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terça-feira, 10 de março de 2020

Sobre viver a Nouvelle Vague

por Giovanni Comodo


É inegável: os franceses entendem de revolução. Na virada dos anos 1950 para 1960, uma nova geração de realizadores tomou a frente do cinema de seu país. Esta geração, jovem demais para ser convocada para a 2ª Guerra Mundial, passou a Ocupação e seus anos imediatamente posteriores dentro das salas de cinema. Lá, todo um mundo: a justiça dos westerns, as cores dos musicais, as trevas do noir, as paixões dos romances. Na saída das salas, novas amizades e disputas sobre qual o melhor filme, qual cinema mais encantava. Os discursos tomavam os cafés e as ruas e em pouco tempo também jornais e – como já não eram suficientes – revistas criadas para discutir o assunto mais pulsante destes dias: o cinema.

Enquanto isso, qual cinema a França tinha a oferecer? Filmes repletos de “muito bom gosto”, gravados dentro de estúdios, figurinos e textos empolados de adaptações literárias para agradar “papai e mamãe”. Um cinema seguro, afastado da vida e do verbo das pessoas que frequentavam as salas de cinema.

Ao mesmo tempo, um salto tecnológico: chegavam ao mercado novas câmeras e microfones, muito mais portáteis, intuitivos, baratos. Formaram-se as condições ideais para que em pouco tempo esses jovens obcecados por cinema tomassem as câmeras para si e saíssem para o estúdio/ateliê mais barato disponível: as ruas, en plein air. Atores? Seus amigos ou amigos de amigos. Estes novos filmes, insolentes ao bom gosto nacional vigente, contestadores de formas e conteúdos, ecoaram nas salas de cinema e inspiraram outros tantos jovens através dos anos em todo o mundo: é possível, afinal, fazer (e viver) um cinema urgente e que fale de nossos dias com poucos recursos. A esta revolução chamou-se Nouvelle Vague [Nova Onda]. Assim diz a lenda, impressa aqui.

Como todas as lendas, há muita coisa inventada ou simplificada. Ou mentirosa. Nem todo este “novo cinema” era novo: estes jovens cineastas tinham sua filiação espiritual: Rossellini (e todo o neo-realismo italiano, que ensinara o caminho de fazer muito com pouco), Hitchcock, Bergman, Jean-Pierre Melville, Jean Grémillon, Jean Renoir, Max Ophüls. 

De Ophüls, com sua suntuosidade, decadência e sensualidade, não houve filho maior que Jacques Demy. Muitas linhas já foram escritas sobre a Nouvelle Vague, mas poucas ainda sobre Jacques Demy (mesmo com João Bénard da Costa dizendo ser ele um dos raros e mais belos mozartianos do cinema) e menos ainda sobre “A Baía dos Anjos”.

Após uma estrondosa estreia com “Lola” (1961), dedicado não por acaso a Max Ophüls, Demy retorna em 1963 com “A Baía dos Anjos”, uma história de amor louco, tão intenso como breve, passada nos cassinos da Riviera Francesa: um rapaz, Jean (Claude Mann), conhece o jogo e a paixão com uma mulher mais velha, Jackie (Jeanne Moreau). Tudo vício, tudo destrutivo, tudo repleto de beleza.

Uma beleza desde o primeiro instante de filme, em sua cena de créditos. A íris da câmera se abre, vemos Jeanne Moreau (com um cigarro, o vício, nos lábios) absolutamente platinada, resplandecente. A câmera se põe em um movimento acelerado, revelando a sua solidão, como a ela pertencesse toda a cidade e o mar. A música de Michel Legrand, que dará a tônica deste filme, também começa doce e ganha velocidade e força, cada vez mais, até sumir como Jeanne, com as imagens da Baía dos Anjos. Fim dos créditos. Estamos em Paris, interior de um escritório de um banco. Sem música, sem vento, sem velocidade. Apenas então tem início a história de como Jean descobre a vida e seus perigos – em uma série de escolhas difíceis de serem contestada pela plateia, não só por Moreau, mas em razão da maneira pela qual o filme revela o tédio absoluto do trabalho urbano, um tema recorrente na Nouvelle Vague e que passava longe do cinema de então.

Em um preto-e-branco de alto contraste, Demy já se encontra aqui no topo de suas capacidades, não apenas pictóricas, mas em encenação – o uso recorrente de espelhos diversos durante a projeção ou como Jackie quase sempre é emoldurada por um fundo negro, destacando sua alvura, já são exemplos do domínio e da elegância do realizador – e, especialmente, ritmo: o filme se realiza em plena potência na montagem, nas diversas fusões entre os rostos do casal e o giro da roleta, em cenas em que o prazer do jogo e do amor são uma só coisa, tornada física pelo cinema.

Demy sempre afirmou que seu desejo no filme era mostrar a paixão como uma droga ainda maior e mais viciante do que o jogo e as roletas dos cassinos em que se passa a narrativa. É com esta febrilidade, embalada pela música de Legrand, que vamos sendo cada vez mais capturados na relação entre Jean e Jackie. Contudo, no filme e na vida, a casa sempre vence.

Quão verdadeira é a felicidade de nova aposta no final do filme? Seria a cena de abertura o real desfecho de “A Baía dos Anjos”? Quem sabe fosse o dia seguinte àquele abraço dos amantes, com Jackie praticamente como uma aparição fantasma daquela cidade viciosa?

O desencanto é uma das maiores marcas deste realizador, talvez um dos motivos de ser ainda pouco celebrado – contudo, sua esposa, Agnès Varda, dedicou-lhe uma das mais belas cartas de amor do cinema, o filme “Jacquot de Nantes” (1991). O amor continua para sempre, quem sabe.

A nós, cabe girar a roleta mais uma vez.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Cineclube do Atalante: A Baía dos Anjos

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "A Baía dos Anjos", de Jacques Demy.

Entrada franca, sempre!



Jean é secretário em um banco. Seu colega é um apostador e o vicia no jogo. Nos cassinos de Nice, Jean conhece Jackie, uma parisiense de meia idade que deixa seu marido e filhos para se aventurar no mundo das apostas. O caso de amor dos dois se desenvolve em jogos de sorte e azar, sempre ao redor de uma roleta. 

Dirigido por Jacques Demy.

(La Baie Des Anges, França, 1961, 90 min. Com Jeanne Moreau e Claude Mann. Recomendado para maiores de 14 anos)

Serviço:
Cineclube do Atalante: A Baía dos Anjos
Sábado, 7 de março
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Clube do Filme: Os Guarda-Chuvas do Amor

O Clube do Filme na Confraria dos Viajantes realiza o último encontro do ano em novembro. À semelhança de um clube do livro, toda quarta quarta-feira do mês nos encontramos para a discussão de um filme e textos relacionados. Com foco na Nouvelle Vague, o Clube se propõe a discutir as renovações técnicas, temáticas e filosóficas propostas pela crítica da época e seu cinema, que tomou de assalto a França e o mundo.

Neste mês, atendendo a pedidos, o ponto de partida é  "Os Guarda-chuvas do Amor" (1964) de Jacques Demy.



Durante esse tempo, passaram-se dois fenômenos, aliás importantes. O primeiro é que a Nouvelle Vague francesa não tinha sido senão a primeira, por ordem cronológica, de uma série de "nouvelles vagues" estranhamente disseminadas por todo o mundo. Os anos 60 foram os anos de impaciência. Crise do modelo americano como modelo puramente "comercial", ponto de partida da ideia do cinema como "arte" e como "ensaio". A Itália, o Brasil, o Canadá francófono, a Polônia, o Japão, a Checoslováquia, foram os "lares" onde se forjou a primeira geração de cineastas-cinéfilos da história, consciente do momento em que se inscrevia, quer quisesse ou não, na história do cinema.
Serge Daney em "Sobrevivendo à Nouvelle Vague"

Vamos abordar o legado da Nouvelle Vague em um balanço das nossas atividades durante o ano, bem como nos dedicar ao universo de Demy em seu trabalho radical com o musical, as cores e o corpo dos atores nos seus filmes. 


"Os Guarda-chuvas do Amor" foi lançado em DVD no Brasil, disponível em locadoras e sebos. Também é possível encontrá-lo em plataformas de streaming, como o Tele Cine Play. Qualquer dúvida, estamos aqui para ajudar. 

Os textos para leitura (recomendada, não obrigatória):
1) "Sobrevivendo à Nouvelle Vague" por Serge Daney: disponível aqui
2) "Lola no país dos homens" por  François Weyergan: https://coletivoatalante.blogspot.com/2019/05/lola-no-pais-dos-homens.html 

3) Crítica de "Os Guarda-chuvas do Amor" por João Bénard da Costa: http://luckystarcine.blogspot.com/2019/04/les-parapluies-de-cherbourg-1964-de.html

Serviço:
Clube do Filme na Confraria dos Viajantes
"Os Guarda-chuvas do amor" (Les parapluies de Cherbourg, 1964), de Jacques Demy
Dia 27/11 (quarta quarta-feira do mês)
Das 19h15 às 21h45
Na Confraria dos Viajantes
(Rua Nilo Peçanha, 1080, Espaço Terracota, São Francisco - Curitiba)
ENTRADA FRANCA

* Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.

Realização: Coletivo Atalante e Confraria dos Viajantes


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Clube do Filme: Lola, a flor proibida

O Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias continua em maio. À semelhança de um clube do livro, toda quarta quarta-feira do mês nos encontramos para a discussão de um filme e textos relacionados. Com foco na Nouvelle Vague, o Clube se propõe a discutir as renovações técnicas, temáticas e filosóficas propostas pela crítica da época e seu cinema, que tomou de assalto a França e o mundo.

Neste mês, o ponto de partida é  "Lola, a flor proibida" (1961) de Jacques Demy - uma escolha natural após abordarmos sua cara-metade, Agnès Varda, no mês passado.



O que torna Lola tão importante é primeiramente sua beleza evidente, a elegância de sua forma, a indiferença em cada traço e a firmeza do todo, a graça em seu desdobramento, enfim, a felicidade contínua da mise en scène. É difícil de nomear essa beleza e se há um termo que se impõe desde o princípio, ele não é o mais preciso: charme. Não se trata, convenhamos, do termo mais usado hoje em dia, enquanto a moda está em um cinema afetado, teatral, empoeirado, reunindo o melhor e o pior sob a bandeira brechtiana. Tal noção de "charme" poderia, por mais que fosse imponderável, designar o último avatar da famosa especificidade cinematográfica. De um filme, o charme não seria o resto, mas a soma. Deixando de ser clandestino, aqui está o cinema "puro" tomado como objeto do filme. A mise en scène não pode mais ser considerada como instrumento de implementação, mas como intenção principal.   
François Weyergans em "Lola no país dos homens". Cahiers du Cinéma nº 117, março de 1961.

O uso inovador do espaço e do corpo dos atores e sua relação com a Nouvelle Vague, a atmosfera de sonho que é recorrente no trabalho do diretor, a musicalidade inerente em suas obras e a paixão como fundamento essencial na crítica de cinema serão alguns dos temas abordados.


"Lola, a flor proibida" foi lançado em DVD no Brasil, disponível em locadoras e sebos. Também é possível encontrá-lo no YouTube. Qualquer dúvida, estamos aqui para ajudar. 

Os textos para leitura (recomendada, não obrigatória):
1) "Jacques D. por Agnès V.", de Paulo Ricardo de Almeida: http://www.contracampo.com.br/83/artjacquesdemyporagnesv.htm
2) "Lola no país dos homens" por  François Weyergan: https://coletivoatalante.blogspot.com/2019/05/lola-no-pais-dos-homens.html [tradução inédita feita especialmente para o Clube do Filme]
3) Crítica de "Os Guarda-chuvas do Amor" por João Bénard da Costa: http://luckystarcine.blogspot.com/2019/04/les-parapluies-de-cherbourg-1964-de.html

Serviço:
Clube do Filme na Casa do Contador de Histórias
"Lola, a flor proibida" (Lola, 1961), de Jacques Demy
Dia 22/05 (quarta quarta-feira do mês)
Das 19h15 às 21h45
Na Casa do Contador de Histórias
(Rua Trajano Reis, 325, São Francisco - Curitiba)
ENTRADA FRANCA
* Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.

Realização: Coletivo Atalante e Casa do Contador de Histórias
 

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Lola no país dos homens

por François Weyergans


O que torna Lola tão importante é primeiramente sua beleza evidente, a elegância de sua forma, a indiferença em cada traço e a firmeza do todo, a graça em seu desdobramento, enfim, a felicidade contínua da mise en scène. É difícil de nomear essa beleza e se há um termo que se impõe desde o princípio, ele não é o mais preciso: charme. Não se trata, convenhamos, do termo mais usado hoje em dia, enquanto a moda está em um cinema afetado, teatral, empoeirado, reunindo o melhor e o pior sob a bandeira brechtiana. Tal noção de "charme" poderia, por mais que fosse imponderável, designar o último avatar da famosa especificidade cinematográfica. De um filme, o charme não seria o resto, mas a soma. Deixando de ser clandestino, aqui está o cinema "puro" tomado como objeto do filme. A mise en scène não pode mais ser considerada como instrumento de implementação, mas como intenção principal. Esperamos que Lola torne todos claramente cientes desta evolução. Tomada de consciência da crítica, entenda-se, uma vez que nem Murnau nem Renoir precisavam de Jacques Demy, claro, da mesma maneira que nem El Greco nem Scève contavam com Van Gogh ou Mallarmé.

Mas é inútil escrever mais sobre isso. Basta dizer claramente que Lola é uma das primeiras obras do cinema moderno que não pode ser amada pelas razões erradas. E será suficiente ter visto Lola para entender sem esforço o que me resta e o que vem adiante. Por exemplo, Lola é o golpe definitivo, parece-me, em obras como O Grito ou O Sétimo Selo, que parecem distantes, fora de moda, debatendo-se em vão nos níveis dos signos e da alegoria.

Não acredito que essas declarações sejam subjetivas e inaveriguáveis. Antes de fundamentá-las mais diretamente, gostaria de examinar o roteiro, onde já se amarra a forma da obra.

A Fênix e a pomba 

Abertura da íris. Um Cadillac branco, cinemascópico, sem capota, registrado como “10.000 Lakes”, se aproxima e para. Estamos na beira do oceano. Um homem vestido de branco desce e olha para as ondas.

É fabuloso. Estes primeiros planos – planos americanos em um filme francês – são autoritários, incontestáveis, insolentes. Servem para Demy instaurar desde as primeiras tomadas um clima de sucesso inexorável: esta “aparição” branca encarna um Fatum benéfico.

Após o motorista “olhar o mar uma última vez e voltar ao seu carro como os cowboys em seus cavalos brancos nos Westerns”, note a decupagem. Não haverá grandes surpresas depois, uma vez que já sabemos que vamos testemunhar a história de um desses Retornos Afetivos, como prometidos pelos videntes de parques de diversões.

Segundo tema: Roland. Enquanto alguém chega, Roland sonha em ir embora. Ele fixou um mapa-múndi na parede do seu quarto. Ele verá um filme que o faz querer ir para as ilhas de Mangareva. (Aprenderemos mais tarde que aquele que acaba de chegar, Michel, chega precisamente dessas ilhas.)

Então Frankie, marinheiro americano, terno branco também, nas ruas de Nantes cruza com Michel, Roland. Lola, bailarina no Eldorado, recebe Frankie, porque lembra um primeiro amor, Michel. Ao mesmo tempo, Roland dá um dicionário para uma garota de catorze anos porque ela parece uma amiga de infância com o mesmo nome, Cécile. O nome de Lola é Cécile.

Precisamente Roland reencontra Lola. Eles se reconhecem. Lola está esperando há sete anos por um marinheiro cuja roupa branca e aparência imponente a seduzira aos catorze anos. No dia de seu décimo quarto aniversário, Cécile é seduzida pela presença de Frankie; ela o ama.

Roland ama Lola. Lola espera por Michel. Michel e Lola se reúnem sem se encontrarem. No dia em que Lola deixa Nantes, Michel chega para buscá-la no Eldorado, “Michel surge em um raio de sol” diz a decupagem. Ele é rico. Ele vai se casar com Lola.

Roland deixa Nantes.

Nantes desempenhou o papel de encruzilhada das tragédias gregas. Todo o cenário é banhado por uma atmosfera de fatalidade paradoxalmente inofensiva. Inofensiva? Sim e não.

A chegada de Michel em Nantes desencadeia uma cascata de coincidências sobre as quais não é inapropriado evocar os universos paralelos, os círculos de Euler ou o Retorno Eterno do Mesmo. A mistura dessas vidas, despertada por Michel, que é ao mesmo tempo o personagem mais distante e mais implicado na intriga, assume a aparência de um sonho. Entre a primeira e a última sequência de Lola, como na queda da chaminé da fábrica em Sangue de um Poeta, "nem visto nem conhecido", um sonho.

Isso explica por que Jacques Demy não teve a ambição de apresentar as relações entre os personagens como "psicologicamente" plausíveis, mas de ligá-los por essa evidência poética que é a coincidência (os personagens de Lola rimam entre si). É evidente que as relações entre homens e mulheres em Lola, mesmo que estejam ligadas a situações semelhantes, não têm nada em comum com as descritas por Astruc, Kast ou Moreuil, uma vez que estes se baseiam na observação objetiva e realista, enquanto Jacques Demy nos faz sentir seu universo como um de sonhos, portanto subjetivo (mas que pode expressar, sob outras formas, as estruturas fundamentais da existência). Disto para desprezar os personagens de Lola, que se perderiam em um sonho perpétuo, e para taxar Demy de esquizofrênico (ou quase), é só um passo rapidamente tomado por alguns. 

Mais verdadeiro que a verdade 

Tal seria julgar (ou pré-julgar) de acordo com critérios realistas que nada têm a ver com o tom da obra. Lola rejeita imediatamente o verdadeiro e o falso para chegar ao mais verdadeiro que a verdade: Demy sabe até que ponto deve admirar Cocteau.

Ele elabora um universo formal sem referência a significações convencionais e é constantemente fiel ao seu ponto de partida. Portanto, contestar o final de Lola é tão irracional quanto culpar Giraudoux de não ser Zola. Ao contrário, admiro sem reservas a coerência do caráter de Michel consigo mesmo, que age de acordo com sua existência cinematográfica, e de quem, se o compreendermos corretamente, não poderíamos esperar outra coisa senão o que ele faz: "É apropriado que a poesia seja inseparável do previsível, mas não do formulaico", propõe René Char.

O propósito de Jacques Demy é um pouco um propósito de ópera. Os personagens existem através do cinema como Fígaro através da música, de um livreto ou de uma realidade, rapidamente ultrapassados. Eu quero dizer que a criação artística lá também é predominante, que é vinculada tanto a uma como a outras disciplinas a fim de destacar a presença dos seres (enquanto em um romance literário, trata-se de preencher uma ausência). Em Massimilla Doni, Balzac faz a Duquesa explicar como Rossini une já com a melodia dois seres que se odeiam, prevendo sua união. Em uma situação um pouco diferente, é o mesmo caminho tomado pelo estilo de Demy e da mesma forma ele atinge o sublime: o abraço final de Michel e Lola é tão comovente quanto os mais comoventes acentos mozartianos.

Em Lola, os personagens são sempre ligeiramente divididos, em representação. O diálogo denota claramente esta tendência, como evidenciado por este surpreendente "recitativo" de Madame Desnoyers:

Madame Desnoyers - Estou morta. Essas compras na cidade me deixam louca. Todos esses carros. Todas essas pessoas.

Cécile - Sim, mamãe

Madame Desnoyers - Todas as pessoas são gentis, Cécile. Salvo talvez algumas. Você não tem que acreditar que a humanidade é totalmente podre. É preciso confiar nas pessoas às vezes. Haverá sempre os bons, mesmo se as aparências nos enganam. No entanto, o "hábito não faz o monge". Não fique agitada assim. Você me cansa. Ele tem uma boa aparência. Sabe se expressar bem. Eu me pergunto o que ele faz da vida. Cécile, traga meus chinelos cinza, seja um anjo.

Cécile – Sim, mamãe.

Madame Desnoyers - Afinal, ele não foi obrigado a trazer-lhe este livro. É muito amável da parte dele. Você não pode esquecer de lhe agradecer, não esqueça. Nós poderíamos convidá-lo para jantar, seria um modo de conhecê-lo melhor. Mas isso é realmente necessário? O que você acha, Cécile? Você não diz nada. O que você está fazendo?

O autor de um filme falado precisa saber, escrevia Malraux, quando seus personagens devem falar. Raramente tive a impressão de um diálogo tão bem "distribuído" como este de Lola, muitas vezes um pouco à frente daquele que o diz; as palavras e seu ritmo parecem desenhar em um espaço fictício o caráter daqueles que as pronunciam, com um pouco de fantasia o suficiente para corrigir a seriedade de uma confidência.

 Um viés de irrealismo também inspira a direção dos atores: Lola sobretudo, como um pássaro em um galho, tratada em silhueta, andando enquanto esboça passos de danças (pernas que patinam, se aproximam).

Irrealista em sua intenção, Lola, no entanto, se fundamenta em uma fidelidade mais essencial à realidade, e que é peculiar ao que eu chamaria de cinema horizontal: a linguagem usada é sempre uma linguagem universal, veículo por sua vez de uma linguagem pessoal. Renunciando às facilidades arbitrárias do sonho filmado e do flashback, Jacques Demy consegue impor a sensação do imaginário, a presença do tempo, pelos meios mais simples, mais diretos. Quando Lola sobe a escada da rua, enquanto um movimento de grua baixa a câmera em direção a ela, que é tipicamente um movimento de comédia musical, o filme milagrosamente se abre para um momento mais raro, uma espécie de elevação lírica. Quanto às três mulheres, Cécile, Lola e Madame Desnoyers, elas aparecem como as três idades do mesmo personagem, e esse atalho é mais bonito do que qualquer flashback.

Um dos grandes momentos de Lola, e um dos menos explicáveis, é a câmera lenta de Cécile e Frankie na festa. A extraordinária delicadeza (sim, é necessário usar esta palavra desgastada) deste momento desautoriza a proposição de uma análise. É possível constatar o ritmo do amor descoberto e agradecer a Demy por ter forçado o ritmo de sua arte a se basear no ritmo do amor, mas ao mesmo tempo perfura uma nostalgia: essa câmera lenta não propõe já o ritmo da memória que se tornará um dia? 

Um filme resolutamente moderno 

Lola é um filme perpetuamente entreaberto, que deve por isso agradar ao autor de "La Poétique de la Rêverie". E a ocasião é boa demais para não citar a sentença essencial de André Bazin: "Sendo o cinema por essência uma dramaturgia da natureza, não pode haver cinema sem a construção de um espaço aberto, que substitui o universo em vez de incluir-se nele."

A graça do filme de Demy vem dessa extrema disponibilidade do campo. A belíssima fotografia de Coutard constantemente desvanece os personagens ou os cantos do cenário, em um halo que não é falta de jeito, mas estilo (Demy trabalhou no laboratório a película), e isso ajuda a dar ao filme esse caráter relaxado e de esboço, de negligência fingida (após aquele pelo qual tantos outros ficaram acossados).

Não vejo por que o respeito por um quadro sacrossanto seja uma condição necessária para fazer um bom cinema. Deve ser entendido que não há uma verdade eterna. O cinema moderno conquista uma forma que vem da sua necessidade à sua liberdade. E não é um dos menores méritos de Lola de nos oferecer o filme nesta liberdade como de um esboço vista também em outras obras convergentes como O Almoço na relva, Eu, um negro e Shadows.

A liberdade total da forma, em Lola, é o elemento natural do jogo: "A arte é um jogo", escreveu Max Jacob em seu “Conseils à un jeune poète", pena de quem a realiza cumprindo um dever. Este jogo, que é antes de tudo um jogo da forma consigo mesma (vejam como os encontros entre Roland e Lola são organizados, durante a longa confissão de Lola, no restaurante, nas ruas), impede que a tragédia se manifeste. "Você tem que agradar", dizem Lola e Mozart, bem próximos. E como decididamente esse filme me parece mozartiano, talvez por meio de Renoir e Ophüls, repito sobre Lola o que o teólogo protestante Karl Barth disse sobre Wolfgang: com ele, tudo que é pesado plana, enquanto o que é leve pesa infinitamente.

Demy, tão naturalmente um cineasta como Mozart um músico, fez com Lola um filme onde o prazer de filmar justifica tudo. E isso o dispensa do mesmo golpe de preocupação com a metafísica que desconcertou os bons espíritos que viram em Lola apenas um mero entretenimento sem significação precisa. O Concerto do Prazer de Vivaldi, Moça com brinco de pérola de Vermeer tampouco têm um significado preciso. Mas eles nos ajudam a viver. 

Despacho 

Ainda há muito a dizer, mas também não há nada a dizer. Vamos esperar que a estupidez não se detenha sobre esta obra frágil. Nós não culpamos Jacques Demy por ter dedicado o seu trabalho a Ophüls: nisso ele participa do mesmo movimento moderno que faz Stravinsky recriar Pergolesi, Picasso Velásquez e já Mozart “emprestava” de Handel!

Demy e Cocteau: encontro nas notas de lançamento de A Bela e a Fera algumas anotações que combinam com Lola: os personagens não vivem, mas vivem uma vida contada; um clima que corresponde mais aos sentimentos que aos fatos.

Gostaria também de ressaltar a objetividade de Jacques Demy, a serenidade de seu filme, essa repulsa à autobiografia que, contudo, não sucede em mascarar completamente uma sensibilidade que nem deveria interessar ao crítico se ela não guiasse toda a construção do filme.

O que é Lola?

A palavra final não existe, sobre uma obra de arte. Lola é um filme tão belo, tão fictício, tão verdadeiro, tão efêmero, tão gracioso quanto uma asa de borboleta. Fico feliz em aprender por Roger Caillois que no homem essa asa é chamada precisamente de obra de arte.


Disponível em Cahiers du Cinéma nº 117, março de 1961. Tradução de Giovanni Comodo.