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segunda-feira, 6 de julho de 2020

NON, ou a vã glória de mandar

por Vera Lúcia de Oliveira e Silva


No seu livro “Sobre a verdade e a mentira num sentido não-moral”[1], Nietzsche vai explorar os limites da verdade num mundo dominado pelas palavras.

Ele situa que, primeiro está o Real – a Coisa, das Ding an sich (dirá Kant). Este Real afeta o humano, que dele fará uma representação, a partir das informações de seu sistema perceptivo – primeira metáfora. Com essa representação da Coisa, o humano fará uma segunda metáfora: um som – nasce a palavra. A partir daí, esquecendo-se de que as palavras não passam de representação de uma representação, o homem passa a viver num mundo necessariamente ilusório, distante do Real.

Nesse clima é que quero comentar o filme de Manoel de Oliveira, lembrando que o Cinema toma palavras ditas sobre o Real, converte-as em imagens, as quais, no tempo da Crítica, são novamente revertidas a palavras. Ou seja, o risco da contaminação da verdade pela mentira é ilimitado.

Se tomar uma distância cautelosa diante das palavras parece prudente diante da advertência de Nietzche, se queremos alguma proximidade com a Verdade, essa cautela se redobra quando chegamos à Crítica na sua relação com a verdade do Cinema.

Então, convido a examinar, com cautela, as palavras que se aplicam à leitura do filme de Manoel de Oliveira:

Tomo comentários de Mariana Veiga Copertino [2] que nos aponta que, neste filme, umareferência literária consiste justamente na palavra “NON”, retirada do Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma, de padre António Vieira. Terrível palavra é um non: não tem direito nem avesso, por qualquer lado que o tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é um non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela por que o não mordesse, disse-lhe Deus que a tomasse ao revés - e logo perdeu a figura, a ferocidade, a peçonha. O non não é assim: por qualquer parte que o tomeis é sempre serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo.”



Fica muito claro que este caráter terrível aplica-se à palavra NON – mas não a todas as palavras. Que, nem por isso, deixam de carregar um veneno traiçoeiro, porque inaparente. Refiro-me aos sinônimos que, rigorosamente falando, não existem. Casa não é o mesmo que Lar; Trabalho não é o mesmo que Emprego; Valioso não é o mesmo que Valoroso. A lista seria interminável.

Retomando Copertino2, tomemos a expressão “vã glória de mandar” que, no seu comentário, faz referência explícita à famigerada fala da personagem Velho do Restelo d’Os Lusíadas de Camões, a figura pessimista que esbraveja nas praias do Restelo, criticando a ambição e a cobiça dos navegadores portugueses. O Velho do Restelo representa, na épica camoniana, o contraponto ao entusiasmo do povo português com a expansão ultramarina, criticando aqueles que se lançavam ao mar em busca de eternizar seu nome na história, deixando a sua pátria à mercê dos inimigos. Non ou a vã glória de mandar assume o papel de Velho do Restelo, na medida em que lança olhar pessimista sobre as batalhas do povo lusitano.

Pergunto: por que pessimista?

Não me parece que “Non, a vã glória de mandar” lance um olhar pessimista sobre as batalhas do povo lusitano. Parece-me que Manoel de Oliveira vai, exatamente, propor um giro que arranca o Fracasso para o patamar da Derrota; e o Triunfo, para o estatuto da Vitória.

Tento explicar, buscando as palavras justas para falar de algo que está no filme:

Fracasso é uma experiência subjetiva de submissão à força do outro; derrota, um reconhecimento da primazia do Outro. A gente fracassar não é o mesmo que ser derrotado por outro que nos suplanta com um poder maior. Triunfo é uma glória narcísica por ter reduzido o outro à submissão; Vitória, o reconhecimento bilateral de uma supremacia.

Então:

É possível ler a história de Portugal – Lusitanos (com Viriato) X Romanos; Portucalentes X Hispânicos; Braganças X Brasil; Salazar X colônias africanas – como uma sucessão de fracassos, de que só pode decorrer humilhação e vergonha. Mas também é possível lê-la como uma seqüência de derrotas, com as quais um país foi se deixando ensinar algo da soberania do Outro.

Também é possível pensar que a História demonstra que Portugal jamais alcançou o triunfo que perseguiu – o que seria um desdouro narcísico. Mas também é legítimo verificar que o país aprendeu com as derrotas e emergiu vitorioso na renúncia à vã glória de mandar.

Para mim, esse convite a sair de um julgamento piedoso e complacente (e, no limite, zombeteiro), para um reconhecimento da dignidade de um povo que se deixou ensinar pela Historia – esse é o giro que Manoel de Oliveira propõe, e que eu subscrevo.


Curitiba, 27 de Junho do ano da peste.

Texto produzido para o Clube do Filme de junho de 2020, no qual o filme "Non, ou a vã glória de mandar" (1990) de Manoel de Oliveira conduziu o encontro e os debates.




[1] Sobre a Verdade e Mentiras em um Sentido Não-Moral (Über Wahrheit und Lüge im außermoralischen Sinn), 1873 - publicado postumamente; edição brasileira, 2008). — Ensaio no qual afirma que aquilo que consideramos verdade é mera "armadura de metáforas, metonímias e antropomorfismos". Apesar de póstumo, é considerado por estudiosos como elemento-chave de seu pensamento.

domingo, 14 de junho de 2020

Clube do Filme: virtual

Devido à pandemia de COVID-19, tivemos que suspender boa parte de nossas atividades. Contudo, com a manutenção do estado de quarentena por tempo indeterminado, decidimos retomar o Clube do Filme, agora em formato virtual. A proposta continua a mesma: na última quarta-feira do mês nos reunimos para a discussão de um filme e textos relacionados. 

O filme de junho, retomando nosso percurso no cinema português, é "Non, ou a vã glória de mandar" (1990), de Manoel de Oliveira.


"Como a serpente que engole a sua própria cauda, NON não se limita a traçar um círculo por momentos aparentemente distantes da História de Portugal. O filme ocupa, ele próprio, um lugar axial na filmografia do seu autor. Se Manoel de Oliveira disse uma vez que todo o seu trabalho seria incompleto se não tivesse feito NON, vinte anos passados podemos ver o filme como centro de uma das espirais mais coesas do cinema oliveiriano."
- António Preto

O filme está disponível no YouTube,
em baixa qualidade: https://www.youtube.com/watch?v=LwpAiE9I8cw. Qualquer coisa, estamos aqui para ajudar.

Textos recomendados para leitura:
1)
"Oliveira e nós", por José Manuel Costa: http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/Oliveira-e-nos.pdf
2) Crítica do filme, por António Preto: https://www.buala.org/pt/afroscreen/non-ou-a-va-gloria-de-mandar

Como de costume, nosso propósito no Clube do Filme é discutir obras e textos com um pouco mais de tempo que nos debates após as sessões do cineclube, ou seja, o filme não será exibido na data. Recomendamos que o filme já tenha sido visto e também a leitura dos textos, porém isso não é exigido para participação. Optamos pelo encontro via plataforma Jitsi, uma vez que não exige senha, links confusos nem download de nenhum aplicativo para o desktop (porém caso queira acessar pelo celular, é necessário o aplicativo Jitsi para celular, de download gratuito). Devido ao formato virtual, não poderemos exibir com qualidade trechos do filme e de outros trabalhos, mas acreditamos ser importante retomarmos as atividades possíveis. O ingresso, como sempre, é gratuito.



Serviço:
Clube do Filme: Non, ou a vã glória de mandar
Dia 24/06 (quarta-feira)
Das 19h15 às 21h30
Via Jitsi: https://meet.jit.si/ClubedoFilmeAtalante
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

domingo, 18 de setembro de 2016

Cine FAP: O Meu Caso, de Manoel de Oliveira


Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu "próprio caso". Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma atriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu " próprio caso" e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira.

Após a sessão, realizamos uma discussão mediada pelos integrantes do cineclube. Nossa programação neste mês ainda contará com o filme Dez, de Abbas Kiarostami (26/09).

Sessão:
O Meu Caso (Mon Cas, Portugal, 1986
, 92 min.)
dia 19/09 (segunda-feira)
às 19h
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná/UNESPAR
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA


Realização: Cine FAP
Apoio: Cazé - Centro Acadêmico Zé do Caixão 
Coletivo Atalante


domingo, 19 de abril de 2015

O Estranho Caso de Angélica


(2010, Manoel de Oliveira)

Em seu belo texto sobre Manoel de Oliveira, “Uma nova aventura lusitana”, Inácio Araújo afirma, referindo-se às culturas do passado que retornam e se presentificam ao longo de toda a filmografia do diretor, que em seus filmes “o tempo não existe, não o tempo cronológico (…) o tempo se concentra, tende à inexistência ou mesmo a um certo tipo de insignificância”. O Estranho caso de Angélica não é exceção. E o que volta do passado aqui é certo imaginário ou sensibilidade desenvolvidos à época do Romantismo. Como em tantos outros filmes de Oliveira, parece que estamos, em Angélica, em pleno século XIX (uma espécie de interesse constante do diretor), embora seja um século XIX com automóveis modernos e uma máquina fotográfica perfeitamente a cores – o tempo cronológico não importa, afinal.
Ora, não seria Isaac, o fotógrafo e leitor de filosofia recluso em seu quarto, uma espécie ou variante de Werther? Se lembrarmos bem, este apaixonado suicida só deixava de lado o mergulho em suas leituras e o quarto da estalagem onde estava hospedado para olhar a natureza e desenhar suas singularidades (até conhecer Lotte, claro). Eram desenhos rápidos, à mão, que tentavam captar o instante do sol batendo na grama, segurar a marcha atroz do tempo, etc… fotografias, enfim. A comparação é importante, porque é justamente este personagem, Isaac, que poderá – ou estará apto ou predisposto – a enxergar como viva uma mulher que acabou de falecer. Como se sabe, a grande revolução do Romantismo contra as hierarquias da beleza clássica foi estabelecer que “tudo fala”: uma mera pedra, uma árvore, uma pequena casa vulgar, um defunto, tudo faz parte da opacidade misteriosa e imanente das coisas do mundo e tudo pode ser elevado a objeto da arte, tudo esbanja significados inimagináveis, todos os objetos podem ser portas para uma transcendência sublime. O que estas coisas nos escondem? Que verdade essencial há em seu mistério? A condição melancólica do romântico era olhar o mundo a partir dessa dúvida permanente. E é o que acontece com Issac, que lança olhares tristes para o lado de fora da janela (como nas pinturas de Friedrich) e que, como ele mesmo afirma, se interessa pelas coisas que estão prestes a desaparecer, como um grupo remanescente de trabalhadores rurais que logo serão substituídos por máquinas e que ele fotografa.
Oliveira precisa desse personagem – o retorno a esta “vertente romântica” se justifica porque o cineasta português faz parte, junto com tantos outros diretores que estão no topo do debate cinéfilo contemporâneo, de uma busca justamente pela transcendência que as coisas opacas e misteriosas do mundo podem dar a vislumbrar, através da imagem. Ora, essa é a “verdade” (que alguns chamam de “real”), fugaz como um raio, que tanto persegue os personagens (de diferentes épocas) de Non, ou a vã glória de mandar, que tanto inquieta Leonor Silveira (que, sempre ótima, interpreta a mãe de Angélica neste último Oliveira) em Espelho mágico; é ela que paira no trágico passeio pelas “civilizações” de Um filme falado, é ela que permeia os passos de Michel Picolli (e seu caminhar na escada no último e devastador plano do filme) em Je rentre la maison, etc, etc. É essa busca utópica e “sublime” do cinema – portanto em certo sentido modernista – de Oliveira que faz com que aqueles que tanto comemoraram a vitória de Apichatpong em Cannes repitam que ele, com 102 anos, é mais jovem e interessante que tantos outros cineastas por aí.
Tal busca, em Angélica, é empreendida através do entrelaçamento de dois caminhos, ou duas camadas que o filme traz: há em primeiro lugar a “historinha” que o roteiro desenvolve – como sempre em Oliveira de maneira distanciada, paródica, cínica e humorada, através das interpretações graciosamente afetadas dos atores, do pastiche com a “ingenuidade” do primeiro cinema, etc – ; e há, em segundo lugar, quando a imagem apresenta a materialidade das coisas em sua plena singularidade opaca e ininteligível para nós. É aí que esse filme sobre fotografia cria um certo “efeito-fotografia” na imagem cinematográfica (em movimento): o espectador deve aí enfrentar todo o mistério do passar irrefreável do tempo (ou, como diria Inácio, sua “não existência”), daquilo que as coisas às vezes, rápido como um relâmpago, podem, ou não, nos revelar; deve esboçar, talvez, um punctum (se lembrarmos do Barthes de Câmara clara). Criar esse “efeito-fotografia” – também através de uma decupagem que transforma o olhar de Isaac mesmo em uma câmera fotográfica através da persistência de planos subjetivos dele (lembrar de sua entrada na casa de Angélica, quando capta todos os detalhes da sala) – tem seus riscos: o espectador pode permanecer apenas na primeira camada, na “historinha”, e enxergar o filme como algo completamente banal.
Contudo, nosso caminho é preparado: do mesmo modo que Isaac, e apenas Isaac (que tem em seu oposto completo a simples, simpática e funcional dona de estalagem), muda de postura com relação ao mundo por causa da imersão em suas leituras, o roteiro de Oliveira, os poemas e citações que o fotógrafo declama (“ó, tempo, detêm-te!”, etc), a conversa à mesa do café (uma das melhores sequencias do filme e oliveiriana por excelência – notar o brilhante Luis Miguel Cintra, de cabelos brancos) sobre a fantástica natureza da matéria – referência clara a Epstein, como o nome da loja de fotografia do primeiro plano, “Foto Genia” – tudo isso como que nos “ensina” a olhar as outras imagens do filme de outro modo. Eis que o que fica em nossas cabeças forte e persistentemente não é a imagem de Angélica – um cadáver sarcasticamente sorridente e sem nenhuma aura – mas o sol batendo nos trabalhadores que levantam poeira ao cavar, o gato que olha entretido para o passarinho voando na gaiola, o plano geral da cidade que Isaac olha detidamente pela janela, o som misterioso do caminhão que passa toda manhã pela frente da estalagem (, pouco antes de morrer, ele apenas os escuta, sem vê-los). Nesse sentido, a sequencia mais incrível do filme – um travelling mostrando a sequencia de fotos (em que se alternam Angélica morta e os trabalhadores rurais) penduradas no varal de Isaac – pode resumi-lo: o que acontece quando se justapõem – quando se monta – uma linda jovem morta e alguns trabalhadores rurais cuja atividade está prestes a se extinguir, que significados eles, em todo seu agressivo mistério, podem permitir que surjam? Não coincidentemente, voltamos à pergunta que está presente na diegese e na mise-en-scéne de Tio Boonmee: que vida é possível se ter depois da morte?

André Antônio
(Texto original e imagens: 
http://www.filmologia.com.br/?page_id=2309)

sábado, 18 de abril de 2015

Jean-Luc Godard e Manoel de Oliveira (fragmento)


"O Vale Abraão", de Manoel de Oliveira, e "Infelizmente Para Mim", de Jean-Luc Godard, estréiam nas salas de cinema parisienses quase ao mesmo tempo, em setembro de 1993. Nessa ocasião, Godard pediu para realizar-se um encontro entre ele e Oliveira, para lançar uma discussão "científica" sobre os dois filmes. (Alain Bergala)

Jean-Luc Godard – Nenhum problema, o som alto é a única concessão que eu faço ao público. Você conhece a definição que Jules Renard faz da crítica? "O crítico é um soldado de um exército que perde a batalha, que deserta e passa para o lado inimigo. E quem é o inimigo? O público."
Manoel de Oliveira – E você, conhece o que Bergman disse dos críticos? "Certos críticos me parecem pernetas que querem ensinar o caminho."
Godard – Mas foi como crítico que eu pedi esse encontro. Mais do que brincar de autor, eu preferi ir ver alguém e falar do filme dele, e eventualmente, talvez, ouvir ele falar do meu. Se isso pode favorecer os dois de uma maneira publicitária, vamos fazer. O cinema é crítico da realidade, eu sou muito clássico desse ponto de vista, e como cineasta de língua francesa, eu sempre me sinto crítico de cinema. Uma das grandezas da França foi sempre ter tido um ponto de vista crítico, mesmo que ela nada saiba disso. Todos os críticos de arte foram franceses, desde Diderot, passando por Baudelaire, Élie Faure, Malraux, ou seja, pessoas, escritores ou não, que tinham um estilo. O mau crítico é aquele que não tem estilo. Nos Estados Unidos, só houve dois críticos: James Agee e (Manny, ndt) Farber de San Diego, que é aliás muito ignorado. Já que os nossos dois filmes estréiam ao mesmo tempo, então eis a primeira pergunta que eu queria fazer: O que se chama "lançar" um filme? Por que é necessário que eles sejam lançados? Nós temos uma dificuldade tremenda a fazer entrar nossos filmes em tal ou tal lugar, e depois há pessoas que não fazer um grande esforço mas que, em todo caso, fazem o que é necessário para lançar ("sortir", sair, ndt) os filmes.
Oliveira – Em português, não é a mesma palavra, nem o mesmo jogo de palavras. Não se diz "sair um filme". Mesmo assim, é uma questão que me importa. É importante porque para mim é preciso mostrar o filme. O filme não está terminado até o momento em que a crítica foi feita. Um bom crítico, inteligente, atento, sensível, é o representante dos espectadores, ele vai completar o filme que, na minha opinião, não está terminado quando eu o termino, ele vai completá-lo. Essa dinâmica entre o espectador e a tela é de fato essencial, ela faz parte do filme. Eu digo: o espectador, e não o público. O público é algo abstrato, o espectador é pessoal.
Godard – O público é o espectador existente. É o espectador comercializado, o espectador que compra seu ingresso, que torna-se público. Existe entretanto uma parte dele que permanece espectador como o leitor. Se aquilo de que nós falamos fosse um filme, digamos que o espectador seria o roteiro, e que o público seria a realização do espectador, sua encenação (mise-en-scène). Mas às vezes eu me pergunto: se os filmes não fossem vistos, muitos dos meus realmente não o são, ou o são mal-vistos, até mesmo por mim... Acho que se faz filmes para uma ou duas pessoas.
Oliveira – Mas é suficiente.
Godard – Verdade. Mas eu gostaria de voltar a essa história de lançar/sair um filme que não é somente uma questão de palavras, mas também é. Deveria haver pequenos dicionários que nos dissessem em cada língua as palavras técnicas do cinema. Por exemplo, a cópia de filme que vemos nas salas de cinema, a cópia com a imagem e o som, em francês dizemos "copie standard"
Oliveira – Em português (de Portugal) também, cópia standard ou cópia síncrone.
Godard – Em inglês, é married screen, em italiano copia campione. Eu insisto com as palavras porque, por exemplo, os russos não têm a mesma distinção que nós entre o documentário e a ficção. Os filmes com atores se chamam "filmes interpretados", e o documentário, não obrigatoriamente sem atores, se chama "filme não interpretado". A própria palavra imagem: para os americanos, não quer dizer grande coisa. Eles usam picture, ou seja, fotografia. Eles nem têm palavra para televisão, eles são diretamente comerciais, eles dizem network (rede, ou rede de trabalho, literalmente) .Se prestarmos um pouquinho de atenção na língua, quando dizem que um de seus filmes "sai" (é lançado), você tem a impressão de que você sai de fato ou que você já o fez sair?
Oliveira – Eu diria "sair" como se diz "sair com uma mulher", o que em português significa levá-la para a cama.
Godard – Agora, para os bons filmes, o lançamento (sempre "sortie",ndt) tornou-se "por aqui a saída", é uma maneira de livrar-se deles.
Oliveira – Nossos filmes acabam se tornando também filmes de festivais. Os festivais servem para mostrar a diversidade dos filmes a uma diversidade de públicos. É um contraste de diferentes realizadores, países, hábitos. É isso, mas isso não é tão mal assim.
Godard – Acho que você está descrevendo uma época passada, de que eu mesmo conheci o fim. Eu achava que era o começo e na verdade era o fim. Era uma época em que os festivais efetivamente ajudavam as pessoas a se encontrarem, a discutir sobre cinema, discutirem o que gostariam que ele se tornasse. Tudo isso mudou, o cinema mudou também. Agora, os cineastas reclamam de solidão, mas se eles não falam mais, se eles não discutem mais, é problema deles. Hoje, há cada vez mais festivais de cinema. Cada um, individualmente, tira o proveito que pode, tanto o mais potente como o mais fraco. Mas me parece, em geral, que o festival de cinema é feito para perpetuar a idéia do cinema tal como ela é importante para a mídia ou para a televisão, essa idéia do mito do cinema do qual Manoel viveu todo o século e eu vivi somente os dois últimos terços. Você, talvez, sinta uma diferença entre os anos 20, quando não havia festivais, e hoje?
Oliveira – O fenômeno novo é o das cinematecas, não como instituições – isso existe há muito tempo –, mas porque há cada vez mais espectadores. É o que acontece em Lisboa, eles vão na cinemateca ver filmes que não chegaram às salas de exibição. É interessante porque é preciso de fato gostar de cinema para ir vê-lo num cineclube ou numa cinemateca...
Godard – Essa história de encontro e diálogo, era isso que eu queria te dizer: como crítico, o que eu espero não é que me digam boas coisas, mas só tem gente que diz ou escreve: "Seu filme é terrível, é fantástico, é genial, é extraordinário!" Aí eu pergunto a elas: "É? O que é tão extraordinário?" E elas me respondem: "Ah! Oh!", eles não têm mais palavras, eles nem repetem "É extraordinário". Ao passo que se me fizer uma observação de que é muito fraco, que há erros, então eu acredito que existe aí uma chance para dialogar: será que você pode me dizer quais são os erros? É assim que testamos o fato de que hoje os críticos não querem mais falar e que os cineastas não gostam que os critiquem. Mas eu, que fui formado como crítico, a única necessidade que eu tenho verdadeiramente é que me digam: aquilo ali não está bom. Você tem necessidade que te digam "Aquilo não está bom", isso te incomoda? Porque eu tenho coisas a dizer sobre o que eu não gosto no seu filme mas eu não quero te indispor.
Oliveira – "Sou orgulhoso quando me comparo, sou humilde quando me consideram." É uma bela frase do seu filme.
Godard – São os santos que dizem isso, ou as pessoas honestas.
Oliveira – Eu sou pessimista. Quando alguém me diz que alguma coisa não funciona no meu filme, eu sinto. Com o tempo, entretanto, eu pensei ter me tornado insensível. Mas depende do lugar em que me atingem. Se eu tenho um machucado no punho e me atingem o bíceps, nada acontece. Mas se essa mesma pessoa bota o dedo na ferida, aí eu grito.
Godard – É preciso saber dizer o que é bom e o que é ruim. Não se trata de dizer o sentimento que se teve, mas fazer a crítica técnica ou científica do filme. Só a Nouvelle Vague disse isso. Ela disse: esse travelling é bom e eis aqui por que achamos ele bom em comparação com aquele diálogo que é ruim. Hoje, isso se perdeu completamente. A noção de autor ganhou uma tal importância que agora quando se faz um filme até o seu assistente não te diz mais isso. O único que às vezes tem um pouco de coragem de dizer isso, o único com quem eu tenho bizarramente uma relação artística, é o produtor. Porque o produtor colocou dinheiro ou ao menos arriscou o dinheiro dos outros, e em nome desse risco ele ousa me dizer: "Jean-Luc, isso não funciona." E eu digo "Ulalá!", e penso. Ao menos, tenho uma possibilidade de reflexão, me ancoro melhor. Se os cientistas são muito fortes hoje, é porque eles são os únicos que ainda trocam críticas. Um astrônomo diz: "Eu vi um eclipse da Lua, eu fotografei." O outro diz: "Então mostra a foto." Ele observa e constata: "Mas aqui dá pra ver a Lua! E você falava de eclipse?". E o outro diz: "Ah!, sim", ele fica abobado, mas ele recomeça. Existe um momento na arte, na crítica de arte, por exemplo entre Baudelaire e Delacroix, em que essa confrontação dos críticos deve acontecer. Senão, não avançamos. É a única coisa de que eu tenho necessidade, a crítica. E eu não tenho.
Oliveira – Eu tenho antes necessidade de meios para fazer filmes. Não sei nunca o que vai ser um filme. Tenho uma decupagem, tenho atores, cenário, mas não tenho filme. Durante a filmagem, a realização vai mudar a cada instante a configuração dessa nebulosa. O concreto aparece apenbas no momento em que eu vejo as tomadas do filme. Detesto ver as tomadas, porque sempre me sinto desolado.
Godard – Acho que isso sentimos todos. Acho que só Hitchcock ficava contente vendo suas tomadas. Então era isso que, como crítico, eu gostaria de dizer sobre o seu filme: de primeira eu embarquei com o filme e depois por um momento em me soltei, e logo depois comecei a pensar em alguma coisa. Eu pensei, ah, não é tão bom, e logo depois, ao mesmo tempo eu sonhava, pensava em Newton, na gravitação. Depois eu voltei a mim, e nesse exato momento, no diálogo do filme, alguém pronuncia a palavra gravitação. E aí eu falei para mim mesmo: finalmente, é um belo filme, é preciso que eu vá vê-lo de novo.
Oliveira – É efetivamente o tema do filme: a gravitação e as leis do peso.
Godard – De um ponto de vista mais científico, mais técnico, se eu tivesse sido assistente do seu filme, eu teria dito: "Você tem certeza, me explique melhor para que eu possa melhor assisti-lo, por que você pegou essa atriz para encenar Emma jovem (Cecile Sanz de Alba) e por que para Emma mulher você pega uma outra (Leonor Silveira) com uma diferença tão grande? Foi por vontade própria, aceito?" Essa é minha crítica: a segunda atriz não está à altura da primeira, ou ao menos, quando a segunda atriz aparece, o filme cai, é a gravitação. Depois volta.
Oliveira – A resposta é muito simples: no começo, eu escrevi o filme para a segunda atriz, Leonor Silveira. Essa mulher estava em estado de crise, de depressão. Meu produtor, Paulo Branco, tentou me dissuadir de escolhê-la. Existe, no livro O Vale do Abraão, de Agustina Bessa-Luís, o livro que eu adaptei, uma frase muito bonita que diz que os cabelos de Emma "caíam sobre o ombro como uma mancha de tinta negra". Para filmar essa frase, eu fiz pintar os cabelos de Leonor, que são loiros. Ela estava traumatizada com isso. A cena ficou ruim. Era preciso então encontrar uma outra atriz para encarnar Emma adolescente. Essa é a resposta técnica à sua crítica técnica. Eu queria acrescentar que um filme é sempre acompanhado de acaso e de sorte. É isso que me leva adiante: todos esses pequenos acontecimentos que aparecem no momento da realização. É um fenômeno que eu não entendo bem e que pode engendrar tanto o pior como o melhor. Não existe filme sem acaso. É uma criação, o filme é uma concepção de uma única pessoa, é muito difícil entrar nisso.
Godard – A criação pode ser preparada?
Oliveira – Pode ser preparada, mas não reparada. Como a vida. As coisas estão lá, esperando que nós as filmemos. O que você vai querer reparar? A fome, as crianças que morrem na África, sim, isso é importante, precisa ser reparado, merece o público mais vasto possível. Mas um filme não, é uma confusão tão grande que eu me sinto pequeno diante de mim mesmo. Dito isso, aceito a sua crítica a respeito do seu abandono do meu filme e sobre o retorno: é preciso ser muito sensível para poder entrar e sair do filme sem se perder. Efetivamente, é a lei da gravitação.
Godard – Eu acredito com muita modéstia que os cineastas da Nouvelle Vague fizeram cinema partindo do museu. Descobrimos o cinema na cinemateca. Nascemos lá. Claro, tínhamos visto Chaplin quando éramos menores, mas ninguém entre nós disse aos quatro anos de idade, "Eu vou fazer cinema" depois de ter visto Carlitos Bombeiro. Logo, eu sempre tive uma referência na cabeça. E eu penso assim que a obra tem mais importância que o homem. Não é algo evidente para todo mundo. A mulher faz obras abrigando homens. Tudo que o homem pode fazer para se encontrar em pé de igualdade relativa é fabricar obras: pintura, literatura ou política, guerras, desemprego, comércio. No fundo, o homem me interessa pouco. O homem Manoel de Oliveira me interessa pouco, Se nós habitássemos na mesma cidade, lado a lado, eu acredito que não encontraria com você mais do que estamos acostumados a nos encontrar. Claro, quando nos víssemos, falaríamos melhor dos filmes, mas não muito mais. O que me incomoda mais hoje é que os meios de comunicação desenvolveram a noção de personalidade antes da noção de pessoa. Na obra há a pessoa, ha pessoa há a obra. Há pessoas que não fazem obra, mas cuja vida, particularmente as mulheres, é uma obra. Os homens são forçados a fazer obras porque muitas vezes eles não fazem nada. Digo em coro com Buñuel, os filmes são o que existe de mais importante para mim. Mas se eu devesse pôr em jogo a vida de uma criança e o futuro de um filme, eu não hesitaria um segundo: a criança vem antes do filme.
Oliveira – Naturalmente. Sob esse ponto de vista, eu digo também que a arte não é tão importante.
Godard – Mas então se isso não é muito importante, não vale a pena fazer. As mulheres são mais lógicas, eles fazem na vida. Não estou certo que podemos dizer tão facilmente que a arte não é importante. Principalmente hoje quando não existe quase arte e muitas crianças que morrem. Isso quer dizer que deixamos viver muita arte e sacrificamos as crianças?
Oliveira – A arte não é o artista. O artista, a posição de artista, é a vaidade do homem. Essa maneira de expor a visão do mundo, de dizer: "Isso vai, isso não vai", uma efusão de vaidade. É o rés do chão. A arte é mais elevada, mais interessante que o artista. Um filme é sempre mais inteligente do que seu realizador, como diz Straub. Essa maneira que o realizador ou o artista tem de sair para se expor, diz respeito somente à vaidade.
Godard – É também uma atitude de criança: "Olha, mãe, fiz um desenho."
Oliveira – Sim, também, mas muitas vezes esse desenho é bonito também. Essa diferença entre a arte e o artista é também a diferença entre a História e a arte. A História mostra a evolução dos povos, das civilizações, dos sentimentos, do gosto. A arte exibe a substância dessas evoluções. Nós somos todos responsáveis, mesmo se, como realizador, eu nada possa fazer. Como realizador, eu só posso fazer uma coisa, realizar filmes. É tudo. Entretanto, o artista, no momento em que cria, ele tem sempre razão. É sua ficção, a interiorização.
Godard – Ah, eu não acredito, tudo está fora.
Oliveira – Sim, mas antes. Mas, depois, tudo entra na cabeça para sair de novo. Por exemplo, frente a Infelizmente Para Mim, eu estou diante do filme como uma esponja que vai aspirar tudo.
Godard – Não tenho certeza se essa é uma boa imagem. Claro, existe um lado espetacular e poético que é a missão profunda do cinema. Mas essa missão só se aplica se houver primeiro experimentação, verificação, trabalho, aquilo que podemos chamar de aspecto documentário de um filme. Existe isso nos grandes artistas, em você, em Pialat, em Anne-Marie Miéville, Straub, Cassavetes, Visconti, Rouch, pessoas muito diferentes, eu às vezes. Eisenstein, por exemplo, não há ninguém mais abstrato e estilista, ou até estiloso, do que Eisenstein. Entretanto, se hoje devemos mostrar planos da Revolução de Outubro, não é nos cinejornais da época que encontramos, ou mais exatamente os cinejornais se servem das imagens de Eisenstein sobre a Revolução de Outubro, imagens que foram completamente encenadas. Quando lemos o diário de filmagem de Nanook de Flaherty, que acreditamos ser um documentário, aprendemos que Flaherty pagou a seus esquimós, brigou com eles, os forçou a pescar peixes todos os dias mesmo que eles não tivessem vontade; ou seja, ele fez uma equipe de cinema com ele e foi um etnólogo formidável. Existe então todo esse lado documentário, essa forma, se não de conhecer perfeitamente a história do cinema, ao menos de ter o sentimento de que, para muitos, se perdeu hoje. É preciso ter esse sentimento da história do cinema, um pouco como Joyce, que tinha um sentimento profundo da história da literatura, e que sabia que, quando escrevia uma frase, certas de suas palavras tinham sido inventadas no tempo dos latinos, outras na Idade Média, e que ele, Joyce, no momento em que escrevia essa palavra, normalmente com toda essa bagagem e esse passado que ele sentia, ele estava na idade moderna da literatura, na sua idade adulta, se assim podemos dizer. No cinema, muito rápido, sob a influência americana que o mundo aceitou, uma parte desse trabalho documentário foi abandonada. Fomos para o espetacular de primeira, que era entretanto a missão final, digamos, a missa do filme. Nos filmes, hgoje, faz-se a missa, e depois a oração. Os grandes artistas, os artistas honestos, , fazem primeiro sua prece, e logo depois existe a missa, com o público, mais ou menos fiel. Os americanos regulamentaram a missa. O que importa para eles, na missa, é a coleta ("quête", que também quer dizer "busca", ndt): uma boa missa é uma missa em que a igreja está cheia, em que a coleta é grande.
Oliveira – A busca ("quête") é o tema de meu próximo filme.
Godard – Eu não faço busca ("quête"), mas pesquisas ("enquêtes"), me contento em ser um delegado. Eu registro as queixas. A crítica deve se exprimir sobre a oração, não sobre a missa. Sobre a missa, não se pode dizer nada. Ou então se diz: "Belo espetáculo, magnífico". A oração é um exercício também, é como o treinamento do esportista, os tons do pianista. Quando se é crítico, deve-se criticar os tons e o que podem dar esses tons.
Oliveira – O espetáculo e a missa não me interessam. O importante é a vontade de fazê-la. Você tem vontade de fazer cinema, eu tenho vontade de fazer cinema, como nesse momento eu tenho vontade de fazer xixi. Bergman dizia: "Eu faço filmes como alguns ingleses vão sozinhos caçar na floresta. Vestem-se, montam guarda com seu fuzil. Mas todas as manhãs, eles fazem a barba pelo seu próprio prazer." Eu acho isso muito bom. É preciso refletir sobre isso, sobre a vontade. Está em você, como um pintor que faz pinturas que ninguém vê, mas que não consegue impedir-se de fazer. A vontade é como uma flor magnífica que conduz sozinha ao coração da floresta virgem e que leva o desejo do fruto nela mesma, por ela mesma. Se ela encontra um olhar que a considera e que a julga bela, ela se realiza, ela se torna uma beleza notável e notada. mas muitas vezes esse olhar chega muito tarde, às vezes a floresta já foi queimada ou desmatada para ganhar terreno. Entre mim e você, há muitas diferenças, felizmente. Diferenças de língua, de país, de cultura. Você escolheu um cinema um pouco provocador e que destrói a ordem tradicional do relato. Você pesquisa a partir do caos, para imprimir desordem na ordem. Eu procuro colocar a desordem em ordem – inutilmente, reconheço –, mas eu pesquiso. Acredito que essa é a diferença entre nossos filmes: eu estou muito próximo do cinema em geral e você é um cinema particular.
Godard – Eu diria que fazemos a mesma coisa, mas que você consegue chegar lá e eu não consigo muito bem. Todo mundo, naturalmente, na imagem da ciência, parte do caos para colocar uma certa ordem. É essa "certa ordem" que é mais ou menos incerta, a qual se chega mais ou menos. Em momentos, não podemos, não conseguimos. Em Infelizmente Para Mim, é um pedaço de tempo que é extraído. Num outro filme, será outro pedaço. A partir de um pedaço, de uma foto, eu me faço um mundo. Vendo certos pedaços de seu filme, pensei em momentos do Van Gogh de Pialat, de que eu gosto muito. Para usar palavras simples como interior e exterior, mesmo se não faz muito sentido distingui-las, eu diria que Pialat, em seu Van Gogh, ficava no exterior, e entretanto ele só falava do interior. Ele estava mais para a tradição de Visconti, nesse aspecto. Você seria mais o contrário. Você permanece no interior. Ora, o interior, no cinema, não podemos mostrá-lo, só podemos senti-lo, mas ele não é visível, senão não é mais o interior.
Oliveira – Podemos filmar até a alma.
Godard – Isso. Quando eu era criança, diziam: a galinha é composta de interior e exterior. Quando tiramos o exterior, vemos o interior, e se tiramos o interior, vemos a alma. Eu ousaria dizer que você filma o interior de costas, mesmo que filmando as pessoas sempre de frente. O que num dado momento me incomodou no seu filme sendo dada essa aposta rigorosa e potente, é felizmente uma imperfeição ainda humana que faz com que você tenha ainda necessidade de fazer outros filmes. O que me incomodou foi que não houvesse visões de lado, que a câmera estivesse muito perto do projetor. A câmera não é feita para sempre coincidir com o projetor. O projetor transmitirá. É como o operador de raios-x. Ele não se contenta com uma chapa de frente, ele radiografa também de lado, de costas, na diagonal. Entretanto, no final, no momento da projeção, serão todas imagens planas. Sem dúvida, o que eu te digo aqui é uma imagem, mas nós somos pessoas de imagem. Isso não quer dizer que a c6amera deva se deslocar o tempo todo. É isso que faz com que, por momentos, no seu filme, haja buracos, o que os espectadores, os maus espectadores ou, dito de outra forma, o público de hoje, chama de "longo". Isso não quer dizer que eu reclame que um filme seja longo, eu fico até feliz que um filme seja longo se, no começo, eu percebo que há boas coisas. Eu posso cochilar tranqüilo, certo de reencontrá-lo. É isso que eu falo sobre ter uma discussão científica sobre um filme.
Oliveira – Eu coloco a câmera como você mesmo coloca, no lugar preciso em que eu acredito que ela deve estar. Por que ali e não aqui? Não sei por quê.
Godard – Seria interessante se se dissesse um pouco por quê.
Oliveira – A força vem da fixidez. Foi Bresson que me ensinou isso com O Processo de Joana d’Arc. Podemos também chamar isso de objetividade.
Godard – Eu tenho a impressão de que os cineastas, bons ou ruins, eles têm uma idéia, uma vontade, bom, e eles procuram pessoas com dinheiro suficiente para realizar essa vontade. Eles trabalham como uma pessoa que diz: essa noite, eu tenho vontade de comer espaguete à bolonhesa. Então o sujeito observa quanto dinheiro ele tem no bolso ou ele pede à sua mulher ou a um amigo para fazer espaguete à bolonhesa. Honestamente, eu sempre fiz o contrário. O produtor me diz: "Tem Depardieu, talvez seja o momento de fazer um filme com ele". Como não somos ricos, dizemos sim, sim, talvez ganhemos dinheiro logo depois. Depois, assinamos o contrato. Depois ainda é preciso fazer o filme, infelizmente para mim!

(...)

 (originalmente publicado no jornal Libération, dias 4-5 de setembro de 1993, e depois republicado em Godard par Godard, organizado por Alain Bergala, v.2, Éd. de l’Étoile, 1998. Encontro organizado por Gérard Léfort. Tradução de Ruy Gardnier)

Texto na íntegra: http://www.contracampo.com.br/53/godardoliveira.htm

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Non, ou A Vã Glória de Mandar


No princípio é um título compósito que se enraíza numa complicada alternativa entre o messianismo histórico do padre António Vieira, aqui convocado através do «Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma» – “Terrível palavra é um NON, não tem direito nem avesso, por qualquer lado que a tomeis, sempre soa e diz o mesmo, lido do princípio para o fim ou do fim para o princípio, sempre é NON.”  – e a imprecação do Velho do Restelo – “‘Ó glória de mandar, ó vã cobiça/ desta vaidade a quem chamamos Fama!’”  –, subtil e significativamente reformulada. No princípio é uma árvore gigantesca, impossível de filmar. Só podemos rodeá-la e, em vão, andar à volta da sua imponência tão ostensiva quanto oculta: sem direito nem avesso, a metade aérea que vemos erguida é simétrica à outra metade que, pelo chão, se afunda. No princípio é a vontade de desenterrar a História oficial para escovar a mitologia pátria a contra-pêlo. Da epopeia à tragédia, o programa de NON mais não é do que um virar de Os Lusíadas ao contrário. Trata-se de pesar o destino da “primeira nação da Europa”, não à luz das suas vitórias militares – e a História, como o nota Benjamin, costuma ser contada pelos vencedores –, mas a partir das batalhas perdidas. Trata-se, em suma, de tentar perceber que país é esse que, de Viriato ao “orgulhosamente sós”, só contra os romanos e contra o mundo, se funda na recusa da civilização. Estranha é a questão, difícil de circunscrever o “sentido último” de uma história que se inicia na auto-liquidação trágica de um reino sem transcendência. Dois mil anos passados, a verdade é, como diz Manoel de Oliveira, secreta e inexplicável. Resta avaliar o que se ganha na derrota.
Projecto antigo acalentado ao longo de mais de uma década – as primeiras referências de Oliveira ao que viria a ser o filme datam de meados da década de 1970, altura em que trabalhava em Amor de Perdição (circunstância que confirma a incidência histórica e política da leitura que realizador faz do texto de Camilo Castelo Branco) –, o 25 de Abril de 1974 era, já nesta versão inicial, o pano de fundo de NON (aliás, de “Não”, como então se intitulava). A acção devia situar-se num teatro de província onde se estreava uma peça de teatro em quatro actos sobre Portugal e a sua história. Quatro eram, também, as campanhas frustradas: a referida luta de Viriato contra a hegemonia romana, a batalha de Toro contra os espanhóis, o desastre de Alcácer-Quibir e as guerras coloniais. Quinze anos passados, Oliveira terá percebido que a moldura teatral inicialmente prevista poderia ofuscar, sob o manto das questões ligadas à representação, as verdadeiras motivações do filme. Conquanto a teatralidade e, até mais do que isso, a inverosimilhança e o artifício tosco continuem a ser, em NON, importantes factores de desconstrução da tonalidade epopeica (vejam-se, por exemplo, as vestimentas e perucas dos insurrectos lusitanos, a cena do Decepado na batalha de Toro ou o episódio da morte do príncipe D. Afonso, filho de D. João II), a acção seria transferida para um dos principais cenários do imaginário nacional, para ser protagonizada por aqueles que foram os últimos a pagar a factura do nosso delírio imperialista. África, “palco da nossa derradeira aventura trágica, como o fôra da nossa primeira aventura épica, seria, como o nota João Bénard da Costa, o verdadeiro teatro das operações, lugar do papel que o lusíada por si próprio se tinha inventado e donde finalmente se bania, cumprindo um ciclo de derrotas, um ciclo em que o destino sempre disse não a Portugal ou aos seus sonhos mais grandiloquentes.”
Colocada na boca dos soldados que apontaram as armas ao inevitável colapso colonialista, a revisão histórica conduzida por Manoel de Oliveira desenrola-se numa complexa arquitectura narrativa. A evocação de muitos dos momentos fulcrais da nossa existência como povo e como país – formulada num tom que alguns confundiram com simplismo histórico ou com didactismo passadista, quando, efectivamente, se trata de algo próximo dos princípios brechtianos do teatro épico –, responde ao ponto de vista desses soldados ao mesmo tempo que perspectiva, num contexto mais alargado, o fim da guerra africana, o fim do Estado Novo, o fim da epopeia ultramarina. O modo como, à excepção do alferes Cabrita (que tem estatuto de narrador delegado), estes soldados se expressam sobre a guerra em que participam e o momento histórico de transição em que intervêm é um apanhado de contradições e de noções gerais que, na maioria das vezes, não ultrapassa, deliberadamente, os lugares comuns. Mas se a guerra, como a História, é feita por homens comuns, o olhar de Oliveira vai no sentido antitético da individuação e da transpersonalização de cada um destes soldados desconhecidos, pintando o retrato transtemporal de um povo com uma justeza que só encontra paralelo nos painéis de Nuno Gonçalves. As batalhas perdidas são, assim, recordadas (e encarnadas) por aqueles mesmos que se preparam para, eles próprios, perderem mais uma guerra. Esse é, como se diz, o altíssimo preço da liberdade, condição necessária para a histórica mudança que aqui se vive e discute em primeiro grau, entrelaçando a derradeira morte no campo de batalha de Alcácer-Quibir (numa referência a Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett), com a derradeira morte do Império na cama de um hospital de campanha. É esta a transfusão de sangue que liga a aparição de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, que outra não é que a manhã do dia 25 de Abril de 1974 (assim o sentencia, em voz off, o próprio Manoel de Oliveira), à febre agonizante do alferes-narrador moribundo: é este o sentido final de todas as histórias. A Revolução de Abril de 1974 ao espelho de Alcácer-Quibir. Alcácer-Quibir que é o maior desastre de toda a nossa história. Desastre que se torna mito. Mito que se torna verdade. Verdade que é algo de secreto e inexplicável, o sentido último que tudo explica. E se parafraseamos algumas das afirmações constantes em NON é para melhor ocultar esta misteriosa genealogia que liga a maior de todas as derrotas à maior de todas as vitórias recentes. A conquista é a da negatividade, a licença, ganha a ferros, de pensar o país longe da glória, naquilo que não foi.
Como a serpente que engole a sua própria cauda, NON não se limita a traçar um círculo por momentos aparentemente distantes da História de Portugal. O filme ocupa, ele próprio, um lugar axial na filmografia do seu autor. Se Manoel de Oliveira disse uma vez que todo o seu trabalho seria incompleto se não tivesse feito NON, vinte anos passados podemos ver o filme como centro de uma das espirais mais coesas do cinema oliveiriano. Nele se radicaliza a reflexão sobre a portugalidade iniciada com Le Soulier de Satin (1985), esse que é um filme de transição entre a problemática dos dramas individuais, em jogo na dita “Tetralogia dos Amores Frustrados” (por maior que aí seja o peso dado às instituições) – de que fazem parte O Passado e o Presente (1972), Benilde ou a Virgem-Mãe (1975),Amor de Perdição (1978) e Francisca (1981) – e a interrogação sobre os destinos colectivos, em filmes onde as personagens se distanciam de desaires singulares para se elevarem à condição de agentes históricos. É nessa linhagem que temos de incluir A Divina Comédia (1991) – a que Oliveira se refere como uma “continuação” de NON, estendendo a questão do imaginário histórico nacional às raízes da cultura ocidental –, mas, também, Palavra e Utopia (2000), Um Filme Falado (2003), O Quinto Império: Ontem como Hoje (2004), Cristóvão Colombo: O Enigma (2007), ou o mais recentePainéis de São Vicente de Fora: Visão Poética (2009). É talvez este último filme que mais claramente dialoga com NON – nomeadamente com o episódio da Ilha dos Amores – e que melhor explica o ponto de vista de Manoel de Oliveira sobre a História (a História que é sempre sangrenta): o que fica para a humanidade não é o que se tira, mas sim o que se dá.

António Preto
(Texto extraído de 
http://www.buala.org/pt/afroscreen/non-ou-a-va-gloria-de-mandar)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

MEMÓRIA DE UM CRÍTICO DE CINEMA


por Manoel de Oliveira


Caro Serge Daney,

Há muito que não deixo de pensar nisto, e não resisto em te dizer, porque agora que já cá não estás, não sei se aí ao etéreo te chegam vozes do que aqui se passa. Simplesmente isto, imagina: todas as técnicas têm avançado à velocidade da luz, mas efeitos nefastos. Se é certo que por um lado nos atraem por nos proporcionarem mais conforto, ou comodidade, certo é também que diariamente atulham a nossa vida social e invadem a privacidade, num crescendo de problemas que, ao mesmo tempo, desvirtuam o nosso viver pacato, filho da natureza a que estamos umbilicalmente ligados, alterando o viver, e alterando a própria natureza, que é a garantia da nossa sobrevivência, com artificialismos que vão de mais em mais desafiando, imprudente ou inconscientemente, riscos que são incapazes de controlar e de que já somos vítimas em grande parte. Como se pode viver nesta situação que o mundo atravessa, tão contraditória e descontrolada, sem soltar um grito de desespero? E se o soltarmos não de antemão que ele ficará perdido no espaço sem que tenha sido ouvido? Como pode o mundo descer a uma tal inconsciência, no justo momento em que ele próprio se diz mais do que nunca senhor da ciência?

E nesta confusão que me embaraça e onde me contradigo, pergunto a mim próprio como explicar que, paralelamente ao meu repúdio pela ciência aplicada, seja um apaixonado realizador de filmes, um amante do cinema, sendo ele um derivado desta mesma ciência que acabo de condenar?

A ciência pura, essa que descobre os fenómenos e as leis do universo, acho-a respeitável e, por isso, admiro todos os devotados cientistas que no-la trazem ao conhecimento do mundo. Mas para a outra, a aplicada, em que neste caso, o cinema se insere, tenho eu uma resposta plausível? Lá ter, tenho, e embora me pareça a mim válida, a verdade é que estou tão comprometido nela, que o facto de o estar põe-na em causa, a argumentação que a seguir exponho.

Com efeito, creio profundamente nesta coisa a que chamamos cinema que enquanto imagem projectada no ecrã éimaterial, é como que o fantasma de qualquer realidade, real ou imaginada, imagem que não pertence à realidade concreta da ciência aplicada. O que desta fica é o ecrã em si, as máquinas em si, enfim, as cousas materiais, mas não o substracto imaterial que destas cousas se abstrai e delas não faz parte.

É nesta base que te escrevo com aquela saudade dos bons tempos em que estavas connosco e nos confirmavas que cinema é cinema quando é tudo o mais que para aquém e além dela está. Ciência apagada por tudo aquilo que supera a matéria e nos dá razão e força para continuar a viver, prosseguindo a nossa marcha pela escuridão do túnel do futuro, animados pela longínqua luz que lá do fundo nos acena e a que damos o nome de esperança.

Animado por todas estas que nos iluminam a realidade, escrevo-te esta carta pela necessidade de te dizer que tu continuas, como dantes, entre nós, envolvido neste espírito que nos é comum por via do cinema. E que tu, como ele, prevalecerão tão presentes hoje como ontem. Como quando apareceu o cinema, este já existia desde sempre, não como máquina , mas como cinema. Por isso dizemos que o Cinema é sem tempo, pois que ele é fruto de todas as artes, e do espírito que as anima, como tu, Serge Daney, já eras espírito crítico, dissecador e analítico dos filmes, e com eles persistes em comum com a projecção do fantasmagórico, como é o cinema onde a realidade e a ficção são tão ficção e realidade uma como outra.

Assim como estiveste, estás connosco e estarás até lá algures, onde esperas o fim das cousas divididas como o são neste mundo, onde vivemos uma ilusão de tempo, que também é de cá, para finalmente entrar no metafísico do lado de lá, que não tem tempo, lugar ou espaço.

E cousa Cinema, vejo-a no seu aspecto transcendental, sob certos porquês. Porque o cinema não é máquina de filmar, nem película, nem as máquinas de revelar, ou estúdios ou auditórios nem, muito menos ainda, os vídeos e quejandos, nem sequer os actores, os realizadores, os autores dos argumentos, e dos diálogos, os maestros e os executantes das partituras, ou qualquer dos técnicos que tão generosamente se dão ao processo da criação, para que o processo complexo de criação se realize, pois este, tal como o nosso corpo, não funciona se lhe faltar o espírito, impulsionador de todas as cousas.

Espírito que anima a inteligência e rola desde o vazio dos tempos uma vez que o Cinema não tendo tempo tem todos os tempos fora e dentro do tempo e do espaço. O Cinema não é mais que fantasma virtual, resultado do espírito criados. Por igual a virtualidade do espírito analítico e dissecador do crítico se mantém fixado no papel, naquilo que ele, o crítico, deixou escrito, ou naquilo que em memória ficou retido do que apenas foi dito.

Caro Serge Daney, continuas a ser memória e presença no tempo e fora dele, continuas a ser parte complementar do cinema. E cinema é tanto o que se projectou, como o que dessas projecções se falou e fala, se escreveu e escreve; do que foi pensado, do que se pensa e do que se pense. Numa palavra, o cinema não foi, nem sequer começou. O cinema é. É, porque já era, e já era porque tem em si o espírito das cousas, e assim, como sempre foi, sempre será. E tu, Serge Daney, uma vez que foste, é porque já o eras e connosco sempre serás.

Porto, Junho de 2000.

(Trafic nº 37, “Serge Daney - après, avec”, primavera 2001) 
Texto extraído de  http://www.focorevistadecinema.com.br/jornaloliveiradaney.htm

sábado, 11 de abril de 2015

Cineclube da Cinemateca Especial: Mostra Manoel de Oliveira

Uma pequena homenagem ao maior cineasta português.

16/04, quinta às 16h - Aniki Bobó (1942, 68 min)
Primeiro longa de Manoel de Oliveira. A história tem como cenário os bairros populares do Porto, onde as crianças são pobres, livres e aventureiras, mas enfrentam todos os problemas do mundo adulto. Entre os meninos Eduardo e Carlinhos, brota uma rivalidade pelo amor de Teresinha – que leva a um roubo e a um acidente com muitas conseqüências. Por sua naturalidade e despojamento, Aniki-bóbó foi considerado pelo crítico francês Georges Sadoul como precursor do neo-realismo. O título refere-se a uma fórmula mágica que, nas brincadeiras infantis, permite determinar quem é a polícia e quem é o ladrão.

17/04, sexta às 19h - Non, Ou a Vã Glória de Mandar (1990, 110 min)
Durante a década de 70, um contingente militar português vai à África numa missão. Muitos dos soldados são jovens e têm medo das batalhas, ou saudades de casa; o sargento então resolve contar várias histórias sobre o passado militar português, filosofando sobre as condições do antes e do agora.

18/04, sábado às 19h - Vale Abraão (1993, 187 min)
Ema, de uma beleza 'ameaçadora', casa com Carlos, mas não o ama. "O seu rosto que pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as suas ilusões e o desejo que faz nascer nos homens, valem-lhe o nome de "Bovarinha". Tem vários amantes, mas os seus amores sucessivos trazem-lhe apenas um grande sentimento de desilusão. Ema morre - "acidentalmente, talvez?" - num dia de sol radioso, depois de se vestir como quem vai para um passeio no campo.

19/04, domingo às 19h - O Estranho Caso de Angélica (2010, 97 min)
Isaac é um jovem fotógrafo que, no meio da noite, recebe uma chamada urgente de uma família rica para ir e tirar a última foto de sua filha, Angélica, falecida poucos dias depois de seu casamento. Chegando à casa do luto, Isaac recebe o seu primeiro vislumbre da jovem morta e é esmagado por sua beleza. O espantoso é que, ao olhar para ela através da lente de sua câmera, a moça parece voltar à vida. Isaac imediatamente se apaixona por ela. Daquele momento em diante, Angélica irá assombrá-lo dia e noite, até a exaustão.

Serviço:
de 16 a 19 (quinta a domingo)
às 16h na quinta e às 19h na sexta, sábado e domingo.
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

terça-feira, 20 de maio de 2014

Cineclube Sesi: "A Divina Comédia", de Manoel de Oliveira

Nesta quinta-feira, dia 22, o Cineclube Sesi apresenta "A Divina Comédia" de Manoel de Oliveira, dando continuidade ao ciclo Cinema Maneirista que contará ainda com "Estrada Perdida" de David Lynch (dia 29)
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta: 
 "A Divina Comédia", de Manoel de Oliveira

Um manicômio. Os doentes dessa instituição tomam-se por Jesus, Lázaro, Marta, Maria, Adão, Eva, Sonia, Raskolnikov, Aliosha e Ivan Karamasov, um Filósofo, um Profeta, um Fariseu, Santa Teresa d'Avila, recitando a Divina Comédia.

Serviço:
dia 22/05 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Cineclube Sesi apresenta: Cinema Maneirista

Programação
08/05 - "A Cidade dos Piratas", de Raoul Ruiz
15/05 - "Dublê de Corpo", de Brian De Palma
22/05 - "A Divina Comédia", de Manoel de Oliveira
29/05 - "Estrada Perdida", de David Lynch

Serviço:
Toda quinta 
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi 
Produção: Atalante