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quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Cineclube do Atalante: Ópera

O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Dario Argento. Entrada franca, sempre.



ÓPERA
Dirigido por Dario Argento.

(Opera, Itália, 1987, suspense/terror, 107 min., 16 anos)
Com Cristina Marsillach, Urbano Barberini, Daria Nicolodi.

Uma suposta maldição persegue a montagem da ópera "Macbeth", de Verdi. Reforçando a lenda, a apresentação do espetáculo no Teatro Scala de Milão inclui corvos que aparecem degolados, operários assassinados e acidentes bizarros, como holofotes que caem na platéia. Tudo parece girar em torno da soprano Betty, que tornou-se alvo de um perigoso psicopata mascarado capaz de tudo para tê-la.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Ópera” (1987), de Dario Argento
Sábado, 25/11
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Cineclube do Atalante: Phenomena

O Cineclube do Atalante na Cinemateca de Curitiba exibe neste sábado um filme de Dario Argento. Entrada franca, sempre.

PHENOMENA
Dirigido por Dario Argento.

(Phenomena, Itália/Suíça, 1985, suspense/terror, 115 min., 16 anos)
Com Jennifer Connelly, Daria Nicolodi, Donald Pleasence.

Uma jovem, com uma incrível habilidade de se comunicar com insetos, é transferida para um internato exclusivo na Suíça, onde sua capacidade incomum pode ajudar a solucionar uma série de assassinatos.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
“Phenomena” (1985), de Dario Argento
Sábado, 18/11
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 12 de março de 2020

Cineclube do Atalante: Prelúdio para Matar

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe Prelúdio para Matar, de Dario Argento.



O pianista inglês Marcus Daly, testemunha o brutal assassinato de uma famosa médium, mas não consegue identificar o criminoso. Ele se une à repórter Gianna Brezzi e decide investigar o caso, mergulhando num submundo perigoso, onde cada passo pode ser fatal, sempre observado pelo assassino desconhecido. Dirigido por Dario Argento.

(Profondo Rosso, Itália, 1975, 127 min. Com David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia. Recomendado para maiores de 14 anos). 

Serviço: 
Cineclube do Atalante: Prelúdio para Matar 
Sábado, 14 de março 
Às 16h Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba. 

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Prelúdio para matar, de Dario Argento


Profondo Rosso, Itália, 1975

Eu sonho em vermelho. Meus pesadelos são banhados em vermelho... Vermelho é a cor da paixão, do prazer. Vermelho é a cor das viagens pelas profundezas escondidas do subconsciente. Mas acima de tudo: vermelho é a cor da raiva... e da violência.
Dario Argento
Uma imagem - uma apenas - interromperá os créditos de Prelúdio Para Matar: um plano de uma sala, com a câmera baixa enquadrando uma mesa, duas cadeiras, um abajur, a vitrola de onde sai uma melodia infantil e uma árvore de natal. Surgem duas sombras na parede, uma esfaqueando a outra. Escuta-se um berro. A sombra esfaqueada cai no chão, fora do plano. Dois pés calçados com pequenos sapatinhos - aparentemente uma criança - invadem o extremo direito do quadro. Uma faca suja de sangue é jogada à frente dos sapatinhos, e o plano se encerra nesta composição. Uma imagem. Voltamos aos créditos, novamente com a trilha dos Goblin.
Na cena seguinte estamos num conservatório musical. O CinemaScope voa por pilares e colunas, com todas as suas nuances utilizadas para chamar a atenção do espectador nestes primeiros planos para a cenografia, rústica e de moldes clássicos. Após uma pequena movimentação de grua na qual a câmera desce da direita para a esquerda, o grupo que está tocando a música a qual escutamos é reenquadrado. O inglês Marcus Daly (David Hemmings), professor de jazz, está no meio de sua aula. O jazz que está sendo tocado, por sua vez, parece remontar o trabalho de Ennio Morricone para outro filme de Argento, O Gato de Nove Caudas, no aspecto bastante tradicional de sua execução. Marcus interrompe seus alunos, não está satisfeito, diz que existe algo de errado, que seus alunos estão tocando muito bem, de maneira muito cuidadosa, formal, mas que esta música precisa ser "suja"; em outras palavras, que a beleza do tipo de música que estavam tocando reside justamente no que possui de grosseiro, inacabado, por conta em boa parte de ter nascido em bordéis e do apelo popular que possui. Esta é a primeira cena em que Argento estabelece regras pelas quais Prelúdio Para Matar se desenvolverá: o horror, o que existe de belo nele, é justamente aquilo que há de violento, de rude, do susto mais vagabundo ao assassinato mais sangrento, e é assim que devem ser os filmes do gênero segundo professor Dario.
Helga Ulman (Macha Méril) está prestes a realizar uma apresentação de seus poderes psíquicos no "Congresso Europeu de Parapsicologia". A dançante dolly de Argento nos encaminha pelos corredores do local onde as palestras estão ocorrendo, atravessando a cortina de entrada para o palco onde em poucos instantes sucederá uma apresentação. Esta cena obtém o trunfo de unir a beleza da mise en scène de Argento a uma praticidade raramente presente no seu trabalho, compondo um plano de apresentação e exploração do ambiente onde se passará a seqüência que inicia a narrativa de Prelúdio ao mesmo tempo em que serve ao jogo simbólico do diretor. No momento em que a câmera atravessa a cortina vermelha (o Rosso do título original) o espectador vê - através do uso da câmera subjetiva, sempre usada à perfeição por Argento - uma quase que exata reprodução do que poderia muito bem ser uma sala de cinema ou um teatro de ópera (com poltronas, espectadores e uma atração), e logo depois um zoom nos aproximará ao palco onde à frente de gigantescas cortinas vermelhas (novamente o Rosso) se encontram os professores Giordani (Glauco Mauri) e Bardi (Piero Mazzinghi) e a conferencista Helga. Argento chama a atenção do espectador para sua condição participativa nesta cena (nós "entramos" com a câmera e nos "unimos" ao público presente na palestra) ao mesmo tempo em que parece querer nos mostrar, com o uso bastante consciente de "vermelhos profundos", que algo importante está para acontecer.
O professor Giordani falará dos progressos e recentes descobertas sobre paranormalidade e tocará rapidamente no assunto da comunicação entre insetos (um tema que retorna em Phenomena) antes de introduzir a sensitiva lituana que reside a pouco tempo em Roma. É neste momento e não antes que Argento mostra o que para ele seria a função da câmera e como esta se relaciona com seu projeto cinematográfico: a médium avisa de imediato que suas capacidades nada têm a ver com "mágica, o esotérico ou previsão de futuro" e que consegue apenas e tão-somente pressentir pensamentos no instante em que se formam e jamais aqueles que estão por vir. Esta cena é filmada com os personagens de Giordani, Bardi e Helga de costas para a câmera - os dois homens ocupando cada extremo do widescreen e apenas ela ao centro - de tal maneira que podemos nos ver redimensionados no público comparecente à palestra, pela primeira vez plenamente emoldurado num plano. No momento em que a paranormal começa a descrever suas aptidões um zoom nos aproxima de seu cabelo loiro, abandonando os outros dois especialistas presentes e culminando num maravilhoso painel simbólico onde seu crânio - servindo para Argento como a câmera cinematográfica o serve, ou seja, detendo e registrando apenas o que sucede no momento, no instante, a evidência do presente quepode ser a sombra de um passado - é posto em oposição ao teatro onde ocorre a conferência - que remonta por sua vez o cinema do quadro New York Movie mas também uma casa de ópera, reflexo dos interesses estéticos de Argento transformados aqui em espaço cênico e material. O que segue é o primeiro momento em que um retorno abrupto de eventos passados é acontecimento motivador dos desequilíbrios e dos distúrbios que permeiam e redefinem as narrativas de todos os filmes de Argento: algo invade grosseiramente a percepção de Helga durante a demonstração de seus poderes, uma presença que transmite "pensamentos pervertidos, assassinos", obviamente alguém da platéia que, segundo a médium, "Já matou... E matará de novo". Bardi passa um copo d'água para acalmar a alterada Helga enquanto ela discorre sobre uma cantiga infantil numa casa, uma morte e a presença de sangue - "nosso sangue". Neste momento uma pessoa se levanta (sabemos disso novamente através do uso da subjetiva) e abandona a palestra enquanto é repetida a frase "Esquecer... para sempre" pela sensitiva.
Após o fim da palestra Helga fala a Giordani um pouco sobre os pensamentos que irromperam sua mente, "ao mesmo tempo cruéis e infantis". Fala também que não pôde expressar todas as sensações que a afetaram naquela hora, mas que sabe quem é o assassino. Pouco após descobrirmos que este ainda se encontra no local da palestra (novamente denunciado pelo uso da câmera subjetiva) e que escondido escuta a conversa entre a médium e o professor, Argento nos brinda com uma das mais belas cenas de sua carreira: num formidável plano-seqüência passeamos por cima e pelos lados de bolinhas de gude, desenhos infantis sobre assassinatos, um boneco de pano vermelho espetado por diversas agulhas e outros brinquedos bizarros até o momento em que Argento mobiliza sua câmera para culminar em duas facas, seguindo este último percurso de seu plano com o corte para um superclose dos olhos do assassino sendo pintados. Esta seqüência dá o tom que distancia Prelúdio Para Matar dos primeiros trabalhos de Argento, pois elementos como a câmera acrobática (O Pássaro das Plumas de Cristal), a obsessão pelo corte repentino (O Gato de Nove Caudas, onde há também o uso de closes dos olhos do assassino) e a trilha sonora rock'n'roll (Quatro Moscas no Veludo Cinza) só serão utilizados e unificados para fins bastante específicos à empreitada do diretor aqui. Se há uma palavra capaz de descrever a função que Prelúdio Para Matar teve à sua época na obra de Argento, esta seria "depuração".
Das três propostas de início para o filme - a primeira imagem que surge ainda durante os créditos; a apresentação de Marcus e a sugestão de uma diferente proposta de música aos seus alunos; e a longa seqüência no "Congresso Europeu de Parapsicologia" - apenas duas serão desenvolvidas no plano narrativo. Argento abandona rapidamente a auto-reflexão de sua obra que a cena no conservatório musical dá a impressão de sugerir, preferindo desenvolver na abordagem e nas inovações de sua direção este aspecto que, como o tema da comunicação entre insetos, será plenamente trabalhado em outro filme (Tenebre). O enredo será portanto resultado do choque entre a primeira cena e a reação de Helga ao tê-la "transmitida" à sua mente, descobrindo quem é o assassino e trazendo ao filme este relevo, o surgimento de algo que já estava enterrado e "esquecido para sempre". A fatalidade é que este "algo" foi fatal o bastante para uma primeira vítima e assim o será para a médium, assassinada a machadadas no mesmo momento em que o pianista Marcus, seu vizinho, testemunha o acontecimento.
É na troca de protagonistas que terá início uma investigação, verdadeira raison d'être da obra de Argento, e apesar de várias e constantes alusões a Hitchcock certamente a referência fundamental aqui é Antonioni. Se existem ecos de Marnie - Confissões de uma Ladra nos traumas psicanalíticos que invadem de quando em quando a narrativa, Psicose no desaparecimento de Helga que nos deixa como protagonista Marcus e Festim Diabólicona presença de um cadáver escondido cuja presença é importantíssima à trama, é Blowup que figura de maneira intensa na investigação realizada pelo pianista com a ajuda da repórter Gianna Brezzi (Daria Nicolodi). Com a certeza que presenciou algo quando atravessou o corredor que conduz ao quarto de Helga que pode ou não ter importância às suas inquirições, o pianista terá primeiro que realizar uma série de pesquisas que o levam a uma villa abandonada onde aparentemente um assassinato ocorreu muitos anos antes. Argento leva sua câmera ao imenso casarão e dele explora as imensas potencialidades de seu aspecto fantasmagórico - terreno de Corman e Tourneur, o da "casa mal-assombrada" - e também diversos joguetes de sombras e luzes, sempre belas e de grande impacto. A busca que o protagonista e Argento realizam por fragmentos de um passado, a única alternativa de resposta para os assassinatos, prefigura o momento mais importante desta seqüência (e possivelmente do filme): olhando atentamente a parede de uma das salas da villa, Marcus percebe que há algo pintado por detrásdela. Intrigado, aproxima-se e percebe uma faca banhada em sangue despontando no que obviamente se trata de um desenho pintado numa superfície e ocultado por uma fina e falsa parede. Por ser pequeno o defeito que possibilita ver o diminuto fragmento do desenho, Marcus pega um pedaço de vidro e risca a camada de concreto que o esconde. Argento trabalhará ao mesmo tempo nesta cena suas impressões sobre representação visual e a capacidade de síntese oferecida pela montagem cinematográfica - uma imagem que se revela aos poucos, que é montada aos poucos por Marcus e que ao final é recriada a partir de impressões única e exclusivamente narrativas (tudo o que foi descoberto pelo pianista até o momento). É esta cena, mais do que qualquer outra, que revela como para Argento tudo pode ser cinema, que qualquer discussão sobre crença na imagem (e para crer é necessário questionar) só se torna válida quando desta idéia surge outra, a de crença no mundo, de forma que ambas se tornam intrínseca e inexoravelmente inseparáveis. Como o cineasta aceita este credo com muita força é capaz também de problematizá-lo: pois o pianista descobrirá sim um desenho que muito esclarece sobre o que pode ser o caso que investiga, mas um pedaço do desenho, justamente o mais importante, não lhe será revelado pois o que se afigurou - umoutro desenho - respondeu suas equivocadas impressões.
Se já tivemos muito de Blowup até aqui - e a presença do ator inglês David Hemmings só reforça a impressão de um verdadeiro tributo ao filme de Antonioni -, é apenas na seqüência final que Argento subverte e trespassa seu ponto de partida e molde inicial. A pessoa que segundo o desenho descoberto por Marcus seria o assassino será morta num acidente. Retornando para sua casa após o ocorrido, o pianista se lembra da ocasião em que testemunhou o assassinato de Helga, especificamente de quando passou pelo corredor do apartamento dela. De volta ao cenário do crime, Marcus passa lentamente pelo corredor, desta vez com o olhar distanciado de um investigador, analisando detalhe por detalhe. De imediato a presença de vários quadros presentes nas paredes do corredor chamam a atenção do pianista, mas é um espelho - um espelho posto à frente de um destes quadros - que revelará onde falhou na sua busca: o assassino se encontrava à frente de um destes quadros, seu rosto se misturando com os outros rostos presentes na pintura e refletido no espelho. O aspecto unidimensional do espelho - e uma tela de cinema não se faz muito diferente - não possibilitou ao pianista naquele momento perceber que se tratava do assassino, e será apenas após um processo de reensino do olhar (a investigação para ele, o filme para nós) que Marcus poderá voltar ao ponto inicial (o apartamento de Helga) do percurso que teve de traçar. Capacidade incrível esta de Argento de confundir nossas expectativas sobre o que é e o que deixa de ser cinema a cada cena, a cada quadro.
Obviamente o assassino se encontra no apartamento, pronto para aniquilar o pianista, e é durante sua confissão (sim, há uma confissão) que retornamos à primeira imagem do filme. Apenas com o ressurgimento desta cena - agora com sua função de flashbackesclarecida e especificada - Argento pode dar prosseguimento ao último ato de Prelúdio Para Matar (último ato em todos os seus filmes): a punição do assassino com sua morte, o fim de um passado que não pode e não tem como resistir ao presente. Após atingir Marcus com uma machadada no ombro, o psicopata leva um chute do pianista e tem seu colar preso ao mecanismo de um elevador pouco antes deste ser acionado e degolá-lo. No "vermelho profundo" do sangue daquele responsável pelas mortes, Marcus observa seu reflexo - ele próprio agora um assassino. Não se sai impune de um filme, lembra Argento, e não deixa de ser também nosso o reflexo contido nesta última cena.

Bruno Andrade

Texto original: http://www.contracampo.com.br/41/profondorosso.htm)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Cineclube Sesi 3 anos: "Profondo Rosso" de Dario Argento

Nesta quinta-feira, dia 23, o Cineclube Sesi exibe  "Profondo Rosso" de Dario Argento,  dando prosseguimento ao ciclo Giallo, que contará ainda com  "Gato Negro" de Lucio Fulci (30/07).
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi 3 anos apresenta:

"Profondo Rosso" de Dario Argento

Uma testemunha de um assassinato se une a um repórter para encontrar o criminoso. Enquanto isso, ocorrem mais crimes e eles percebem que, na verdade, é o assassino que está lhes acompanhando. 

Serviço:
dia 23/07 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Os esqueletos da imagem: o enigma do espaço em Dario Argento

,por Jean-Baptiste Thoret

Característica da estética barroca, o risco de transbordamento – ou mesmo de um estilhaçamento da forma pela matéria- se traduz em Argento por um jogo constante de dissociação entre o contorno e a figura, entre a silhueta e a efígie. Em seus filmes, ambas não coincidem forçosamente, e testemunham um transbordamento do quadro pelas matérias que o constituem. Para além das determinações psicológicas de seus personagens- o que é um esquizofrênico senão a existência de duas personalidades no seio de um mesmo corpo?- , é constante que um mesmo contorno abrigue duas formas ( como neste plano em Tenebrae, onde o assassino se destaca da silhueta do inspetor Giermani: dois corpos no interior de uma mesma silhueta); ou que uma mesma forma preencha diversos contornos ( em Suspiria, Helena Markos, figura refratada em diversos elementos, não compõe uma figura homogênea, apesar da aparição final de um corpo decaído); ou que uma cor escape de sua forma e se transforme numa mancha móbil ( a fuga de Sara em Suspiria, escandida por deslocamentos de manchas luminosas); que uma sombra se desloque sem referente corporal ( a seqüência da piscina em Suspiria). Ou ainda que uma função se torne autônoma e invista momentaneamente o corpo de um personagem: como neste plano de Gabriele Lavia em Inferno que, alguns segundos depois da queda da eletricidade, parece habitado pelo Mal, ou o de Karl Malden em Gato de nove caldas , quando Giovani por um instante o toma pelo assassino, quando ele volta ao mausoléu. Em Suspiria de Profundis, Thomas de Quincey descreve assim as Três Feiticeiras: “Quem são estas irmãs? E o que fazem? Deixem-me descrever suas formas e sua presença; se fossem uma forma, seria a que flutua sem cessar em seu contorno; se fosse uma presença, seria a que sem cessar avança para o primeiro plano, ou recua por entre as sombras”. O movimento avança sempre sobre a forma que o contém: ponto essencial de uma estética que busca desestabilizar o mundo, fazê-lo sair de seus limites. Nos filmes de Argento, não sabemos para onde vai o mundo, porque ignoramos o que o sustenta.
Em Inferno, no entanto, uma seqüência fornece um modelo rigoroso da forma como este procede. Incomodado com a proliferação de gatos em sua loja, o antiquário Kazanian decide uma noite afogar em um lago da cidade alguns gatos que conseguira capturar. A sequência se abre com três planos compostos segundo um mesmo princípio simétrico. Uma linha de horizonte ( uma ponte, bosques) cinde o quadro em duas partes iguais: no alto, uma visão “cartão postal” de buildings nova iorquinos , depois a de um vendedor ambulante embaixo, seu reflexo num lago circundado por vegetação. Imagens de um mundo indissociável de sua dimensão muda e ativa, de sua dobra, em suma. Pois a linha der contato separa menos as duas partes do quadro do que as coloca em relação: entre o moderno e o arcaico, entre o sólido e o líquido, entre o macrocosmo ( a lua) e o microcosmo ( o lago e os ratos), entre a realidade e sua imagem, algo vai circular em segredo, e segundo um processo indiferente às leis da lógica e da causalidade. A composição bipartida do plano ilustra um dos princípios matriciais do cinema de Argento, que estabelece contrastes com o propósito de experimentar a síntese ( figurativa, plástica, cinematográfica), que imagina novas figuras a partir de elementos a priori antitéticos. Uma vez que a configuração da sequência foi estabelecida- dois motivos de quadros que se opõem e se respondem-, uma série de planos precisa a natureza de sua relação: a água dos esgotos da cidade que deságua no lago designa uma dinâmica de troca ( de um termo a outro), enquanto os ratos, símbolos límpidos do contágio, a precisam. A partir daí, cada evento que advenha em uma das metades do quadro vai se atualizar, por contágio, em outra. Paralelamente à morte de Kazanian ( este cai no lago, é devorado pelos ratos, depois assassinado por um vendedor ambulante apercebido no começo da seqüência), uma outra série de planos mostra a progressão de um eclipse lunar, como se este signo de mau agouro se atualizasse na parte inferior do quadro ( lembremos aqui que para Paracelso a lua envenena a água na qual se reflete).
Assistimos então a uma montagem que estabelece entre planos ou elementos do quadro correspondências inéditas ( o afogamento dos gatos desencadeia a morte do astro, que se “realiza” através da morte do personagem). O equilíbrio entre o mundo e sua dobra é rompido em proveito de uma nova lógica, fundada sobre princípios alquímicos, próximos do pesadelo: a indistinção do macrocosmo ( os ciclos lunares e a influência cósmica) e do microcosmo, do corpo e do espírito, da causa e do efeito. O lago, enfim, cheio das sevícias inflingidas por Kazanian aos gatos da cidade, condensa uma energia negativa que se transforma em ação assassina. Este exemplo ilustra também o status particular desta seqüência no cinema de Argento: única por possuir seu próprio modo de funcionamento, a ponto de constituir às vezes um pequeno filme autônomo dotado de uma estrutura a ser decifrada; e um esquema cuja lógica tem de ser respeitada, na medida em que a seqüência também se integra a um conjunto, o filme. A arte do desvio é o fruto deste paradoxo: um desejo constante de escapar do continuum fílmico e o dever, apesar disso, de se relacionar a este ( de s’y raccorder).
Em um artigo, Stéphane Bouquet opunha um cinema do plano a um cinema do fluxo; no primeiro, “um cinema para o qual encenar é desenhar (...), e portanto organizar o inorgânico, o informe, o não-estruturado, para finalmente construir um sentido ou uma emoção”; já o cinema do fluxo é “subordinado a um princípio de desfilamento permanente e contínuo” das imagens, que visaria a “gerar ritmo onde outros geram sentido”. O cinema de Argento se situa precisamente na encruzilhada destas duas concepções, como se portasse em si os traços de um cinema que teria trocado a arte da mise en scène ( da fixação) pela da movimentação ( mise en mouvement). Fixar um plano, ou dizendo de outra maneira, desenhá-lo e regrá-lo, fixar um espectador como se fixa um alvo. Para ele, o combate entre plano ( e tudo o que este supõe: vitória da Razão, da ordem, do discurso) e fluxo ( poder absoluto da sensação e do movimento) não é regrado. É mesmo o equilíbrio entre estas duas formas de considerar a mise en scène que esclarece a natureza de suas imagens e do movimento que as anima. Do plano, este conservou uma relação dialética com o mundo: potências distintas existem e se opõem, por que negá-lo? Do fluxo, seus filmes possuem a presciência: a poderosa vida orgânica das coisas, seus tônus, seu fantasma, não seriam mais capitais que as próprias coisas?
Dario Argento seria então um cineasta da ligação, que tentaria encontrar um ponto de equilíbrio entre a vontade de “por o mundo em compartimentos” ( ou em planos, o que dá no mesmo) e o desejo de se abandonar às potências invisíveis que presidem a seu destino. O “por em relação” ( mise en rapport) nele é um procedimento central: nada se opõe, tudo se comunica, como em um pesadelo- os níveis de realidade e de tempo, os espíritos, as situações, os espaços; basta compreender a natureza da relação que se opera entre eles. Daí a recorrência das passagens, corredores, halls, e de tudo o que permite relacionar em seu cinema. Daí talvez esta sensação de abalo sísmico ( tremblement): o plano vai resistir aos movimentos que o inflam?
Esta dualidade explica a importância dos cenários e particularmente da arquitetura em seus filmes: estilo gótico em Inferno, metafísico e hipperrealista em Profondo rosso, Art Déco e expressionista em Suspiria. Em Suspiria, o assassinato de Daniel, o pianista cego, dá-se no centro de uma grande praça, composta por imensos prédios e colunas maciças. Quando o personagem penetra no lugar, o espaço subitamente se anima: gemidos e ruídos estridentes surgem na trilha sonora, sombras e manchas luminosas desfilam nas fachadas, até que um movimento de câmera- encarregado de reproduzir o ponto de vista ( ou o espírito?) de uma gárgula- fende o ar até o centro da praça. Tudo concorre aqui a movimentar o espaço, a transmitir a sensação de uma atividade espiritual ou orgânica, como se no coração destas estruturas imóveis palpitassem forças vias e desconhecidas, “ a sensação estranha de que neste momento funestas constelações deveriam estar se movendo sob uma camada desconhecida” 1. Se Argento concede tamanha importância à arquitetura, é precisamente porque esta lhe permite jogar com a oposição entre fixidez e movimento, entre o inanimado e o vivo, entre a profundeza e a superfície: o exterior não revela o interior mas o dissimula, o mascara.
O universo parece com efeito submetido a forças subterrâneas que abalam suas fundações, e conduzem às vezes à destruição: Suspiria e Inferno acabam com o incêndio edesmoronamento de redutos maléficos, como o colapso final que evoca a queda da Casa de Usher na novela homônima de Edgar Poe. Para Argento, a verdade do mundo reside em sua dobra: “O mistério dos seres se oculta em sua aparência, ou mais precisamente na tautologia metafísica de sua forma física. Pensar a coisa, tentar captar-lhe o mistério é passar de uma forma para outra, do corpo carnal ao corpo sutil (...): não assumir a evanescência da aparência mas ao contrário levar a aparência à incandescência para transformá-la em representação”. 2 Não há portanto incompatibilidade de natureza entre a essência e a aparência, entre a cena e suas coxias, mas um jogo permanente de troca, de ecos e de relances. O cinema de Argento só visa o mundo sob o horizonte do Grande Segredo que este dissimula: em superfície ( daí a recorrência do trompe l’oeil) como em profundeza ( o uso da plongée), tudo nele parte e chega em uma imagem, em uma forma. É por este motivo que o barroco de seus filmes é um barroco inquieto, sombrio, que não se desdobra para cima mas para as profundezas, tanto espaciais quanto temporais, instâncias pesadas pela presença dos mortos. Os mortos são os cadáveres que ressurgem à superfície ( o corpo putrefato com o qual topa Rose Elliot no começo de Inferno, ou aquele mumificado que Mark Daly descobre em Profondo rosso); ou as camadas do tempo, que os assassinos pensavam enterradas no fundo de sua memória, e que explodem na superfície do tempo presente. Nos filmes de Argento, não cessamos de acertas as contas com os meios originários. “Os mortos vão enfim reencontrar os vivos!”, grita Helena Markos no final de Suspiria. Um ruído de relâmpago, um clamor surdo, gemidos insistentes, tudo concorre para replicar o mundo com um rumor inquietante, ou mórbido. Daí esta impressão permanente de um poder ascendente que se agita sob o plano e ameaça absorvê-lo: uma chuva de vermes que se abate sobre bailarinas ( Suspiria), uma nuvem de insetos que encobre uma casa ( Phenomena), ou camundongos que remontam do subsolo ( Inferno) são signos de um processo de deliquescência e de infiltração. Em Argento, todo plano é ameaçado de fuga pelo mais insignificante de seus recessos, de suas fendas ou de seus interstícios. Todo plano é entreaberto.
Jean-Baptiste Thoret, Dario Argento, mágico do medo, Cahiers du Cinéma Auteurs.

Notas:


1. Giorgio de Chirico, citado por Paolo Baldacci em Chirico, o metafísico, 1888-1919
2. Mylene Buydens, A imagem no espelho.


Tradução: Luiz Soares Júnior.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Cineclube Sesi Portão: "Terror na Ópera", de Dario Argento

O Cineclube Sesi Portão apresenta no dia 2 de outubro (quarta), às 19h30, o filme "Terror na Ópera" de Dario Argento. Ainda em outubro serão exibidos "Um Retrato de Mulher" de Fritz Lang (16/10) e "Por Trás da Máscara" de Scott Glosserman (30/10). Entrada franca sempre.

Cineclube Sesi Portão apresenta: "Terror na Ópera", de Dario Argento

Sinopse:
Betty é uma jovem e insegura cantora de ópera que ganha sua grande chance quando a diva Mara Cecova, atriz principal de uma montagem de MacBeth, de Verdi, é atropelada e quebra uma perna. Chamada para substituí-la, Betty aceita, apesar de sentir um mau pressentimento. Sua performance é saudada por todos, enquanto um assassinato acontece em um dos balcões do teatro. A partir daí, o assassino, obcecado por Betty, começa a matar todos os que tentam se aproximar dela. Em seus crimes, ele emprega ainda um requinte de crueldade: faz questão de que ela seja sua espectadora.

Sobre o filme:
Desde sempre a sétima arte convive com a vontade de parte dos cineastas, críticos e público de agregar ao cinema a chancela acadêmica (filosofia, psicologia, sociologia, história) ou atrelá-lo a um projeto moralizante com fins "humanitários".  Isto revela uma desesperada busca  por dar credibilidade e seriedade a este "divertimento de feira", esta "molecagem", através de um uso covarde de muletas teóricas.
Tal perspectiva resulta da absoluta falta de fé destes falsos amantes no cinema e em seu valor específico - o mesmo desprezo que autoriza o senso-comum a afirmar que tal história em quadrinhos é tão boa que parece literatura.
Dario Argento, um dos maiores gênios do cinema, afirma neste "Terror na Ópera" de 1987, a absoluta nobreza do movimento, da sombra e das cores. O filme extrai sua poesia não de cristais ou rizomas, mas de travellings e close-ups (estas sim categorias essenciais do cinema, apesar de insistentemente desprezadas).
A história é a de sempre: jovem frígida é perseguida por assassino sádico. Ambos estão conectados por traumas de infância no mais superficial freudismo.
A beleza do filme, entretanto, está em como Argento manipula esta matéria batida na construção de uma escrita cinematográfica excitante, perturbadora e profunda, promovendo um vôo onírico e violento pelo reino das imagens.
Dario Argento convida o espectador a ousar um mergulho num cinema puro e a descobrir a força transcendente desta desrespeitada tradição artística.

Miguel Haoni, 2011

Serviço:
dia 02/10 (quarta)
às 19h30
no Teatro do Sesi no Portão 
(Rua Padre Leonardo Nunes, 180 – entrada pela rua lateral Rua Álvaro Vardânega)
 
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi 
   
  (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
      

Produção: Atalante 
(http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)