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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Cineclube do Atalante: Paris no verão

 

Sábado, 23 de novembro:

PARIS NO VERÃO
Dirigido por: Jacques Rivette.

(Haut bas fragile, França, 1995, 169 min., drama, 16 anos.)
Com Anna Karina, Marianne Denicourt, Nathalie Richard, Laurance Côte.

No verão parisiense de 1994, três jovens mulheres decidem mudar o rumo de suas vidas. Louise (Marianne Denicourt) acaba de ser liberada do hospital após estar em coma durante 5 anos e descobre que sua tia deixou um grande patrimônio para ela. Ninon (Nathalie Richard) é carteira e foge de seu namorado maluco, um criminoso, além de ter que roubar o dinheiro do caixa da empresa para sair para dançar. Ida (Laurence Côte) é bibliotecária em uma sala de leitura artística e descobre que foi adotada. Ela decide então procurar por seus verdadeiros pais. Contudo, a única pista que tem para achar sua verdadeira mãe é uma antiga canção.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Paris no verão” (1995), de Jacques Rivette
Sábado, 23/11
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante
Apoio: @fcccuritiba

PROJETO REALIZADO POR MEIO DA LEI MUNICIPAL COMPLEMENTAR 57/2005 DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA, FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA E PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, SECRETARIA DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL.


segunda-feira, 26 de junho de 2023

Santa Cecília [sobre Bonjour Tristesse de Otto Preminger]

por Jacques Rivette [1]


Otto Preminger, autor de filmes, se é que isto existe, viu-se há uma dúzia de anos numa situação paradoxal e provavelmente única: a de ter feito, em seus inícios, um filme tão perfeito que, de certo modo, jamais poderia esperar fazer melhor. Laura [1944] não tem nada do zigue-zague relampejante de um Cidadão Kane, desde o qual longas trovoadas não cessam de reverberar ao longe; ele parece mais uma bola de cristal, tão pura que poderíamos recear estarmos diante da mais imaterial das bolhas de sabão: mas há muito nos tranquilizamos. Não sei se Preminger é dotado da inteligência discursiva dos feirantes que recorrem a mil truques em seu palavrório para disfarçar o pífio conteúdo de sua barraca; no mínimo ele possui uma de outra espécie, e mais útil nesse ofício: uma inteligência artesanal, que faz dele o mais hábil de nossos mestres de obra, sabendo avaliar seus materiais e nem sempre recusando, segundo o célebre conselho, os medíocres, mas utilizando-os no pleno conhecimento da sua mediocridade.

Talvez seja esse um lado do segredo que lhe permitiu sobreviver ao primeiro sucesso: fugir da perfeição; porque ele precisa também, à sua maneira, perseguir uma certa “qualidade da imperfeição”. Matéria ingrata, apesar das aparências, a desse fraco romance de pensionista, ao qual faltava tudo, tanto a alma quanto o estilo, quero dizer, afora os de segunda mão; para dar um corpo a essa obra-prima do pastiche, era preciso primeiro saber reinventar tudo, com a obrigação suplementar de não romper o primeiro fio narrativo: numa palavra, devolver o tom da novidade e da descoberta, ou mesmo da juventude, àquilo que deles mais carecia. Esta é a arte de Preminger.

Sejamos francos: quase todos os seus filmes se fundem no desafio, ou mais simplesmente, na trapaça comercial, ou nos dois ao mesmo tempo; o teste e o escândalo têm, para ele, atrativos irmãos. Mas não deve ele também sistematicamente se obrigar a procurar a dificuldade, não deve se proteger de uma facilidade tão inquietante que o deixa às vezes, ainda aqui, a dois dedos de lhe sucumbir?

Não creiam que advogo contra mim: esses dois dedos de distância são ainda o bastante para deixar passar facilmente a mãozinha de nossa musa, e a décima da família, se necessário, só precisa de um décimo de segundo, ou de um vigésimo quarto, para transformar o gesto mais banal, mais comum, num milagre da graça. A arte da mise-en-scène é, em primeiro lugar, uma arte de instaurar o espaço e o tempo desejados [2]: proporções perfeitas do quadro, arabescos das atitudes e o papel inteiro de Jean Seberg, tudo nos conduz a retomar em tom menor a afirmação final de Bernanos: “Tudo é graça”. Essa graça é justamente daquelas que são eficazes, e ela acaba por tocar até os fantoches mais rebeldes ao seu encanto: nossos Juvenais encontrarão aqui o exemplo de uma sátira sem agressividade nem feiura, de uma crítica sem ilusões mas sem maldade, e ainda mais acirrada por deixar sempre as chances à vítima e, muito desejosa de vê-la com seus próprios olhos, ainda por cima lhe entregar o que ela chama de beleza – e que é, com efeito, sua beleza.

A censura mais engraçada é provavelmente aquela que, apesar de reconhecer a fidelidade da adaptação, acusa nosso caro Otto de mostrar diretamente demais e sem pudor aquilo que o romance encobria com suas pequenas frases de inseto roedor: é como censurar Preminger por ter substituído as mentiras da má literatura pela verdade do grande cinema, sendo este a arte da linha reta, ou da curva mais firme, a mais regular [3]. A invenção que explode em cada plano desse filme é primeiramente um certo gênio do atalho: a arte do desenhista (e a passagem de Angel Face [1952] a Bonjour Tristesse é a de um esboço ao afresco) é saber quais traços são essenciais, quais devem ser acentuados ou eliminados, quais devem ser às vezes inteiramente inventados para completarem um rendilhado confuso; a arte do cineasta é a de saber quais são os elementos, de um espetáculo ou de um fato, indispensáveis ao equilíbrio da figura, isto é, da cena tal como inscrita em seu lugar definitivo no filme. Se essa noção de invenção, na qual se resume toda a grande arte, lhes parece confusa, digamos que ela é precisamente o que separa um Preminger do autor, por exemplo, de Kanal [4], trabalho de escola em que o cuidado é sempre discernível, e em que o assunto mais alto vira um desenrolar retórico; se é bom aplicar um método, que seja sem ostentar a aplicação.

A facilidade passa facilmente por superficial; é o que faz sua força, pois não se desconfia dela; ela toca o peito antes que ele apareça fendido. Se Preminger, que talvez jamais tenha escrito uma só linha de seus scripts, é porém plenamente digno do belo título de autor de filmes, é pelo gênio singular que lhe permite encarnar o espírito nas criaturas mais teóricas, sejam elas as medíocres marionetes de uma pequena comédia licenciosa ou de um romance policial qualquer, sejam os espectros altivos de Bernard Shaw. Carne fraternal, animada por uma mesma paixão, por um mesmo gosto do absoluto, seja o da infelicidade, o da queda ou o da revolta; heróis irmãos de seu Pigmaleão, todos seduzidos igualmente pela aposta, a mesma vontade de negar o impossível, prestes a pagar o preço do desafio: donde sua tristeza, outro nome da lucidez.

Os nomes reunidos de Ophuls, Mizoguchi, Astruc, Preminger (ophulsiana é a abertura; astruciana, a farândola – ou o inverso –; mizoguchiano, o último plano) definem uma nova noção do cinema “puro”, jogo de espelhos em que o objeto, longe de ser destruído, revela e superpõe todos os seus rostos. Levando nossa arte ao ponto a que Picasso conduziu a pintura, essa ideia do cinema moderno é também um absoluto, ao qual tudo pode ser sacrificado. Eis, aliás, o perigo: eis por que, por maiores que sejam estes cineastas, o único que permanece exemplar é Rossellini, que, possuindo também este segredo, ousa sacrificá-lo a outra coisa, para servir àquilo que redireciona [5] seu poder de tudo submeter às suas metamorfoses.


Notas:

1 “Sainte Cécile”, Cahiers du Cinéma, n.82, abril de 1958, pp. 52-54. Traduzido do francês por Íris Araújo e Mateus Araújo e extraído do catálogo “Jacques Rivette – Já Não Somos Inocentes”.
2 No original, “l’art de la mise-en-scène est d’abord un art de mise en place, ou en temps, voulus”. [N.d.T.]
3 No original, “... la mieux soumise aux flancs du vase”. [N.d.T.]
4 Kanal (1957) era o segundo longa-metragem de Andrzej Wajda. [N.d.T.]
5 No original, “tire ailleurs”. [N.d.T.]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Rivette e Daney avant la lettre: a política do cancelamento

- Da abjeção (1961), de Rivette, passados 60 anos 

- O travelling de Kapò (1992), de Daney, quase 30 anos depois

por Vera Lúcia de Oliveira e Silva

“Tudo que seu mestre mandar...nós o faremos todo!

- E quem não fizer... ganhará um bolo!”
Cancioneiro infantil

Sem nenhuma dúvida Pontecorvo fez péssimas escolhas em Kapò (1960), todas tributárias de um pecado original: adotar o horror indizível – o Holocausto – como pano de fundo para um romance melodramático. O resto é pura consequência. O filme, entregue a si mesmo, teria sido arquivado sem ódio. Arrisco dizer que desapareceria da história, como tanta coisa ruim que se fez, se faz e se fará, porque, afinal, perfeitos só nós mesmos.

Entretanto, graças a Jacques Rivette, secundado por Serge Daney, Pontecorvo contribuiu para um importante debate na Cultura, porque o erro também ensina, tanto quanto, às vezes mais, que o acerto. Passado mais de meio século, ele ainda é lembrado, porque Rivette o condenou em um parágrafo extorsivo, no sentido de que não deixa espaço para o livre julgamento – e eventual discordância - de quem o lê: não sem pagar o preço de se expor  a ser declarado igualmente abjeto. Ao mesmo tempo, Rivette condecorou o próprio peito com a comenda da boa consciência (Eu sei: não foi só isso que ele fez em seu admirável artigo – mas para mim é inegável que também fez isso).

Daney, 30 anos mais tarde, não só subscreveu Rivette como deu testemunho, até com certo orgulho, do efeito extorsivo que Da Abjeção exerceu sobre ele. Transcrevo de O travelling de Kapò, de sua autoria:

Entre os filmes que eu nunca vi... o obscuro Kapò. Filme sobre os campos de concentração, rodado em 1960 pelo cineasta italiano de esquerda Gillo Pontecorvo, Kapò não firmou seu nome na história do cinema. Serei eu o único, nunca o tendo visto, a jamais tê-lo esquecido? Porque eu não vi Kapò mas, ao mesmo tempo, vi. Eu vi porque alguém, com palavras, me mostrou.

Ou seja, depositando uma importante contribuição à arte de se estudar Cinema sem ver os filmes (eu sei: não foi só isso que ele fez em seu admirável artigo – mas para mim é inegável que também fez isso), baseado tão somente no que leu, Daney considera-se apto a criticar o trabelling de Kapò, a partir do texto de Rivette, que ele, Daney, transcreve como se segue:

Rivette tinha trinta e três anos e eu tinha dezessete. Acho que nem tinha ainda pronunciado a palavra abjeção em minha vida. Em seu artigo, Rivette não contava o filme. Ele se contentava, em uma frase, em descrever um plano. A frase que ficou na minha memória dizia assim “Vejamos agora, em Kapò, o plano em que Riva se suicida jogando-se sobre o arame farpado eletrificado: o homem que decide, nesse momento, fazer um travelling para a frente e reenquadrar o cadáver em contra-plongée, tomando cuidado para inscrever exatamente a mão levantada num ângulo do enquadramento final, esse homem só tem direito ao mais profundo desprezo”.

A partir do texto de Rivette, que Daney qualifica como abrupto e luminoso, este segue dizendo:

Ao passar dos anos, com efeito, o travelling de Kapò foi o meu dogma de carteirinha, o axioma que não se discutia, o ponto limite de todo debate. Com qualquer um que não sentisse imediatamente a abjeção do travelling de Kapò eu não teria, definitivamente, nada a ver, nada a partilhar. Esse tipo de recusa estava, aliás, no ar da época.

Destaco o arremate - Esse tipo de recusa estava, aliás, no ar da época - e sigo para as reflexões que realmente quero partilhar.

A primeira reflexão é uma espécie de assombro assustado: quer dizer, então, que esse “tipo de recusa” já estava “no ar da época”. Ou seja, o que hoje testemunhamos entra como um nada de novo debaixo do sol (Eclesiastes 1:9). Ou uma evidência de que nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não – nós, assim Como os nossos pais (Belchior, 1976)? Quando consideramos que a diversidade de opiniões e a liberdade para expressar tal diversidade é o que promove a civilização, tal recusa sinaliza o caminho para a barbárie? Em caso afirmativo, estará ainda em tempo para se deter essa marcha?

Pois bem, passemos à segunda reflexão.

Não quer calar na minha cabeça a pergunta sobre a eleição do travelling de Kapò como a ovelha negra a ser escorraçada para o deserto (logo veremos que essa analogia não é sem consequências), uma vez que o dito travelling é perfeitamente coerente com o conjunto do filme, uma espécie de coroamento de uma obra cujo autor meteu os pés pelas mãos do começo ao fim. Por que a abjeção foi colada exatamente ali? Não pode ser mero acaso.

Terá sido por sinédoque – a parte tomada pelo todo? – puro uso abusivo de uma figura de linguagem?  Ou haverá algo mais a ser considerado? Penso que sim. Penso que o travelling de Kapò incomoda porque é sinistro – quer dizer, porque ele convoca algo do mais íntimo de cada um de nós. E Rivette e Daney, penso eu, parece-me que acusaram o golpe.

Tento me explicar. Em primeiro lugar, fazer um travelling para frente diante do horror é uma experiência factual na vida humana. Convido a pensar num médico dando atendimento a uma vítima de um acidente catastrófico: ele vai, por dever de ofício, ser capturado numa espiral de tempo dilatado. Com a percepção em câmera lenta, seus olhos farão travellings sucessivos, examinando as funções vitais e o corpo dilacerado, dando zoons para enquadrar cada um dos ferimentos, fraturas e sangramentos, um após o outro, calculando por onde começar a recompor aquele corpo de modo a deter hemorragias e estabilizar fraturas para salvar aquela vida. Encontro com o Real em toda a sua crueza, encontro para o qual espera-se que o médico esteja preparado. Mas o que dizer dos curiosos que se aglomeram no entorno? Nada têm a contribuir, mas não despregam os olhos do horror, até que, cansados ou satisfeitos, dão a vez para a leva seguinte, sedenta.

Esse pequeno resumo da ópera eu o faço para que a gente se lembre de que padecemos, em diferentes medidas, de atração mórbida e fascinação pelo horror. Com o que construo, então, uma hipótese: a eleição do travelling de Kapò, como a escolha mais desprezível que Pontecorvo teria realizado nesse filme, deve-se ao fato de se ter desvelado ali algo que nós escondemos de nós mesmos no mais profundo de nosso ser? Como “esconder de nós mesmos” é o melhor caminho para proteger qualquer gozo sinistro, garantindo sua sobrevivência inconsciente, o convite é para que se faça luz: às claras, podemos lhe dar um destino mais digno.

Há um imperativo categórico (e sobre ele um princípio de Liberdade que dá ao sujeito o direito de dizer não) que estou pronta a subscrever: a única obrigação que recai sobre todo ser humano é a de pensar até o limite sensível de sua capacidade racional e de sua sensibilidade ética. Pensar visando o Real, à revelia de seus ideais e preferências. Respondendo a esse dever, é impossível não perceber que, diante do insuportável, fica muito barato comprar a boa consciência pela saída mais fácil: abjeto é o outro!

Enquanto não pudermos reconhecer o Real em nós mesmos – e lhe dar o destino que convém, desde o mal estar até a sua inscrição na Cultura, pela sublimação – ninguém pode se sentir seguro.

Curitiba, 12 de Novembro de 2021

As imagens deste texto mostram Serge Daney e Jacques Rivette no filme "Jacques Rivette - O Vigilante" (1990), de Claire Denis e Serge Daney.