Uma vida...
Seria preciso
um dia para contar a história de um segundo,
um ano para
contar a história de um minuto,
uma vida para
contar a história de um dia.
Jorge Luis Borges
É menos o
cotidiano de uma zona de prostituição que um ciclo de nascimento e morte que
Paul Vecchiali descreve no seu filme; menos uma questão, portanto, de narrar
alguns instantes mais ou menos anedóticos, mais ou menos determinantes na vida
de uma prostituta que de figurar com ternura exemplar seu ciclo de vida, como
se assistíssemos à formação e à extinção de toda uma galáxia - ou, mais
precisamente, um magnífico corpo galáctico em torno do qual as reminiscências
de toda uma vida orbitam. Eis o que de fato caracteriza a proposta e a forma de
Rosa la rose, fille publique.
Como O Portal
do Paraíso, como Matar para Viver, como Contos da Lua Vaga, como Una donna
libera, como Mortos Que Caminham, como Une partie de campagne e Une vie, Rosa
la rose compõe-se ao mesmo tempo como narrativa elementar e sinfonia cósmica.
Moderno - ou seja, sintético -, Vecchiali utiliza-se habilmente da proposição
de Borges, porém invertendo-a, restringindo a ação do filme a um período de
vinte e quatro horas para contar toda a história de Rosa: não através dos seus
anseios, suas expectativas, suas frustrações... Nenhuma generalização de ordem
demagógica ou psicológica se interpõe à visão do cineasta. É assim que, por uma
espécie de astúcia poética que filtra tudo o que poderia haver de auxiliar,
falso ou desnecessário na descrição dessa vida, Vecchiali deixa sua câmera
somente com o sorriso, o andar, a maneira de se insinuar tanto pelo
distanciamento como pela proximidade (“o que existe de mais profundo é a pele”
disse Valéry, e Vecchiali o mostra desde o primeiro plano de seu filme), em
suma com a presença dilacerante e arrebatadora de Marianne Basler, sua Rosa.
* * *
Amanhece, e o
dia ainda é tomado pelo azul da noite. Algumas imagens em still do quarteirão
de Les Halles, a imobilidade despojando de alguns passantes o movimento que
animaria o local, e imediatamente nos encontramos em um tempo e espaço que
seria aquele da recordação. Quando os créditos se encerram com uma dedicatória
a Danielle Darrieux, Max Ophüls, Dora Doll, Jean Renoir e Didier Albert
(assistente de Vecchiali), uma desaceleração percebida tanto no encadeamento
das imagens como na composição musical parece anunciar, por assim dizer, a
promessa da serenidade. É então que Vecchiali introduz sua personagem e, com ela,
dá à luz o movimento que animará todo o filme: uma repentina virada de rosto
que faz seu cabelo esvoaçar diante da câmera, a pergunta “Quanto?” vinda de
fora do quadro e a resposta “Quinhentos” saindo da boca de Rosa são signos de
fácil compreensão que não apenas informam tudo o que precisamos saber do que
foi a vida de Rosa até então como bastam para que se estabeleça todo o quadro
da ação. Esse tempo e espaço da recordação que se instala ainda nos primeiros
minutos do filme (e que Vecchiali, através da dedicatória aos autores e atrizes
de Madame de... e French Cancan, deixa claro que é também um tempo e espaço
seu) acompanhará o ritmo de uma vida que se precipitará subitamente aos seus
instantes finais. É no intervalo de uma vertigem, como em Aldrich, que se dará
a experiência completa de Rosa: a de uma menina, jovem muito jovem, que conhece
um jovem rapaz e com ele um amor que somente pelo sacrifício dela poderá ser
imortalizado.
Vivida por
muitos, ou por muitos poucos, mas sempre vivida a dois, é uma velha história
que nunca antes vimos representada tão intensamente pelo signo da nudez. Nudez
física e emocional, expressão de felicidade, de prazer ou de dor, ela é em
todos os momentos a manifestação da sensibilidade mais viva. Do despertar de um
amanhecer ainda cingido pela atmosfera da madrugada ao sol que raia assim que
Rosa chega ao fim de sua trajetória, o que testemunhamos é uma tragédia que
destila aquela que seria a essência do que eleva a paixão impetuosa ao
sentimento duradouro do amor. Muito mais que uma enésima narrativa da superação
de adversidades, é justamente através dessa abstração romanesca, dessa maneira
de derivar dos códigos universais da tragédia romântica uma forma obsessiva,
radical e pessoal, que o filme parece descrever o destino que une dois corpos
celestes. O mínimo que se pode dizer é que a câmera de Vecchiali faz jus aos
seus intérpretes, Marianne Basler e Pierre Cosso, dois corpos cujas belezas
sobrepujam-se aos grilhões impostos pela vida aos amantes. Rosa e Julien, uma mesma
história: a história dela, dos homens com quem dormiu, das colegas com quem
andou, os encontros inusitados, o mito atemporal do encontro de almas, o sexo
livre e a utopia do amor vivido...
Ao fim do
filme, pela primeira e última vez, vemos: o sol que se levanta, o dia que
começa, uma vida que se completa. Le jour se lève encore (o dia ainda nasce), é
o que nos diz Vecchiali.
por Bruno Andrade
Originalmente
publicado no jornal dos Encontros Cinematográficos, março 2013. Disponível em http://focorevistadecinema.com.br/FOCO5/rosalarose.htm