Mostrando postagens com marcador A pala de Walsh. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A pala de Walsh. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de abril de 2017

Françoise, vous savez que je vous aime?


Por Francisco Valente

Existirão filmes que tomam conta das nossas vidas? Que sentimos a cada passo que damos nos nossos caminhos, que vemos vislumbrarem-se a cada porta que abrimos no nosso pensamento quando nos perdemos nele? Que não existem apenas como um fantasma na nossa mente, mas que entranham-se nos nossos sentimentos, na nossa moral, ao ponto de mexer com ela para lhe dar personagens e palavras que personificam os seus dilemas? Terá sigo algo parecido com isso quando percebi que, numa conversa à volta da intimidade, descrevi um filme inteiro, cena por cena, a uma outra pessoa. Como se se abrisse uma porta fechada à chave por onde se entra no nosso espaço exclusivo e saísse de lá, repentinamente, uma sucessão de cenas de forma tão decidida como o início desse próprio filme. Assim: mal passámos os primeiros dez minutos de Ma nuit chez Maud (A Minha Noite em Casa de Maud, 1969), escrito e realizado por Éric Rohmer, e ouvimos Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) dizer-nos, como que ao ouvido, entre o barulho da pequena multidão de Clermont-Ferrand, as seguintes palavras: “Nesse dia, na segunda-feira de 21 de Dezembro, surgiu-me a ideia, brusca, precisa, definitiva, que Françoise seria a minha mulher”.

Françoise (Marie-Christine Barrault) fora apenas avistada há momentos por quem nos fez essa declaração solitária, tal como uma prece, aquando da habitual missa dominical. Nesta, Jean-Louis vira esse seu olhar de perfil concentrado, doce e focado, enquanto ela repetia as orações que entregavam a sua alma a uma entidade pura e sem forma (Deus). De certa forma, tal como nos entregamos também ao amor, sentimento também sem forma que procura concretizar o seu desejo no encontro doce e carinhoso dos seus corpos. Mas a fé religiosa, de certa forma, é a utopia desse amor: uma devoção espiritual por inteiro que vive pelo amor incondicional, sempre fiel, e que suplanta, pela duração, o amor que sentimos na vida física. Nessa imagem, Jean-Louis vira o melhor de dois mundos: apaixona-se não apenas por Françoise, mas também pela devoção presente nesse seu olhar transformado por algo de profundo. Uma imagem que encarna a sua moral, mas também a fantasia física (em rosto, olhos, cabelos e corpo) de alguém que procura esse amor.

Françoise surge várias vezes no caminho de Jean-Louis até que este decide, literalmente, correr atrás dela e dar forma à fantasia pelas palavras. Uma abordagem algo invasiva, diz elegantemente a Françoise, e que entra em contradição com os seus princípios. “Faz-lhe mal contradizê-los”, responde-lhe. Jean-Louis sabe e o espectador também (o filme não se chama “A minha noite em casa de Françoise”…). O que não sabemos nesse momento é que é Françoise quem entende essas mesmas palavras como mais ninguém.

O encontro entre os dois continua, cada um conhece o espaço solitário do outro sem forçar outras invasões. Como o inesquecível e carinhoso gesto de Françoise a colocar a sua mão, docemente, sobre o braço de Jean-Louis, quando este tenta um beijo e ela afasta ligeiramente a sua cara, com um sorriso. “Françoise, vous savez que je vous aime?” Françoise não duvida desse amor, tal como não duvida do seu, todos os dias, a uma hipótese de felicidade pela qual ora na Igreja. Mas Jean-Louis ainda só conhece a sua imagem, não a pessoa que tem esse amor para lhe dar.
Será preciso Jean-Louis desprender-se de uma livre Maud e desfazer-se das dúvidas que esta trouxe aos seus princípios morais – ou melhor, saber viver com essas mesmas dúvidas dentro dos seus princípios – para que os seus dias com Françoise sejam feitos de uma verdadeira empatia, para além da física, e num caminho que se deseja incondicional, tal como a confissão de amor que nos proferiu e que abriu o filme.
Mas o momento essencial chega-nos apenas no fim: quando nesse mesmo caminho, alguém se cruza com Françoise e Jean-Louis, juntos. Alguém que Jean-Louis conhece bem, mas que traz a Françoise aquilo que ainda a impedia de ser inteira: que ela, afinal, era não portadora de uma dúvida mas de uma culpa, e que terá sido ela a primeira – ainda antes de conhecer Jean-Louis – a trair os pilares que definiam a sua intimidade e a sua posição no mundo. E é apenas nesse momento, sem quaisquer palavras, que Jean-Louis conhece a sua mulher: quando reconhece, nela, a sua falha, sobre a qual ela vive conscientemente ao lado de um novo amor que encontrou na sua vida. Jean-Louis não precisa de perdoá-la, pois qualquer perdão é interior. Tal como aquele que Françoise pedia, a Deus, quando Jean-Louis se apaixonou por ela e o confundiu com uma devoção pura e imaculada. Afinal, o amor é feito disso tudo.
Termino apenas dizendo: não sinto ter poderes para afirmar se esse Deus existe mesmo, por isso, não o digo. Mas se existe, abençoou seguramente a fotografia de Néstor Almendros sobre o rosto e a postura de Marie-Christine Barrault, Françoise nas palavras de Rohmer, por quem também me apaixonei.

Originalmente publicado em http://www.apaladewalsh.com/2012/10/francoise-vous-savez-que-je-vous-aime/