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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Cineclube do Atalante: O Terceiro Tiro

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "O Terceiro Tiro", de Alfred Hitchcock. Entrada franca, sempre!


"O Terceiro Tiro", um filme de Alfred Hitchcock. 

(The Trouble with Harry, EUA, 1955, comédia/suspense, 99 min., 10 anos).

Direção: Alfred Hitchcock. Com Shirley Mclaine, John Forsyte, Edmund Gwenn.

Em uma pequena cidade do estado de Vermont, um corpo é encontrado em uma floresta criando muita confusão: todos querem esconder ou fazer algo com ele, sem levantar suspeitas.

Serviço:

CINECLUBE DO ATALANTE
"O Terceiro Tiro" ("The Trouble with Harry", 1955), de Alfred Hitchcock
Sábado, 25/02
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco) (41) 3321-3552.
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Cineclube do Atalante: Janela Indiscreta


Neste sábado o Cineclube do Atalante exibe "Janela Indiscreta", de Alfred Hitchcock. Entrada franca, sempre!


Instagram: @cineatalante

Janela Indiscreta
(Rear Window, EUA, 1954, 112 min, com Grace Kelly, James Stewart, Thelma Ritter, Raymond Burr, Wendel Corey).
Em Greenwich Village, Nova York, L.B. Jeffries, um fotógrafo profissional, está confinado em seu apartamento por ter quebrado a perna enquanto trabalhava. Como não tem muitas opções de lazer, vasculha a vida dos seus vizinhos com um binóculo, quando vê alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um assassinato foi cometido.

Serviço:
Cineclube do Atalante: Janela Indiscreta
Sábado, 16 de novembro
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)
(41) 3321-3552

ENTRADA FRANCA


Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

domingo, 14 de abril de 2019

“The Women Who Knew Too Much – Hitchcock and The Feminist Theory” (trechos da introdução)

por Tania Modleski 


Ao providenciar que alguns de seus filmes fossem retirados de circulação para serem relançados muitos anos depois, Alfred Hitchcock garantiu que a sua popularidade com um público de cinema inconstante permanecesse mais forte que nunca. Com essa manobra, pela qual ele conseguiu continuar exercendo um poder sem precedentes sobre um público de massa, Hitchcock revela uma semelhança com um dos seus tipos de personagens preferidos – a pessoa que exerce uma influência para além do túmulo.

Que essa pessoa seja muitas vezes uma mulher - Rebecca no filme de mesmo nome, Carlotta e Madeleine em Um Corpo que Cai, Sra. Bates em Psicose - não é sem interesse ou relevância para a tese deste livro: A grande necessidade de Hitchcock (exibida através da sua vida assim como na morte) e sua insistência em exercer controle autoral pode estar relacionado com o fato dos seus filmes estarem sempre no perigo de serem subvertidos por mulheres as quais o poder é ao mesmo tempo fascinante e parecem ilimitados.

É claro, alguns críticos inclinaram-se a rejeitar o apelo dos filmes atribuindo-os simplesmente ao desejo do público de massa pela violência sensacionalista - geralmente dirigida contra as mulheres - e às emoções "baratas e eróticas", citando “Mrs. Bates”. Embora esses críticos se considerem cada vez mais minoritários, é, não obstante, surpreendente refletir que as feministas se viram compelidas, intrigadas, enfurecidas e inspiradas pelas obras de Hitchcock.

O ensaio de Laura Mulvey, "Visual Pleasure and Narrative Cinema", que pode ser considerado o documento fundador da teoria feminista e psicanalista no cinema, foca nos filmes de Hitchcock para mostrar como as mulheres do cinema clássico de Hollywood são inevitavelmente transformadas em objetos passivos de impulsos voyeuristas e sádicos masculinos; como eles simplesmente existem para satisfazer os desejos e expressar as ansiedades dos homens na platéia; e como, por implicação, as espectadoras cinematográficas só podem ter uma relação masoquista com esse cinema.

A identificação pela parte da mulher com o cinema é muito mais complicada do que a teoria feminista tem entendido: longe de ser masoquista, a espectadora feminina é sempre pega num duplo desejo, identificando-se ao mesmo tempo não somente com o objeto passivo (feminino), mas também com o objeto ativo (geralmente) masculino. Vez após vez nos filmes do Hitchcock, a forte fascinação e identificação com o feminino revelada neles subverte as reivindicações de domínio e autoridade não somente nos personagens masculinos mas no próprio diretor.

O que eu desejo argumentar é que Hitchcock não é completamente misógino nem que o seu trabalho é em grande parte simpático às mulheres e a sua situação no patriarcado, mas que o seu trabalho é caracterizado por uma arrebatadora ambivalência sobre o feminino.

Apesar da frequente violência considerável com que as mulheres são tratadas nos filmes de Hitchcock, elas permanecem resistentes à assimilação patriarcal.


Em Hitchcock, a "verdade" da consciência patriarcal está na consciência feminista e depende justamente da representação de mulheres vitimadas tão freqüentemente encontradas em seus filmes. O paradoxo é tal que a solidariedade masculina (entre personagens, diretor, espectadores, como pode ser o caso) dá expressão aos sentimentos das mulheres de "raiva, desamparo, vitimização, opressão". Este ponto é a maior consequência para uma teoria do espectador feminino. Como eu argumento nos capítulos sobre Blackmail e Notorious, na medida em que os filmes de Hitchcock repetidamente revelam o modo como as mulheres são oprimidas no patriarcado, eles permitem que a espectadora sinta uma raiva que é muito diferente das reações masoquistas imputadas a ela por alguns críticos feministas”.

Além disso, eu acredito que nós precisamos destruir a visão centrada no homem começando por ver com os próprios olhos deles – porque por muito tempo não fomos somente fixadas nas suas visões, mas também forçadas por olhar o mundo através das suas lentes.


Algumas feministas criticaram Mulvey pela inadequada teoria sobre a espectadora feminina, outros objetaram a sua restrição sobre o espectador masculino à uma simples posição dominadora, argumentando que os homens nos filmes – ao menos em alguns filmes – podem também ser femininos, passivos, e masoquistas.


O medo do homem de permitir o voyeurismo feminino não provém do medo de que as mulheres olhem para outros homens extraindo (para eles talvez desfavoráveis) comparações, mas também está ligado ao temor de que a bissexualidade das mulheres possa torná-las competidoras para a conservação masculina.

Como os filmes de Hitchcock repetidamente demonstram, o sujeito masculino está muito ameaçado pela bissexualidade, e embora ele esteja ao mesmo tempo fascinado por isso; e é a mulher que paga por essa ambivalência – frequentemente com a sua própria vida.


Ao reconhecer a importância da negação na reação do espectador masculino [referente a uma possível identificação com os personagens femininos, passivos e vitimizados], podemos levar em conta um fato crucial ignorado pelos artigos discutidos (...) - o fato de o homem achar necessário reprimir certos aspectos "femininos" de si mesmo e projetá-los exclusivamente para a mulher, que suporta assim o sofrimento por ambos.

Uma análise do voyerismo e da diferença sexual é apenas uma das maneiras pelas quais um livro adotando uma abordagem especificamente feminista pode fornecer uma perspectiva muito necessária sobre os filmes de Hitchock. De fato, existem muitas questões as quais eu penso que começam a parecer diferentes quando vistas por uma mulher.


Na medida em que tudo aceita prontamente os ideais dos sistemas semióticos masculinos, o feminismo também precisa ser desafiado por uma abordagem "francamente inventiva", uma abordagem que, se parece alienígena a princípio, é tão somente porque está situada no reino do estranho - falando com uma voz que nos habita a todos, mas que para alguns de nós se tornou estranha através do medo e da repressão.

Tradução e seleção dos trechos por Natália Noronha Torato (abril/2019). Retirados da 3ª edição do livro (2016).

quarta-feira, 20 de abril de 2016

A arte da fuga


[sobre A Tortura do Silêncio(1953), de Alfred Hitchcock]
Jacques Rivette

“Aqueles que querem fazer nossos heróis estacarem sob a égide de uma medíocre bondade, onde alguns intérpretes de Aristóteles limitam o espectro de suas virtudes, não encontrarão aqui o quefazer, pois a virtude de Polyeucte aspira à santidade e não possui nenhum traço de fraqueza”.
(Corneille, Análise de Polyeucte)

Os filmes de Hitchcock são frutos de um segredo profissional; sem dúvida, não estão à altura do jugo da crítica, que sempre se mostrou fundamentalmente incapaz de dar conta destas obras. Apenas o metteur em scène– e entendo por esta expressão designar aquele que se colocou os verdadeiros problemas de sua arte – pode lhes pressentir a beleza. Da mesma forma nos apareceram as comédias de Howard Hawks, a obra americana de Renoir,a de Rossellini, os primeiros testemunhos deste cinema moderno cujo conhecimento será reservado aos cineastas– assim como os pintores há cem anos tomaram para si deforma ciumenta o império da pintura.
Se a mais nobre reflexão de nossa época escolhe exprimir-se por intermédio do cinema, não é, portanto,para aceitar ser traduzida em alguma língua estrangeira,mas para permanecer invisível a quem só é sensível às aparências desta arte. É pelo exercício cotidiano de seu poder que o cineasta afirma da forma mais rigorosa o seu pensamento; e o mais profundo destes pensamentos se confunde com a confecção dos elementos mais aparentemente exteriores, mais formais. E não é esta a marca de uma arte que atingiu o mesmo ponto de realização que encontrou a música na época de Bach?

Eu poderia, sem dúvida, oferecer aqui alguma temática hitchcockiana, demonstrar a permanência e a profundidade de seus temas; mas, além do fato de que este tipo de exegese deixa sempre no autor um sentimento de insatisfação um tanto culpado, satisfaria de forma demasiadamente justa àqueles a quem gostaria menos de esgotar a curiosidade do que irritar através de minhas esquivas – e assim incitá-los a olhar para a tela de cinema, ao invés de só buscarem os pretextos para sua escapada diante daquilo que é fundamentalmente o cinema: este meio de ligação entre alguma coisa de exterior e de muito secreta, relação que um gesto imprevisto desvela sem explicar.

Se me fosse necessário definir com uma palavra a arte de Hitchcock, escolheria exigência; não conheço cineasta que se tenha proposto de forma tão constante tão perigosa empresa. A dificuldade só ignora a beleza na visão dos amadores; mas esta busca obstinada de um equilíbrio sempre ameaçado a atinge de forma mais segura que os confortos da tragédia. O que deseja Hitchcock senão nos manter neste ponto de instabilidade almejada, onde o futuro é a cada segundo ameaçado, tensão que expia o crime, a loucura, o abandono às trevas: fronteira extrema onde lutam os últimos redutos do indivíduo, mas de onde unicamente poderia surgir a verdadeira vitória? Não há um único plano neste filme que não nos imponha o pressentimento do perigo, um único instante onde não seja perseguida a ideia mais perigosa da vida espiritual: qual destas vias, a estética ou a moral, poderia, sem trair sua essência, recusar-se a ser o veículo deste desconforto?

Vejo que criticam Hitchcock pela escolha de seus temas; mas onde outros veem preocupações comerciais,eu preferiria reconhecer a ambição de não deixar nada se exprimir com equívoco; onde poderiam ver o abandono às facilidades da intriga, vejo o desejo de recusar ao herói toda saída, toda escapada, e assim perfazer a armadilha onde o indivíduo, concernido pelos périplos da trama,deve confessar e afirmar ao mesmo tempo, num ponto extremo de aprisionamento, sua extrema liberdade.E se Hitchcock não pode levar à perfeição uma bela maquinação sem um tanto de complacência, eu a vejo como admirável, já que esta coloca, acima da preocupação com a verossimilhança, a plenitude do propósito mais rigoroso imaginável, além da perseguição até as últimas consequências de seu pensamento fundamental.

Talvez apercebamo-nos aqui em filigrana o próprio tema deste filme, inexplicável se não reconhecermos a ideia mais elevada e exigente da confissão – em que o culpado, pela remissão do pecado, compreende-se como totalmente liberado da culpa, e mesmo obrigado, se necessário, a levar o seu confessor a assumi-la e expiá-la em seu lugar (recordo rapidamente como Vigny, em suas notas a Cinc-Mars, ligava igualmente o confessor às figuras do amigo e do cúmplice). Esta preocupação não é nova em nosso autor; reencontramos, é claro, o tema do crime permutado em Pacto Sinistro; mas qual de seus filmes – e mesmo estas histórias de espionagem diante das quais alguns se ruborizam – não postula, como condição de sua inteligibilidade, a crença na alma e na reversibilidade?Reencontramos em Hitchcock, sobretudo, o gosto de suscitar entre os seres as relações mais estreitas possíveis.Unir os destinos com o melhor laço que o espírito possa conceber: esta ambição é comum a tudo que o cinema,nestes últimos anos, nos tem dado de mais novo – masquem poderia se gabar de tê-la levado a um tal grau absoluto?Estes casais, obcecados pela culpabilidade (coração de todos os filmes de Hitchcock), perseguem sob tantos rostos a mesma aventura: conseguir fazer hesitar entre duas almas a culpa, até aboli-la por intermédio da irremediável confusão de seus destinos.

Se há um mecanismo nesta arte, muitos interrogatórios no-lo ensinam: o metteur em scène não desempenha sempre o papel de Karl Malden neste filme, mecânica “inumana” que embosca as criaturas de carne e de sangue e as obriga à confissão pelo sofrimento? Qual é, aliás, o sentido desta reprovação de insensibilidade? O cineasta é livre para tentar menos comover que desestabilizar o pensamento, e renová-lo pelos choques descontínuos de efeitos cuja beleza não advém do sentido; é o sentido que advém da beleza. De surpreender e de afirmar, ao invés de tentar provar algo através da infelicidade humana.

Eu proporia, portanto, algumas observações sem objeto: que a emoção não consiste no fim da arte, e que podemos reconhecer em Hitchcock o mesmo cuidado que guia ultimamente os filmes de Renoir e Rossellini – abstrair do coração aquilo que não vem da alma; que o artista moderno impõe, a princípio, à sua obra esta catarse a que os antigos submetiam o espectador, substituindo a piedade e o terror pelo amor e a fascinação – e conhecemos hoje filmes muito cômicos feitos para fazer rir, muito trágicos com o fito de emocionar, em que a emoção se engendra e age por meio da opressão e da asfixia. Hitchcock não se preocupa com as paixões, mas com o que as esmaga, efunda nisto a sua grandeza: o instante em que o homem sacrifica seus sentimentos a seu destino, em que, por intermédio da aceitação, ele transmuta esta fatalidade em providência e, substituindo os deuses por um Deus de justiça, se abandona a este confronto solitário. A ambição deste cineasta não consiste em apaziguar, mas em inquietar, de ser aquele pelo qual o escândalo chega,e de fazer com que seus heróis atinjam, graças à clara visão daquilo que os relaciona aos outros seres, uma consciência insuportável da existência – e isto sobretudo se eles se recusarem a empreender esta marcha. Mas ele o faz afirmando o perigo contido em cada segundo, ao assinalar aquilo que lhes ameaça a salvação e ao impor enfim a ideia mais exigente da aventura individual, da predestinação e, finalmente, da santidade. Saudemos aqui um cinema do inumano, que finalmente desafia as seduções sensíveis do coração, só se debruça sobre aparte mais secreta do homem para imolá-la, e se interessa menos pelo homem do que por aquilo que o transborda: o Deus voraz, cuja Graça vela pelo homem a cada passo, e para quem a danação ou a salvação constituem uma única e mesma armadilha, cujo fito é precipitar a criatura nos abismos de seu implacável amor.

A mise-en-scène não será jamais para Hitchcock uma “linguagem”, mas, incansavelmente, uma arma no encalço do segredo dos corpos, deslizando nas brechas do gesto e do pensamento a lâmina mais penetrante, o ferro melhor curtido que qualquer arte já colocou nas mãos de um autor – dentre todos o mais lúcido, sondando os rins e os corações de suas vítimas para enfim desmascarar sua verdade mais ignorada, antes de tudo por eles mesmos.

Acompanhem, na pista dos perigos da mise-en-scène, seus gestos desajeitados, deserdados; como,espionados pelas contra-plongées que elidem o solo sob seus pés, sufocados pela obsessão das verticais, acossados nas cavidades destes enquadramentos exíguos, cujos limites assaltam sem cessar a carne pulsante da realidade;estes personagens não ousam aventurar-se a outros movimentos senão os reflexos amedrontados e contidos de quem marcha à beira do abismo. O vidro diante da fronte do procurador, a bicicleta abandonada no corredor, as flores nos braços do sacristão, tudo delineia as arestas de um cinema do provisório, do descontínuo, da ordem do acidental – elementos que, no entanto, devem compor a fatalidade. Apenas os rostos, unicamente os olhos– fixos, subitamente desviados – ousam ainda desvelar as cumplicidades,interrogar de forma vã o cúmplice e submeter o corte do plano ao breve brilho de um olhar.

Fora do perigo, todos aspiram ao destino, à sua consumação: eles estão mergulhados na questão moral até o pescoço, e já não tentam dela se desgarrar; que espécie de paródia da liberdade poderia melhor salvá-los senão a conclusão de seus destinos? Para além do julgamento dos homens, não lhes resta esperar outra coisa – com o mínimopossível de gestos, uma grande obstinação: enrijecer-se,temperar-se como a bala e a espada, para assim atravessar seu destino, com o gosto das cinzas já irisando a boca, até a consumação. A chama negra na qual Montgomery Clift visivelmente se transforma sob nossos incrédulos olhares arrasa, como o contágio de um incêndio tenebroso, a carne de todos os que dele se aproximam; apenas a crosta do visível continua a nos enganar. Jamais uma trama tão bem urdida de almas, uma tão absoluta dependência espiritual tinha se confundido de forma íntima com a experiência da solidão, que sufoca o ser no exato momento em que ele sente os laços que o unem ao mundo. Seria um acaso que o tema do sacrifício, que já atravessava a trama de Sob o Signo de Capricórnio, surgisse aqui novamente para reunir-se em nosso espírito aos temas da renúncia e do abandono a Deus (Renoir e Rossellini)?

Enfim, desejo me desculpar por um artigo onde o superlativo reina de forma tão imprudente; mas talvez tenha sido este o único meio de honestamente dar conta de um gênio que faz das experiências extremas sua regra de conduta e que ignora a arte de decepcionar e de embotara sensibilidade, dons estes que satisfazem a tantos belos espíritos.


“L’art de la fugue”, Cahiers du Cinéma, n. 26, agosto-setembro de 1953. Tradução de Luiz Soares Júnior.
Texto retirado do catálogo “Jacques Rivette – Já Não Somos Inocentes”.