quarta-feira, 3 de julho de 2019

Epifanias de Bresson: trechos

Por Evaldo Mocarzel



[...] Bresson enveredou por uma busca minimalista que poderia ser definida como “criação por subtração”, se despojando de todo tipo de excesso para tentar vislumbrar o “real” no inesperado e na essência epifânica da imanência de todas as coisas, sobretudo nos atos falhos dos não-atores, ou melhor, “modelos”, que passou a dirigir em seus sets de filmagem, como um pintor. [...] Bresson rejeitou o seu primeiro longametragem, “Os Anjos do Pecado”, com diálogos de Jean Giraudoux, de 1943. O primeiro motivo mais explícito é a interpretação teatral das atrizes, algumas da Comédie Française. Quando abandonou o espetáculo e defendeu a ideia de que a arte cinematográfica é uma escritura e que deveria ser chamada de “cinematógrafo”, o cineasta estava principalmente tentando se afastar do que ele chamava de “teatro filmado”, ou melhor, “cinema”. Nesse primeiro longa, há ainda algo que também passou a incomodar profundamente o mestre francês: o cheiro de madeira dos cenários. A locação se tornou uma das primeiras obsessões do estilo rigoroso de Bresson. Embora com uma certa afetação teatral e com muitas sequências rodadas em estúdio, “Os Anjos do Pecado” é uma obra que é puro Bresson. Temas como a morte como única possibilidade de transcendência, como única chance de vislumbrar um aceno de Deus, além do paradoxo da prisão como libertação, tudo isso está lá pulsando e revelando a face mais sincera desse grande artista sempre tão fiel a si mesmo, tentando encontrar a “lucidez” das tragédias gregas no desalento e no pessimismo suicida de seus personagens.

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Jean Sémolué reproduz em seu livro um depoimento de Bresson a Jean Quéval: “É o ‘interior’ que comanda. Sei que isso pode parecer paradoxal numa arte que é toda ‘exterior’. Mas vi filmes em que todo mundo corre e que são lentos. Outros em que os personagens não se agitam e que são rápidos. Constatei que o ritmo das imagens não tem o poder de corrigir toda lentidão interior. Só os nós que atam e desatam no interior dos personagens conferem ao filme seu movimento, seu verdadeiro movimento. É esse movimento que eu me esforço a tornar aparente por alguma coisa ou alguma combinação de coisas – que não seja só um diálogo”. Outro depoimento de Bresson resgatado pelo crítico em seu estudo: “O cinema sonoro inventou o silêncio. Acho maravilhoso e cômodo um diálogo explicativo. Porém o ideal seria de preferência que o diálogo acompanhasse os personagens, como o guizo acompanha o cavalo, o zumbido, a abelha”. Uma frase do mestre francês do livro “Notas sobre o Cinematógrafo”: “É com o nítido e o preciso que você forçará a desatenção dos desatentos de olho e de ouvido”. 

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Para Bresson, o teatro é a exterioridade, enquanto a arte cinematográfica, ou melhor, o cinematógrafo, é a interioridade, o íntimo, a profundidade do ser. “As palavras devem ser usadas quando não podemos expressar as coisas através de imagens”, disse o cineasta no mesmo programa. “As palavras devem ser usadas quando queremos penetrar no coração das coisas”, ensinou, destacando que o som nos filmes engloba três tipos de modalidades: ruídos, música e diálogo. “Esses três elementos precisam do silêncio para existir e expressar algo”. E o diálogo era uma espécie de último recurso no cinema de Bresson.

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“É preciso dissociar o modelo da ação do filme para que coisas inesperadas aconteçam”, disse no mesmo programa na época do lançamento de “A Grande Testemunha”. Completamente diferente do gesto esculpido e das falas decoradas do teatro. “Como copiar a vida sem imitá-la?”, ele se pergunta no mesmo programa. “Se é uma imitação não pode ser real”, assegura, ressaltando que a câmera é um aparelho maravilhoso que registra até mesmo o que o olho não vê. Bresson jamais mostrava a seus modelos os copiões do dia anterior para que não ficassem pensando, para que não ficassem racionalizando o que fizeram, para que transitassem no set utilizando apenas a própria intuição. Ele somente trabalhava com um determinado modelo uma única vez, pois poderia correr o risco de se deparar com cacoetes e maneirismos no filme seguinte. A única exceção foi Jean-Claude Guilbert, que trabalhou duas vezes com o mestre francês: em “A Grande Testemunha” (1966) e “Mouchette” (1967).



O crítico (Jean Sémoulé) lembra que nesse filme (Mouchette, 1967) Bresson cria um paralelo entre os animais de caça e Mouchette: perdizes e lebres sendo mortas antes de Mouchette se matar. Segundo Sémolué, Bresson não detectouem Nadine Nortier, a menina que vive Mouchette, “a natureza de uma intérprete para fazê-la atuar, mas captou a natureza de um ser na sua disponibilidade nata”. Como Balthazar, de “A Grande Testemunha”, “Mouchette descobre a vida ao ser confrontada com diferentes vícios sucessivamente, antes de morrer, com ela, na natureza”, compara o crítico. “Mas Mouchette julga os homens. Pelo menos, fica revoltada”, ressalta. 

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Sémolué disseca as camadas dramatúrgicas do roteiro de “Mouchette”: “Fatos são apenas fatos, sem dúvida, mas por que eles se dão exatamente naquele exato instante? A mãe morre justamente quando a filha precisa dela mais do que nunca e vai lhe falar dessa necessidade. A mulher da mercearia, a mulher do guarda, a sacristã, sobretudo, aparece no caminho de ‘Mouchette’ para fazê-la dizer o necessário para levá-la ao suicídio, como três parcas tecendo o fio do seu destino, como as três bruxas empurrando Macbeth na sua queda. A velha que ‘gosta dos mortos’, a mais impressionante das três, parece a morte personificada: seca e encarquilhada. Com uma voz miúda e um olhar agudo, ela fala de aromatizantes e de mortalha. Estaria farejando em ‘Mouchette’ a morte se aproximando? A menina estaria enfeitiçada por essas estranhas palavras, por esse momento não menos estranho? Bresson não interpreta os fatos; ele se limita a mostrálos”. 

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Sémolué resgata uma frase de Espinoza ao se referir à maneira como Bresson compõe seus quadros com objetos: “São os objetos que fazem com que percebamos. Somos afetados em graus diferentes por cada um deles e conforme a proporção de repouso e de movimento de que eles se compõem”. Uma dica, diga-se de passagem, para qualquer diretor de arte. Como um pintor, Bresson pensava a tela de cinema como uma superfície a cobrir com volumes, texturas, linhas, movimentos e silêncios. “Construa seu filme sobre o branco, sobre o silêncio e sobre a imobilidade”, uma de suas frases mais clarividentes do livro “Notas sobre o Cinematógrafo”. Em 83, em entrevista a Le Nouvel Observateur, Bresson lembrou um de seus princípios: “Quanto ao som, ele fornece o espaço, o relevo. Ele chega e a tela se cava, abrindo a terceira dimensão. Enquanto a música aplaina a imagem, a torna uma superfície”. Para o mestre francês, o som é 3D em seu sentido mais pleno, mais linguístico, mais essencial. 

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O estilo de Bresson é único, irreproduzível. No cinema contemporâneo, em que a ficção propriamente dita parece precisar de muletas documentais para legitimar a “veracidade” das imagens que estão sendo criadas, Bresson está mais “moderno” que nunca, sobretudo a aparência documentária dos seus planos aplainados, condensados, sempre em estado de contenção, de espera e de reserva. Godard costuma dizer que o mestre está para o cinema francês como Dostoievski está para o romance russo e Mozart, para a música alemã. Para finalizar, algumas frases de Bresson extraídas do livro “Notas sobre o Cinematógrafo”: 

“Criar não é deformar ou inventar pessoas e coisas. É estabelecer entre pessoas e coisas que existem e tais como elas existem, novas relações”. 

“Sua imaginação vai mirar menos os eventos que os sentimentos, querendo esses últimos os mais documentais possíveis”. 

“O futuro do cinematógrafo pertence a uma raça nova de jovens solitários que filmarão com seu último centavo e sem se deixar enganar pelas rotinas materiais do ofício”. 

Texto na íntegra neste link: https://carmattos.com/2012/05/08/bresson-por-mocarzel/ acesso em 27 de junho de 2019. 


quinta-feira, 27 de junho de 2019

Cineclube do Atalante: Mouchette



Mouchette é uma jovem inocente do interior que tem uma vida difícil e se acostumou a conviver com os abusos da família; ela se verá no meio do furação quando um assaltante, foragido, decide se relacionar com ela para ganhar um álibi.


Dirigido por Robert Bresson. 


(Mouchette: FRA, 1967 - 81 min. Com Nadine Nortier,  Jean-Claude Guilbert, Marie Cardinal. 14 anos.)


Serviço:
Sábado, 29 de junho
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

domingo, 23 de junho de 2019

Clube do Filme: de volta em julho


Atenção: comunicamos que não haverá Clube do Filme em junho.

Após esta breve pausa, estaremos de volta na Casa do Contador de Histórias em julho, na quarta quarta-feira do mês, dia 24, às 19h15.

Esperamos você por lá!

terça-feira, 18 de junho de 2019

Lola Montès

por François Truffaut 


 

O ano cinematográfico que agora termina tem sido o mais rico e estimulante desde 1946. Abriu com La Strada, de Fellini, e sua apoteose é Lola Montès, de Max Ophüls. Como a heroína de seu título, o filme pode provocar um escândalo e despertar paixões. Se tivermos que lutar, lutaremos; se tivermos que polemizar, que assim seja. É todo o cinema que deve ser defendido hoje, um cinema de auteurs que é também um prazer visual, um cinema de ideias onde a inventividade informa cada imagem, um cinema que não toma emprestado do período pré-guerra, um cinema que rompe com novos caminhos há muito tempo proibidos. Vamos frear o nosso entusiasmo e proceder de forma ordenada, tentando nos mantermos objetivos, não importa o quão pouco queiramos. A forma como a narrativa é construída e se apressa a cronologia, nos lembra Citizen Kane, embora agora tenhamos os benefícios do Cinemascope, um processo aqui utilizado ao máximo do seu potencial pela primeira vez. Em vez de simplesmente deixar seus atores no quadro desumano da tela grande, Ophüls doma a imagem, a divide, a multiplica, a contrai ou a dilata de acordo com as necessidades de sua surpreendente concepção. A estrutura é nova e ousada; pode muito bem confundir o espectador que se deixa distrair ou que chega ao meio do filme. Que pena. Há filmes que exigem atenção integral. Lola Montès é um deles. No final de sua vida dramática, Lola Montès atua e imita sua Paixão, alguns episódios de uma vida amorosa incomum. A atmosfera do circo é de pesadelo e alucinatória. Três episódios nos afastam dessa cena: o fim de um caso com Franz Liszt; sua juventude; e um caso de amor real na Baviera, pouco antes de ela entrar para o circo. O quarto episódio nos mostra Montès no circo. Peter Ustinov interpreta o papel de mestre de cerimônias, atormentador e amante final. De fato, no final de sua vida, a verdadeira Lola Montez (uma aventureira e cortesã irlandesa apesar de seu pseudônimo espanhol) foi contratada por um circo americano como a estrela de um espetáculo baseado em sua vida. Em vez de se condensar em duas horas de material cinematográfico que justificaria uma série de dezesseis partes, Ophüls optou por recriar o espetáculo de um circo e interceptar cenas do passado de Lola. Peter Ustinov, o mestre de cerimônias-biógrafo, administra seu programa com o mesmo mau gosto, vulgaridade e crueldade inconsciente que regem as transmissões de televisão. Se atores importantes têm mais prestígio do que as estrelas da TV, é porque a arte imita a vida e não a embeleza nem um pouco. O filme de Max Ophüls é sobre os pontos fracos do sucesso, sobre carreiras turbulentas e as formas como o escândalo é explorado. Montès, muitas vezes é lembrada, de que não consegue cantar ou dançar; ela simplesmente sabe como agradar, ela provoca, ela causa escândalo. O mestre de cerimônias nos diz que ela é uma mulher fatal e, se ela se mudou muito, é porque "as mulheres fatais não podem ficar paradas". Mas os flashbacks no passado de Lola que nos mostram sua infância, seu casamento com um bruto bêbado (Ivan Desny), sua aventura com um solene e tolo Franz Liszt, e suas decepções artísticas desmentem suas declarações condescendentes. Lola era uma mulher como todas as outras, vulnerável e insatisfeita, só que ela fez "todas as coisas que as mulheres na rua sonham em fazer, mas não se atrevem". Mas ela viveu num ritmo acelerado, e após um maravilhoso último interlúdio com um rei anacrônico na Baviera (Anton Walbrook), ela deve morrer todas as noites em um circo americano, imitando suas próprias paixões. Ophüls não esquece que ela levou várias semanas para atravessar um país há cem anos, então uma parte central do filme se passa em carruagens que cruzam a Europa. No final de sua vida vertiginosa, Lola é devastada, usada prematuramente: "Eu a examinei", diz o médico. "O seu coração está a adoecer e a doença na garganta é talvez ainda mais grave". As observações físicas e terrenas contam a história: "Para mim, a vida é movimento. O rei da Baviera pergunta-lhe uma noite: "Não quer parar, descansar, ficar quieta por um momento?" 

O filme é construído rigorosamente; se afasta alguns espectadores, é porque há cinquenta anos a maioria dos filmes é narrada de forma infantil. Deste ponto de vista, Lola Montès não é apenas como Citizen Kane, mas também como The Barefoot Contessa, Les Mauvaises Rencontres e todos aqueles filmes que mudam a cronologia por efeito poético. O resultado é menos uma questão de seguir uma história do que contemplar um retrato de uma mulher. A imagem é muito cheia e muito rica para ver tudo de uma só vez. O autor claramente o pretende dessa forma, chegando ao ponto de nos permitir ouvir várias conversas ao mesmo tempo. Claramente, Ophüls está menos interessado nos momentos fortes da intriga do que no que ocorre entre eles. A história que apreendemos nos restos - o que percebemos dela nos ajuda a reconstituir o resto, como na vida real - é brilhantemente lacônica. Os personagens não resumem situações com fórmulas elegantes; quando sofrem, vê-se, não é articuladamente.


Certamente este é o diálogo mais inteligente e preciso de um filme francês desde Zero de Conduite de Jean Vigo, um diálogo estritamente empírico: 'Passe-me o sal...' 'Aqui...' 'Obrigado.' E, ainda assim, há um espírito retirado de cada diálogo. O único personagem que tem o cuidado de moldar-se, frases e dar uma punhalada na eloqüência é Peter Ustinov, mas ele procura as palavras certas, gagueja, repete-se, assim como na vida real. Se Ophuls fosse um cineasta italiano, diria: "Fiz um filme neorealista". De fato, ele nos deu um novo tipo de realismo aqui, mesmo que seja a poesia, acima de tudo, que nos chama a atenção. Lola Montès, feita em três línguas, é interpretada por atores de várias nacionalidades, incluindo Peter Ustinov (russo-inglês), Anton Walbrook (austríaco-inglês) e Oskar Werner (austríaco). Na versão francesa, a que nos interessa aqui, estes atores falam francês com um sotaque mais ou menos acentuados. Acrescido a isto o fato de que  o diálogo às vezes nos oferece duas ou três conversas simultaneamente, assim como sussurros e frases perdidas, e você termina com uma banda sonora que é cerca de 20% ininteligível na primeira audição. Por ter ficado fascinado e intrigado com o diálogo, obtive um roteiro para compará-lo com a trilha sonora final. O diálogo na continuidade escrita é boa, mas a do filme é extraordinária porque os atores não foram capazes de o executarem de acordo com o texto e por conta das mudanças no palco de som. A frase "Uma fera selvagem cem vezes mais mortífera do que as que vocês acabaram de aplaudir em nossa menagèrie", é declarada pelo gênio cabeça de vento Peter Ustinov como "Uma fera selvagem cem vezes mais mortal do que as que aqui estão". Todas as falas do mestre de dança foram substituídas durante as filmagens por pequenos gritos e murmúrios que são extremamente eficazes. Ophuls deliberadamente manteve planos que eram defeituosos por acidentes em vez de outros que eram perfeitos em sua versão final editada - por exemplo, uma cena em que o chicote de Ustinov fica preso na franja de um adereço. Ou, com o rei da Bavária a dizer Eu ia para sua casa, senhora... não, isso não está certo", ele move um pedaço do cenário e pega de novo. "Eu estava indo para sua casa, madame, a fim de poupar-lhe o inconveniente."O maravilhoso "Não, isso não está certo" sem dúvida veio quando Walbrook perdeu seu lugar durante a filmagem. Com esse tipo de improvisação contínua,sendo isso voltado para melhorar o filme, a uma verdade mais autêntica, Ophuls se junta ao Jean Renoir que fez Le Crime de Monsieur Lange. 

O duplo - e até mesmo triplo - lapso que constantemente surge em Lola Montès entre os personagens e suas observações, entre a sua atuação e o texto, cria um encanto semelhante ao das hesitações de Margaritis em L'Atalante. Lola Montès é o primeiro filme que gagueja, um filme em que a beleza de uma palavra (a volúpia aveludada com que Walbrook adorna a palavra "público") dá consistentemente a deixa para o significado de uma frase. Jean Vigo vem à mente novamente, com seu gosto por textos versificados no qual ele compartilha com Ophuls. Meu coração está dividido entre este pequeno poema de L'Atalante:

Ces couteaux de table (Estas facas de mesa)
Aux reflets changeants (Com reflexos mutáveis)
Sont inoxydables (São inoxidáveis)
Eternellement. (Eternamente)
 
E este, declamado por Ustinov:

À Raguse (Em Ragusa)
Robe exquise (Vestido refinado)
Qu'on refuse (Que na feira da igreja)
A I'eglise. (Recusa ser doado)

Lola Montès é um filme que bate todos os recordes: o melhor filme francês do ano, o melhor Cinemascope até hoje; Max Ophuls é declarado o melhor encenador da época e o melhor diretor; pela primeira vez, Martine Carol, como Lola, é realmente satisfatória, Peter Ustinov é sensacional, assim como Oskar Werner; Anton Walbrook e Ivan Desny são excelentes. Max Ophuls é marcadamente um cineasta do século XIX. Nunca temos a impressão de estarmos a ver um filme histórico, mas sim de sermos espectadores de 1850, como se estivéssemos a ler Balzac. O retrato da mulher nesta obra é uma síntese de todas as suas mulheres anteriores: Lola Montès tem todos os percalços emocionais das heroínas de Sans Lendemain, Carta de uma Mulher Desconhecida e Madame de...

Estou bem ciente de que provavelmente não é uma boa idéia atacar filmes que eu não gosto para defender um filme que eu amo, mas no final sou francamente obrigado a pensar que se o público era legal para Lola Montès, é porque ele foi pouco educado para ver obras realmente originais e poéticas. Os "melhores" filmes franceses (estou pensando em Le Rouge et le Noir de Claude Autant-Lara, e em Diabolique de Clouzot, e em Les Grandes Manoeuvres de René Clair) foram feitos para agradar, lisonjear e acariciar o público. O delírio de um filme que foi desnudado cinco vezes numa semana pode continuar para sempre. Vou terminar descrevendo a beleza da última cena: Na ménagerie, Lola oferece sua mão para ser beijada através das barras de uma jaula; enquanto a câmera se move para trás, os espectadores do circo se movem para frente na parte inferior da tela e nos misturamos com eles. Pela primeira vez, a saída de um cinema acontece na tela. Todo o filme é assim colocado sob o patrocínio de Pirandello, como todo o trabalho de Ophuls. Lola Montès é apresentada como uma caixa de chocolates que nos é dada como presente de Natal; mas quando a tampa é retirada, sai como um poema que vale uma fortuna incalculável.

Texto publicado em 1955 e retirado do livro “Os Filmes de Minha Vida”, de François Truffaut. Tradução de Waleska Antunes.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Cineclube do Atalante: Lola Montès



Em meados do séculos 19, Lola Montès é uma dançarina e cortesã, amante de vários homens famosos. Agora, relegada à carreira como atriz circense, narra por meio de sua performance a história de sua vida. 

Dirigido por Max Ophüls.

(Lola Montès: FRA/GER, 1955 - 116 min. Com Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Wallbrook. 14 anos.) 

Serviço:
Sábado, 1º de junho
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA


Realização: Coletivo Atalante

terça-feira, 28 de maio de 2019

Cineclube do Atalante: programação de junho

01/06: Lola Montès, de Max Ophüls




(Lola Montès: FRA/ALE, 1955 - 116 min. Com Martine Carol, Peter Ustinov, Anton Walbrook. 14 anos)

Em meados do século 19, Lola Montès é uma famosa dançarina e cortesã que levou uma vida agitada e altamente escandalosa. Amante de vários homens europeus importantes, sua carreira agora está limitada a uma atração de circo em Nova Orleans, onde narra a fantástica história da sua vida e carreira.

29/06: Mouchette, a virgem possuída, de Robert Bresson
 

(Mouchette: FRA, 1967 - 81 min. Com Nadine Nortier,  Jean-Claude Guilbert, Marie Cardinal. 14 anos.)

Mouchette é uma jovem inocente do interior que tem uma vida difícil e se acostumou a conviver com os abusos da família; ela se verá no meio do furação quando um assaltante, foragido, decide se relacionar com ela para ganhar um álibi.

Serviço:
Sessões no primeiro e no último sábados do mês (excepcionalmente)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

sábado, 25 de maio de 2019

O conhecimento total

por Jean Douchet
 

A obra de Mizoguchi é notoriamente uma das mais difíceis de abordar. Intendente Sansho não foge a esta regra. O crítico se vê desarmado pela evidência de tanta perfeição. Tudo aqui, pelo esforço combinado da inteligência mais vasta e da sensibilidade mais profunda, contribui para a simplicidade. Não a simplicidade da ignorância, mas a que resulta do conhecimento total. É portanto na manifestação deste conhecimento que se deve avançar seu estudo, isto é, na mise en scène. Somente ela contém os segredos de um autor que é longe de nós pela civilização, mas de maneira única tão próximo ao colocar o homem no centro de um universo que parece ter sido criado apenas para ocupar-se dele.

Portanto, não vou insistir na trama de Intendente Sansho. Sua história se resume em uma única palavra: melodrama. Trata-se das tribulações de uma família aristocrática no Japão feudal do século XI. O pai, governador de uma província, revoltado pelas injustiças das castas superiores em relação aos camponeses, toma partido dos últimos. Isso lhe causa sua destituição e exílio. Sua esposa, filho e filha partem ao seu encontro seis anos depois. Mas, no caminho, eles serão sequestrados e vendidos separadamente como escravos. A mãe, como cortesã em uma ilha, os filhos sob o terrível e infernal intendente Sansho. Dez anos se passam. O filho se tornou o ajudante mais feroz do intendente. Mas as censuras de sua irmã e memórias da infância lhe fazem voltar a si. Ele foge desse inferno, consegue ser reconhecido pelo primeiro-ministro, é nomeado governador, elimina a escravidão, prende o intendente e, esta missão cumprida, renuncia. Ele finalmente reencontra a mãe inválida, mas sua irmã e seu pai estão mortos.

Roteiro a priori muito Órfãos da Tempestade (Griffith não é o melhor elogio?). Mas um roteiro que, como todo bom melodrama, tem numerosas facetas que remontam a múltiplas interpretações. É um poema religioso sobre a reencarnação das almas, a dura necessidade da passagem terrena (neste sentido o intendente Sansho seria como um regente das forças terrestres) e cuja única chance de salvação estaria na conquista de si? Ou é um filme profundamente humanista, quase ateu, que glorifica o homem que ousa confrontar a ordem divina? (cf. a cena entre o monge-filho do intendente Sansho e Anskio). Na verdade, as duas interpretações, penso eu, coexistem no filme. Podemos também destacar a ardente acusação contra a exploração do homem pelo homem, denunciada aqui sem ênfase ou demagogia, mas com que violência! Alguns entenderão simplesmente como um hino à mulher, à mãe e à família. Outros serão mais sensíveis ao lado filosófico: a vida é uma aventura cruel e plena de tormentos pelos quais passamos como um sonho e cujo sentido nos escapa.

Mas estes temas não trazem nada de novo. O mais estimulante, no entanto, é o modo como Mizoguchi ataca um plano, a maneira como o mantém, como uma nota, por seu único valor qualitativo. A arte de Mizoguchi é musical. Rivette definiu admiravelmente: “Uma arte da modulação.”


Conhece-se um indivíduo pelo seu aperto de mão. Da mesma forma, um cineasta revela sua natureza pela maneira como ele captura um plano. Um plano, subitamente exposto, revelado e julgado, perfaz o olhar do mestre, sua tomada de posse do mundo. Quanto mais aguda e precisa, lúcida e clarividente, mais perto o artista se aproxima do essencial: o mistério. Mas aqueles que pretendem fabricá-lo a partir do arranjo hábil de ausências e obscuridades são impostores. O mistério, esse mistério sagrado da arte, só pode nascer da contemplação do sol, logo, da evidência e da realidade perfuradas até às profundezas de si mesmo. Portanto, devemos ser contra esses cineastas que organizam sua mise en scène a fim de causar apenas sensações. Tudo deve resultar naturalmente da percepção do artista e refletir a sua qualidade.

Desde os dois primeiros planos de Intendente Sansho aparece esta qualidade única. O primeiro, no qual rodam os créditos, mostra bases de colunas antigas. Plano estático, como se o tempo estivesse congelado para sempre, tornado imutável e eterno. Mas já, um leve plongée nestas ruínas revela o olhar do artista. Por uma certa vibração luminosa, uma beleza natural da imagem, essa realidade banal que é os vestígios do passado suscita uma impressão de sonho, como se essas pedras ocultassem dentro de si um poder de evocação que apenas aguarda se materializar.

É o que faz o segundo plano. A oscilação, tão peculiar ao nosso cineasta, entre sonho e realidade aparece aqui em toda a sua evidência. São fantasmas que surgem do passado ou seres reais estes personagens surgindo em fila em uma clareira a qual atravessam lentamente, serpenteando? Mas o que importa! A partir de então eles são seres de carne e osso que avançam na vida, diante de suas armadilhas e seus tormentos. O que é, então, esse mundo de sonhos que parece envolver e banhar a realidade? Nada além do que uma percepção mais aguda do artista, que revela, pela evidência de sua tomada, a coexistência de duas ordens. De um lado, a realidade material das aparências, o universo físico dos corpos obedecendo às leis coercitivas e brutais da existência. Do outro lado, o mundo igualmente real da vida interior, mundo de devaneios sedentos por liberdade e, talvez, ainda mais profundamente, mundo das almas, escravas do mundo das aparências e de suas leis. Todo o filme consistirá então no conflito, dentro mesmo de cada plano, entre estas duas ordens, para concluir – no final de um longo périplo estético cuja aventura dos heróis é apenas sua figuração – na reconciliação (em harmonia e equilíbrio, numa breve união de uma ordem superior) dessas duas ordens em perpétua e frágil oposição. Uma lenta e magnífica panorâmica, no último plano de Intendente Sansho, abraça em comunhão homem e natureza.

Este conflito, puramente visual dentro de cada plano, necessariamente se estende por todo o filme e afeta inclusive a estrutura do roteiro. Os personagens precisam deixar este mundo de beleza interior, revelado a nós no início do filme por uma série de evocações do passado, para caírem na condição de escravos. Mas antes, eles vivem uma cena na qual a fragilidade deste mundo interior será vivida intensamente e deixará em suas almas o traço do inefável. É aquela, admirável, onde a família procura refúgio perto do lago. Porém, logo na chegada aos domínios do intendente, a imagem se torna mais seca, a dureza das aparências parece quase prevalecer sobre a parte do sonho. Mas esta sempre ressurge: um canto, um gesto, uma situação evocam a memória deste mundo. Um mundo procurado pelo filho do intendente, um ser frágil, porém revoltado pela dureza impiedosa de seu pai. Por covardia, ele abandona a realidade física pelo universo da contemplação. Mas é pelo espírito do sacrifício que a irmã do herói decide deixar esse mundo de escravidão. Então a imagem também responde ao seu heroísmo. Subitamente, a realidade parece transfigurada. Ela caminha lentamente pela floresta, enquanto sua figura graciosa mergulha em uma névoa que acaba por ser um lago. A jovem parece se dissolver em seu elemento primordial que é a água e a água é a própria substância da alma. Por este plano aberto de extrema simplicidade, Mizoguchi encontra o processo dinâmico dos devaneios poéticos mais profundos.

Inútil continuar e mostrar como o herói deve encontrar o verdadeiro equilíbrio e apaziguamento, triunfando sobre a matéria e suas leis pela constância e a grandeza. A partir de então, a vida da alma é preservada na vida do corpo. Tudo é harmonia. 

Como tudo em Mizoguchi se dá no nível do plano, esse plano deve ser sentido em sua qualidade. Cada plano impõe o puro presente, porque cada plano é um momento precioso e único, que coloca em questão o próprio destino dos personagens. Isso significa que Mizoguchi recusa a dramatização que necessariamente mistura os tempos. Aqui só temos momentos e estados. O próprio movimento das paixões nos é revelado apenas por sua mera manifestação. O cineasta se contenta em registrar o debate de seus personagens, prisioneiros do próprio quadro da tela. O conflito entre as duas ordens é revelado por gestos raros que tocam no mais secreto deles mesmos. Às vezes, a câmera – que nunca pode intervir diretamente – por um ligeiro travelling ou panorâmica, parece querer abordá-los como em uma carícia impossível. Porque esta câmera se encontra sempre onde o conhecimento será total.

Como essa percepção do universo é exata, sem trapacear e em conformidade à nossa, prolongando-a, aprofundando-a (e reduzindo-a ao essencial), o que Mizoguchi tem a nos dizer, apesar das diferenças de raça, civilização e costumes, atinge-nos profundamente. Ele não nos impõe uma visão pré-fabricada do mundo. Simplesmente, ele nos ensina a ver e a nos ver.



Retirado de Cahiers du Cinéma nº 114, dezembro de 1960. Tradução de Giovanni Comodo.