica cinematográfica


Cinema é a arte das imagens em movimento. Como arte é o canal de expressão de homens e mulheres que concebem o mundo sob um prisma poético. Como imagens é o espelho da humanidade nos últimos 120 anos: suas ilusões, vergonhas, vitórias e medos projetados em 24 quadros por segundo. E como movimento é a música da luz, a montanha russa nas mais impressionantes paisagens do inconsciente.

Tudo isso, porém, quase sempre passa batido na nossa convencional fruição de filmes. A dieta viciada de audiovisual imposta pela grande e pequena indústria de imagens nos impede de observar o universo por trás dos "roteiros e atuações".

Nesse sentido a Oficina de Crítica Cinematográfica, ministrado por Miguel Haoni (do Coletivo Atalante), propõe, com a ajuda da História Contemporânea e da Filosofia da Arte, lançar outro olhar sobre o fenômeno audiovisual artístico.

A oficina pretende observar como diferentes cineastas concebiam a arte em contextos chave de sua história. A partir do debate crítico, leitura de textos e análise de filmes investigaremos de que maneira esta linguagem de imagens é tecida na construção de discursos e sensações, configurando parte fundamental de nossa experiência no mundo contemporâneo.

1° Unidade - O neo-realismo de Roberto Rossellini: Uma investigação sobre o percurso do mestre italiano e seu amadurecimento ético-estético no pós-Segunda Guerra Mundial;

2° Unidade - Tempo e memória no cinema moderno: O estudo dos mecanismos cinematográficos para a representação da experiência e dos abismos temporais do indivíduo e suas sociedades;

3° Unidade - O cinema político de Claude Chabrol: A análise dos retratos ácidos da burguesia e da luta de classes nos dramas criminais do mestre francês do suspense .

Sobre a oficina:
Oficina de crítica cinematográfica (ministrada por Miguel Haoni do Coletivo Atalante) oferecerá uma abordagem teórica do cinema a partir do estudo de textos fundamentais e da apreciação de filmes. Filmes e textos, permitirão um percurso geral e específico em alguns capítulos essenciais da história recente do cinema.

Começaremos estudando a pequena revolução moderna perpetrada por Roberto Rossellini em seus filmes sociais e íntimos, católicos e existencialistas. Na sequência introduziremos a reflexão sobre a expressão cinematográfica da dimensão temporal e de como ela se completa na relação entre filme e espectador. Por fim, uma abertura sobre os pontos de interação entre o thriller e a reflexão política no cinema de Claude Chabrol.

Com este recorte, ao mesmo tempo amplo e restrito, a oficina pretende a formação do olhar crítico com embasamento histórico sobre a arte cinematográfica e suas diversas dimensões.


Programa:

Sobre o neo-realismo de Roberto Rossellini:
"Rossellini foi realmente e ainda é neo-realista? Parece-me que você lhe concederá o ter sido. Como contestar, com efeito, o papel desempenhado por Roma cidade aberta e Paisá, na instauração e no desenvolvimento do neo-realismo? Mas você descobrirá sua 'involução', já sensível em Alemanha ano zero, decisiva, segundo você, a partir deStromboli e de Francisco arauto de Deus; catastrófica com Europa 51 eViagem á Itália. Ora, de que acusam essencialmente tal itinerário estético? De abandonar cada vez mais aparentemente a preocupação do realismo social, da crônica da atualidade em prol, é verdade, de uma mensagem moral cada vez mais sensível, mensagem moral que podemos, conforme o grau de má vontade, solidarizar com uma das duas tendências políticas italianas. Recuso de saída deixar descer o debate para esse terreno por demais contingente. Mesmo se houvesse simpatias democratas-cristãs (da qual não conheço nenhuma prova pública ou privada), Rossellini não seria por isso excluído a priori como artista de qualquer possibilidade neo-realista. Deixemos isso. É verdade, todavia, que se tem o direito de recusar o postulado moral ou espiritual que cada vez mais claramente se mostra na obra, mas tal recusa não implicaria a recusa estética na qual se realiza a mensagem, a não ser se os filmes de Rossellini fossem filmes de tese, isto é, que se reduzem a dar uma forma dramática às ideias a priori. Ora, não há diretor italiano cujas invenções possam ser menos dissociadas da forma, e é justamente a partir daí que eu gostaria de caracterizar seu neo-realismo"
(André Bazin, Defesa de Rossellini)

Sobre o cinema moderno:
"Nos Cahiers, o bazinismo modernizado é substituído por um retorno a Eisenstein e Vertov, e o cinema de montagem retoma a palavra decisivamente. A crítica à 'fascinação pela imagem' e ao reinado da continuidade é feita através de uma ostensiva defesa da manipulação do material sonoro e visual - nesta manipulação está localizado o trabalho produtivo essencial. Mesmo o elogio de Jean-Louis Commoli ao cinema direto é feito em outros termos, não mais apoiado na ideia de uma verdade registrada (extraída do real), mas na ideia de que os métodos do cinema direto desafiam a 'representação' (projeção na tela de uma significação que pré-existe ao discurso) e afirmam a ideia de 'produção de significado' pelo trabalho de transformação e desrealização que a filmagem/montagem opera. No texto coletivo, 'Questão teórica' (n.210, 3/1969), Silvie Pierre, Commoli e Narboni, entre outros, afirmam a montagem descontínua, (portanto, algo que rompe com a decupagem clássica e com o bazinismo) como única forma 'não-reacionária' de fazer cinema. Contra o óbvio e o filme 'pleno de sentido', como Garroni, defendem a 'linguagem obscura' de Straub, o discurso de Godard, as experiências da vanguarda americana e o cinema da 'interdição do sentido' de Jean Daniel Pollet."
(Ismail Xavier, A desconstrução)

Sobre Claude Chabrol:
"Poucos terão reunido o unanimismo que ele conseguiu. O último dos críticos, convidado a pronunciar-se sobre a sua obra, dirá: prolífico e irregular. E ninguém levantará um dedo para contestar. Todavia, debaixo dessa ponta do 'iceberg', as constantes são inúmeras e, julgo eu, surpreendentes: os seus quarenta filmes são um permanente jogo com as leis do mercado, apostando nas regras da produção estabelecida (nem sequer se furtando ao confronto com a grande maquinaria televisiva); os atores formam uma família que regressa em cada filme (Stéphane Audran, Bernadette Lafont, Jean-Claude Brialy, Michel Bouquet), dando corpo a séries cuja regularidade e coerência começam a levantar a suspeita de que a visão global da obra - da obra enquanto construção, naquele sentido languiano que Chabrol tanto defende - é mais do que a simples soma das partes; o mesmo vale ainda para as 'séries' que Paul Gégauff, enquanto argumentista, e Jean Rabier, seu eterno diretor de fotografia, poderiam encabeçar; por fim há esse seu regularíssimo uso dos gêneros e das convenções sob a qual invariavelmente se descobre a mesma figura de desdobramento (Charles e Paul), o mesmo triângulo afetivo aproximando-se perigosamente da explosão irracional e do crime"
(M. S. Fonseca, De Paul a Charles passando por Hélène)

Referências bibliográficas:
BAZIN, André. O cinema - Ensaios. Brasiliense: São Paulo, 1991.
Blog Dicionários de Cinema: http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/
Foco revista de cinema: http://focorevistadecinema.com.br/
FONSECA, M. S. Claude Chabrol. Cinemateca Portuguesa: Lisboa, 1987.
OLIVEIRA JR, Luiz Carlos. Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno. São Paulo, 2015.

Referências fílmicas:
A flor do mal. Claude Chabrol. FRA. 2003. cor. 104 min.
Europa '51. Roberto Rossellini. ITA. 1952. p&b. 113 min.
La Jetée. Chris Marker. FRA. 1962. p&b. 29 min.
Mulheres diabólicas. Claude Chabrol. FRA. 1995. cor. 112 min.

Serviço: Carga horária: 24 horas
dias 4, 5, 6, 7, 11, 12, 13 e 14/04 (primeira quinzena de abril)
(de segunda a quinta)das 19 às 22 horasno Núcleo Cine(Rua Belém, 888 - Cabral- Curitiba/PR)
Inscrições pelo email: coletivoatalante@gmail.com
Investimento: R$120,00
VAGAS LIMITADAS
Realização: Núcleo Cine e Coletivo Atalante