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segunda-feira, 6 de julho de 2020

NON, ou a vã glória de mandar

por Vera Lúcia de Oliveira e Silva


No seu livro “Sobre a verdade e a mentira num sentido não-moral”[1], Nietzsche vai explorar os limites da verdade num mundo dominado pelas palavras.

Ele situa que, primeiro está o Real – a Coisa, das Ding an sich (dirá Kant). Este Real afeta o humano, que dele fará uma representação, a partir das informações de seu sistema perceptivo – primeira metáfora. Com essa representação da Coisa, o humano fará uma segunda metáfora: um som – nasce a palavra. A partir daí, esquecendo-se de que as palavras não passam de representação de uma representação, o homem passa a viver num mundo necessariamente ilusório, distante do Real.

Nesse clima é que quero comentar o filme de Manoel de Oliveira, lembrando que o Cinema toma palavras ditas sobre o Real, converte-as em imagens, as quais, no tempo da Crítica, são novamente revertidas a palavras. Ou seja, o risco da contaminação da verdade pela mentira é ilimitado.

Se tomar uma distância cautelosa diante das palavras parece prudente diante da advertência de Nietzche, se queremos alguma proximidade com a Verdade, essa cautela se redobra quando chegamos à Crítica na sua relação com a verdade do Cinema.

Então, convido a examinar, com cautela, as palavras que se aplicam à leitura do filme de Manoel de Oliveira:

Tomo comentários de Mariana Veiga Copertino [2] que nos aponta que, neste filme, umareferência literária consiste justamente na palavra “NON”, retirada do Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma, de padre António Vieira. Terrível palavra é um non: não tem direito nem avesso, por qualquer lado que o tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é um non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela por que o não mordesse, disse-lhe Deus que a tomasse ao revés - e logo perdeu a figura, a ferocidade, a peçonha. O non não é assim: por qualquer parte que o tomeis é sempre serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo.”



Fica muito claro que este caráter terrível aplica-se à palavra NON – mas não a todas as palavras. Que, nem por isso, deixam de carregar um veneno traiçoeiro, porque inaparente. Refiro-me aos sinônimos que, rigorosamente falando, não existem. Casa não é o mesmo que Lar; Trabalho não é o mesmo que Emprego; Valioso não é o mesmo que Valoroso. A lista seria interminável.

Retomando Copertino2, tomemos a expressão “vã glória de mandar” que, no seu comentário, faz referência explícita à famigerada fala da personagem Velho do Restelo d’Os Lusíadas de Camões, a figura pessimista que esbraveja nas praias do Restelo, criticando a ambição e a cobiça dos navegadores portugueses. O Velho do Restelo representa, na épica camoniana, o contraponto ao entusiasmo do povo português com a expansão ultramarina, criticando aqueles que se lançavam ao mar em busca de eternizar seu nome na história, deixando a sua pátria à mercê dos inimigos. Non ou a vã glória de mandar assume o papel de Velho do Restelo, na medida em que lança olhar pessimista sobre as batalhas do povo lusitano.

Pergunto: por que pessimista?

Não me parece que “Non, a vã glória de mandar” lance um olhar pessimista sobre as batalhas do povo lusitano. Parece-me que Manoel de Oliveira vai, exatamente, propor um giro que arranca o Fracasso para o patamar da Derrota; e o Triunfo, para o estatuto da Vitória.

Tento explicar, buscando as palavras justas para falar de algo que está no filme:

Fracasso é uma experiência subjetiva de submissão à força do outro; derrota, um reconhecimento da primazia do Outro. A gente fracassar não é o mesmo que ser derrotado por outro que nos suplanta com um poder maior. Triunfo é uma glória narcísica por ter reduzido o outro à submissão; Vitória, o reconhecimento bilateral de uma supremacia.

Então:

É possível ler a história de Portugal – Lusitanos (com Viriato) X Romanos; Portucalentes X Hispânicos; Braganças X Brasil; Salazar X colônias africanas – como uma sucessão de fracassos, de que só pode decorrer humilhação e vergonha. Mas também é possível lê-la como uma seqüência de derrotas, com as quais um país foi se deixando ensinar algo da soberania do Outro.

Também é possível pensar que a História demonstra que Portugal jamais alcançou o triunfo que perseguiu – o que seria um desdouro narcísico. Mas também é legítimo verificar que o país aprendeu com as derrotas e emergiu vitorioso na renúncia à vã glória de mandar.

Para mim, esse convite a sair de um julgamento piedoso e complacente (e, no limite, zombeteiro), para um reconhecimento da dignidade de um povo que se deixou ensinar pela Historia – esse é o giro que Manoel de Oliveira propõe, e que eu subscrevo.


Curitiba, 27 de Junho do ano da peste.

Texto produzido para o Clube do Filme de junho de 2020, no qual o filme "Non, ou a vã glória de mandar" (1990) de Manoel de Oliveira conduziu o encontro e os debates.




[1] Sobre a Verdade e Mentiras em um Sentido Não-Moral (Über Wahrheit und Lüge im außermoralischen Sinn), 1873 - publicado postumamente; edição brasileira, 2008). — Ensaio no qual afirma que aquilo que consideramos verdade é mera "armadura de metáforas, metonímias e antropomorfismos". Apesar de póstumo, é considerado por estudiosos como elemento-chave de seu pensamento.

domingo, 14 de junho de 2020

Clube do Filme: virtual

Devido à pandemia de COVID-19, tivemos que suspender boa parte de nossas atividades. Contudo, com a manutenção do estado de quarentena por tempo indeterminado, decidimos retomar o Clube do Filme, agora em formato virtual. A proposta continua a mesma: na última quarta-feira do mês nos reunimos para a discussão de um filme e textos relacionados. 

O filme de junho, retomando nosso percurso no cinema português, é "Non, ou a vã glória de mandar" (1990), de Manoel de Oliveira.


"Como a serpente que engole a sua própria cauda, NON não se limita a traçar um círculo por momentos aparentemente distantes da História de Portugal. O filme ocupa, ele próprio, um lugar axial na filmografia do seu autor. Se Manoel de Oliveira disse uma vez que todo o seu trabalho seria incompleto se não tivesse feito NON, vinte anos passados podemos ver o filme como centro de uma das espirais mais coesas do cinema oliveiriano."
- António Preto

O filme está disponível no YouTube,
em baixa qualidade: https://www.youtube.com/watch?v=LwpAiE9I8cw. Qualquer coisa, estamos aqui para ajudar.

Textos recomendados para leitura:
1)
"Oliveira e nós", por José Manuel Costa: http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/Oliveira-e-nos.pdf
2) Crítica do filme, por António Preto: https://www.buala.org/pt/afroscreen/non-ou-a-va-gloria-de-mandar

Como de costume, nosso propósito no Clube do Filme é discutir obras e textos com um pouco mais de tempo que nos debates após as sessões do cineclube, ou seja, o filme não será exibido na data. Recomendamos que o filme já tenha sido visto e também a leitura dos textos, porém isso não é exigido para participação. Optamos pelo encontro via plataforma Jitsi, uma vez que não exige senha, links confusos nem download de nenhum aplicativo para o desktop (porém caso queira acessar pelo celular, é necessário o aplicativo Jitsi para celular, de download gratuito). Devido ao formato virtual, não poderemos exibir com qualidade trechos do filme e de outros trabalhos, mas acreditamos ser importante retomarmos as atividades possíveis. O ingresso, como sempre, é gratuito.



Serviço:
Clube do Filme: Non, ou a vã glória de mandar
Dia 24/06 (quarta-feira)
Das 19h15 às 21h30
Via Jitsi: https://meet.jit.si/ClubedoFilmeAtalante
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Non, ou A Vã Glória de Mandar


No princípio é um título compósito que se enraíza numa complicada alternativa entre o messianismo histórico do padre António Vieira, aqui convocado através do «Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma» – “Terrível palavra é um NON, não tem direito nem avesso, por qualquer lado que a tomeis, sempre soa e diz o mesmo, lido do princípio para o fim ou do fim para o princípio, sempre é NON.”  – e a imprecação do Velho do Restelo – “‘Ó glória de mandar, ó vã cobiça/ desta vaidade a quem chamamos Fama!’”  –, subtil e significativamente reformulada. No princípio é uma árvore gigantesca, impossível de filmar. Só podemos rodeá-la e, em vão, andar à volta da sua imponência tão ostensiva quanto oculta: sem direito nem avesso, a metade aérea que vemos erguida é simétrica à outra metade que, pelo chão, se afunda. No princípio é a vontade de desenterrar a História oficial para escovar a mitologia pátria a contra-pêlo. Da epopeia à tragédia, o programa de NON mais não é do que um virar de Os Lusíadas ao contrário. Trata-se de pesar o destino da “primeira nação da Europa”, não à luz das suas vitórias militares – e a História, como o nota Benjamin, costuma ser contada pelos vencedores –, mas a partir das batalhas perdidas. Trata-se, em suma, de tentar perceber que país é esse que, de Viriato ao “orgulhosamente sós”, só contra os romanos e contra o mundo, se funda na recusa da civilização. Estranha é a questão, difícil de circunscrever o “sentido último” de uma história que se inicia na auto-liquidação trágica de um reino sem transcendência. Dois mil anos passados, a verdade é, como diz Manoel de Oliveira, secreta e inexplicável. Resta avaliar o que se ganha na derrota.
Projecto antigo acalentado ao longo de mais de uma década – as primeiras referências de Oliveira ao que viria a ser o filme datam de meados da década de 1970, altura em que trabalhava em Amor de Perdição (circunstância que confirma a incidência histórica e política da leitura que realizador faz do texto de Camilo Castelo Branco) –, o 25 de Abril de 1974 era, já nesta versão inicial, o pano de fundo de NON (aliás, de “Não”, como então se intitulava). A acção devia situar-se num teatro de província onde se estreava uma peça de teatro em quatro actos sobre Portugal e a sua história. Quatro eram, também, as campanhas frustradas: a referida luta de Viriato contra a hegemonia romana, a batalha de Toro contra os espanhóis, o desastre de Alcácer-Quibir e as guerras coloniais. Quinze anos passados, Oliveira terá percebido que a moldura teatral inicialmente prevista poderia ofuscar, sob o manto das questões ligadas à representação, as verdadeiras motivações do filme. Conquanto a teatralidade e, até mais do que isso, a inverosimilhança e o artifício tosco continuem a ser, em NON, importantes factores de desconstrução da tonalidade epopeica (vejam-se, por exemplo, as vestimentas e perucas dos insurrectos lusitanos, a cena do Decepado na batalha de Toro ou o episódio da morte do príncipe D. Afonso, filho de D. João II), a acção seria transferida para um dos principais cenários do imaginário nacional, para ser protagonizada por aqueles que foram os últimos a pagar a factura do nosso delírio imperialista. África, “palco da nossa derradeira aventura trágica, como o fôra da nossa primeira aventura épica, seria, como o nota João Bénard da Costa, o verdadeiro teatro das operações, lugar do papel que o lusíada por si próprio se tinha inventado e donde finalmente se bania, cumprindo um ciclo de derrotas, um ciclo em que o destino sempre disse não a Portugal ou aos seus sonhos mais grandiloquentes.”
Colocada na boca dos soldados que apontaram as armas ao inevitável colapso colonialista, a revisão histórica conduzida por Manoel de Oliveira desenrola-se numa complexa arquitectura narrativa. A evocação de muitos dos momentos fulcrais da nossa existência como povo e como país – formulada num tom que alguns confundiram com simplismo histórico ou com didactismo passadista, quando, efectivamente, se trata de algo próximo dos princípios brechtianos do teatro épico –, responde ao ponto de vista desses soldados ao mesmo tempo que perspectiva, num contexto mais alargado, o fim da guerra africana, o fim do Estado Novo, o fim da epopeia ultramarina. O modo como, à excepção do alferes Cabrita (que tem estatuto de narrador delegado), estes soldados se expressam sobre a guerra em que participam e o momento histórico de transição em que intervêm é um apanhado de contradições e de noções gerais que, na maioria das vezes, não ultrapassa, deliberadamente, os lugares comuns. Mas se a guerra, como a História, é feita por homens comuns, o olhar de Oliveira vai no sentido antitético da individuação e da transpersonalização de cada um destes soldados desconhecidos, pintando o retrato transtemporal de um povo com uma justeza que só encontra paralelo nos painéis de Nuno Gonçalves. As batalhas perdidas são, assim, recordadas (e encarnadas) por aqueles mesmos que se preparam para, eles próprios, perderem mais uma guerra. Esse é, como se diz, o altíssimo preço da liberdade, condição necessária para a histórica mudança que aqui se vive e discute em primeiro grau, entrelaçando a derradeira morte no campo de batalha de Alcácer-Quibir (numa referência a Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett), com a derradeira morte do Império na cama de um hospital de campanha. É esta a transfusão de sangue que liga a aparição de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, que outra não é que a manhã do dia 25 de Abril de 1974 (assim o sentencia, em voz off, o próprio Manoel de Oliveira), à febre agonizante do alferes-narrador moribundo: é este o sentido final de todas as histórias. A Revolução de Abril de 1974 ao espelho de Alcácer-Quibir. Alcácer-Quibir que é o maior desastre de toda a nossa história. Desastre que se torna mito. Mito que se torna verdade. Verdade que é algo de secreto e inexplicável, o sentido último que tudo explica. E se parafraseamos algumas das afirmações constantes em NON é para melhor ocultar esta misteriosa genealogia que liga a maior de todas as derrotas à maior de todas as vitórias recentes. A conquista é a da negatividade, a licença, ganha a ferros, de pensar o país longe da glória, naquilo que não foi.
Como a serpente que engole a sua própria cauda, NON não se limita a traçar um círculo por momentos aparentemente distantes da História de Portugal. O filme ocupa, ele próprio, um lugar axial na filmografia do seu autor. Se Manoel de Oliveira disse uma vez que todo o seu trabalho seria incompleto se não tivesse feito NON, vinte anos passados podemos ver o filme como centro de uma das espirais mais coesas do cinema oliveiriano. Nele se radicaliza a reflexão sobre a portugalidade iniciada com Le Soulier de Satin (1985), esse que é um filme de transição entre a problemática dos dramas individuais, em jogo na dita “Tetralogia dos Amores Frustrados” (por maior que aí seja o peso dado às instituições) – de que fazem parte O Passado e o Presente (1972), Benilde ou a Virgem-Mãe (1975),Amor de Perdição (1978) e Francisca (1981) – e a interrogação sobre os destinos colectivos, em filmes onde as personagens se distanciam de desaires singulares para se elevarem à condição de agentes históricos. É nessa linhagem que temos de incluir A Divina Comédia (1991) – a que Oliveira se refere como uma “continuação” de NON, estendendo a questão do imaginário histórico nacional às raízes da cultura ocidental –, mas, também, Palavra e Utopia (2000), Um Filme Falado (2003), O Quinto Império: Ontem como Hoje (2004), Cristóvão Colombo: O Enigma (2007), ou o mais recentePainéis de São Vicente de Fora: Visão Poética (2009). É talvez este último filme que mais claramente dialoga com NON – nomeadamente com o episódio da Ilha dos Amores – e que melhor explica o ponto de vista de Manoel de Oliveira sobre a História (a História que é sempre sangrenta): o que fica para a humanidade não é o que se tira, mas sim o que se dá.

António Preto
(Texto extraído de 
http://www.buala.org/pt/afroscreen/non-ou-a-va-gloria-de-mandar)

sábado, 11 de abril de 2015

Cineclube da Cinemateca Especial: Mostra Manoel de Oliveira

Uma pequena homenagem ao maior cineasta português.

16/04, quinta às 16h - Aniki Bobó (1942, 68 min)
Primeiro longa de Manoel de Oliveira. A história tem como cenário os bairros populares do Porto, onde as crianças são pobres, livres e aventureiras, mas enfrentam todos os problemas do mundo adulto. Entre os meninos Eduardo e Carlinhos, brota uma rivalidade pelo amor de Teresinha – que leva a um roubo e a um acidente com muitas conseqüências. Por sua naturalidade e despojamento, Aniki-bóbó foi considerado pelo crítico francês Georges Sadoul como precursor do neo-realismo. O título refere-se a uma fórmula mágica que, nas brincadeiras infantis, permite determinar quem é a polícia e quem é o ladrão.

17/04, sexta às 19h - Non, Ou a Vã Glória de Mandar (1990, 110 min)
Durante a década de 70, um contingente militar português vai à África numa missão. Muitos dos soldados são jovens e têm medo das batalhas, ou saudades de casa; o sargento então resolve contar várias histórias sobre o passado militar português, filosofando sobre as condições do antes e do agora.

18/04, sábado às 19h - Vale Abraão (1993, 187 min)
Ema, de uma beleza 'ameaçadora', casa com Carlos, mas não o ama. "O seu rosto que pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as suas ilusões e o desejo que faz nascer nos homens, valem-lhe o nome de "Bovarinha". Tem vários amantes, mas os seus amores sucessivos trazem-lhe apenas um grande sentimento de desilusão. Ema morre - "acidentalmente, talvez?" - num dia de sol radioso, depois de se vestir como quem vai para um passeio no campo.

19/04, domingo às 19h - O Estranho Caso de Angélica (2010, 97 min)
Isaac é um jovem fotógrafo que, no meio da noite, recebe uma chamada urgente de uma família rica para ir e tirar a última foto de sua filha, Angélica, falecida poucos dias depois de seu casamento. Chegando à casa do luto, Isaac recebe o seu primeiro vislumbre da jovem morta e é esmagado por sua beleza. O espantoso é que, ao olhar para ela através da lente de sua câmera, a moça parece voltar à vida. Isaac imediatamente se apaixona por ela. Daquele momento em diante, Angélica irá assombrá-lo dia e noite, até a exaustão.

Serviço:
de 16 a 19 (quinta a domingo)
às 16h na quinta e às 19h na sexta, sábado e domingo.
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante