sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Cineclube do Atalante: Cidadão Kane

Sábado de sessão dupla Orson Welles com o Coletivo Atalante!

Às 16h: "Cidadão Kane" (1941), parte da programação do Cineclube do Atalante: História(s) do Cinema.

Às 19h: Sessão em 16 mm de "Soberba" (1942), cópia pertencente à Cinemateca de Curitiba (dublada), com apresentação e debate após a sessão com o Coletivo Atalante.



Cidadão Kane - 16h
(Citizen Kane, 1941, 119 min, 12 anos, com Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore)
Após a morte do magnata das comunicações Charles Foster Kane, repórteres relembram sua trajetória tentando descobrir o significado da sua última palavra dita: "Rosebud". 

Soberba - 19h
(The Magnificent Ambersons, EUA 1941, 88 min, com Joseph Cotten, Dolores Costello e Anne Baxter.)
A história de ascenção e queda da família Amberson, dividida entre um filho mimado, sua mãe viúva e o homem que ela sempre amou.

Serviço:
Cineclube do Atalante: Cidadão Kane
Às 16h, sábado, 05/10.
Sessão 16 mm: Soberba
Às 19h, domingo, 06/10
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

domingo, 29 de setembro de 2019

Amar como arte

por Giovanni Comodo

  
“O cinema é um milagre”
João Bénard da Costa


Como falar de um filme como “Depois do Vendaval” sem evocar uma ideia de perfeição completa, de uma obra que parece existir sem arestas, absoluta, plena? Como descrever um azul que só se encontra no céu e nos olhos de Maureen O’Hara? Ou os verdes mais ricos já vistos no cinema? O cinema é composto por milagres, mas há alguns maiores do que outros. E John Ford entrega-os sistematicamente.

Trata-se de um filme de amor. Sean Thornton retorna a terra de seu nascimento, uma vila minúscula na Irlanda, depois de toda uma vida nos Estados Unidos e encontra Mary Kate Danaher – uma ruiva tão indomável quanto a terra em que pisa. A paixão é mútua e avassaladora, tem início a corte, alguns percalços o separam e ficam juntos no final. É isso, mas muito mais. Pouco mais de duas horas e temos um universo, conhecemos a cidade e seus habitantes tão bem que podemos dizer sermos proprietários de uma casa ali.

Esta impressão é fruto do trabalho do diretor, do seu olhar sobre esta terra e estas pessoas. Amor.

Descendente de irlandeses, Ford manteve para si por cerca de 20 anos os direitos do conto que dá origem ao filme, aguardando o momento certo, em que estaria pronto para uma visita não apenas a uma geografia em especial, mas a um imaginário no qual cresceu e alimentou. Nos diversos e idiossincráticos costumes irlandeses, há a caricatura, mas ela é feita com admiração e interesse. Não há prova maior do respeito sobre as pessoas que filma do que os momentos finais do filme, em que atores e moradores locais se despedem da plateia, acenando para a câmera, como se agradecendo a visita e desejando um bom retorno.

Amor sobre John Wayne e Maureen O’Hara. A primeira vez em que Sean a vê, descalça conduzindo as ovelhas, em meio a uma natureza intocada, ele se pergunta se é uma aparição. A isto tem sequência um plano em contraplongée de Mary Kate envolta por uma forte luz branca, estourada, no qual vai se afastando aos poucos – também ela é tomada, por sua vez, pela aparição Sean, nesta e em diversas cenas o observando a distância. A ousadia deste plano, “desequilibrado”, “imperfeito”, totalmente inesperado em sua composição ou no que evocamos ao falar de um cinema “clássico”, demonstra a maestria de Ford, de saber subverter regras a fim de atingir suas intenções – aqui, a emoção e a vertigem da paixão à primeira vista na qual a plateia torna-se partícipe. 

Esta paixão, selvagem, vulcânica, brota em todas as cenas de Sean e Mary Kate, como se a tela estremecesse junto com eles. Ambos buscam a presença e o corpo do outro, em sequências em que sagrado e profano se entrelaçam – o primeiro toque de mãos com água-benta, o beijo ardente no cemitério durante a chuva. Os caminhos do coração nunca são simplificados e é exatamente nos seus contrastes e opostos que o diretor encontra material de seu maior interesse. 

 You're still my darling loyal girl—come hell or high water & I'll always love & revere you. Please think kindly of me, not much—a little bit.(Carta de John Ford a Maureen O’Hara)


John Ford, cuja carreira começa na década de 1910 e vai ao final da década de 1960, tem aqui a culminação luminosa de sua arte. Reticente ao uso da cor no cinema (achava o preto-e-branco mais desafiador), faz um dos mais belos usos do vermelho, azul e verde já vistos. Há a desenvoltura demonstrada ao montar vários planos de uma corrida de cavalos e a escolha pela ausência de cortes em cenas chaves (a do primeiro beijo do casal, sabendo que cada corte seria como uma facada em um momento mágico a se desenrolar diante de nós). Uma edição que se permite elipses radicais (o casamento) e longas expansões de momentos ínfimos (o primeiro olhar entre o casal). Um filme que abre com a chegada do trem à estação, a fundação do cinema, e termina com a implosão das atuações, com as pessoas se despedindo do filme que fizeram. Ou mesmo “pequenas” coisas, como o constante e discreto trabalho de criação de profundidade de campo nos interiores, ou o cuidado no registro dos gestos – disto há um bom exemplo na cena dentro do pub em que Sean e o cunhado se cumprimentam pela primeira vez: eles se dão as mãos diante do padre de Ward Bond, o diretor fazendo suas vestes negras destacarem e mesmo “emoldurarem” as mãos em disputa. E sendo o cinema também uma biblioteca de gestos humanos, percebe-se em Ford o zelo em registrá-los a nós.

Este caráter quase enciclopédico do diretor, de conseguir reunir na sua obra tantas décadas, movimentos e qualidades do cinema, é apenas mais um dos motivos que o fazem um dos maiores de todos os tempos. Mas tudo isto é secundário diante da sua sensibilidade em respeitar as pessoas e suas emoções em estado bruto diante da câmera. Ford capturou o que há de mais puro na psique humana (e puro não quer dizer “o melhor” da humanidade, há também em suas obras os mais puros ódios, invejas, ciúmes e dores), sem julgamentos ou condenações, deixando estes para nós. Na realidade, Ford filma sempre com amor ao próximo, em um ato de fé com poucos paralelos na história do cinema.

O que nos traz a “Depois do vendaval” e suas paixões que alucinam. Nesta terra inóspita e de dificuldades, há muita violência, ignorância e brutalidade. E também há beleza, solidariedade e graça. Ford nos mostra tudo. Ainda sobra tempo para dizer que os poetas são bobos. Bobos ficamos nós, a plateia, com seus filmes.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Cineclube do Atalante: Depois do Vendaval

Fim-de-semana John Ford com o Coletivo Atalante!

Sábado, às 16h: "Depois do Vendaval" (EUA, 1952), parte da programação do Cineclube do Atalante: História(s) do Cinema.

Domingo, às 19h: Sessão em 16 mm de "No tempo das diligências" (EUA, 1939), cópia pertencente à Cinemateca de Curitiba, com apresentação e debate após a sessão com o Coletivo Atalante.

ENTRADA FRANCA.


Instagram: @cineatalante

Sobre os filmes:

Depois do Vendaval
(The Quiet Man, EUA, 1952, 129 min, 12 anos, com John Wayne, Maureen O'Hara, Barry Fitzgerald. Romance)
Atormentado por erros do passado, o lutador Sean Thornton decide voltar à sua cidade natal, na Irlanda. Ele logo fica encantado com Mary Kate Danaher, uma jovem linda e pobre. O principal empecilho do relacionamento é o irmão da garota, Will Danaher, valentão da região que não gosta nem um pouco de Sean.

No Tempo das diligências
 
(Stagecoach, EUA 1939, 96 min, livre, com Claire Trevor, John Wayne, Thomas Mitchell. Faroeste)
Um grupo de nove estranhos são obrigados a embarcar em diligências para uma árdua jornada através do Arizona, em território indígena, enfrentando vários perigos.

Serviço:
Cineclube do Atalante: Depois do Vendaval
Às 16h, sábado 28.
Sessão 16 mm: No tempo das diligências
Às 19h, domingo, 29
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

sábado, 21 de setembro de 2019

M: O Vampiro de Düsseldorf

por Luiz Carlos Oliveira Jr.



O Lang arquiteto-urbanista é sempre ressaltado na análise de filmes como M, Sepulcro Indiano, Os Corruptos, ou mesmo Metropolis. Mas quase nunca se destaca o principal da arquitetura langiana: sua capacidade de construir um teto sobre o espectador, de encobri-lo com uma ficção que, de tão perfeitamente ficcional, acaba parecendo real e nos tornando parte dela. Sua dupla saga indiana, embora no desfecho revele um mergulho às fundações da construção (ou seja, ao subsolo), é um excelente exemplo desse cinema-teto, pois bastam alguns minutos de filme para que estejamos efetivamente dentro daqueles palácios (invertendo a fórmula: tão reais que se fazem crer imaginários). O projeto é construir um teto, mas revolver o subterrâneo – esgotos, fundações, arcabouços secretos, populações reclusas (ou excluídas) – se mostra uma etapa fundamental.

M, cânone dos cânones quando o assunto é a transição mudo-sonoro, segue o mesmo princípio, dando a cada espectador a chance de, simultaneamente, mergulhar na dinâmica da organização urbana e compor o coro histérico da cidade aterrorizada por um serial killer (provavelmente o primeiro a aparecer no cinema de forma tal que, na sua esteira, adviria um subgênero). Com o mapa da cidade sobre a mesa, o comissário de polícia traça uma enorme circunferência, cujo centro é a casa da vítima recém-descoberta (a casa desenhada detalhadamente, em escala completamente desproporcional ao resto do mapa – mesmo num cenário realista, Lang abre espaço para o lado fantástico de seu cinema), e em seguida o comissário aumenta o raio, aumenta a área em que os cidadãos serão interrogados, vigiados, sondados. Mais do que uma matriz para a exploração ficcional de assassinos em série, M forneceu um novo paradigma de espaço para o cinema clássico – justamente a organização espacial que os filmes policiais jamais abandonariam a partir de então (até porque a polícia é uma autoridade local, portanto se pressupõe uma integração com o espaço em que atua). A cidade, em sua dialética de mundo-submundo, como personagem de destaque: de Don Siegel a Clint Eastwood (Sobre Meninos e Lobos, por sinal, é o grande sucessor de M dos últimos tempos), todos aprenderam a lição – de que os esgotos resguardam a superfície das cidades, de que a sociedade democrática é apenas um outro modo de recolocar a lei do forte, de que a criminalidade e a lei nem sempre divergem em seus interesses, de que uma justiça paralela muitas vezes ultrapassa a justiça oficial.

Mas, para além de qualquer sociologia urbana, M é também o momento de um amadurecimento técnico e estético de que o som é apenas uma das muitas partes em funcionamento pleno. Por mais que o uso do espaço em off seja assustadoramente evocativo e invasivo, por mais que a montagem encontre uma feliz negociação entre a organização editorial do clássico-narrativo e a mais abstrata concepção de visualidade (nada de confusão, contudo: imagens encadeadas com uma clareza suprema), por mais que Fritz Arno Wagner tenha conseguido uma luz tão soturnamente bela e a câmera se movimente com tamanha criatividade (com destaque para o plano-seqüência pré-Welles-De Palma que passeia pela sede dos mendigos e chega a atravessar uma janela após ascender ao andar superior), enfim, por mais que haja uma força quase mística regendo as partituras desse filme de importância inqualificável, nunca sentimos a aura barroca de um esteta em autopromoção permanente. Muito pelo contrário: M é o resultado de uma concisão, do preenchimento do impulso de uma veia cronista diretamente proporcional à pretensão artística. Os enquadramentos (não raro sobre-enquadramentos, ou seja, quadros com moldura extra) que parecem já nascidos para a antologia, de tão perfeitamente equilibrados, com linhas e contrastes combinados à alusão de uma forma pictórica, são apenas o convite à fatalidade, ao gesto que, antes de romper um equilíbrio, põe harmonia e caos em pé de igualdade. Levar o assassino à forca significa tão-somente apagar os traços mais visíveis (logo menos ofensivos) de uma estrutura maléfica cuja cartografia se espelha no mapa da cidade, um desenho cabendo certinho no outro. Assim como no cinema haverá sempre o fora-de-quadro (de onde surge pela primeira vez o assassino, ou melhor, sua sombra), na sociedade existem instâncias que lhe são tão inseparáveis quanto inclassificáveis, incontroláveis. Do mal irremediável exposto por M, sobressai um rosto trágico que abre caminho para o que os filmes subseqüentes comprovariam ser o rosto langiano por excelência: neutro na maior parte do tempo, anestesiado pela mise en scène, ótimo condutor de sensações extremas, mas insensível a oscilações menores, esse rosto se oferece – como uma máscara branca à espera de um molde – às virtualidades contidas em toda e qualquer proposição da trama. Quando finalmente estimulado, o tal rosto responde com questões fundamentais: um olhar que só pode ser dor ou deleite, uma fala que só pode ser agonia ou vivacidade. A opacidade da tragédia, o seu inexplicável, ganha uma forma que Peter Lorre investe de uma estranha intensidade, e a contemplação do intolerável aparece-nos como o último e mais poderoso dos delírios estéticos.

Mais ou menos como Michel Mourlet indicou, M proporciona a embriaguez de uma palavra, àquela altura, ainda não domesticada por uma mise en scène que interioriza e esconde sua expressão nua e crua. Naquela cena clímax, Lang nos dá o som bruto das palavras, sua energia e não sua semântica; é possível acompanhar a seqüência inteira sem ler uma só legenda, ou sem dar atenção ao significado de uma só palavra. Perante a multidão que o ameaça engolir, Lorre mescla uma narrativa facial da era muda a uma eloqüência vocal ímpar, que o sonoro inventou e encerrou em cerca de dez minutos – a saber, os dez minutos em que o personagem de Lorre tenta se defender do júri popular que o quer morto. Seu rosto revela um devir inelutável, uma transformação não programada, uma monstruosidade para além do indivíduo, um mal que é patrimônio público. Não há melhor constatação do que a de Jonathan Rosenbaum: M traz a nostalgia de um tempo em que era possível ao artista, não sem ousadia, lançar-se a um exame de todo o organismo de uma grande metrópole, física e psicologicamente.

Sem negar a já mais que revisitada noção de M como a síntese precoce do valor estrutural do som (que rende desde piadas de humor negro – como na cena com a mulher semi-surda que leva o policial a falar cada vez mais alto – até a engenhosidade das escolhas dos pontos de escuta), é preciso destacar que a passagem de Lang ao sonoro incidiu prioritariamente na expansão da narratividade. M encheu o cinema de novas e sofisticadíssimas ferramentas narrativas (o hoje comum procedimento que transforma diálogo em narração e vice-versa tem sua origem ali). A montagem em cross fade (frases ou ações que começam num lugar/momento e terminam em outro), por seu turno, antecipa o famoso corte de Cidadão Kane em que, entre um "Merry Christmas..." e um "... and a happy new year", Welles faz a narrativa avançar 25 anos. Com M surge a possibilidade de começar a migração para o plano seguinte antes do término do plano anterior, criando-se uma nova espécie de elipse, que não é senão a interseção de tempos distintos. A mise en scène passa a poder se dar ao luxo de ser eterno movimento adiante, de se construir à medida que apaga os próprios rastros. Os flashbacks e os flashforwards – assim como outras modalidades de enxertos narrativos – adquirem um dinamismo estranho ao formato silencioso, mesmo se apanhado nos anos áureos do triunfo de sua linguagem visual.

Do exame completo da grande cidade (agora podendo ser mais detido, já que o DVD disponível pela Magnus Opus possui 110 minutos, ao invés dos 95 das cópias que conhecíamos antes), nenhum resultado parece reconfortar. É sob um céu de chumbo que Lang nos abandona após o arrepiante ciclo de julgamentos que encerra seu filme. O teto que Lang constrói através de M fica na iminência de desabar e soterrar o espectador num peso irredutível, que somente poucos tiveram a coragem e a responsabilidade de assumir (hoje, como já foi indicado, há Eastwood numa fase – pós-Dívida de Sangue – profundamente langiana). M é uma descida aos porões da vida urbana, que, no grosso da produção do início dos anos 30, estava mais acostumada a elogios entusiastas do que a radiografias críticas. Os ambientes excessivamente esfumaçados de M não deixam dúvida: esses homens vivem já no inferno. E ao inferno só se chega uma única e definitiva vez.

Texto originalmente publicado em: revista contracampo

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

História(s) Do Cinema - Cineclube do Atalante: Sessão Dupla Fritz Lang

A partir de agosto, o Cineclube do Atalante começou uma nova fase: História(s) do Cinema. Durante um ano, a cada sessão iremos exibir um filme (ou mais) que ajudou a definir os rumos da sétima arte.
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O formato continua o mesmo: um filme seguido de debate e a distribuição de uma folha da sessão com um texto escolhido especialmente.
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Quinzenalmente aos sábados, entrada gratuita, na Cinemateca de Curitiba.

Neste sábado, o então História(s) do Cinema - Cineclube do Atalante, em parceria com a Cinemateca de Curitiba, exibirá um programa duplo do diretor alemão Fritz Lang, com os filmes M: O Vampiro de Düsseldorf (1931) às 16h e O Segredo da Porta Fechada (1947) às 19h - esse, sendo projetado em película 16mm. Entrada franca, sempre!


No Instagram: @cineatalante

Serviço:
Sábado, 21 de setembro
16h (M)
19h (O Segredo da Porta Fechada)
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Coletivo Atalante  

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

sábado, 14 de setembro de 2019

Clube do Filme: Céline e Julie vão de barco

O Clube do Filme continua em setembro, em novo local: na Confraria dos Viajantes. À semelhança de um clube do livro, toda quarta quarta-feira do mês nos encontramos para a discussão de um filme e textos relacionados. Com foco na Nouvelle Vague, o Clube se propõe a discutir as renovações técnicas, temáticas e filosóficas propostas pela crítica da época e seu cinema, que tomou de assalto a França e o mundo.

Neste mês, o ponto de partida é  "Céline e Julie vão de barco" (1974) de Jacques Rivette.


Se o cinema e o teatro apresentam-nos o homem em ação (fala e gestos), os modos de aparência diferem de maneiras singulares e essa mudança de perspectiva não ocorre sem alterar seriamente o seu objeto. (...)
Os atores cedem à câmera, enquanto a câmera, ao contrário, segue-os e as performances alternadamente tensas e relaxadas cumprem o duplo movimento de tensão e relaxamento na respiração dramática. O corpo do ator - que no teatro é apenas um suporte abstrato do gesto e da fala - descobre sua plena realidade carnal: um olho que abre irrompe a tela, mãos e rostos, em seus menores frêmitos, desdobram e expressam, como vozes, uma verdade que é inteiramente das aparências. Constantemente, diante dos nossos olhos, a carne é visitada pelo espírito.

Jacques Rivette, na sua crítica de "Sob o signo de capricórnio" de Hitchcock.

A partir deste filme de Rivette, abordaremos seu trabalho como crítico, sua visão sobre o cinema e o teatro, bem como sua abordagem pessoal sobre diferentes gêneros da sétima arte e como esta se reverbera em suas aspirações experimentais e transgressoras de forma, entre outros temas.

 
"Céline e Julie vão de barco" foi lançado em DVD, disponível em sebos e locadoras, mas nem sempre é fácil de ser encontrado por meios tradicionais. Qualquer dúvida, estamos aqui para ajudar.

Os textos para leitura (recomendada, não obrigatória):

 1) "Já não somos inocentes", de Jacques Rivette (http://coletivoatalante.blogspot.com/2016/04/ja-nao-somos-inocentes.html)
2) Crítica de "Sob o signo de Capricórnio" por Jacques Rivette (http://www.focorevistadecinema.com.br/jornalcapricorn.htm)
3) "Jacques Rivette, questão de vida e morte", por Adolfo Gomes (http://www.contracampo.com.br/100/pgrivetteadolfo.htm)
Serviço:
Clube do Filme na Confraria dos Viajantes
"Céline e Julie vão de barco" (Céline et Julie vont en bateau
, 1974), de Jacques Rivette
Dia 25/09 (quarta quarta-feira do mês)
Das 19h15 às 21h45

Na Confraria dos Viajantes
(Rua Nilo Peçanha, 1080, Espaço Terracota, São Francisco - Curitiba)

ENTRADA FRANCA


*
Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.


Realização: Coletivo Atalante e
Confraria dos Viajantes



sábado, 31 de agosto de 2019

O Grau Zero da Humanidade

por Luiz Carlos Oliveira Jr.



Em Sherlock Jr (1924), certamente um dos ápices de sua carreira, Buster Keaton interpretra um rapaz que trabalha como projecionista num cinema, mas que sonha em se tornar um detetive. Um belo dia, ele adormece no meio de uma sessão do filme Hearts and Pearls (espécie de pastiche de filme de mistério com ar melodramático). Um duplo se desprende então de seu corpo, sai da cabine de projeção, caminha até a tela e, como quem cruza uma fronteira clandestinamente, entra no mundo do filme dentro do filme, onde faz o papel do herói e protagoniza uma série de peripécias que incluem algumas das mais incríveis gags acrobáticas de Keaton (como na longa sequência em que ele vai sentado ao guidão de uma bicicleta motorizada, equilibrando-se enquanto o veículo, cujo piloto ficou pelo meio do caminho, vara a cidade em desabalada carreira.)

O herói de Keaton nesse filme é praticamente uma versão burlesca de Jeff (James Stewart), o repórter fotógrafo de Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), de Alfred Hitchcock. O passatempo de Jeff, que se recupera de um acidente que o deixou com a perna imobilizada, é bisbilhotar a vida dos vizinhos com o auxílio de binóculos e de uma lente teleobjetiva. Numa das madrugadas em que se entrega ao seu perverso hobby, ele chega à conclusão de que houve um crime no apartamento da frente, por mais escassas que sejam as evidências em que se apoia – Jeff parece mais desejar o crime do que propriamente vê-lo. Por uma espécie de regressão à concepção mágca e animista do universo, os pensamentos e desejos do fotógrafo parecem exercer influência sobre a realidade circundante, e sua vontade de achar indícios que comprovem a hipótese do crime começa a se projetar no espaço da cena.


Como muito já se falou, Janela Indiscreta traz uma reflexão sobre a força psíquica do desejo encarnada no olhar e o mecanismo de projeção/identificação no cinema: sentado em sua cadeira de rodas, na penumbra de seu apartamento, com motricidade limitada e atenção hipertrofiada, Jeff está em situação semelhante à do espectador cinematográfico. O cenário construído em estúdio reproduz o próprio dispositivo da sala de exibição, o apartamento de Jeff sendo a cabine de projeção e o imóvel à frente, a tela. 

A personagem cômica de Keaton em Sherlock Jr., à semelhança do protagonista do clássico suspense de Hitchcock, projeta um crime no quadro enfadonho de sua vida diária e banca o etetive amador para tentar solucioná-lo. No filme de Keaton, porém, não há espaço metafórico: o protagonista de Sherlock Jr está efetivamente numa sala de cinema. E se, em Janela Indiscreta, o corpo que Jeff projeta no apartamento da frente (na “tela”) não é o seu, mas o de sua namorada (Lisa/Grace Kelly), que é quem efetivamente invade a casa do suposto assassino para procurar por evidências, enquanto Jeff assiste tudo à distância), em Sherlock Jr, o corpo que Keaton projeta na história de detetive imaginada não é outro senão o seu. Ele se inscreve no lugar da ação, ao passo que Jeff permanece na posição de espectador. De Sherlock Jr a Janela Indiscreta, da comédia burlesca ao suspense hitchcockiano, do exibicionismo ao voyeurismo, a aventura inesgotável do corpo se trocaria pela atividade inquieta, só que interiorizada, do olho. Restrito à cadeira de rodas e ao perímetro de um cômodo, o corpo não mais se locomoveria: todas as energias estariam concentradas no olhar. Ao excesso de ação se substituiria o excesso de visão. É toda uma mudança profunda na história do cinema que aí se concretiza.

No conhecido livro-entrevista, Hitchcock garante para Truffaut que a eficácia de Janela Indiscreta se pauta no “efeito Kulechov”, ou seja, na justaposição de um plano no rosto do ator, sempre com a mesma expressão (não tão mesma assim: há variações, ainda que discretas), e diferentes contra-planos que mostram diferentes situações. As cenas se articulam da seguinte maneira: o primeiro plano mostra James Stewart olhando pela janela; o segundo mostra o que ele está vendo; e o terceiro, sua reação. A cada nova articulação, um novo sentido se atribui à expressão do ator que, todavia, manteve-se praticamente inalterada. Em outras palavras, é a montagem que cria o sentido; o filme só se construí de verdade na mente do espectador, pela soma de imagens que, vistas isoladamente, não teriam significado. A pedra de toque do efeito Kulechov, portanto, é a neutralidade do rosto, ou sua indefinição: uma vez que a expressão facial do ator não é rigidamente codificada, ou não representa nenhum estado de alma em particular, ela se presta a uma grande maleabilidade semântica, podendo adquirir sentidos sempre novos de acordo com o plano que o antecede e/ou sucede na cadeia fílmica.
Ora, se há uma característica marcante no estilo de performance de Buster Keaton que constitui um aspecto inevitável para qualquer comentador de sua obra, é a inexpressividade do seu rosto, a máscara insondável por trás da qual ele aparece em cena. Contudo, ao contrário do jogo de montagem do olhar propiciado pela face requerida pelo efeito Kulechov e pelo suspense hitchcockiano, o “rosto de pedra” de Buster Keaton engendra outra dinâmica: em vez de concentrar a mise-en-scène no olhar e na interiorização psicológica, ele a expulsa para a periferia do corpo, para as partes encarregados do movimento exteriormente visível. Com isso, potencializa a ação física da cena. Porquanto o rosto não “diz” nada, resta buscar o sentido da cena alhures. No rosto neutro do suspense hitchcockiano, tudo o que importa é o olhar, ou ainda, a direção do olhar – daí a necessidade da inexpressividade, para que haja uma redução do rosto ao olho, ao raio ocular, cabendo ao ma­estro-metteur en scéne a função de produzir o sentido e a emoção da cena. Já o rosto neutro de Keaton inviabiliza a montagem psicológica: sua face e seu olhar não servem como elo da cadeia significante, ou como peça mediadora da passagem de um plano a outro, em suma, não são vetores da narração. Alheio à transitividade do rosto no cinema clássico, Keaton prefere anulá-lo em sua função propriamente narrativa. Enquanto a montagem hitchcocko-kulechoviana prescreve o olhar como eixo distribuidor dos planos e dos sentidos (na dupla acepção de direção espacial e de significado), a montagem keatoniana trabalha em outro regime, catapultando (às vezes literalmente) o corpo do comediante-acrobata de um plano para outro e permitindo um encaixe puramente mecânico dos blocos de espaço-tempo que constituem o filme. Cada plano é a peça de uma engrenagem ou, num modelo geométrico, um cubo que se comunica com outro por uma abertura lateral, numa espécie de sistema de tubulação virtualmente infinito – tal esquema de montagem já é levado por Keaton ao paroxismo em 1920, no final de O Grande Sinal (The High Sign, 1921). Se a montagem do cinema clássico hollywoodiano se guiou pela “tradução permanente de toda a passagem de plano a plano em termos psicológicos”, a de Keaton seguiu as regras de uma construção rigorosamente geométrica, a mesma aplicada à composição dos planos, e talvez por isso Éric Rohmer tenha atribuído a Keaton, assim como a Griffith e a Murnau, o mérito de lhe ter desvendado “os segredos de uma das operações principais da mise-en-scéne cinematográfica: a organização do espaço.”

É claro que, mesmo com a supressão deliberada das impressões de personalidade, o rosto continua tendo, em Keaton, um papel de destaque na dramaturgia (tanto que em qualquer análise da sua obra tem de passar por esse elemento). Mas a opacidade que ele impõe ao espectador por meio dessa máscara inexpressiva gera uma ruptura com certas convenções dramáticas que vinham se tornando cada vez mais centradas no rosto em primeiro plano e em sua função narrativo-psicológica. Ao longo da década de 1910, a pantomima havia se modificado e ficado mais naturalista, ao passo que a câmera havia se aproximado e a montagem passara a justapor aos planos gerais e planos americanos toda uma gama de enquadramentos aproximados em que a expressão “natural” do rosto era o principal veículo do sentido. O cinema silencioso dos anos 1920, dando continuidade ao processo, seria o império do rosto: década da fotogenia (Jean Epstein), do primeiro plano, do close-up como solilóquio silencioso (Béla Balázs), da fisionomia como encarnação sensível da verdade trazida à luz na forma de “rostificação” ou como revelação mágica da alma dos seres e das coisas. 

Mas é justamente essa possibilidade de o rosto funcionar como revelador psíquico que o cinema de Keaton nega sistematicamente. Seu rosto imóvel e neutro é o próprio impenetrável: placa refletora, ele está lá para devolver à realidade ambiente o eco de suas vibrações. Enquanto o corpo de Chaplin se dobra constantemente sobre seu próprio centro, que não é senão o rosto (no qual se podem ler as emoções e estados de alma que o preenchem), o de Keaton, inversamente, está empenhado em medir o espaço em que o comediante se inscreve com a objetividade de um geômetra. É por aí que se deve aprofundar a eterna comparação Chaplin-Keaton, diferenciando um Chaplin “clássico”, ainda imerso numa visão humanista-antropocêntrica do universo, de um Keaton “moderno”, que reconhece o sujeito descentrado da era pós-industrial, um sujeito jogado para fora de si mesmo, arremessado no vazio de sentido, na obtuosidade opaca do mundo. “A calma de seu rosto, esse esplêndido meteorito branco como que suspenso em plena queda, apenas sublinha sua insolente beleza, em si mesma um verdadeiro desafio ao entendimento. Tal como Chaplin, Keaton é tragado pelas forças do mundo mecanizado. Mas, ao contrário do herói de Tempos Modernos (Modern Times, 1936), Keaton não emerge dessa mastigação industrial como um corpo sobrecarregado de uma energia (aquela usada pelas máquinas da indústria) cujo potencial transformador ele pode dialeticamente subverter em favor de ações com significado ideológico-revolucionário. Nenhuma fantasia romântica em Keaton, nenhum didatismo político. Nenhuma tomada de consciência sequer. Depois de sublinhar o modo perverso de funcionamento do sistema, ele segue em frente com a mesma obstinação de transpor os obstáculos físicos do mundo material e com o mesmo inescrutável do início do filme, como se não tivesse sofrido nenhuma mudança emocional ou psicológica no decorrer das reviravoltas pelas quais passou. Não há arco de personagem, por assim dizer. Keaton é uma bala de canhão a percorrer o mundo – e, não à toa, uma das cenas mais recorrentes de sua obra consiste em seu corpo sendo ejetado da janela de uma casa ou lançado de um lugar para o outro como um foguete.

Nos filmes que fez ao lado de Roscoe “Fatty” Arbuckle no período 1917-19, Keaton ainda pertencia àquela anarquia original que marcou a comédia burlesca na era de Mack Sennett: seu corpo era apanhado no meio de um caos coletivo, de uma avalanche de tortas na cara e quedas em série. A arte do primeiro plano, do close-up, é ulterior a esse cinema. O burlesco “primitivo” não tinha tempo nem interesse de se deter sobre os rostos. Naquele “verdadeiro turbilhão cósmico”, para retomar a expressão de Petr Král, os corpos dos comediantes consistiam basicamente em pernas e braços se agitando no ar: tudo participava de um desregramento sistemático que, em sua orgia generalizada, apagava até mesmo a individualidade das personagens. Depois, pouco a pouco, as gags se tornaram mais articuladas, os contornos das personagens se definiram com mais precisão: assistiu-se ao nascimento dos estilos individuais e dos universos cômicos pessoais (Lloyd, Keaton, Stan Laurel) que, na curva dos anos 1910 para os anos 1920 (a exceção, como sempre, é Chaplin, que desenvolve uma obra pessoal já em 1914), suplantariam o burlesco coletivo.

No caso específico de Keaton, é como se ele saísse daquele caos original em que se encontrava no período Arbuckle e se transportasse para um cenário espaçoso, ao ar livre, onde pudesse organizar sua mise en scène e pensar suas gags como num processo de abstração geométrica. Ele guardou daqueles anos, todavia, o gosto pela acumulação, pela soma efervescente de gags, pela multiplicação progressiva dos corpos, obstáculos e ações: basta ver as perseguições épicas de O Enrascado (Cops, 1922) e Sete Oportunidades (Seven Chances, 1925), em que a cada esquina uma massa de figurantes surge do fora de campo para se juntar à multidão já em quadro e formar a turba incontável que persegue Keaton numa interminável jornada de superação dos limites físicos. 

É frequente em Keaton, como notou Král, um espaço deserto, um mundo reduzido a uma depuração essencial, reflexo tanto de uma nostalgia do espaço de uma América ainda primitiva, “selvagem”, em processo de conquista, para além do tempo dos pioneiros e das primeiras máquinas, quanto de um desejo de buscar no espaço a mesma neutralidade e a mesma qualidade imemorial que o rosto do comediante apresenta ao espectador. O crítico Robert Benayoun define Keaton como uma espécie de “recomeço do zero”. De fato, o cinema de Keaton nos faz encarar uma espécie de grau zero da humanidade, um ponto de partida para a reconstrução de um sujeito que o frenesi da vida moderna tornou estranho a si mesmo.

(Texto retirado do catálogo da mostra Buster Keaton - O Palhaço Que Não Ri, promovida pela Caixa Cultural em 2016.)