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quinta-feira, 19 de março de 2026

Cineclube do Atalante: Génesis

Neste sábado às 16h na Cinemateca de Curitiba. Sempre com entrada franca e seguido de conversa!


Sábado, 21 de março:

GÉNESIS
Dirigido por Marta Ramos e José Oliveira

(Génesis, POR, 2024, 126 min., drama/experimental, 14 anos.)
Com Marta Ramos, Marta Carvalho.

Maria parte para o campo na Beira interior em busca de Lídia, que fugiu repentinamente da grande cidade. Lídia guarda um segredo, e vai encontrando no que vê e nas vozes com quem se cruza, o que Juan Marsé revela n'O Feitiço de Xangai: "Apesar de crescermos a olhar para o futuro, crescemos sempre para o passado, em busca, talvez, do primeiro encantamento". SESSÃO DE ESTREIA NO BRASIL.

SERVIÇO:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Génesis” (2024), de 
Marta Ramos e José Oliveira
Sábado, 21/03
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Génesis, de Marta Ramos e José Oliveira

por Giovanni Comodo


Nunca esqueci que certa vez estávamos em uma roda de amigos depois de um jantar e falávamos sobre o tema que sempre nos assombra: o cinema. Na verdade, todos já se conheciam há muitos anos e eu era o recém-chegado em visita a Lisboa. Argumentei, muito seriamente, que para o melhor do cinema acontecer era necessário afinal filmar com amor, este sentimento tão menosprezado. Marta Ramos, realizadora ali presente, não hesitou e disse em sequência “amor e pudor”, no que todos fomos convencidos sem precisar de argumentos.

Para mim foi uma surpresa ouvir uma verdade que ainda não havia conseguido colocar em palavra, uma vez que não se trata do pudor enquanto conservadorismo, mas de uma relação de modéstia e respeito com o outro e o mundo. Os gregos veneravam Aedos, divindade personificação do pudor, da humildade e da vergonha, responsável pela dignidade humana e pelos homens evitarem o inapropriado. O cinema não lhe dedicou templos, mas é possível perceber que alguns lhe fizeram oferendas – sem pudor não teríamos Ford, Mizogochi, Ozu, Bresson, Manoel de Oliveira, Kiarostami, Costa.

“Génesis”, o novo filme de Marta Ramos e José Oliveira, é um trabalho de amor e pudor, dedicado às pessoas e à vida. Começa com o que parece ser um filme em preto-e-branco Super-8 com duas mulheres com trajes gregos se divertindo, entre danças e abraços (sacerdotisas de Aedos? Não sabemos ainda). Corte. Cor, cidade, barulho, más notícias. Corte. Campo, verde, o correr de um riacho. Ficamos sabendo que Maria, uma das sacerdotisas, é atriz e chega ao Fundão com a lata do filme na mala à procura de Lívia, sua amiga e colega que sequer viu a estreia do filme grego que trouxe consigo. Durante a primeira hora de “Génesis” Maria irá percorrer o Fundão e suas montanhas para tentar descobrir notícias da amiga, em uma série de encontros e explorações da região.

Maria, vivida por Marta Carvalho – que havia trabalhado anteriormente com os realizadores em uma aparição luminosa em “Os Conselhos da Noite” –, narra suas observações para nós. Muda, em suas andanças conhece o Jornal do Fundão, passeia pelo centro, pelas obras do histórico Cine-teatro da Gardunha, pela Moagem, por centros sociais, por quintas e campos, pelas minas da Panasqueiras (“parece que estas montanhas estão a sangrar” diz ela para nós, sendo impossível não pensar em outro filme realizado ali por uma outra dupla de realizadores, “Wolfram, a saliva do lobo”, de Joana Torgal e Rodolfo Pimenta). Maria consegue comunicar-se com facilidade e serve como ouvinte para as pessoas que encontra, muitas delas enquadradas diretamente para a câmera.


As cenas demonstram a inegável capacidade de transformação do Fundão. Uma moagem se torna centro cultural de cinema e teatro, um seminário se transforma em local de acolhimento e museu, uma ruína voltará a ser cinema. Novos tempos, novas funções, sempre pautadas no espírito de resistência e defesa da liberdade que está desde os pequenos gestos aos discursos do 25 de abril – apesar dos alertas da utilização desenfreada da terra em avanço.

O que nos leva a outra questão central e urgente: o filme é atravessado pela Guerra na Ucrânia, ainda em andamento. O Fundão tem acolhido refugiados ucranianos, entre adultos e crianças, que participam do filme com seus depoimentos à Maria (e à nós, portanto). Brincam, riem, mostram suas artes. Os realizadores nos dão a ver estas pessoas, em um gesto de tornar corpóreo e humano o que para muitos é apenas estatística de conflito.

Ramos e Oliveira nos lembram que o cinema não apenas pode dar a ver, mas também a ouvir. Ouvimos os refugiados, os voluntários, os habitantes do Fundão, seus músicos, seus pastores. Todos trazem suas histórias e assumem o completo protagonismo do filme em seus momentos, nada mais importa – como deve ser ao ouvirmos alguém contar algo caro de si.

Poucas vezes temos a oportunidade de acompanhar uma obra cinematográfica com tamanha desenvoltura na defesa e no exercício da liberdade como “Génesis”. Não apenas pela alma fundanense que atravessa a projeção e que cabe tão naturalmente aos realizadores que habitam ali faz poucos anos, mas na própria concepção do filme: regras não se aplicam, elas engessam, comportam, aborrecem. Aqui, é impossível saber o que sucederá cada cena. E, entretanto, jamais é gratuito, sempre há uma inteligência em cada sequência que se perfaz, com uma sutileza que não faz soltar a mão da plateia. Há ainda o prazer da surpresa constante com as imagens, além do cuidado raro para olhar a paisagem: da textura de película em preto-e-branco aos filtros diáfanos, passando pelos oníricos, diferentes janelas de enquadramento e intensidades de cores, os usos de fotografias, material de arquivo, rádio, músicas ao vivo, poesias, depoimentos, registros de apresentações artísticas e religiosas, tudo interessa e agrega à complexa e múltipla tessitura da vida capturada e exibida pelos realizadores. Há quem defenda filmar como se não houvesse amanhã, porém neste caso é o oposto, filma-se porque haverá um amanhã. 



A metade do filme traz a revelação de que Lívia não está em perigo: desapareceu por vontade própria, para tornar-se mãe. Há uma sequência de cenas da natureza, da grande beleza descoberta nos pequenos movimentos das coisas. Adentramos pela escuridão das cavernas da Serra da Gardunha e há um corte na montagem ao sairmos para a luz, seguida da revelação do rosto de um bebê, seu olhar começando a discernir o mundo. A partir dali, acompanhamos a voz de Lívia em uma carta aberta para seu filho recém-nascido (entendemos que algumas das imagens vistas antes eram destes momentos anteriores à chegada de Maria, como a visão dos ninhos de cegonhas e inclusive os depoimentos do geólogo, que eram dirigidos para Lívia desde o início), entre memórias e incertezas para o futuro – a Guerra na Ucrânia teve seu início pouco depois da notícia da gravidez, o que a fez trabalhar no mesmo centro em que Maria trabalharia meses depois. 

Lívia descobre-se mãe, em um chamado que parece vir dos campos e das pedras – a primeira imagem do filme, aliás, ainda em preto-e-branco, era de uma pedra cujas manchas do tempo pareciam duas células se multiplicando no microscópio, uma promessa inesperada da vida sempre a surgir capturada pelos realizadores.

Vale dizer que Lívia é vivida pela Marta Ramos e o bebê – que acaba por nascer do cinema e no cinema – é dela e do José Oliveira (que tivera uma breve ponta antes como o Miguel que percorre com Maria as colinas das minas). Acompanhamos com Ramos e Oliveira o fascínio da descoberta da nova vida, na barriga e depois, em uma grande fusão entre filme e vida – porque o cinema não deve afinal ser dissociado da vida, é ela que alimenta os filmes, sendo necessário realizadores de enorme coragem, paixão e pudor para o desafio de registrar a vida, com respeito e em comunhão com o mundo em volta e igualmente com a plateia.

É também porque não se dissocia cinema e vida que percebemos a presença de Ramos e Oliveira nas interações com os ucranianos e em outros momentos, especialmente na despedida do filme – nesta última cena, vemos os personagens ou os realizadores? Não importa, vemos uma família de três pessoas onde antes haviam duas, repletos de futuro.

Em determinada altura de “Génesis”, mencionam que quanto mais se conhece, mais se aprofunda o mistério. Neste filme que propõe conhecer ao máximo uma paisagem e suas pessoas, não temos alternativa que abraçar variados mistérios – de segredos que não são compartilhados conosco a tramas que se desfazem. Porém nenhum deles maior do que o da vida, mostrado diante de nossos olhos, com amor e pudor.


Texto escrito para a estreia mundial do filme Génesis nos Encontros de Cinema do Fundão de 2024 (agosto, Portugal) que integra o catálogo do festival. Agradecemos à organização do festival pelo convite e por autorizar esta postagem. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

"Guerra": Ir e vir, talvez não voltar

por Giovanni Comodo

Ao crepitar de uma fogueira, dois homens contam histórias, “não pode deixar morrer o fogo”, diz um deles. Com uma cena tão antiga quanto a humanidade, começa o novo e mais ousado trabalho de José Oliveira e Marta Ramos, um filme que é afinal sobre deixar a chama viva. Qual chama? A da memória, da vida, dos companheiros de luta, dos amigos. Na tela e para além dela.

"Guerra" nos faz acompanhar Manuel, veterano da Guerra Colonial Portuguesa, vivido por José Lopes. Envelhecido, caminhamos com ele pelas ruas de Lisboa em momentos com a esposa e o filho, com os amigos veteranos, e também em seus pesadelos crescentes, tomados por dor e culpa. Este homem, que já não diferencia passado e presente, fantasmas e carne-e-osso, vai sucumbindo até, finalmente, descansar.

A guerra é sempre um trauma de uma nação, uma dívida que nunca é totalmente quitada, mas que tampouco deve ser esquecida, sob o risco de ser repetida. Ao mesmo tempo, a experiência vivida pelas pessoas que foram lutar muito além de suas fronteiras é tão individual que torna difícil (se não impossível) de ser compartilhada com outros. Como dar conta, hoje no cinema, de seu horror e violência? A resposta que Oliveira e Ramos oferecem é que não se trata de mostrar o horror da guerra em si, mas o preço que esta continua cobrando de seus agentes e testemunhas, assombrados pelo pecado e pela mágoa tantas décadas depois. Se os realizadores, com poucos recursos mas grande sensibilidade e inteligência, conseguem reverberar tanto é porque nos levam direta e irremediavelmente ao drama íntimo de um homem. É um filme anti-guerra e anti-filme-de-guerra. As várias e progressivamente desconcertantes cenas de Manuel em trajes de exército poderiam ser flashbacks ou sonhos ou mesmo tardes reais em busca de si próprio em algum bosque, não importa. Estamos ao seu lado, impotentes, e com ele vamos até o fim.

Há muita dor em “Guerra”, porém também é um filme repleto de pequenas alegrias e delicadezas. Os conselhos de Manuel a seu filho, seu jogo improvisado de futebol, a sua interação com uma menina poetisa ou a dança do casal ao som de Neil Young são momentos de grande beleza. Assim como as cenas dos veteranos reunidos em uma tarde ensolarada com suas canções (hawkisianos sempre tocam duas em seguida). É um imenso prazer ouvir e ver estes homens comuns com seus sotaques, rugas e a barriga da “experiência”. Trata-se de um registro importante: cabe ao cinema guardar para o futuro o mundo presente, suas pessoas, seus gestos, suas respirações. Já na apresentação destes veteranos, em chamada, está o cerne do filme: em dois travellings laterais, dar a ver estes homens comuns (quase todos reais combatentes da guerra), ao mesmo tempo que se insere o áudio de algo como bombas, distorcidas. Duas tomadas enganosamente simples, repletas de gravidade, respeito e de algo intangível: o peso da memória sob a luz.

Porque este filme luminoso é também um filme sobre luz. As passagens nos dias contemporâneos são banhadas por uma luz branca, leitosa, própria dos tempos do digital – como nas cenas com o filho presente –, enquanto que Manuel parece estar em plenitude nas cenas com luz amarelada, dourada, calorosa, de outra época (e de outro cinema) que parece não mais existir, em vias de desaparecer – como seu protagonista – como vemos nas cenas de sonhos ou no consultório da psicóloga em que domina o tom amarelo (uma cor que toma até os grafismos e letreiros dos créditos). Este embate de luzes desafia Manuel por todo o filme, até que ele próprio se transforma em luz no seu último instante.

Nada do que foi discutido aqui até agora seria possível sem o trabalho e a presença de José Lopes. Sua performance como Manuel, ou Manecas, é antológica. Colaborador e amigo de longa data dos diretores, partiu dele a ideia e a vontade de realizar este filme. Se na parceria anterior com José Oliveira, “Longe” (2016), Lopes já era o fio condutor do filme (de forte cunho autobiográfico), aqui as apostas são levadas às últimas consequências, em uma entrega sem reservas de ambas as partes. A cena no consultório da psicóloga, um tour de force de quase dez minutos sobre o rosto de Lopes, é emblemática: tensão, medo, orgulho, angústia, dor, uma enorme gama de sentimentos é transmitida sem necessitar que ele diga nada. Sentimos juntos. A intensidade desta cena, em brasas, consiste em uma espécie de “exorcismo doce” que acaba por nos jogar cada vez mais adentro no labirinto de memórias de Manuel e de seus fantasmas de carne e amigos de bruma – e levando consigo todo o filme, que tampouco separa o real e o imaginário, o sonho e o pesadelo.

Já não temos mais chão. Nunca tivemos realmente.

“Guerra” é também o último filme de José Lopes, que deixou este mundo em dezembro de 2019.

Já não temos mais o Zé Lopes.

A sua última cena, uma das mais assombrosas da cinematografia recente, em que de uma só vez temos a despedida de Manuel do filme e a de José Lopes do cinema, é nada menos que um milagre oferecido a nós, a plateia. Vemos acontecer a alma sair do corpo de um homem e subir aos céus neste filme. Não há outra explicação. Não é cinema mais, é real. E de uma coragem imensa dos realizadores em exibir isto em um filme nos dias cínicos de hoje.

“Procura a felicidade que ela deve existir” afirma Manuel/Zé pouco antes, perto do final da projeção. Em uma história com tantas dores, há espaço para a esperança e o amor.

E afinal, para que serve o cinema? Oliveira e Ramos dão várias respostas a esta questão em “Guerra”: para nos revelar histórias e pessoas que não podem ser esquecidas, para nos exibir o invisível, para reunir quem amamos e compartilhar este sentimento. Pois o trabalho deste casal de diretores é de amor. Por quem e onde filmam, por quem reúnem a sua volta para realizar seu cinema – vários amigos, seus familiares e tantos outros. E também a quem tem a chance de vê-lo.

Para manter a chama acesa. Longa vida ao cinema, ao “Guerra” e ao Zé Lopes. Não se apagarão.


O filme "Guerra", de José Oliveira e Marta Ramos, estreia nas salas portuguesas em 19 de janeiro de 2023. Texto retirado do livro "Encontros Cinematográficos", edição organizada por Mário Fernandes e Carlos Fernandes, publicado em 2020 por Jornal do Fundão & Stone and The Plot.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Clube do Filme: O Movimento das Coisas

Excepcionalmente em novembro o Clube do Filme se reúne (virtualmente) na segunda quarta-feira do mês, dia 11, para a discussão de um filme e textos relacionados.

O filme de novembro é "O Movimento das Coisas" (1985), de Manuela Serra.


“Histórias do quotidiano de silêncio. Em caminhos desertos de vento inquietante, numa aldeia Norte. Há um dia de trabalho atravessado por três famí- lias: quatro velhas, o campo, o pão, as galinhas, e, a lembrar-nos, clareiras de histórias velhíssimas de gestos saboreados em mineralógicas palavras. Uma família de dez filhos numa quinta mergulham na largueza do tempo, no gesto todo do trabalho, o pai corta uma árvore. Mais longe, a água do rio habitado por gente, numa barca, o sol, e o largo da aldeia, a ponte em construção, a varanda, a refeição, a densidade e o misticismo ao domingo, a missa e a feira: ritualizada ao sábado. Nestes fragmentos de cenário move-se Isabel, também, com os olhos postos no futuro, para lá dos outros, em que o sentido da vida é apenas viver."
- Teresa Sá.

O filme está disponível no YouTube (em caso de problemas com o link ou se desejar uma cópia um pouco melhor, envie um email para nós: coletivoatalante@gmail.com).

Material complementar recomendado (textos bem breves):

A) O média-metragem
"35 Anos Depois, O Movimento das Coisas" (2014, 37 min), de José Oliveira, Mário Fernandes, Marta Ramos. Disponível aqui.
B)
Folha da sessão assinada pelo João Bénard da Costa. Disponível aqui.
C)
Texto por José Oliveira a respeito dos dois filmes indicados. Disponível aqui.
D) "A vida é tão mais ampla que o cinema", entrevista com a diretora. Disponível aqui.


Como de costume, nosso propósito no Clube do Filme é discutir obras e textos com um pouco mais de tempo que nos debates após as sessões do cineclube, logo, o filme não será exibido na data. Recomendamos que o filme já tenha sido visto e também a leitura dos textos, porém isso não é exigido para participação. Optamos pelo encontro via plataforma Jitsi, uma vez que não exige senha, links confusos nem download de nenhum aplicativo para o desktop (porém caso queira acessar pelo celular, é necessário o aplicativo Jitsi para celular, de download gratuito). Devido ao formato virtual, não poderemos exibir com qualidade trechos do filme e de outros trabalhos, mas acreditamos ser importante retomarmos as atividades possíveis durante a pandemia. O ingresso, como sempre, é gratuito.

Serviço:

Clube do Filme: O Movimento das Coisas, de Manuela Serra
Dia 11/11 (quarta-feira)
Das 19h15 às 21h30
Via Jitsi: https://meet.jit.si/ClubedoFilmeAtalante
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante