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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Rivette e Daney avant la lettre: a política do cancelamento

- Da abjeção (1961), de Rivette, passados 60 anos 

- O travelling de Kapò (1992), de Daney, quase 30 anos depois

por Vera Lúcia de Oliveira e Silva

“Tudo que seu mestre mandar...nós o faremos todo!

- E quem não fizer... ganhará um bolo!”
Cancioneiro infantil

Sem nenhuma dúvida Pontecorvo fez péssimas escolhas em Kapò (1960), todas tributárias de um pecado original: adotar o horror indizível – o Holocausto – como pano de fundo para um romance melodramático. O resto é pura consequência. O filme, entregue a si mesmo, teria sido arquivado sem ódio. Arrisco dizer que desapareceria da história, como tanta coisa ruim que se fez, se faz e se fará, porque, afinal, perfeitos só nós mesmos.

Entretanto, graças a Jacques Rivette, secundado por Serge Daney, Pontecorvo contribuiu para um importante debate na Cultura, porque o erro também ensina, tanto quanto, às vezes mais, que o acerto. Passado mais de meio século, ele ainda é lembrado, porque Rivette o condenou em um parágrafo extorsivo, no sentido de que não deixa espaço para o livre julgamento – e eventual discordância - de quem o lê: não sem pagar o preço de se expor  a ser declarado igualmente abjeto. Ao mesmo tempo, Rivette condecorou o próprio peito com a comenda da boa consciência (Eu sei: não foi só isso que ele fez em seu admirável artigo – mas para mim é inegável que também fez isso).

Daney, 30 anos mais tarde, não só subscreveu Rivette como deu testemunho, até com certo orgulho, do efeito extorsivo que Da Abjeção exerceu sobre ele. Transcrevo de O travelling de Kapò, de sua autoria:

Entre os filmes que eu nunca vi... o obscuro Kapò. Filme sobre os campos de concentração, rodado em 1960 pelo cineasta italiano de esquerda Gillo Pontecorvo, Kapò não firmou seu nome na história do cinema. Serei eu o único, nunca o tendo visto, a jamais tê-lo esquecido? Porque eu não vi Kapò mas, ao mesmo tempo, vi. Eu vi porque alguém, com palavras, me mostrou.

Ou seja, depositando uma importante contribuição à arte de se estudar Cinema sem ver os filmes (eu sei: não foi só isso que ele fez em seu admirável artigo – mas para mim é inegável que também fez isso), baseado tão somente no que leu, Daney considera-se apto a criticar o trabelling de Kapò, a partir do texto de Rivette, que ele, Daney, transcreve como se segue:

Rivette tinha trinta e três anos e eu tinha dezessete. Acho que nem tinha ainda pronunciado a palavra abjeção em minha vida. Em seu artigo, Rivette não contava o filme. Ele se contentava, em uma frase, em descrever um plano. A frase que ficou na minha memória dizia assim “Vejamos agora, em Kapò, o plano em que Riva se suicida jogando-se sobre o arame farpado eletrificado: o homem que decide, nesse momento, fazer um travelling para a frente e reenquadrar o cadáver em contra-plongée, tomando cuidado para inscrever exatamente a mão levantada num ângulo do enquadramento final, esse homem só tem direito ao mais profundo desprezo”.

A partir do texto de Rivette, que Daney qualifica como abrupto e luminoso, este segue dizendo:

Ao passar dos anos, com efeito, o travelling de Kapò foi o meu dogma de carteirinha, o axioma que não se discutia, o ponto limite de todo debate. Com qualquer um que não sentisse imediatamente a abjeção do travelling de Kapò eu não teria, definitivamente, nada a ver, nada a partilhar. Esse tipo de recusa estava, aliás, no ar da época.

Destaco o arremate - Esse tipo de recusa estava, aliás, no ar da época - e sigo para as reflexões que realmente quero partilhar.

A primeira reflexão é uma espécie de assombro assustado: quer dizer, então, que esse “tipo de recusa” já estava “no ar da época”. Ou seja, o que hoje testemunhamos entra como um nada de novo debaixo do sol (Eclesiastes 1:9). Ou uma evidência de que nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não – nós, assim Como os nossos pais (Belchior, 1976)? Quando consideramos que a diversidade de opiniões e a liberdade para expressar tal diversidade é o que promove a civilização, tal recusa sinaliza o caminho para a barbárie? Em caso afirmativo, estará ainda em tempo para se deter essa marcha?

Pois bem, passemos à segunda reflexão.

Não quer calar na minha cabeça a pergunta sobre a eleição do travelling de Kapò como a ovelha negra a ser escorraçada para o deserto (logo veremos que essa analogia não é sem consequências), uma vez que o dito travelling é perfeitamente coerente com o conjunto do filme, uma espécie de coroamento de uma obra cujo autor meteu os pés pelas mãos do começo ao fim. Por que a abjeção foi colada exatamente ali? Não pode ser mero acaso.

Terá sido por sinédoque – a parte tomada pelo todo? – puro uso abusivo de uma figura de linguagem?  Ou haverá algo mais a ser considerado? Penso que sim. Penso que o travelling de Kapò incomoda porque é sinistro – quer dizer, porque ele convoca algo do mais íntimo de cada um de nós. E Rivette e Daney, penso eu, parece-me que acusaram o golpe.

Tento me explicar. Em primeiro lugar, fazer um travelling para frente diante do horror é uma experiência factual na vida humana. Convido a pensar num médico dando atendimento a uma vítima de um acidente catastrófico: ele vai, por dever de ofício, ser capturado numa espiral de tempo dilatado. Com a percepção em câmera lenta, seus olhos farão travellings sucessivos, examinando as funções vitais e o corpo dilacerado, dando zoons para enquadrar cada um dos ferimentos, fraturas e sangramentos, um após o outro, calculando por onde começar a recompor aquele corpo de modo a deter hemorragias e estabilizar fraturas para salvar aquela vida. Encontro com o Real em toda a sua crueza, encontro para o qual espera-se que o médico esteja preparado. Mas o que dizer dos curiosos que se aglomeram no entorno? Nada têm a contribuir, mas não despregam os olhos do horror, até que, cansados ou satisfeitos, dão a vez para a leva seguinte, sedenta.

Esse pequeno resumo da ópera eu o faço para que a gente se lembre de que padecemos, em diferentes medidas, de atração mórbida e fascinação pelo horror. Com o que construo, então, uma hipótese: a eleição do travelling de Kapò, como a escolha mais desprezível que Pontecorvo teria realizado nesse filme, deve-se ao fato de se ter desvelado ali algo que nós escondemos de nós mesmos no mais profundo de nosso ser? Como “esconder de nós mesmos” é o melhor caminho para proteger qualquer gozo sinistro, garantindo sua sobrevivência inconsciente, o convite é para que se faça luz: às claras, podemos lhe dar um destino mais digno.

Há um imperativo categórico (e sobre ele um princípio de Liberdade que dá ao sujeito o direito de dizer não) que estou pronta a subscrever: a única obrigação que recai sobre todo ser humano é a de pensar até o limite sensível de sua capacidade racional e de sua sensibilidade ética. Pensar visando o Real, à revelia de seus ideais e preferências. Respondendo a esse dever, é impossível não perceber que, diante do insuportável, fica muito barato comprar a boa consciência pela saída mais fácil: abjeto é o outro!

Enquanto não pudermos reconhecer o Real em nós mesmos – e lhe dar o destino que convém, desde o mal estar até a sua inscrição na Cultura, pela sublimação – ninguém pode se sentir seguro.

Curitiba, 12 de Novembro de 2021

As imagens deste texto mostram Serge Daney e Jacques Rivette no filme "Jacques Rivette - O Vigilante" (1990), de Claire Denis e Serge Daney.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Clube do Filme: Trás-os-Montes

O Clube do Filme continua em atividade, mesmo durante a epidemia, em formato virtual. Sempre na quarta quarta-feira do mês nos reunimos para a discussão de um filme e textos relacionados.

O filme de julho é "Trás-os-Montes" (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro.


Em Trás-os-Montes uma velha mulher preside à renovação da vida e defronta a morte; a «história» do filme é só esta. Mas da rarefacção de coisas a contar fazem António Reis e Margarida Cordeiro uma espécie de ritual onde o cordão umbilical das culturas milenárias, da casa, dos gestos, da terra, das pessoas, é um só. Há uma celebração belíssima e secreta, onde nos envolvemos – ou não.
- Jorge Leitão Ramos

O filme está disponível no YouTube, em baixa qualidade: https://www.youtube.com/watch?v=lrLcALuZNA8&. Qualquer coisa, estamos aqui para ajudar (ou no mail coletivoatalante@gmail.com).

Textos recomendados para leitura:
1) "A Narrativa das sombras", perfil por Joaquim Sapinho: https://coletivoatalante.blogspot.com/2020/07/a-narrativa-das-sombras.html
3) Crítica do filme por João Bénard da Costa: http://antonioreis.blogspot.com/2006/01/136-trs-os-montes-crtica-de-joo-bnard.html
4) Crítica do filme por Serge Daney: http://antonioreis.blogspot.com/2006/05/145-trs-os-montes-nos-cahiers-du-cinma.html [versão traduzida em português após o texto original]

Como de costume, nosso propósito no Clube do Filme é discutir obras e textos com um pouco mais de tempo que nos debates após as sessões do cineclube, logo, o filme não será exibido na data. Recomendamos que o filme já tenha sido visto e também a leitura dos textos, porém isso não é exigido para participação. Optamos pelo encontro via plataforma Jitsi, uma vez que não exige senha, links confusos nem download de nenhum aplicativo para o desktop (porém caso queira acessar pelo celular, é necessário o aplicativo Jitsi para celular, de download gratuito). Devido ao formato virtual, não poderemos exibir com qualidade trechos do filme e de outros trabalhos, mas acreditamos ser importante retomarmos as atividades possíveis durante a pandemia. O ingresso, como sempre, é gratuito.



Serviço:

Clube do Filme: Trás-os-Montes, de António Reis e Margarida Cordeiro
Dia 22/07 (quarta-feira)
Das 19h15 às 21h30
Via Jitsi: https://meet.jit.si/ClubedoFilmeAtalante
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

domingo, 3 de maio de 2020

Teoria, História e prática no novo curso de crítica de cinema: online e ao vivo


Giovanni Comodo do Coletivo Atalante está em parceria com a plataforma Olhar de Cinema+ e, a partir de 05 de maio, promovem um curso de crítica de cinema em seis aulas, sempre com interação ao vivo após cada uma. O curso, de caráter introdutório, também conta com emissão de certificado de participação.

De caráter introdutório, o curso tem por objetivo explorar aspectos fundamentais para a crítica de cinema. Em seis encontros, a partir do texto “A Arte de amar” de Jean Douchet, vamos apresentar trabalhos de grandes autores e autoras essenciais para a construção do pensamento da crítica hoje e discutir questões como o papel da crítica, sua importância, a busca por parâmetros objetivos, o império do gosto, a Política das Atrizes e também as crises que a crítica vem enfrentando. Vamos nos dedicar também à história da crítica de cinema no Brasil e também quais novos meios e caminhos vêm sendo abertos nos últimos anos. Além disso, também teremos dois exercícios de produção de textos para os alunos inscritos – os quais podem ser usados para novos debates nas aulas seguintes do curso.

MATÉRIAS:

Aula 1: Aspectos fundamentais I
– “A Arte de amar” de Jean Douchet
– Para que serve a crítica?
– Atualidade ou passado?
– Mise en scène e narrativa visual
– André Bazin e a ontologia do real
Aula 2: Aspectos fundamentais II
– Como avaliar para além do gosto?
– A busca por parâmetros: Qualidade ou interesse provocado?
– Por uma “Política dos Autores”
– Nova abordagem: por uma “Política das Atrizes”
Aula 3: Dilemas I
– Qual o lugar do/a crítico/a?
– A Crise nos jornais, o espaço da academia e a ascensão virtual de novas vozes
Legitimidade e autoridade
– Engajamento da crítica
Aula 4: Dilemas II
– Serge Daney sobre Crítica: “A derrota do pensamento crítico”
– “A publicidade venceu” por Luiz Carlos Oliveira Júnior
– Crítica de “Adoráveis Mulheres” por Jessa Crispin
– “O travelling é uma questão moral”
– “Da abjeção” e a crítica negativa

Aula 5: Brasil
– Cineclubes, revistas e jornais através do século XX.
– Apresentando Paulo Emílio Salles Gomes, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira
– Anos 2000: internet e um novo momento da cinefilia e da crítica.
– Revista Contracampo e além.

Aula 6: Outros rumos
– Novas mídias: desafios de abordagem
– Formas da crítica
– Apresentando Oscar Wilde, João Bénard da Costa.

Curso online com interação ao vivo após cada aula.
Vagas limitadas.
Emissão de certificado.
Aulas serão gravadas e ficarão disponíveis por dois meses.

Inscrições e informações:
Aqui.