terça-feira, 10 de março de 2020

Sobre viver a Nouvelle Vague

por Giovanni Comodo


É inegável: os franceses entendem de revolução. Na virada dos anos 1950 para 1960, uma nova geração de realizadores tomou a frente do cinema de seu país. Esta geração, jovem demais para ser convocada para a 2ª Guerra Mundial, passou a Ocupação e seus anos imediatamente posteriores dentro das salas de cinema. Lá, todo um mundo: a justiça dos westerns, as cores dos musicais, as trevas do noir, as paixões dos romances. Na saída das salas, novas amizades e disputas sobre qual o melhor filme, qual cinema mais encantava. Os discursos tomavam os cafés e as ruas e em pouco tempo também jornais e – como já não eram suficientes – revistas criadas para discutir o assunto mais pulsante destes dias: o cinema.

Enquanto isso, qual cinema a França tinha a oferecer? Filmes repletos de “muito bom gosto”, gravados dentro de estúdios, figurinos e textos empolados de adaptações literárias para agradar “papai e mamãe”. Um cinema seguro, afastado da vida e do verbo das pessoas que frequentavam as salas de cinema.

Ao mesmo tempo, um salto tecnológico: chegavam ao mercado novas câmeras e microfones, muito mais portáteis, intuitivos, baratos. Formaram-se as condições ideais para que em pouco tempo esses jovens obcecados por cinema tomassem as câmeras para si e saíssem para o estúdio/ateliê mais barato disponível: as ruas, en plein air. Atores? Seus amigos ou amigos de amigos. Estes novos filmes, insolentes ao bom gosto nacional vigente, contestadores de formas e conteúdos, ecoaram nas salas de cinema e inspiraram outros tantos jovens através dos anos em todo o mundo: é possível, afinal, fazer (e viver) um cinema urgente e que fale de nossos dias com poucos recursos. A esta revolução chamou-se Nouvelle Vague [Nova Onda]. Assim diz a lenda, impressa aqui.

Como todas as lendas, há muita coisa inventada ou simplificada. Ou mentirosa. Nem todo este “novo cinema” era novo: estes jovens cineastas tinham sua filiação espiritual: Rossellini (e todo o neo-realismo italiano, que ensinara o caminho de fazer muito com pouco), Hitchcock, Bergman, Jean-Pierre Melville, Jean Grémillon, Jean Renoir, Max Ophüls. 

De Ophüls, com sua suntuosidade, decadência e sensualidade, não houve filho maior que Jacques Demy. Muitas linhas já foram escritas sobre a Nouvelle Vague, mas poucas ainda sobre Jacques Demy (mesmo com João Bénard da Costa dizendo ser ele um dos raros e mais belos mozartianos do cinema) e menos ainda sobre “A Baía dos Anjos”.

Após uma estrondosa estreia com “Lola” (1961), dedicado não por acaso a Max Ophüls, Demy retorna em 1963 com “A Baía dos Anjos”, uma história de amor louco, tão intenso como breve, passada nos cassinos da Riviera Francesa: um rapaz, Jean (Claude Mann), conhece o jogo e a paixão com uma mulher mais velha, Jackie (Jeanne Moreau). Tudo vício, tudo destrutivo, tudo repleto de beleza.

Uma beleza desde o primeiro instante de filme, em sua cena de créditos. A íris da câmera se abre, vemos Jeanne Moreau (com um cigarro, o vício, nos lábios) absolutamente platinada, resplandecente. A câmera se põe em um movimento acelerado, revelando a sua solidão, como a ela pertencesse toda a cidade e o mar. A música de Michel Legrand, que dará a tônica deste filme, também começa doce e ganha velocidade e força, cada vez mais, até sumir como Jeanne, com as imagens da Baía dos Anjos. Fim dos créditos. Estamos em Paris, interior de um escritório de um banco. Sem música, sem vento, sem velocidade. Apenas então tem início a história de como Jean descobre a vida e seus perigos – em uma série de escolhas difíceis de serem contestada pela plateia, não só por Moreau, mas em razão da maneira pela qual o filme revela o tédio absoluto do trabalho urbano, um tema recorrente na Nouvelle Vague e que passava longe do cinema de então.

Em um preto-e-branco de alto contraste, Demy já se encontra aqui no topo de suas capacidades, não apenas pictóricas, mas em encenação – o uso recorrente de espelhos diversos durante a projeção ou como Jackie quase sempre é emoldurada por um fundo negro, destacando sua alvura, já são exemplos do domínio e da elegância do realizador – e, especialmente, ritmo: o filme se realiza em plena potência na montagem, nas diversas fusões entre os rostos do casal e o giro da roleta, em cenas em que o prazer do jogo e do amor são uma só coisa, tornada física pelo cinema.

Demy sempre afirmou que seu desejo no filme era mostrar a paixão como uma droga ainda maior e mais viciante do que o jogo e as roletas dos cassinos em que se passa a narrativa. É com esta febrilidade, embalada pela música de Legrand, que vamos sendo cada vez mais capturados na relação entre Jean e Jackie. Contudo, no filme e na vida, a casa sempre vence.

Quão verdadeira é a felicidade de nova aposta no final do filme? Seria a cena de abertura o real desfecho de “A Baía dos Anjos”? Quem sabe fosse o dia seguinte àquele abraço dos amantes, com Jackie praticamente como uma aparição fantasma daquela cidade viciosa?

O desencanto é uma das maiores marcas deste realizador, talvez um dos motivos de ser ainda pouco celebrado – contudo, sua esposa, Agnès Varda, dedicou-lhe uma das mais belas cartas de amor do cinema, o filme “Jacquot de Nantes” (1991). O amor continua para sempre, quem sabe.

A nós, cabe girar a roleta mais uma vez.

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