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domingo, 30 de agosto de 2020

Curso de crítica cinematográfica online: nova turma

  

Teoria, História e prática no curso de crítica de cinema: online e ao vivo. Atendendo a pedidos, a Olhar de Cinema + abre nova turma para as aulas com Giovanni Comodo do Coletivo Atalante. Em seis aulas, com início em 01/09, às terças e quintas os vídeos são disponibilizados à meia-noite e às 21h acontecem os encontros ao vivo em link exclusivo para tirar dúvidas e outras conversas com o instrutor. O curso, de caráter introdutório, também conta com grupo exclusivo na plataforma da Olhar de Cinema + e emissão de certificado de participação. Inscrições limitadas, até 01/09 às 18h.

MATÉRIAS:
- Aspectos fundamentais da crítica
– Como avaliar para além do gosto?
- Mise en scène e narrativa visual
– A busca por parâmetros: Qualidade ou interesse provocado?
– Por uma “Política dos Autores”
– Nova abordagem: por uma “Política das Atrizes”
- Dilemas da crítica
- Novas formas
- História da crítica de cinema brasileira

E muito mais.

Terças e Quintas de setembro (01, 03, 08, 10, 15, 17) com bate-papo ao vivo às 21h.

Curso online com interação ao vivo após cada aula.
Com 2 exercícios práticos, inclusive com correção.
Vagas limitadas.
Com emissão de certificado (12 horas).
Aulas gravadas para você ver (e rever) no seu tempo.

Informações e inscrições aqui: https://mais.olhardecinema.com.br/cursos/critica-cinematografica/

domingo, 3 de maio de 2020

Teoria, História e prática no novo curso de crítica de cinema: online e ao vivo


Giovanni Comodo do Coletivo Atalante está em parceria com a plataforma Olhar de Cinema+ e, a partir de 05 de maio, promovem um curso de crítica de cinema em seis aulas, sempre com interação ao vivo após cada uma. O curso, de caráter introdutório, também conta com emissão de certificado de participação.

De caráter introdutório, o curso tem por objetivo explorar aspectos fundamentais para a crítica de cinema. Em seis encontros, a partir do texto “A Arte de amar” de Jean Douchet, vamos apresentar trabalhos de grandes autores e autoras essenciais para a construção do pensamento da crítica hoje e discutir questões como o papel da crítica, sua importância, a busca por parâmetros objetivos, o império do gosto, a Política das Atrizes e também as crises que a crítica vem enfrentando. Vamos nos dedicar também à história da crítica de cinema no Brasil e também quais novos meios e caminhos vêm sendo abertos nos últimos anos. Além disso, também teremos dois exercícios de produção de textos para os alunos inscritos – os quais podem ser usados para novos debates nas aulas seguintes do curso.

MATÉRIAS:

Aula 1: Aspectos fundamentais I
– “A Arte de amar” de Jean Douchet
– Para que serve a crítica?
– Atualidade ou passado?
– Mise en scène e narrativa visual
– André Bazin e a ontologia do real
Aula 2: Aspectos fundamentais II
– Como avaliar para além do gosto?
– A busca por parâmetros: Qualidade ou interesse provocado?
– Por uma “Política dos Autores”
– Nova abordagem: por uma “Política das Atrizes”
Aula 3: Dilemas I
– Qual o lugar do/a crítico/a?
– A Crise nos jornais, o espaço da academia e a ascensão virtual de novas vozes
Legitimidade e autoridade
– Engajamento da crítica
Aula 4: Dilemas II
– Serge Daney sobre Crítica: “A derrota do pensamento crítico”
– “A publicidade venceu” por Luiz Carlos Oliveira Júnior
– Crítica de “Adoráveis Mulheres” por Jessa Crispin
– “O travelling é uma questão moral”
– “Da abjeção” e a crítica negativa

Aula 5: Brasil
– Cineclubes, revistas e jornais através do século XX.
– Apresentando Paulo Emílio Salles Gomes, Rogério Sganzerla, Jairo Ferreira
– Anos 2000: internet e um novo momento da cinefilia e da crítica.
– Revista Contracampo e além.

Aula 6: Outros rumos
– Novas mídias: desafios de abordagem
– Formas da crítica
– Apresentando Oscar Wilde, João Bénard da Costa.

Curso online com interação ao vivo após cada aula.
Vagas limitadas.
Emissão de certificado.
Aulas serão gravadas e ficarão disponíveis por dois meses.

Inscrições e informações:
Aqui.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Entrevista com Helena Ignez

''Eu acredito muito no cinema, acredito fortemente, nesse mistério transformador e fortíssimo.''- Helena Ignez.  


Não é possível escrever a história do cinema brasileiro sem o nome de Helena Ignez. Atriz, diretora, produtora, autora, Helena abriu caminhos e redefiniu-se diversas vezes, sempre independente, indomável. Em junho do ano passado, durante o 8º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Cinema de Curitiba, o Coletivo Atalante - composto por Catalina Sofia, Waleska Antunes e Giovanni Comodo - teve a oportunidade de realizar uma entrevista exclusiva com Helena Ignês na qual esteve presente também sua filha Sinai Sganzerla - diretora de "A Mulher da Luz Própria", documentário sobre a trajetória de sua mãe exibido no festival. A força criativa da atriz, suas influências pessoais, os mistérios da criação na arte e várias outras histórias estão presentes no texto a seguir, o primeiro de uma série de entrevistas com diretores a serem publicadas pelo Atalante nos próximos meses.


Atalante: A mostra de 5 anos este ano foi com o tema ''Política das Atrizes'', que contou com filmes das atrizes Barbara Stanwyck, Ingrid Bergman, Gena Rowlands e Isabelle Huppert. Essas atrizes são inquestionáveis criadoras com suas presenças e performances nos filmes. Aqui e agora temos a oportunidade de conversar com você, uma atriz que com toda certeza entra nessa questão. Sendo assim, como se dá essa tomada de consciência dessa criação como atriz? Uma vez que você defende seu lugar como criadora nos filmes em que participou. Como acontecia essa criação? 

Acho que o começo desse processo é a própria existência, né? A experiência, daí o experimental, "experience" tal como Jimmy Hendrix, um dos ídolos da minha geração, exatamente por essa liberdade de criação. No meu caso o processo começa antes, já que eu falo na existência e na experiência, com estudo, principalmente com estudo, eu sou uma atriz estudiosa, que conhece métodos e processos. Os processos acho que definem melhor esse trabalho do que o método, que de uma certa forma pode aprisionar e no set a coisa acontece, se estivermos falando de cinema. No set é que existe realmente essa criação, antes é uma preparação para que ela aconteça, para que ela surja espontaneamente. Com esse "click", porque sem esse "click" a coisa não existe. Antes e durante, o depois é uma constante no trabalho, uma constante busca dessa criatividade, mas também tive sorte nesse sentido de poder exercer isso nos filmes que fiz, alguns de forma mais restrita, com esse trabalho talvez menos claro para o espectador e outros não, ele realmente explodia. Acontecia com muita força, havia esse espaço, vamos dizer tal como um vazio que podia ser preenchido pela criação da atriz.   

Atalante: Existe alguma atriz que tenha te inspirado ou que te remeta a essa postura mais autoral nos filmes? 

Você cita essas atrizes da mostra, são grandes atrizes... um trabalho digno de uma observação e de um estudo, começando por Barbara Stanwyck, a mais antiga de todas, que tinha uma personalidade diferente dentro de Hollywood, tinha uma masculinidade e não era exatamente bela, como Ava Gardner, por exemplo. Mas existe sim uma atriz que me inspira continuamente desde meu começo, desde a minha primeira vontade, desejo de ser atriz, que é a Marilyn Monroe. Ela é o principal exemplo de luz, criatividade e conhecimento dessa relação com a câmera. Seria ela a minha mestre. Ela é a atriz do olhar, ninguém olha melhor que Marilyn, dança, se expressa, movimenta aquele corpo. Ninguém é mais extraordinária que Marilyn Monroe. 



Atalante: É possível algum trabalho de atuação ''não autoral'' no que diz respeito à obra? Como se dá essa relação com a direção uma vez que é a partir daí que se idealiza a forma do filme e os caminhos para que se concretize essa forma. 

Existe uma relação fortíssima entre o intérprete e o diretor, sem essa conjunção não sai nada, não acontece. Você precisa desse espaço dado pela direção pra ser também autoral, nisso eu tive companheiros incríveis. Me convidavam pra fazer filmes, tal como "O Bandido da Luz Vermelha", primeiro filme que eu fiz com Rogério, porque eu sabia dessa possibilidade de espaço. Também cito Júlio Bressane, que me deu um espaço enorme no filme dele, que foi possível criar personagens tão incríveis, como em "Barão Olavo, o Horrível", que é uma loucura total, que sem um diretor, sem ele, não surgiria. No caso de "A Mulher de Todos", também... e de outros filmes também que eu fiz com Rogério, que eu fico sem saber de onde ele tirou, fico pensando se aqueles diálogos seriam intimamente meus, apesar de escritos por ele. De onde ele tirou ideias, frases icônicas como "tenho horror à velhice". Então a questão é ter uma conjunção muito forte. Se não tem, a coisa fica fechada, tal como em um filme comercial, com um ator criativo, quando ele consegue exercer sua função, seu trabalho, no caso da Gena Rowlands, tinha o Cassavetes, que era tão criador quanto ela, que fez filmes quase sem profissionais no começo. Acredito que a criatividade está no mistério, é como ouvimos hoje, no livre arbítrio e na predestinação. Existem coisas entre o céu e a terra que não conseguimos explicar.




Atalante: Interessante você falar dessa mística, do inexplicável, da predestinação... no filme de Sinai Sganzerla, que você protagoniza ''A Mulher de Luz Própria'', você fala da leitura de mãos. Você ainda faz? Poderia falar um pouco disso?  

É difícil, existe um estudo milenar, então são 5 mil anos de estudo que falam das relações das linhas da mão com a mente, é mais que ver o futuro. Isso já foi uma vulgarização desse conhecimento. Não é apenas pensar no futuro através das linhas das mãos, é autoconhecimento, saber suas possibilidades, é muito interessante. Há 20 anos que não leio mãos. Tenho noções, mas é muito assustador esse tipo de conhecimento, primeiro porque pode lhe enganar, lhe colocar em uma categoria especial de pessoas, que é muito perigoso. E também na confiança enorme que as pessoas depositam nisso, na gente. Eu tenho experiências nesse sentido fortes, da leitura de mãos de um rapaz, que inclusive é algo muito marcante, eu vi que tinha uma forte possibilidade de suicídio e de autodestruição, extrema, fortíssima. E aí falei e ele começou a chorar, dizendo que na semana passada ele tinha aberto o gás e tentado se matar. Era uma coisa escandalosa, era uma linha que você fosse fotografar e estudar, era idêntica a de um suicida. Então essa pessoa ficou imensamente grata, é perigosa essa situação, mas aconteceu de ser benéfica, mas pode não ser também... As pessoas que procuram isso são pessoas carentes, em geral que querem uma orientação e se apegam muito a você. Ficam apegadas, dependentes e isso também esgota, cansa, adoece. Tive uma experiência também de uma tarde com leitura de mãos, que fiz bastante e no dia seguinte eu estava péssima e fui a um médico homeopata, porque eu sempre me trato com homeopatia e ele me falou que eu estava como se estivesse envenenada. Em um processo de envenenamento, então é isso, é uma carga muito pesada, muito forte.  

Atalante: O trabalho como atriz também tem essa carga, esse peso? Vivendo tantas vidas, experienciando tantas coisas...  

Ele tem uma carga e ontem me referi a isso, eu não consegui, depois dos filmes da Bel-Air continuar normalmente com meu trabalho de atriz. Eu achei insuportável, em primeiro lugar porque nada substitui aquela experiência extraordinária de fazer aqueles filmes, pra um ator, uma atriz é uma experiência inacreditável, de entrega, de criatividade, muito psicodélica. Era uma época psicodélica, totalmente e ela cansou também. Eu tive uma espécie de intoxicação, também foi necessário esse vazio, essa procura. Me impressionava também muitos diálogos fortíssimos que foram ditos por mim no próprio "Copacabana Mon Amour", diálogos do filme, as perguntas de Rogério, "o que estamos fazendo aqui na terra?", "qual o destino do homem?". Isso introjetou de uma forma muito forte, Rogério foi também um companheiro fortíssimo, extremamente forte, que desarticulou, ajudou a desarticular minha mente pra surgir uma criação.  

Atalante: É como brincar com o destino, ter a certeza que os personagens que você viveu, essas mulheres, de fato vivem em algum canto pelo mundo.  

Isso, eu poderia ficar muitos minutos por exemplo, olhando uma foto, mergulho naquilo, vou longe. Personagens femininos, masculinos. As pessoas me interessam muito, existe algo também na Marguerite Duras que gosto de citar, é muito interessante que ela ia aos restaurantes e ficava em silêncio com o namorado dela ouvindo as pessoas. Eu também tenho isso, eu entro em outras vidas, observo, muito, realmente muito. Eu tenho uma natureza apropriada, é isso. O trabalho de observação seria como o processo.

  

Atalante: Você tem algum tipo de revisão dos papéis que fez, em relação à visão do que se tem do feminino naquela época, com a representação?  

Eu fico assustada com essa representação, mas não poderia ter feito diferente. A potência e a anormalidade que isso tinha, eu trabalhei com a anormalidade, com a ruptura e isso não é fácil. Não era um afago, tinha um prazer, mas um prazer estranho. Por exemplo, o que me interessou, pelo meu último filme chamado "Fakir", foi exatamente isso, essa anormalidade e essa mistura de prazer e dor, enfrentamento. Eu acho bem próximo a isso. A auto violência, porque violência mesmo, digo que eu sou incapaz de matar um mosquito, completamente incapaz. A gente consegue procurar nessa dor, nessa mágoa um afago, um prazer.  Mas acredito que revisão não, inclusive no meu último roteiro eu trato disso. O ponto do desejo feminino é o orgasmo, eu acho que o orgasmo, se você falar de desejo, é o orgasmo que satisfaz. É encontrar o orgasmo e isso se chega nos filmes pela verdade, pelo autoconhecimento, com seu próprio corpo, das suas possibilidades. Talvez até agora eu pensaria que eu sou uma atriz orgástica, isso que acontece, essa explosão, é algo altamente individual, não existe somente um desejo feminino. Existe um órgão de desejo, que é o clitóris, se vamos falar de desejo temos que falar de corpo e como observar esse desejo, como chegar a ele. Não é nada romântico, está em outra linha, uma linha mais fisiológica, carnal, mental. O orgasmo a gente não pode dizer que é somente carnal, requer uma energia especial e extremamente forte, de uma maneira que por exemplo, dentro de algumas especialidades, tal como o Taoísmo, no qual fui estudiosa e dedicada, tal como fui ao Hinduísmo, você se conhece o desejo não poderá ser uma mulher mística, porque de tal forma que é tão forte esse desejo, o orgasmo, de tal forma que ele mexe com toda a estrutura mental, que era impossível você ter uma espiritualidade, seria uma contradição misteriosa. Eu acho que o desejo é isso, o amor é outra coisa.  É estranho, a  gente não pode ser nem leviana, nem ingênua.

  

Atalante: É desafiador pensar em como apresentar o desejo nos filmes de uma forma menos psicológica e mais visual, tendo em vista a existência de uma vulgarização da imagem como um geral, mas em especial do corpo e do corpo feminino, que como falamos, está intimamente ligado ao desejo, à sexualidade. Como apresentar isso em tela? Temos alguns exemplos fantásticos disso, como em ''Humoresque'', de Jean Negulesco, nos repetidos instantes em que a personagem de Joan Crawford coloca os óculos para apreciar a imagem do homem que ela à primeiro momento deseja e posteriormente, se apaixona. Esses momentos em que ela enxerga, são de transe. Ou um outro exemplo um pouco diferente, em um filme que exibimos recentemente ''Lola Montes'', de Max Ophuls, em que ela se despe para lutar contra o que afirmam veementemente em relação a ela dançar terrivelmente mal. Naquele momento ela não tem pudor nenhum de jogar seu corpo e se movimentar e isso gera muita movimentação e catarse no momento do filme, talvez nesse caso seja a sedução em jogo. Seria a sedução essa forma mais visível de mostrar o desejo?  

É a sedução, mas o desejo e a sedução seriam iguais? Acredito que não, não sei. Sedução acho que faz parte do social, faz parte das relações, dos costumes, é diferente.  

Atalante: Em que grau se modifica a relação de criação e autoria em um filme como atriz e como diretora? 

Existe uma diferença, enorme. O processo é diferente, o processo da direção não é orgástico. Não me parece, ele é mais organizado, mais intelectual, está mais em outro tempo. O trabalho do ator é uma entrega maior a esse mistério, a essa situação orgástica e são trabalhos que se dão muito bem juntos, mas são diferentes.  

Atalante: A Helena Ignez que dirige é muito diferente da que atua?  

Não, não... sou muito a mesma coisa, tenho uma relação muito amorosa com os atores e atrizes, se torna uma relação de confiança imensa. Me coloco no lugar deles, detesto filmar mais de uma vez , o que é típico de diretor, três, quatros vezes, cinco, seis, por causa da luz ou seja lá mais o que. Eu priorizo totalmente o ator, se ele estiver bem jamais repetir porque eu sei que não será igual a segunda vez. Mas eu imagino, em um processo de primeiro dia de filmagem que você tem que falar com inúmeras pessoas, ter uma harmonia. Esse trabalho é mais corriqueiro, mais ligada ao comum, dirigir. O ato da direção,  mas a obsessão é a mesma, tal como quando eu monto um filme, eu tenho um montador que eu adoro, que tenho trabalho com ele nos meus quatro últimos filmes, ele é um ótimo técnico, mas ele não faz absolutamente nada sem mim. Eu passo as noites conversando com os personagens, essa história do "Fakir" é incrível, porque eu tava entrando em um mundo que eu não conhecia, tão absurdo. Coisas como acordar no meio da noite com uma ideia e gravar pra no dia seguinte falar, então é um outro processo.

  

Atalante: Pensando no que estamos conversando, você teve um movimento de satisfação na atuação e a partir disso quis ter uma experiência na direção? 

Foi isso, eu achei que tinha chegado a uma plenitude como atriz e que já me satisfazia de uma certa forma e precisava ampliar aquilo. Mas o que me deu isso foi a morte de Rogério, apesar de ter feito meu primeiro filme como diretora antes dele morrer, ele foi montador. Mas não sei se ele estivesse vivo se eu teria feito esses filmes, muito possivelmente não, possivelmente não. Eu senti uma urgência de me expressar, de seguir aquele pensamento, eu sou discípula de Rogério. Esse cinema, trabalhar com esses diálogos, ele era um dialoguista extraordinário, com essa invenção dele. Então foi a perda que me fez, mas também não sei, porque o que me moveu antes foi também a indignação, porque com a morte dele houve uma indignação, houve uma indignação por essa morte. Então essa indignação é o que impulsiona também e que também está presente na atriz.  

Atalante: Como foi montar o último filme de Sganzerla? 

Eu tinha 700 páginas na mão e estudo de todos os personagens, não era um roteiro que estava completo, ele estava estudando e ele é escritor, ele preenchia a dificuldade em filmar, porque dinheiro não havia, as produções não apareciam. Ele estava muito à frente, então não apareciam essas possibilidades dele filmar o que ele queria, então ele escrevia muito. E meu trabalho foi exatamente conhecer os personagens e adaptar determinadas falas, daquele personagem, do Mão de Onça, daquele delegado... depois desse trabalho, seis meses, eu conhecia muitíssimo bem aquele roteiro. Depois pra montar o filme, eu montei junto com "A Volta do Bandido da Luz Vermelha", com um grande montador, que é o Rodrigo Lima, um grande montador. Não houve mistério. Foi um processo natural, Sinai entrou bastante também na montagem do "Luz nas Trevas",  ela ia sozinha ou eu ia com ela e ela foi extremamente valorosa, ela também foi extremamente valorosa com as imagens do "A Volta do Bandido da Luz Vermelha", é foi por aí... um pouco diferente da montagem do "A Moça do Calendário", que eu mesma fiz. Eu adoro esse filme, é meu melhor filme, é lindo. Eu estava falando com a Sinai que eu tinha pouco a "A Moça do Calendário" no filme dela ("A Mulher da Luz Própria"), de repente ainda tá lá "A Moça" pra gente estudar e trabalhar. Tem uma coisa muito interessante, que ela trouxe as ligas camponesas ao filme, mas se realiza totalmente essa ideia da "moça", que é a própria personagem de ficção, a moça, falando sobre a Reforma Agrária. Se completa ali. 

Atalante: É muito interessante como são trabalhos muito intimistas, familiares e que por isso também pedem essa conexão que temos conversado até então, a atriz de ''A Moça do Calendário'' é sua filha.  

A atriz é a Djin, minha filha. Eu sempre trabalhei com ela, desde muito cedo ela fazia teatro com outras pessoas. Pra mim ela é uma inspiração, uma grande atriz.  

Atalante: Bom, nós conversamos na ocasião do 8º Olhar de Cinema- Festival Internacional de Cinema de Curitiba e o filme de abertura é um filme sobre o Coutinho. A respeito de Coutinho então, dizemos algo que nos faz pensar muito no cinema que você faz e pensa, que é a crença dele no momento único e especial do acontecimento da/na filmagem ao escolher na maior parte das vezes, pessoas pra participarem de seus filmes que ele nunca viu na vida antes de então, como você diz, dar o ''click''.  

Eu acredito que é exatamente isso, eu tenho isso com os atores que dirijo. O Mário Bortolotto por exemplo, pra mim ele é um mistério, um símbolo. Eu não tenho nenhuma intimidade com ele, no entanto nos filmes acontece maravilhosamente, eu não me interesso também pela intimidade do ator, pela psicologia dele, não é por aí que entra nossa intimidade. É através do personagem e da observação. Ali tem que acontecer, a gente sabe que vai acontecer. Eu acredito muito no cinema, acredito fortemente, nesse mistério transformador e fortíssimo.



Esta entrevista foi também um dos textos de apoio e distribuída na sessão de ''O Bandido da Luz Vermelha'', de Rogério Sganzerla, que ocorreu no último dia 29 de fevereiro de 2020 pelo projeto ''História(s) do Cinema: Cineclube do Atalante''.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

domingo, 28 de abril de 2019

Uma mulher que você precisa conhecer

por Matthew Eng

 
Desde que Marlon Brando pegou de surpresa a luva branca de Eva Marie Saint em Sindicato de ladrões não surgia uma forma inteiramente nova de atuação originada da potência de um ator na maior performance de sua vida. A atuação de Brando permanece – indisputável – como uma das maiores já vistas em celuloide, mas cada vez mais, francamente e com o devido respeito à Stella Adler, a de Rowlands neste filme parece a mais arriscada e, portanto, destemida façanha.

Na primeira vez em que vi Uma mulher sob influência na faculdade, eu fui muito intimidado pela volatilidade intramural da história e pela declarada falta de pudores do cinema de Cassavetes para realmente entender – muito menos apreciar completamente – as excelentes sutilezas do desempenho de Rowlands. Eu assisti a Uma Mulher novamente pela segunda vez em agosto passado, preparado para me submeter a essa experiência cinematográfica assustadora e emocionalmente desgastante mais uma vez. Eu esperava me emocionar, mas não esperava ter o ar praticamente arrancado dos meus pulmões, meus olhos jorrando e meu coração subindo rapidamente em direção à minha garganta enquanto Mabel tentava desesperadamente afastar seu marido amoroso mas violentamente exasperado, Nick (Peter Falk), o homem a quem ela é intrínseca e desesperadamente ligada, que acaba de recorrer à ajuda de um médico para levá-la para um manicômio no inesquecível e traumático colapso no meio do filme. 

Enquanto Brando e seus colegas do Método trabalhavam a partir de um sistema intensamente estudado de imersão, motivação e reação que havia sido fundado décadas antes por Stanislavski, Rowlands quase que sozinha liderou seu próprio movimento de ser na tela descomunalmente emocional enquanto psicologicamente guiada, uma escola de desempenho que só parece inconsequente para aqueles que observam as loucuras furiosas de Rowlands de uma perspectiva puramente superficial. A sublime atuação de Rowlands é de forma quase inédita dirigida pelo id: suas heroínas sitiadas operam a partir de reservas tão profundas que podem ser acessadas por Rowlands, que não apenas estabelece momentos, mas também luta com eles para extrair camadas ainda mais robustas de autenticidade. Esticando o corpo esguio e a voz maleável até seus pontos de completa ruptura, Rowlands exibe esta autenticidade, esta necessidade, com todos os brilhos de emoção que a tela poderia conter. Suas personagens encurraladas e instáveis ​​agem não porque Rowlands acha que deveriam, mas porque precisam, a fim de que sejam ouvidas, vistas e, quem sabe, compreendidas.


Uma mulher foi um divisor de águas no cinema americano, mas também uma marca sem paralelos da atuação norte-americana que foi recebida em êxtase pelos grupos de críticos e associações de premiação. Cassavetes recebeu uma indicação ao prêmio de Melhor Diretor e Rowlands, claro, conquistou uma vaga na maior disputa de Melhor Atriz de todos os tempos no Oscar de 1974, apenas para ver sua óbvia vitória entregue à reconhecidamente maravilhosa Ellen Burstyn em Alice não vive mais aqui. Em retrospecto, talvez a encarnação selvagem de Rowlands fosse chocante demais, a desesperança de sua Mabel perturbadora demais para os votantes da Academia, os quais acabaram por votar no papel de uma mãe solteira resiliente da classe trabalhadora que é, na verdade, uma encarnação muito mais heroica da feminilidade da era setentista?


De qualquer maneira, a obra-prima de Rowlands é aquela se tornou o critério, um momento inestimável na história do cinema americano que irá perdurar mais que qualquer disputa do Oscar. Ela se tornou, junto com o pai fundador Cassavetes, uma embaixadora vitalícia e defensora orgulhosa do cinema indie, tendo chegado a declarar “eu amo o cinema independente. Não concordo com muito dele, mas este é o ponto”.



Após Uma Mulher, Rowlands fez mais três filmes com Cassavetes até a morte prematura do diretor em 1989 aos 59 anos. E ela está estupenda em todos: como uma contrariada diva dos palcos em passos falsos que só nós podemos ver em Noite de Estreia, como uma irritadiça amante da máfia tornada protetora de criança e vingadora de batom em Gloria (sua segunda indicação ao Oscar) e como a emocionante e avoada mãe-esposa em Amantes, no qual Rowlands faz a mais melancólica performance screwball de todos os tempos na habilidosa carta de amor de Cassavetes a todos os laços imperfeitos de família. Todos esses filmes merecem ser vistos, bem como o contemplativo A Outra de Woody Allen, no qual Rowlands abre mão de todos maneirismos e consegue queimar um buraco na tela de forma sutil e cativante no papel de uma professora de filosofia cuja confiança começa a vacilar diante de um despertar pessoal desagradável.



Retirado de “It’s About Damn Time Gena Rowlands Got An Oscar” (novembro de 2015). Disponível em https://www.tribecafilm.com/stories/it-s-about-damn-time-gena-rowlands-got-an-oscar-john-cassavetes-honorary-oscar-2015. Tradução de Giovanni Comodo.

sábado, 27 de abril de 2019

Paul Verhoeven sobre Isabelle Huppert: "Vi-a acontecer e filmei"


Ele deixou-a ir para zonas que não estavam previstas no argumento. Dizia cut, ela continuava. “Vi-a acontecer e filmei”. Verhoeven dirigiu Huppert, Huppert dirigiu Verhoeven. Elle, elegante, irónico, melancólico, a aproximar-se do Mal.

Por Vasco Câmara, 18 de Novembro de 2016.

Depois da sua metamorfose como cineasta americano – Robocop (1987), Instinto Fatal (1992) ou Showgirls (1995) o holandês, 78 anos, regressou à sua Europa em 2006 (O Livro Negro). Agora, dez anos depois, mostra-se como se fosse um cineasta francês, mergulhando num território e numa cultura que até já foram seus, pois viveu em Paris “há mais 60 anos”. Teve agora de voltar a reforçar os conhecimentos da língua. Para esse movimento imersivo, Paul Verhoeven decidiu que na rodagem de Elle/Ela entre a equipa técnica e actores não se falaria inglês, só se falaria francês.

Parecendo uma programada sintonia com o momento de reavaliação da sua obra – as retrospectivas, as entrevistas e as capas de revista no último ano – Elle emerge elegante, irónico, reflexivo, até melancólico, sendo a história de uma mulher violada (Isabelle Huppert) e do que parece ser o seu périplo de vingança. Elle é uma acrobacia de reinvenção. É um filme de acção contemplativo, afinal, em que Verhoeven coloca nas alturas do êxtase, se calhar mesmo da santidade, mais um exemplar das suas heroínas. Será a variação definitiva, um fecho para esse segmento da sua obra, o das guerrilheiras que já tiveram, em filmes anteriores, os rostos e acções de Renée Soutendijk, Sharon Stone, Elizabeth Berkley ou Carice van Houten? É que há aqui Isabelle Huppert. "Tudo o que ela fazia era óptimo, não havia necessidade de a corrigir", conta Verhoeven. "Para além das conversas sobre mise-en-scène, sobre a colocação da câmara ou dos actores, não houve conversas com ela sobre motivações psicológicas [da personagem]. Vi-a acontecer e filmei. É absolutamente único sentir perante um actor que qualquer coisa que se lhe diga diminui a sua performance."

Utiliza, numa sequência de festa, Lust for life, canção de Iggy Pop, que já tinha utilizado em Spetters (1980). Não foi uma coincidência, pois não? A canção do filme de uma das suas primeiras heroínas, Renee Soutendijk, é a canção do filme da sua mais recente heroína, Isabelle Huppert.

Foi parcialmente uma coincidência. Quando começámos a filmar a cena, levei seis canções para a rodagem, havia ainda Bowie, Bryan Ferry, Arcade Fire e mais umas quantas. Toquei para os figurantes e perguntei de que canção é que eles mais gostavam para dançar. A escolha unânime foi Lust for life. Foi o que fiz. As outras eram favoritas minhas também, mas eles acharam que essa era a mais agradável, mais ritmada, que lhes dava maior prazer dançar. Foi uma coincidência o facto de a terem escolhido, já não o foi o facto de a ter levado para o set.

É que o título, Lust for life, diz algo sobre a energia das suas personagens femininas, como o programa delas.

Completamente. Por isso a pus na lista. Mas se os meus figurantes tivessem preferido outra, eu teria escolhido outra. Queria que a cena funcionasse, era importante que eles gostassem. Felizmente escolheram uma das minhas canções favoritas, que tinha usado muito pouco em Spetters e é verdade que sempre pensei dar-lhe outra hipótese e utilizá-la de novo. É também o título de um filme sobre Vincent van Gogh de que gosto muito [Lust for Life/A Vida Apaixonada de Van Gogh, Vincent Minnelli, 1956].

Mesmo com essa intervenção da coincidência, não deixa de fazer sentido que a personagem de Isabelle Huppert, Michèle LeBlanc, fique ligada à galeria das suas personagens femininas e pudéssemos desenhar um arco da evolução dessa genealogia, onde ela começou – Renée Soutendijk em Spetters – e onde ela chegou. Huppert e Elle acrescentam algo que não poderia ser possível no passado. É um filme melancólico, este. Há um clima contemplativo, introduzido por Huppert, numa “família” de mulheres que seguiram sempre em frente atrás do seu objectivo sem se questionarem. Concorda?

Certamente. Não sei se todas estas coisas são claras para nós quando tomamos as nossas decisões; provavelmente não vamos tão longe no momento em que nos decidimos por um projecto. Spetters foi um projecto meu e do meu argumentista, Elle é baseado num livro, a personagem tinha sido criada por Philippe Djian [no livro Oh...]. Diria que a personagem de Renné em Spetters é muito clara, e o argumento é muito claro, no que toca às razões por que faz certas coisas. Ela está farta de vender batatas fritas e quer sair dessa existência. Quando encontra três tipos e escolhe o que ela pensa que vai ser campeão, e aposta nele, o seu objectivo é muito definido. E o filme parece-me claro na forma como foi estruturado e filmado. Ela persegue alguma coisa, não é? Seduz deliberadamente. Quer subir de posição social.

No caso da personagem de Isabelle Huppert, as razões para ela fazer o que faz, por exemplo, quando descobre quem é o seu violador, são mais ambíguas e turvas. Para mim, teria de ser deliberado não fazer psicologia com o que está ali. Há informação sobre o passado dela, mas não é argumentado, ninguém diz que ela passou por uma experiência violenta com o pai, que isso deixou nela uma marca de masoquismo e ficou viciada na violência, isso ou outra análise freudiana que se quisesse tentar. Não há nada de claro nas suas motivações. Parece às vezes que há a intromissão da coincidência, nos seus actos e encontros. Não há uma clara relação de causalidade. Era isso que eu queria quando trabalhava com o argumentista [David Birke] e quando filmava.

Os artistas ficam por vezes surpreendidos com as interpretações do seu trabalho. Não porque alguém acrescenta algo que não está lá, mas porque o artista muitas vezes não está consciente do que está lá. Na verdade, o artista não deve estar consciente das razões por que faz as coisas. Isso limita as possibilidade. O meu programa com Elle era deixar tudo em aberto. E deixar que o espectador preenchesse com as suas respostas os buracos. Ora, não há buraco algum no percurso de Renée em Spetters. Sabemos quem é, o que procura, o que ganha e o que perde, como salta de homem em homem, e como no final conseguiu alguma progressão: da caravana para o bar. Em Elle é o outro lado: não sabemos exactamente porque é que as pessoas fazem o que fazem.

Fala numa certa melancolia, numa certa atitude reflexiva: sim, como resultado do meu gesto de não preencher os buracos todos, e de o espectador poder completar e preencher o que não é explícito, fazendo-o reflectir sobre a personagem. O filme sugere algo que faz o espectador reflectir sobre a personagem, as suas acções e motivações: “posso seguir com ela, e, mesmo que não possa, será que ela está a ser autêntica”?

Temos a sensação de que Michèle está a descobrir coisas sobre si própria ao mesmo tempo que nós. Ou que está às escuras tanto quanto o espectador.

Olhe, eu sei, porque Isabelle me disse, que às vezes ela própria não sabia porque é que a personagem tinha certas atitudes, mas que conseguia sempre representá-las. Mesmo a ela, quando chegava ao set pela manhã, cabia-lhe descobrir porque é que a personagem fazia o que tinha de fazer. Mesmo sabendo de cor o argumento, e sabia-o, cada manhã era uma aventura de descoberta da personagem: segui-la, ver onde é que ela a ia levar. Dentro dos parâmetros da cena tal como estava escrita, muitas vezes ela aplicava uma dose enorme da sua liberdade na interpretação da cena. Aquilo que em termos antiquados poderíamos dizer que era o demónio a dominar a mente da personagem... Isabelle queria saber onde é que isso levaria a personagem naquele dia. O que diz sobre Michèle aplica-se a Isabelle.

O projecto chegou-lhe através do produtor Saïd Ben Saïd, que lhe passou o livro. Onde é que a actriz entra?

Ela entra antes. Antes de Saïd me mandar o livro, estava eu em Los Angeles, Isabelle tinha-o lido, tinha falado com o autor e com o produtor. Queria fazer o filme. Saïd trabalhou com De Palma, Cronenberg, Walter Hill, por isso, quando falámos, estava assumido que íamos fazer um filme americano. Transpúnhamos a situação da personagem em Paris para uma cidade americana, tipo Seattle, Boston ou Chicago, com actores americanos. Foi assim que começámos. Estávamos à procura de um cast americano, não estávamos a ir em direcção a Isabelle. Mas, depois de o argumento ter sido transposto e adaptado à América, descobrimos que não havia interesse financeiro na co-produção, os estúdios ficaram com medo do argumento, por aquilo que acontece à personagem no terceiro acto. Mais importante, não havia actriz americana do nível A que quisesse fazer o filme. Foi depois do falhanço de Elle como filme americano que Saïd me disse que não chegaríamos a lado algum e desafiou-me a fazer o filme em francês. O passo seguinte foi telefonar a Isabelle Huppert – que ainda estava interessada.

Houve um momento na sua carreira em que como holandês se metamorfoseou em cineasta americano. Não só porque o dinheiro e o cast eram americanos, mas porque os filmes, numa espécie de excesso camaleónico, eram mais americanos do que os filmes americanos – Showgirls (1995) é um exemplo. Elle é a sua metamorfose como cineasta francês, torna-se parte...
 
... da cultura cinematográfica de um país, sim. Penso que consigo isso. A transição da Holanda para os EUA não foi fácil, culturalmente os EUA não são a Holanda, mas como estive sempre rodeado de americanos, produtores, equipa, actores – estou a pensar em Robocop (1987) —, tornei-me americano. Se reparar no filme que fiz antes de Robocop, Flesh+Blood (1985), havia dinheiro americano, 80, 90 por cento era americano, havia actores americanos, Jennifer Jason Leigh, mas a maior parte da equipa era holandesa e espanhola. Estava rodeado de europeus. E esse filme não se parece com nada. Estava a trabalhar supostamente para o mercado americano. Mike Medavoy, da Orion, disse-me nessa altura, depois do falhanço comercial e artístico do filme, que se fosse para os EUA e me rodeasse de americanos, estaria bem. E foi o que fiz, e fiz Robocop, tornando-me suficientemente americano.

Foi o que aconteceu com Elle. Vivi em França aos 17 anos, na altura o meu francês era óptimo, mas foi há mais de 60 anos e tudo desapareceu. Fiz um curso de Francês antes da rodagem, decidimos que ninguém no set falaria outra língua que não o francês. Foi a forma de me adaptar à cultura francesa, e ser mais francês do que os franceses.
 
Como é que, para ser cineasta “francês” e fazer um filme “francês”, utilizou Huppert, os filmes que ela fez, aquilo que, com eles, ela vem comunicando ao espectador? A personagem parece estar sempre dentro e fora – algo que é uma “marca” da actriz, espectadora de si própria.

Se o diz, é porque é isso o que acontece. Mas não foi consciente. As coisas por vezes acontecem independentemente do facto de sabermos que estão a acontecer. Não pensei nos outros papéis de Isabelle. Não pensei nesse lado de estar dentro e fora. E com ela não fiz nada daquelas coisas que se fazem com os actores: leitura de argumento, saber coisas sobre a personagem, nada, não fizemos nada disso. Fomos para o set e filmámos. Ao fim de um ou dois dias percebi logo que tinha de lhe dar toda a liberdade, e que ela chegaria perto da personagem, não precisava de lhe dizer nada, para ser mais assim ou assado.

Se comparar o que fiz com Sharon Stone [Instinto Fatal, 1982] e com Isabelle Huppert, teria de dizer que com Isabelle fiquei calado, ao passo que não parei de falar com Sharon Stone para conseguir o que eu queria. Com Isabelle, desde o primeiro take, foi claro para ela o que eu tinha na cabeça, ou o que estava no livro e no argumento. Ou então que o que ela tinha na cabeça era superior ao que eu tinha na cabeça ou ao que estava no livro ou no argumento. Aprendi rapidamente a confiar na intuição dela, a deixá-la ir para zonas que não estavam no argumento ou na minha cabeça e que apareciam quando ela actuava. Várias vezes dizia cut, ela continuava e eu deixava-a – tudo o que tem que ver com as reacções depois da descoberta do violador, a sequência do orgasmo, tudo isso é Isabelle a ir para além da página do argumento. Senti que, sendo ela mulher e eu homem, a intuição dela seria mais forte do que a minha. Cada coisa que ela fazia, de forma diferente ou superior, eu deixava-a. Tudo o que ela fazia era óptimo, não havia necessidade de a corrigir. Para além das conversas sobre mise-en-scène, sobre a colocação da câmara ou dos actores, não houve conversas com ela sobre motivações psicológicas. Vi-a acontecer e filmei. É absolutamente único sentir perante um actor que qualquer coisa que se lhe diga diminui a sua performance. Gastei imenso tempo a falar sobre guarda-roupa, sobre cores dos vestidos, make-up, coisas técnicas à volta dela, mas, quando a cena começava, e se gritava action, achei que devia deixá-la ir.

Em Cannes, na conferência de imprensa, falou de A Regra do Jogo, de Renoir. Há uma citação explícita, num diálogo: “Todas as pessoas têm as suas razões.” O filme vai periodicamente trazendo as personagens à volta de Isabelle para o primeiro plano, para elas dizerem das suas razões.

De outra forma a personagem estaria sempre a caminhar no vácuo. Essas personagens também servem para definir a personagem de Isabelle. A forma como ela reage ao seu ambiente dá explicações sobre ela. Penso que era importante construir estas personagens com toda a honestidade. Quando li o romance, percebi que sendo fã de thrillers – ela é violada, descobre quem é o violador e chegamos ao terceiro acto —, sendo fã de Hitchcock, tendo já feito isso em Instinto Fatal, o que me interessava era o que não tinha feito: fazer dos outros seres humanos, torná-los vivos, o que permitiria a Michèle definir-se enquanto personagem. Em Instinto Fatal não se sabe nada da personagem de Michael Douglas. Era film noir americano, sem informação sobre as personagens à volta da protagonista. Isso também é eliminado do thriller literário americano, algo que é reposto pelo thriller escandinavo. O meu amor por estes romances escandinavos levou-me, em Elle, a ir em direcção às outras personagens. É preciso sentir que elas estão tão vivas quanto a de Isabelle.

Sendo Michèle o agente da revelação da humanidade das outras personagens – como um desígnio renoiriano nela, o que é espantoso –, isso diz algo de fundamental sobre a humanidade da personagem.
 
Michèle define-se através da relação com os outros, os outros dessa forma têm oportunidade de se definirem e de ajudarem a definir Michèle. Eleva as pessoas, eleva Michèle. A Regra do Jogo (1939) é um dos melhores filmes jamais feitos, foi considerado imoral no seu tempo. Michèle de certa maneira pode ser vista, numa perspectiva americana, como imoral. Estudei esse filme durante a minha vida, vi-o quando jovem em França, vi-o muitas vezes depois. E, quando é assim, isso mexe com o nosso cérebro.

Retirado de https://www.publico.pt/2016/11/18/culturaipsilon/entrevista/via-acontecer-e-filmei-1750234