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quinta-feira, 18 de abril de 2024

Cineclube do Atalante: Murder à la Mod

 O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Brian De Palma. Entrada franca, sempre.

MURDER À LA MOD
Dirigido por Brian De Palma

(Murder à la Mod, 1968, Estados Unidos, 80 min., 16 anos.)
Com Andra Akers, William Finley, Jared Martin.

Karen está deslumbrada com o talento de seu novo namorado (Christopher), fotógrafo e cineasta que desenvolve um trabalho artístico em torno de estudos corporais para os quais ela também começa a posar. Desconfiada por algumas atitudes misteriosas que ele tem junto ao seu produtor e demais membros da equipe, ela descobre que tudo não passa de fachada para a produção de filmes com possíveis mortes reais.

SERVIÇO:
CINECLUBE DO ATALANTE
“Murder à la Mod” (1968), de Brian De Palma
Sábado, 20/04
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA


Realização: Coletivo Atalante

PROJETO REALIZADO COM RECURSOS DO PROGRAMA DE APOIO E INCENTIVO À CULTURA - FUNDAÇÃO CULTURAL DE CURITIBA, PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA, MINISTÉRIO DA CULTURA E GOVERNO FEDERAL.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Cineclube do Atalante: Trágica Obsessão

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "Trágica Obsessão", de Brian de Palma. Entrada franca, sempre!



Instagram:@cineatalante

 

Trágica Obsessão

 

(Obsession, EUA, 1976, 98 min, 14 anos, com Cliff Robertson, Geneviève Bujold, John Lithgow).

Na tentativa de resgate de um sequestro, mulher e filha de um executivo de New Orleans são mortas. Anos depois, durante uma visita à Itália, ele se apaixona por uma outra mulher, cuja aparência física o faz lembrar da sua esposa.

 

Dirigido por Brian de Palma.

 

ATENÇÃO!

PROTOCOLOS OBRIGATÓRIOS PARA A SESSÃO (REFERENTES A PANDEMIA DA COVID-19):

 

- A entrada será permitida apenas utilizando máscara e ela deverá ser utilizada (cobrindo nariz e boca) durante todo o período de permanência na sala. (Indicamos o uso de modelos PFF2/N95).

 

- Por esse mesmo motivo fica proibido o consumo de bebida e comida na sala de exibição.

 

-Priorizem lugares que respeitem o distanciamento adequado entre pessoas.

 

- Está com sintomas gripais como tosse, dor de garganta, febre, congestão nasal, perda de olfato ou paladar? Procure ajuda médica e faça o isolamento, fique em casa.

 

Serviço:

 

Cineclube do Atalante: Trágica Obsessão

Sábado,12 de fevereiro

Às 16h

Na Cinemateca de Curitiba

(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)

(41) 3321-3552

ENTRADA FRANCA

 

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Brian de Palma: mal visto, mal dito


por Bruno Andrade

Sobre Brian De Palma, duas proposições:

1. Seu cinema precisa ser visto
Vale lembrar o leitor que o cinema é sobretudo uma arte de imagens (O Pagamento Final), da união de/espaço entre as imagens (Femme Fatale) e do cruzamento de sons com imagens (Um Tiro na Noite). Existem os filmes, e existem alguns filmes – poucos, é verdade – que tratam direta ou indiretamente do fazer cinematográfico, momentos em que o cinema é tornado tema e matéria por e para si próprio. Apenas precisamos observar os exemplos de Godard, do Hitchcock de Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai, de Abbas Kiarostami, de Tsui Hark, de Dario Argento... e de Brian De Palma. Mas se em Godard temos a polivalência, em Hitchcock o catolicismo, em Argento o excesso operístico, em Hark a arte schizo e em Kiarostami a contenção, qual característica pode-se atribuir a De Palma? Não, com certeza não será o maneirismo que tantos lhe acusam de exibir. A técnica brilhante – sim, qual o problema? – revela antes de qualquer outra coisa um formalista interessado na análise, na revisão e na reflexão do correr das imagens, do qual seu cinema e todo o cinema que lhe interessa é altamente dependente. Por enquanto, porém, faz-se melhor permanecer naquilo que tange sua notável habilidade como encenador; em outras palavras, o estilo De Palma que incomoda tantos.

Na técnica, o olhar
Já de início nota-se o domínio assustador da gramática cinematográfica no cinema de De Palma: a beleza nas composições, que dão conta de um close-up da mesma maneira que o mais amplo dos planos; a leveza nos movimentos da steadycam; uma certeza que impinge cada movimento, cada quadro, cada plano; e, finalmente, aqueles longos movimentos realizados pela câmera, seja através do uso do travelling ou da grua, onde De Palma passa lentamente por um sem-número de pessoas, de objetos e de ambiências diversas. A capacidade do diretor de tirar do vasto repertório de imagens com o qual costuma trabalhar apenas aquilo que lhe é essencial faz primeiros trabalhos como O Que Andam Fazendo com Nossas Mulheres? e Hi, Mom! – momentos onde sua técnica se apresenta mais rude e, talvez, mais primitiva – mostrarem propósitos que o autor retoma em filmes de maior arrojo como Um Tiro na Noite e Dublê de Corpo (a saber, as relações entre o olhar e o objeto olhado, os jogos de aparências que tomam forma via encenações intrincadíssimas e improváveis). Os aparatos de registro de imagem – câmeras de vídeo, máquinas fotográficas, óculos ou até mesmo simples olhares ocultos – estão sempre envolvidos em algum tipo de joguete de simulacro e manipulação (o artifício da encenação tão caro a De Palma).

Os Mil Olhos do Sr. De Palma
Existe algo que De Palma quer fazer, e ele o faz com a aplicação de um pupilo muito impressionado pelo que viu de seus mentores (não precisamos de joguinhos aqui: Hitchcock em especial, mas também Orson Welles, Jean-Luc Godard e Georges Méliès). Os empregos de modelos e princípios que lhe interessam sempre parecem se adequar bastante bem ao tipo de cinema narrativo que vem realizando, mas ainda assim permanece qualquer coisa que incomoda mesmo alguns dos apreciadores de seu cinema. O que? A busca do cineasta por um incessante questionamento de tudo aquilo que é mostrado ao espectador. Para tanto, uma "imagem de base" é fornecida, seja na forma de um plano, uma seqüência, uma cena ou um personagem. Esta imagem põe diante do espectador um máximo de signos e dispositivos de narração. Algumas informações são ocultadas, outras são evidenciadas ao ponto do exagero. O filme nada mais é do que uma análise absurdamente detalhada desta "imagem de base", justamente a imagem que na maioria das vezes inicia os filmes do diretor. Em O Pagamento Final, Carlito Brigante recebe um tiro, cai nos braços de sua amada Gail e é levado por uma maca. Começa a nos falar como num relato, retomando todo o percurso que traçou antes deste momento. É a partir desta narração, também a narração de De Palma, que teremos a "imagem de base" desenredada: todos os signos terão ao final – que nada mais é que o replay de toda a ação que se dá nos primeiros minutos do filme – significações que não lhes eram próprias em um primeiro momento. Podemos citar Pecados de Guerra como exemplo idêntico de estrutura, além de outros filmes que não utilizam do formato flashback mas que também mostram projetos equivalentes de narrações que se constróem a partir de uma imagem que encerra o tema e/ou o assunto do filme, como são os casos de Um Tiro na Noite, Olhos de Serpente, Carrie – A Estranha, Scarface e Síndrome de Caim.

Uma história de cinema
Pois é, Brian De Palma gosta de cinema. Algo estranho para quem realiza filmes, a se julgar por todas as acusações que vem recebendo desde seus primeiros trabalhos. O fato de que o que vemos nos seus filmes é muito menos um agrupamento de citações aleatórias que a estruturação de uma visão muito específica e pessoal sobre um certo tipo de cinema parece incomodar muito pouco seus preguiçosos detratores. Bem verdade, existe certo exibicionismo nos retornos a Hitchcock, a Godard, a Welles. Mas a apropriação de modelos já estabelecidos pelos mestres da imagem e som atende uma necessidade interna na obra de De Palma: a de se olhar algo já feito para que um processo de criação outro (o de De Palma, o dos seus protagonistas) se inicie. Seus filmes nada mais são do que espelhos deste processo de produção, e seu universo, repleto de voyeurs e investigadores, só pode se tornar concreto se o próprio De Palma toma uma "imagem de base" (de outros filmes que não os seus, ou mesmo dos seus filmes) para desencadear uma narrativa que lhe interesse. Portanto...

2. Seu cinema precisa ser revisto
A primeira seqüência de Um Tiro na Noite mostra-se emblemática no que permite compreender todo o processo depalmiano: assistimos a um filme slasher típico da década de 80. O assassino observa as ações de diversas mulheres num dormitório para estudantes antes de entrar em um banheiro. Segurando uma faca, dirige-se ao único chuveiro onde alguém toma banho (obviamente uma bela loira). O assassino recolhe a cortina de plástico que oculta o chuveiro, ergue a faca e aproxima-se da sua vítima lentamente quando esta percebe sua presença e lança um grito... absoluta e completamente desafinado. Corte, recorte: uma sala de cinema, onde o diretor e o sonoplasta do filme assistem à fita. O diretor grita um "Kill it!", apavorado com a péssima qualidade do grito, e discutirá com o sonoplasta sobre a péssima qualidade dos efeitos sonoros e sobre uma possibilidade de dublar o tal grito. É da busca do sonoplasta por um outro grito – um grito falso, portanto – que De Palma tira um inventário das suas próprias obsessões: filmes amadores, problematização da imagem e som nos mesmos moldes do Antonioni de Blowup e do Dario Argento de Prelúdio Para Matar e Suspiria, a fascinação por todo o aparato técnico próprio do cinema, o estudo do processo de captação de imagens e a junção destas com seus respectivos sons, e o tema da morte como destino único, invariável e inevitável. Sim, um cinema de retorno à imagem essencial, à imagem fundamento. Mas afinal, tudo isso para quê? Uma resposta do público, aquela que mais interessa a De Palma: o abandono de uma condição espectatorial molenga a que muitos já estão acostumados e a conseqüente conquista de uma relação com a imagem baseada no estudo e no questionamento. Em outras palavras, a passagem do espectador de mero voyeur a investigador.

Uma história de imagens / A ilusão 24 quadros por segundo
No interesse de De Palma por uma outra trama que se constituirá paralela à trama principal do filme – a farsa na qual seus protagonistas são invariavelmente engodados – já se percebe sua curiosidade pela duplicidade das formas. O seu universo é repleto de tipos já perpetuados pelo cinema: os gangsters (Carlito Brigante, Tony Montana), os tiras bons (Eliot Ness), os tiras maus (detetive Marino), os tiras bons e maus (comandante Kevin Dunne, Rick Santoro), os castrados (o soldado Eriksson, Jack Terry, Ethan Hunt), os transexuais (doutor Robert Elliott, Carter na sua encarnação Margo), as femme fatales (Laure Ash, Julia Costello, Kate Miller), os traídos (Carlito Brigante, Carter, Ethan Hunt, Rick Santoro), os traidores (Dave Kleinfeld, Cain, Jim Phelps, comandante Kevin Dunne). Mas para que retomar essas figuras se não por uma impostura, uma incapacidade de criar personagens com um mínimo de verossimilhança? O que De Palma faz, e poucos lhe dão o devido valor por isso, é jogar uma outra luz, deixar brotar uma ambigüidade que poucas vezes foi ofertada a estes personagens. Imagens que nos fazem pensar em outras imagens, personagens que nos fazem pensar em imagens, duplos que não correspondem às suas origens, tempos dilatados que não correspondem aos seus espaços, espaços exagerados que insistem em apresentar simetrias e informações visuais de toda a espécie: aqui temos um raciocínio de imagens,através das imagens, que tem a imagem como ponto de partida e outra imagem como finalidade.

Brain De Palma
O cérebro que engendra e que opera todo o excesso de e das imagens, através das imagens. A multiplicação dos pontos de vista, daquilo que vários olhares registram de uma cena, das possibilidades oferecidas por todos os tipos de aparatos de registro de imagem (vídeo ou película, binóculos ou telescópios, e até mesmo nossos olhos, vejam só); apenas de uma loucura analítica, de um estágio onde não mais se sabe o que é real ou ilusório, revelado ou ocultado, é que se pode tirar alguma conclusão do objeto que se toma como referência. Todos os pontos de vista são incompletos e todos revelam alguma informação vital. A composição criada pelo fotógrafo Nicolas Bardo em Femme Fatale, no entanto, esclarece tudo isso que pode parecer confuso e/ou excessivo ao nos debatermos em um primeiro momento com a obra de Brian De Palma: o que importa não são as imagens mas os joguetes de pontos de vista, a maneira que se agrupa e organiza todas as informações que compõe uma imagem, a operação lógica que leva a tudo isso. Finalmente, podemos dizer que é aquilo que existe entre as imagens – aquilo que comprova que um filme é uma operação que nos leva do fragmento à totalidade, da "imagem de base" a uma "imagem síntese" – o material de todo o cinema que realiza Brian De Palma.

Disponível em: http://www.contracampo.com.br/47/depalmaldito.htm

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Cineclube do Atalante: Dublê de Corpo



O fracassado e claustrofóbico ator de filmes B, Jake Scully, acaba recebendo uma proposta irrecusável: ficar no belo apartamento de um amigo seu enquanto procura lugar para ficar. No novo lar, ele presencia estranhos acontecimentos com uma vizinha, passa a persegui-la e a querer ajudá-la, mas não desconfia do perigo à espreita. 


(Body Double: EUA, 1984 - 114 min. Com:  Craig Wasson, Melanie Griffith , Deborah Shelton. 16 anos.)

Serviço:
Sábado, 17 de novembro
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Cineclube do Atalante: Programação de novembro

11/11 (domingo): Palombella Rossa, de Nanni Moretti


(Palombella Rossa: ITA, 1989 - 83 min. Com: Nanni Moretti, Asia Argento, Silvio Orlando. 12 anos)

O filme desenrola-se a partir da amnésia pós-traumática de um conhecido jogador de polo aquático e importante dirigente do Partido Comunista na Itália (imagem biográfica do jovem Nanni Moretti). É num campo de polo aquático que o personagem da história, Michele, tenta reposicionar-se de novo no mundo, num sucessivo aparecimento de fragmentos de memória e personagens que o atormentam ao longo da narrativa.

17/11 (sábado): Dublê de corpo, de Brian De Palma


(Body Double: EUA, 1984 - 114 min. Com:  Craig Wasson, Melanie Griffith , Deborah Shelton. 16 anos.)

O fracassado e claustrofóbico ator de filmes B, Jake Scully, acaba recebendo uma proposta irrecusável: ficar no belo apartamento de um amigo seu enquanto procura lugar para ficar. No novo lar, ele presencia estranhos acontecimentos com uma vizinha, passa a persegui-la e a querer ajudá-la, mas não desconfia do perigo à espreita.

Serviço:

Sessões no domingo 11/11 (excepcionalmente) e no sábado 17/11.
16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

domingo, 24 de junho de 2018

O classicismo de Brian De Palma


"Eu essencialmente não acredito em deixar o bem triunfar ou basicamente resolver as coisas, porque eu acho que nós vivemos numa era em que as coisas não se resolvem e eventos terríveis acontecem e você nunca se esquece deles."

por Matheus Cartaxo

Um travelling lateral, em câmera lenta, mostra muitas garotas, em sua maioria nuas, no vestiário feminino de um colégio. Na banda sonora os acordes também lentos da música de Pino Donaggio, ao mesmo tempo em que se contrapõem à agitação delas, coadunam-se à harmonia de que parecem desfrutar, bem como à despreocupação que uma das meninas deixa transparecer ao ser vista ensaboando-se de olhos fechados sob um chuveiro. De repente, num close de sua coxa, sangue começa a escorrer. Quando ela abre os olhos e repara no vermelho cobrindo seus dedos, espanta-se e corre, implorando por ajuda, para o meio das outras garotas, que já se encontram vestidas. Percebendo que ela não sabe o que se passa, as demais a cercam e, entre risadas, atiram-lhe absorventes enquanto ela é mostrada em pânico, em vários contraplanos, acuada contra a parede. Em poucos minutos o tom da cena mudou radicalmente: a harmonia do primeiro momento foi substituída pelo caos; a continuidade do travelling deu vez aos cortes abruptos na montagem; os acordes da música, aos gritos das meninas; a nudez generalizada, aos corpos cobertos, com exceção do daquela garota, que agora se envergonha do seu.

A sequência da primeira menstruação de Carrie no filme que leva o nome dessa personagem, além de ser uma das mais famosas da obra de Brian De Palma, é uma das mais representativas. A perda da inocência ali simbolizada é análoga ao que se sucede com o agente Ethan Hunt de Missão Impossível (Mission: Impossible, 1996), o policial Eliot Ness de Os Intocáveis (The Untouchables, 1987), ou os soldados Eriksson e Lawyer McCoy de Pecados de Guerra (Casualties of War, 1989) e Guerra Sem Cortes (Redacted, 2007), respectivamente. Todos eles, a princípio mais ou menos ajustados às circunstâncias em que vivem, veem-se subitamente lançados e implicados em mundos onde imperam a violência, as traições, as guerras, os complôs, como aquele onde Carrie passa a habitar a partir da sua queda do Paraíso, à qual se segue o seu “batismo” no Inferno – o mundo dos adultos. Primeiro, ela será uma vítima. Mais tarde, quando se vinga de uma grande humilhação que sofre no baile de formatura do colégio, ela se tornará a algoz dos seus algozes. Carrie, assim, se igualará a outras personagens de De Palma, como Jack Terry de Um Tiro na Noite (Blow Out, 1981), Rick Santoro de Olhos de Serpente (Snake Eyes, 1998) ou Tony Montana de Scarface (1983), que alimentam as engrenagens dos mundos corrompidos em que estão inseridos, agindo de modo a dar continuidade aos intermináveis ciclos que a todos aprisionam.

Em entrevista, De Palma afirma:

Eu essencialmente não acredito em deixar o bem triunfar ou basicamente resolver as coisas, porque eu acho que nós vivemos numa era em que as coisas não se resolvem e eventos terríveis acontecem e você nunca se esquece deles.

A percepção do cineasta está de acordo com o que notamos na maioria dos seus filmes. Ao término deles, há uma tendência à manutenção dos mundos nos quais eles transcorrem tal como esses foram apresentados no início das jornadas. Ao fim de Um Tiro na Noite, a sociedade permanece alheia à conspiração a qual o protagonista fracassa em revelar; em Olhos de Serpente o cassino onde se passa o filme, antro de crimes e disputas por poder, aparece sendo reconstruído mesmo após ter tido uma parte sua destruída; em Carrie (1976), embora a personagem morra, ela volta atormentando os sonhos dos sobreviventes do massacre que provocou na escola. A estrutura circular das narrativas de De Palma faz parecer que nos seus filmes nenhuma transformação acontece, nada de novo pode surgir. Dessa forma, o Paraíso não passa de uma miragem, um papel de parede, como é dado a ver numa cena de Scarface, porque aqueles que lá se encontram, como Tony Montana, precisaram abandonar toda esperança.

A coerência formal e temática que De Palma cultiva desde os seus primeiros trabalhos na indústria de Hollywood torna necessário o esforço de compreender as aparentes exceções às regras. Em 1993, o diretor de Scarface e Os Intocáveis realizou O Pagamento Final (Carlito’s Way, 1993), filme no qual ele retorna ao mundo do crime organizado para contar a história de um gângster da “velha guarda” que, todavia, pretende deixar para trás as ruas corrompidas de uma Nova York dos anos 1970 a fim de reiniciar a vida nas Bahamas, ao lado da mulher que ama. No entanto, se o seu desejo é realmente alcançar esse Paraíso, Carlito Brigante, recém-saído da prisão – um símbolo do Inferno –, precisará provar que é merecedor daquilo, empenhando-se em conquistar o seu lugar lá. Em outras palavras: ele precisará mudar a si mesmo e resistir às tentações que lhe são feitas pelo mundo ao qual ele retorna, o qual parece forçá-lo a continuar sendo o mesmo do passado. O sucesso dessa jornada dependerá, finalmente, da maneira como Carlito agirá em função de dois polos que exercem atração sobre ele, um que tenta arrastá-lo para baixo e outro para o alto, os quais são representados, respectivamente, pelas figuras do seu advogado e amigo David Kleinfeld, e de Gail, sua namorada.

Kleinfeld é um típico personagem depalmiano: violento, corrupto, viciado, egocêntrico, megalomaníaco, explosivo, capaz de arrastar todos à sua volta consigo para o caos. Gail, em contrapartida, é a ordem que Carlito almeja em sua vida. Nesse sentido, é representativa a cena em que, a fim de contemplá-la à distância, Carlito sobe ao topo de um prédio localizado no lado oposto daquele onde Gail participa de uma aula de balé. Para proteger-se de uma forte chuva, ele usa uma tampa de lixo, encaminhando-se com tal objeto sobre a cabeça para a beirada do prédio. No plano em que o vemos, é marcante a escuridão da noite, a chuva forte; no contraplano em que Gail é vista, existe a luminosidade da sala de aula, o ambiente controlado, protegido. As bailarinas em meio às quais ela se encontra dão piruetas e passam seus braços em arcos sobre as próprias cabeças, formando no ar simultaneamente auréolas e asas de anjos de um coro celestial. Em oposição, Carlito permanece se cobrindo com a tampa de lixo, espécie de auréola degradada de um anjo caído, saudoso ao enxergar diante de si, na distância entre os dois prédios, o abismo que o separa do Paraíso a ser reconquistado.

O ponto de inflexão na trajetória do protagonista de O Pagamento Final é a descoberta de que Gail está grávida de um filho seu. Como sugere a mise en scène da cena da aula de balé, Carlito é como um cão vira-lata, em trânsito por diferentes lugares ao longo do filme, mas nunca em algum que de fato lhe pertença, como a sua casa, embora seja esse o seu desejo. A descoberta de que será pai acelera a necessidade de ele possuir um lar – como, afinal, aquela sala de aula, aquecida, acolhedora e segura. Além disso, a chegada desse novo indivíduo permite a Carlito sair de si mesmo, abrir-se à realidade do outro, afastando-se de vez da galeria de personagens autocentrados e ensimesmados do cineasta, na qual se encontram o seu antagonista David Kleinfeld, além de Rick Santoro, Jack Terry ou Tony Montana. Diferente de outros filmes de De Palma, em O Pagamento Finalexiste, pois, possibilidade de haver transformações. Isso se torna evidente quando, na última cena, à beira da morte, Carlito enxerga diante de si um anúncio publicitário parecido com o papel de parede de Scarface: vemos uma paisagem de praia acrescida de uma banda de percussionistas e uma mulher que dança. À medida que um movimento de zoom faz essa imagem preencher toda a tela, porém, ela abandona a fixidez e adquire movimento. Aquela mulher, devido aos seus movimentos de dança, aparenta-se a Gail, a quem se junta, em seguida, uma criança a qual ela segura nos braços – o filho do casal. Embora o plano de viajar para as Bahamas tenha fracassado, Carlito conseguiu re-hierarquizar seus princípios de modo a alterar os rumos da sua história, injetando nela o Novo, simbolizado pelo filho que ele verá crescer de longe. O anjo caído, enfim, perdeu o mundo, mas ganhou sua alma; o maneirismo pelo qual De Palma é reconhecido passa por um processo análogo, ascendendo a um classicismo que antes parecia fora do seu horizonte. Para além do seu tema, portanto, a conclusão de O Pagamento Final destoa do habitual na obra de De Palma pelo motivo de que ali o cineasta, afeito a rebuscadas operações formais com as imagens (cf. Trágica Obsessão, Vestida Para Matar, Dublê de Corpo), opta por colocar em cena de maneira frontal, qual o canto rasgado de Joe Cocker que ouvimos nestes créditos finais, o drama da personagem. Basta-lhe um plano fixo de uma paisagem bidimensional, composta de formas e cores simples, quase abstratas, as quais expressam, talvez pela primeira vez na sua obra, uma pureza ainda não aviltada.

Em 2000, com Missão: Marte (Mission to Mars), De Palma levou ao paroxismo os temas e a frontalidade que marcam a conclusão de O Pagamento Final. Como consequência, o filme gerou estranheza na crítica que, à altura do lançamento, buscou identificar o pouco que ele tinha em comum com outros trabalhos de De Palma ou, simplesmente, o considerou como um ponto fora da curva na sua filmografia, o seu projeto mais impessoal, o qual, por isso, não seria digno de atenção. Em Missão: Marte, um grupo de astronautas vai a outro planeta a fim de resgatar os possíveis sobreviventes de uma equipe envolvida em um acidente. Como o título sugere, a história se passa fora do tradicional mundo corrompido do cineasta, repleto de crimes, conspirações e assassinatos. A esperança, ausente ou rara nos seus filmes, é trazida agora para o centro da história, guiando as personagens na busca pelos amigos desaparecidos. Da mesma forma, se o comum em De Palma sempre foi personagens fechadas em si mesmas, tudo em Missão: Marte é abertura, partilha e, no limite, sacrifício, com os astronautas sendo capazes de dar a própria vida pela dos seus pares e a continuidade da missão.

A crítica não percebeu que, justamente por se localizar nas antípodas de tudo o que De Palma fizera até o momento, Missão: Marte complementava o sentido da sua obra, servindo como a peça faltante no quebra-cabeça que ao longo de décadas o cineasta vinha construindo. Numa filmografia marcada pela perda da inocência, como é representado na cena do vestiário feminino de CarrieMissão: Marte é uma exceção principalmente por incorporar a presença constante da infância. A chegada do filho de Carlito Brigante em O Pagamento Final permitiu ao ex-gânsgter abrir-se a sentimentos dos quais ele permanecera distante, fazendo com que, nos últimos segundos de vida, ele atravessasse um portal que o levou a um cenário idílico, onde tudo parece retornar a um estágio inicial de pureza. Em Missão: Marte, contudo, os astronautas estão, desde o início, imersos nessa realidade que Carlito, com muito empenho, conseguiu alcançar. A fim de simbolizar isso, De Palma, na sequência de abertura do filme, que se passa na festa de despedida daqueles que logo viajarão para o planeta vermelho, povoa a tela com crianças brincando. Em seguida três dos astronautas conversam, recordando o prazer que tinham em ler livros de ficção-científica. Um deles, inclusive, mostra o colar que carrega desde criança, cujo pingente é uma miniatura da nave do herói Flash Gordon. Esses astronautas parecem em constante contato com os sonhos que possuíam no passado, e o filme, por consequência, se tornará a arena onde esses se realizam.

No clímax de Missão: Marte os astronautas travam contato com um ser alienígena que, como um deles percebe, estende um convite para que todos se unam a fim de se aventurar pelo espaço na exploração dos segredos do universo. Surpreendendo os demais, Jim, o mais arguto do grupo afirma que seguirá nessa viagem. Ele recebe então de presente o colar com a nave de Flash Gordon que pertencia ao seu amigo e reconhece, aninhadas nela, as suas próprias motivações, as quais o levam, naquele momento, a embarcar numa jornada rumo a tudo o que desconhece. Neste momento, o filme chega ao seu ápice: ao embarcar na nave dos marcianos, ele entra numa cápsula onde um líquido o cobre dos pés à cabeça, porém sem sufocá-lo. A temática da infância que se desenvolvia desde o início atinge o ponto máximo nessa analogia entre o que se passa com Jim e um bebê no ventre materno, para quem o mundo ainda é um magma de potências. Como em O Pagamento Final, em que De Palma mostrava em planos-contraplanos os olhos de Carlito e a sua visão do Paraíso, aqui vemos o rosto de Jim e o que ele enxerga: não uma única imagem, mas flashes muito breves de toda a sua vida, dos seus amigos e da sua esposa, dos vivos e dos mortos, todos reunidos num fluxo de imagens difícil de ser assimilado porque disparado à queima-roupa. As imagens surgem na tela no tempo necessário apenas para marcá-la com alguns sentimentos, como aquele provocado ao vermos um casal posando para uma foto na lua de mel ou uma criança que sorri ao ganhar um telescópio no dia de Natal.

A regra em De Palma era a repetição, a condenação ao Mesmo. Em Missão: Marte, tudo é mudança e cada acontecimento, seja um reencontro, uma despedida ou uma morte trágica, desdobram-se em novas circunstâncias às quais é preciso se adaptar a fim de desbravá-las, até o momento em que novas transformações aconteçam. Os astronautas do filme aceitam o que lhes é dado a viver, sem cair nas tentações de controlar os demais à sua volta ou de ter o mundo aos seus pés. Se a realidade não deixa de fasciná-los, oferecendo infinitas possibilidades as quais os impelem a seguir adiante, é porque, ao invés de agirem com soberba, subindo nos próprios ombros, eles preferiram retornar à infância, apequenando-se para que tudo em volta pareça maior.

M
atheus Cartaxo é editor e redator da Foco – Revista de Cinema e mestre em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.

Texto originalmente publicado em https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/foco-o-classicismo-de-brian-de-palma/