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domingo, 23 de abril de 2017

Fragmento de "Rohmer ou a mise en scène da linguagem"


Michel Mourlet


O conhecimento exato e inquieto desse preço, desse ritmo, disso que os ameaça, constitui a matéria dos filmes límpidos de Éric Rohmer. Se a modernidade se manifesta na faculdade de exprimir nossa época despojando-a de falsos semblantes e a originalidade através de um timbre como nenhum outro, ainda que de alcance universal, Éric Rohmer é o cineasta francês mais moderno e o mais original. Ele é também o cineasta moderno mais originalmente francês, o menos influenciado por estilos ou problemas estranhos ao nosso gênio. Quando nossos descendentes procurarão nosso verdadeiro rosto sob a poeira dos séculos, eles o encontrarão mais seguramente na realidade das ficções de Rohmer que na ficção de reportagens ou de pesquisas. 

É porque Rohmer tem o olhar muito treinado e penetrante para perceber a constância dos seres humanos. Essa permanência mostrada no concreto do seu cenário atual, captada nas suas instâncias íntimas que são essencialmente aquelas da relação sucessivamente ambígua, atormentada e solar entre o homem e a mulher, forma todo o tema de seus filmes. O celuloide, como uma hera, prende-se ao Beijo de Rodin.
Publicado em Sur un art ignoré - La mise en scène comme langage, Henri Veyrier, 1987. Tradução:  Letícia Weber Jarek.
 
  
Texto em francês reproduzido em http://signododragao.blogspot.com/2010/04/rohmer-ou-la-mise-en-scene-du-langage.html   

Tradução na íntegra: http://vestidosemcostura.blogspot.com.br/2017/05/rohmer-ou-mise-en-scene-da-linguagem_3.html

Françoise, vous savez que je vous aime?


Por Francisco Valente

Existirão filmes que tomam conta das nossas vidas? Que sentimos a cada passo que damos nos nossos caminhos, que vemos vislumbrarem-se a cada porta que abrimos no nosso pensamento quando nos perdemos nele? Que não existem apenas como um fantasma na nossa mente, mas que entranham-se nos nossos sentimentos, na nossa moral, ao ponto de mexer com ela para lhe dar personagens e palavras que personificam os seus dilemas? Terá sigo algo parecido com isso quando percebi que, numa conversa à volta da intimidade, descrevi um filme inteiro, cena por cena, a uma outra pessoa. Como se se abrisse uma porta fechada à chave por onde se entra no nosso espaço exclusivo e saísse de lá, repentinamente, uma sucessão de cenas de forma tão decidida como o início desse próprio filme. Assim: mal passámos os primeiros dez minutos de Ma nuit chez Maud (A Minha Noite em Casa de Maud, 1969), escrito e realizado por Éric Rohmer, e ouvimos Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) dizer-nos, como que ao ouvido, entre o barulho da pequena multidão de Clermont-Ferrand, as seguintes palavras: “Nesse dia, na segunda-feira de 21 de Dezembro, surgiu-me a ideia, brusca, precisa, definitiva, que Françoise seria a minha mulher”.

Françoise (Marie-Christine Barrault) fora apenas avistada há momentos por quem nos fez essa declaração solitária, tal como uma prece, aquando da habitual missa dominical. Nesta, Jean-Louis vira esse seu olhar de perfil concentrado, doce e focado, enquanto ela repetia as orações que entregavam a sua alma a uma entidade pura e sem forma (Deus). De certa forma, tal como nos entregamos também ao amor, sentimento também sem forma que procura concretizar o seu desejo no encontro doce e carinhoso dos seus corpos. Mas a fé religiosa, de certa forma, é a utopia desse amor: uma devoção espiritual por inteiro que vive pelo amor incondicional, sempre fiel, e que suplanta, pela duração, o amor que sentimos na vida física. Nessa imagem, Jean-Louis vira o melhor de dois mundos: apaixona-se não apenas por Françoise, mas também pela devoção presente nesse seu olhar transformado por algo de profundo. Uma imagem que encarna a sua moral, mas também a fantasia física (em rosto, olhos, cabelos e corpo) de alguém que procura esse amor.

Françoise surge várias vezes no caminho de Jean-Louis até que este decide, literalmente, correr atrás dela e dar forma à fantasia pelas palavras. Uma abordagem algo invasiva, diz elegantemente a Françoise, e que entra em contradição com os seus princípios. “Faz-lhe mal contradizê-los”, responde-lhe. Jean-Louis sabe e o espectador também (o filme não se chama “A minha noite em casa de Françoise”…). O que não sabemos nesse momento é que é Françoise quem entende essas mesmas palavras como mais ninguém.

O encontro entre os dois continua, cada um conhece o espaço solitário do outro sem forçar outras invasões. Como o inesquecível e carinhoso gesto de Françoise a colocar a sua mão, docemente, sobre o braço de Jean-Louis, quando este tenta um beijo e ela afasta ligeiramente a sua cara, com um sorriso. “Françoise, vous savez que je vous aime?” Françoise não duvida desse amor, tal como não duvida do seu, todos os dias, a uma hipótese de felicidade pela qual ora na Igreja. Mas Jean-Louis ainda só conhece a sua imagem, não a pessoa que tem esse amor para lhe dar.
Será preciso Jean-Louis desprender-se de uma livre Maud e desfazer-se das dúvidas que esta trouxe aos seus princípios morais – ou melhor, saber viver com essas mesmas dúvidas dentro dos seus princípios – para que os seus dias com Françoise sejam feitos de uma verdadeira empatia, para além da física, e num caminho que se deseja incondicional, tal como a confissão de amor que nos proferiu e que abriu o filme.
Mas o momento essencial chega-nos apenas no fim: quando nesse mesmo caminho, alguém se cruza com Françoise e Jean-Louis, juntos. Alguém que Jean-Louis conhece bem, mas que traz a Françoise aquilo que ainda a impedia de ser inteira: que ela, afinal, era não portadora de uma dúvida mas de uma culpa, e que terá sido ela a primeira – ainda antes de conhecer Jean-Louis – a trair os pilares que definiam a sua intimidade e a sua posição no mundo. E é apenas nesse momento, sem quaisquer palavras, que Jean-Louis conhece a sua mulher: quando reconhece, nela, a sua falha, sobre a qual ela vive conscientemente ao lado de um novo amor que encontrou na sua vida. Jean-Louis não precisa de perdoá-la, pois qualquer perdão é interior. Tal como aquele que Françoise pedia, a Deus, quando Jean-Louis se apaixonou por ela e o confundiu com uma devoção pura e imaculada. Afinal, o amor é feito disso tudo.
Termino apenas dizendo: não sinto ter poderes para afirmar se esse Deus existe mesmo, por isso, não o digo. Mas se existe, abençoou seguramente a fotografia de Néstor Almendros sobre o rosto e a postura de Marie-Christine Barrault, Françoise nas palavras de Rohmer, por quem também me apaixonei.

Originalmente publicado em http://www.apaladewalsh.com/2012/10/francoise-vous-savez-que-je-vous-aime/

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Cineclube da Cinemateca: "Amor à tarde" e "Minha noite com ela" de Eric Rohmer

Neste fim-de-semana, o Cineclube da Cinemateca apresenta "Amor à tarde" (sábado, dia 22/04) e a reposição de "Minha noite com ela" (excepcionalmente domingo, dia 23/04), ambos às 16h, encerrando o ciclo em comemoração aos 3 anos do cineclube: Seis contos morais de Eric Rohmer. No sábado que vem (29/04) é a vez de "Mostre a língua, moça" da diretora Axelle Ropert. Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca 3 anos apresenta

22/04, sábado: Amor à tarde
Frédéric (Bernard Verley) é sócio de um pequeno escritório em Paris e se considera feliz em seu casamento com Hélène (Françoise Verley), uma professora com quem teve recentemente seu segundo filho. Apesar disto Frédéric sonha todas as tardes com outras mulheres, sem jamais ter tido a intenção de ir além de seus sonhos. Até que um dia aparece em seu escritório Chloé (Zouzou), ex-amante de um grande amigo, que passa a lhe fazer visitas regulares na intenção de seduzi-lo.

23/04, domingo: Minha noite com ela
Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant) é um fervoroso católico que encontrou sua parceira ideal, Françoise (Marie-Christine Barrault), em uma missa. Ele se encontra com Vidal (Antoine Vitez), seu amigo, que o convida para conhecer sua atual namorada, Maud (Françoise Fabian). Após passarem horas discutindo filosofia e religião, Vidal vai embora para casa, deixando Jean-Louis e Maud sozinhos no apartamento.
Serviço:
22 e 23 de abril (sábado e domingo)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quinta-feira, 23 de março de 2017

Cineclube da Cinemateca 3 anos: "Minha noite com ela" de Eric Rohmer

Neste sábado, dia 25, às 16h, o Cineclube da Cinemateca apresenta "Minha noite com ela", dando sequência ao ciclo em comemoração aos 3 anos do cineclube: Seis contos morais de Eric Rohmer, que contará ainda com "O joelho de Claire" (15/04) e "Amor à tarde" (22/04). Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"Minha noite com ela" de Eric Rohmer

O engenheiro Jean-Louis volta à cidade de Clermont depois de ter morado anos fora. Católico introvertido, ele acaba por nutrir uma paixão platônica pela loura Françoise, que ele encontra nas missas de domingo. Apesar de não desenvolver nem uma reles amizade com ela, acredita que a moça é sua parceira ideal. Um dia, durante um passeio, reencontra Vidal, um velho amigo marxista. Ele o apresenta à sua namorada Maud, uma divorciada inteligente e charmosa. Os três passam a noite no apartamento dela falando sobre filosofia e religião, principalmente sobre diferentes visões sobre a filosofia de Pascal, que nasceu na cidade em que eles vivem. Vidal volta para casa, deixando Jean-Louis e Maud juntos. Com a chegada de uma tempestade de neve, ele terá que resistir aos avanços da anfitriã para se manter fiel aos seus princípios católicos e à sua paixão, que ele nem conhece realmente.

Serviço:
25 de março (sábado)

Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante