quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Cineclube do Atalante: O Bandido da Luz Vermelha

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "O Bandido da Luz Vermelha", de Rogério Sganzerla. Entrada franca, sempre!

Instagram:@cineatalante 
  
O Bandido da Luz Vermelha  
(O Bandido da Luz Vermelha, Brasil, 1968, 92 min, com Helena Ignez, Paulo Villaça, Pagano Sobrinho).  
Livremente inspirado em fatos reais. Um assaltante misterioso (Paulo Villaçausa técnicas extravagantes para roubar casas luxuosas de São Paulo. Ele é apelidado pela imprensa de "Bandido da Luz Vermelha",  que traz sempre uma lanterna vermelha e conversa longamente com suas vítimas. No entantoseus roubos e crimes chamam tanta atenção que um implacável policial começa a persegui-lo.  
 Dirigido por Rogério Sganzerla. 
  

Serviço: 
Cineclube do Atalante: O Bandido da Luz Vermelha 
Sábado, 29 de fevereiro 
Às 16h 
Na Cinemateca de Curitiba 
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco) 
(41) 3321-3552 
ENTRADA FRANCA 
  
RealizaçãoColetivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba. 
  
Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba. 
  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Clube do Filme: Casa de Lava

Em 2020, o Clube do Filme está de volta com um novo enfoque: o cinema português.

É uma filmografia ainda bastante desconhecida para nós, brasileiros, mas muito rica e com muito para nos provocar e ensinar: Pedro Costa, Manoel de Oliveira, António Reis, Margarida Cordeiro, Rita Azevedo Gomes, Manuela Serra, Teresa Villaverde, Manuel Mozos... vários grandes cineastas que reinventam formas no cinema e o levam para novos mares.


À semelhança de um clube do livro, a cada mês nos encontraremos na Confraria dos Viajantes para a discussão de um filme e textos relacionados - cuja leitura  não é obrigatória, apenas recomendada. Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.

Normalmente na quarta quarta-feira de cada mês. Devido à quarta de cinzas, nosso primeiro encontro do ano será no dia 04 de março, quarta-feira.

E para dar início aos nossos trabalhos: "Casa de Lava" (1994), filme de Pedro Costa.

Algumas vozes dizem: “aqui, nesta terra de Cabo Verde, até os mortos dançam”. E a cabeça do “morto” ri, é mesmo a que ri melhor. Isso porque o filme de Pedro Costa é acima de tudo uma aproximação magnífica dessa zona intermediária e crepuscular em que a morte salta como uma fera para o lado da vida e a vida se deixa modelar pelos mais inesperados figurinos da morte. Estamos numa obra de fronteira e contrabando com guardas fictícios, cães de olhos infernais, silêncios queimados e cintilações fulgurantes. Eduardo Prado Coelho (em "Do sangue à lava")

O cinema de Pedro Costa já foi exibido em outras oportunidades no Cineclube do Atalante e se faz cada vez mais essencial nos nossos dias. Seu novo filme, "Vitalina Varela" (melhor filme e melhor atriz em Locarno 2019), estreia no Brasil em breve e faz desta reunião do Clube uma boa oportunidade para a apresentação ou reencontro com a trajetória deste cineasta.

De certa forma, "Casa de Lava", apensar de segundo na filmografia de Costa, é o seu primeiro filme e para o qual sempre retornou: seus temas, pessoas, cores, ritmos. Passado em Cabo Verde, acompanhamos a jornada de uma jovem portuguesa em meio a uma terra inóspita, ardente, e seu contato com as pessoas que lá habitam. Após este filme, Costa vai filmar com os caboverdianos em Lisboa, em suas comunidades, em um cinema feito com cada vez menos recursos, em depuração constante. "Vitalina Varela" faz deste retorno algo literal e é um dos motivos para revisitarmos "Casa de Lava" hoje.


O filme está disponível no YouTube, em baixa qualidade: https://www.youtube.com/watch?v=SIzSQCaTCW4. Qualquer coisa, estamos aqui para ajudar.

Textos recomendados para leitura:
1) "Do sangue à lava", de Eduardo Prado Coelho:  http://coletivoatalante.blogspot.com/2015/05/do-sangue-lava.html
2) "Alguns encontros: de Casa de Lava a Juventude em Marcha", de João Dumans: http://www.revistacinetica.com.br/costadumans.htm

Serviço:
Clube do Filme na Confraria dos Viajantes

"Casa de Lava" (1994), de Pedro Costa
Dia 04/03 (quarta-feira)
Das 19h15 às 21h45
Na Confraria dos Viajantes
(Rua Nilo Peçanha, 1080, Espaço Terracota, São Francisco - Curitiba)
ENTRADA FRANCA, sujeita a lotação.

* Devido ao horário, não será exibido o filme na íntegra, mas alguns trechos (do filme indicado, de outros) ou mesmo curtas devem ser apresentados como pontos relevantes para a conversa.

Realização: Coletivo Atalante e Confraria dos Viajantes

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Cineclube do Atalante: Bom Dia


Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "Bom Dia", de Yasujiro Ozu. Entrada franca, sempre!


Instagram:@cineatalante

Bom Dia
(Ohayo, Japão, 1959, 93 min, com Akira Oizumi, Crishû Ryû, Eijirô Tono, Eiko Miyoshi).
1959, uma novidade vem abalar um tranquilo bairro da periferia de Tóquio: um jovem casal comprou uma TV e todos os garotos do bairro vão à sua casa assistir ao torneio nacional de "sumô", ao invés de estudar. Dois destes garotos, os irmãos Isamu e Minoru pedem aos pais que comprem uma TV. Os pais recusam, e em represália os dois fazem uma greve de silêncio. Recusando-se a falar com os pais e com os outros colegas do bairro, os irmãos acabam provocando uma série de situações embaraçosas. Bom Dia é um encantador retrato satírico da vida familiar suburbana japonesa.

Dirigido por Yasujiro Ozu.

Serviço:
Cineclube do Atalante: Bom Dia
Sábado, 15 de fevereiro
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

Ladrões de Bicicleta (trechos)

por André Bazin 


O que me parece mais espantoso sobre o cinema italiano é que ele parece sentir que deve sair do impasse estético a que o neorealismo parece ter conduzido. Os deslumbrantes efeitos de 1946 e 1947 com que essa reação útil e inteligente contra a estética italiana do superespectáculo e, por isso mesmo, contra a estética italiana do superespectáculo de um modo mais geral, contra o esteticismo técnico a partir do qual o cinema sofreu por todo o mundo, nunca iria além de um interesse numa espécie de superdocumentário, ou reportagem romantizada.
Constatamos que  que o sucesso de Roma Citta Aperta, Paisà, ou Sciuscia foi inseparável de uma conjunção especial de circunstâncias históricas que o seu significado a partir da Libertação, e que a técnica dos filmes foi de alguma forma ampliado pelo valor revolucionário do sujeito. Apenas como alguns livros de Malraux ou Hemingway encontram numa cristalização de estilo jornalístico a melhor forma narrativa para uma tragédia de eventos atuais, então os filmes de Rossellini ou De Sica deviam o fato de serem importantes obras-primas, obras-primas, simplesmente a uma fortuita combinação de forma e assunto em questão. Mas quando a novidade e, acima de tudo, o sabor da sua a crueza técnica esgotou o seu efeito surpresa, o que resta do "neorrealismo" italiano quando, por força das circunstâncias, deve reverter a temas tradicionais: histórias de crimes, dramas psicológicos, costumes sociais? A câmera na rua que ainda podemos aceitar, mas essa admirável atuação não-profissional não se auto-condena na proporção em que as suas descobertas incham as fileiras das estrelas internacionais? E, a título de generalização sobre este pessimismo estético: o "realismo" só pode ocupar na arte uma posição dialética - é mais uma reação do que uma verdade. Permanece então para torná-lo parte da estética que veio a existir para verificar. Em qualquer caso, os italianos não foram os últimos a rebaixar o seu "neorrealismo". Acho que não há um único diretor italiano, incluindo o mais neorrealista, que não insiste que eles devem fugir dela.
(...)
Mas será que fui o advogado do diabo o bastante?           
Pois permitam-me que faça agora uma confissão: as minhas dúvidas sobre o cinema italiano nunca foram tão longe, mas todos os argumentos que invoquei foram usados por homens inteligentes, especialmente em Itália - ou por mim, infelizmente, sem qualquer semelhança de validade. Eles também me incomodaram muitas vezes, e eu subscrevo alguns deles.
Ladri di Biciclette certamente é neorrealista, por todos os princípios que se pode deduzir dos melhores filmes italianos desde 1946. A história sobre as classes baixas, até mesmo um tanto populista: um incidente na vida quotidiana de um trabalhador. Mas o filme não mostra eventos extraordinários como os que se abateram sobre os fadados trabalhadores em filmes de Gabin. Não há crimes passionais, nenhum desses coincidências grandiosas comuns em histórias policiais que simplesmente transferem para um reino de exotismo proletário os grandes debates trágicos outrora reservados aos habitantes do Olimpo. Verdadeiramente um insignificante, até mesmo um banal incidente: um trabalhador passa um dia inteiro à procura em vão nas ruas de Roma procurando a bicicleta que alguém lhe roubou. Esta bicicleta tem sido a ferramenta do seu negócio, e se não o encontrar, voltará a estar desempregado. Tarde do dia depois de horas de vadiagem infrutífera, ele também tenta roubar uma bicicleta. Apreendido e depois libertado, ele está mais pobre do que nunca, mas agora ele sente a vergonha de ter afundado ao nível do ladrão.
Se Ladri di Biciclette for uma verdadeira obra-prima, comparável em rigor a Paisà, é por determinadas razões precisas, das quais nenhuma delas resulta de um simples esboço do cenário ou de uma inquisição superficial sobre a técnica da mise en scene.


Por outro lado, há um filme chamado Ladri di Biciclette e dois outros filmes que espero que conheçamos em breve em França. Com Ladri di Biciciclette De Sica conseguiu sair do impasse, reafirmar de novo toda a estética do neorrealismo.      
(...)
O cenário é diabolicamente inteligente na sua construção, começando com o álibi de um acontecimento em curso faz bom uso de uma série de sistemas de coordenadas dramáticas irradiando em todas as direções. Ladri di Biciclette é certamente o único filme comunista válido de toda a década passada porque ainda tem significado, mesmo quando abstraímos o seu significado social. Sua mensagem social não se desprende, permanece imanente na evento, mas é tão claro que ninguém pode ignorá-lo, muito menos fazer exceção a ele, uma vez que nunca é feito explicitamente uma mensagem. A tese implicada é maravilhosamente simples e ultrajantemente simples: no mundo onde este trabalhador vive, os pobres devem roubar uns dos outros para poderem sobreviver. Mas isto nunca é afirmado como tal, é apenas que os acontecimentos estão tão ligados entre si, que têm a aparência de uma verdade formal, mantendo uma qualidade anedótica. Basicamente, o trabalhador pode ter encontrado sua bicicleta no no meio do filme; aí não haveria filme nenhum. (Desculpe por ter o incomodado, o realizador poderia dizer: "Nós achávamos que ele nunca iria... mas como ele encontrou, tudo está bem, bom para ele, a performance acabou. Liguem as luzes.)
Em outras palavras, um filme de propaganda tentar provar que o trabalhador não conseguia encontrar a sua bicicleta, e que ele está inevitavelmente preso no círculo vicioso da pobreza. De Sica limita-se a mostrar que o trabalhador não consegue encontrar a sua bicicleta e que, como resultado, ele sem dúvida que voltará a estar desempregado. Ninguém pode deixar de ver que é a natureza acidental do roteiro que dá à tese sua qualidade de necessidade; o mais leve caso de dúvida sobre a necessidade dos acontecimentos no cenário de uma o filme de propaganda torna o argumento hipotético. Embora com base no infortúnio do trabalhador não tenhamos outra alternativa senão condenar um certo tipo de relação entre um homem e o seu trabalho, o filme nunca torna os eventos ou as pessoas parte de uma economia ou maniqueísmo político. Toma cuidado para não enganar a realidade, não só por para dar à sucessão de eventos a aparência de um acontecimento acidental como se fosse uma cronologia anedótica, mas tratando cada um deles de acordo com a sua integridade fenomenológica. No meio da perseguição o pouco o rapaz precisa de mijar de repente. Assim ele faz. Uma enxurrada força o pai e o filho a mijar. Ambos tem de se abrigar, então, como eles, temos de renunciar à perseguição e e esperar até que a tempestade acabe. Os acontecimentos não são necessariamente sinal de algo, de uma verdade da qual devemos estar convencidos, todos eles carregam os seus próprios pesos, sua completa singularidade, essa ambiguidade que caracteriza qualquer fato. Então, se você não tem olhos para ver, você é livre para atribuir o que acontece ao azar ou ao acaso.

(...)
É de fato no seu reverso, e por paralelos, que a ação se reúne - menos em termos de "tensão" do que de "soma" dos acontecimentos. Sim, é um espectáculo, e que espectáculo! Ladri di Bicicletle, porém, não depende dos elementos matemáticos do drama, o que a ação faz não existe de antemão como se fosse uma "essência". Decorre da preexistência da narrativa que é a "integral" da realidade. O supremo de Sica que, até à data, só foram abordados por outros com um grau de variação variável. O grau de sucesso ou fracasso, é ter conseguido descobrir a dialéctica cinematográfica capaz de transcender a contradição entre a ação de um "espectáculo" e de um acontecimento. Por esta razão, o Ladri di Bicicleta é um dos primeiros exemplos de cinema puro. Sem mais atores, sem mais história, sem sets, o que quer dizer que na perfeita ilusão estética da realidade não há mais cinema.


(Retirado do livro O Que é o Cinema? de André Bazin; folha da sessão de 14 de dezembro de 2019.)

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Cineclube do Atalante: Ladrões de Bicicleta

Neste sábado, o Cineclube do Atalante segue pelo neorrealismo italiano e exibe "Ladrões de Bicicleta", de Vittorio De Sica.

Última sessão do ano, não perca!


Ladrões de Bicicleta
(Ladri di Biciclette, ITA, 1948, 90 min, 10 anos)
Com Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola e Lianella Carell.

Na Itália do pós guerra, Antonio (Lamberto Maggiorani) tem sua bicicleta roubada. Ele e seu filho Bruno (Enzo Staiola) saem pelas ruas de Roma para encontrá-la.

Dirigido por
Vittorio De Sica.
 
SERVIÇO:
Sábado, 14/12.
Às 16h.
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Notas a propósito do cinema de Rossellini para uma sessão de Paisà

por Nikola Matevski


Um dos principais problemas com o neorrealismo reside, talvez, na sua amplitude, que é da ordem da cultura. Quem estudou o assunto com afinco, como Mariarosaria Fabris, invariavelmente alcançou os problemas da definição desse termo e da sua complexa relação com o cinema. Neorrealismo, afinal, não delimita com clareza uma escola ou um estilo e, no pior dos casos, pode servir apenas de rótulo para nivelar uma filmografia rica em sua heterogeneidade. Outro risco, até certo ponto inevitável, é cair na retórica excessivamente marcada pela negatividade. O filme neorrealista seria tudo aquilo não é o filme hollywoodiano: no lugar dos cenários construídos, a crueza espartana das ruas; em vez do profissionalismo dos atores envernizados, o amadorismo das pessoas do campo e das periferias. E assim por diante. Refletir a propósito do neorrealismo é, em suma, abordar uma questão importante para a historiografia do cinema, mas não é um problema que me estimula particularmente e, por isso, não é o enfoque que proponho para esta sessão de Paisà realizada pelo Atalante. Prefiro deixá-la de lado, ainda que o filme tenha sido tantas vezes a ela associado. Levo em consideração, inclusive, outras exibições do filme em Curitiba e que remontam a um cineclubismo de longa data.

Um dos momentos mais pungentes de Paisà encontra-se ao término do segundo episódio. O soldado Joe, americano, negro, teve suas botas roubadas por um menino das ruas de Nápoles. Ao final, o estrangeiro visita uma gruta em que vê o cortiço – a moradia do garoto. Adriano Aprà foi certeiro quando disse, em Dibattito su Rossellini, que o filme opera naquele momento uma colisão de universos distintos. É sabido que uma das grandes questões de Paisà é lidar com a diferença. Entre invasores e invadidos, entre autóctones e estrangeiros, a alteridade é uma constante que embaralha as chances da comunicação, do convívio, da solidariedade e do amor. Aludir, porém, a uma colisão de realidades desiguais, como fez Aprà, é designar uma importância fundamental à montagem. A cena se dá pelo raccord de olhar: o soldado olha e vê. No entanto, essa figura da continuidade atravessa, simultaneamente, toda a alteridade entre personagem e seu entorno. Daí emerge a força do choque. No ato da visão intermediada pelo corte, mundos divergentes colidem forçosamente.

Esse é um dado crucial para o cinema de Rossellini porque em seus próximos filmes ele só fará aumentar a distância do abismo. As desigualdades trazidas pela guerra e pela miséria social serão engolfadas pelos precipícios que apartam os indivíduos desterritorializados de Alemanha, ano zero, Viagem à Itália ou Stromboli. O despertecimento supera os limites das cidades, dos países e das sociedades e se dirige para a totalidade. Por isso, ao descrever a cena que encerra Alemanha, ano zero, Adriano Aprà a compara a 2001: Uma Odisseia no Espaço. A montagem do garoto que olha a devastação de Berlim é como aquela do solado em Paisà, mas o desabamento é mais profundo, abissal, atingindo o grau zero, o começo e o fim de tudo (o garoto é, então, como a criança no último plano do filme de Stanley Kubrick). De maneira parecida, os indivíduos de Viagem à Itália ou Stromboli achavam ingenuamente que sabiam ver e controlar o mundo, mas nada menos que o planeta que habitam enviou-lhes os melhores cumprimentos. Deixando a ironia de lado: entre o núcleo da Terra, que manda gases informes e explosões para Stromboli, e as luzes das estrelas, que atravessam as curvas do tempo, exige-se o máximo de Karin e do seu olhar.

Muitos não entenderam essa amplificação de escala do cinema de Rossellini e acusaram-no de trair o neorrealismo (outros, pelo contrário, entenderam e responderam, como Jean-Luc Godard e as galáxias que filmou numa cafeteria, na xícara de café). As montagens que mencionei, dependendo de como incidem no filme, são igualmente importantes para projetar a interioridade às personagens, cujas emoções podem ser flutuantes e imprevisíveis como os fenômenos da natureza (turbulentos como as águas da cana pesca ao atum em Stromboli, por exemplo) até culminar em ruptura (como o menino, anjo caído de Alemanha, ano zero).

É o que se passa, de certa maneira, com o soldado na gruta em Nápoles. Depois de olhar, seu corpo abruptamente se vira e sai de quadro. Não há como contornar o visto, que age no homem como um transbordamento. Como observou Tag Gallagher, a equação é a da acumulação liberada num impulso, que é o gesto do corpo. O heroísmo e os sacrifícios de Paisà se dão nesses termos, não como causalidade lógica ou obediência normativa da conduta (honra), mas como uma precipitação, imediata e contingente. Desses gestos emanam os sentimentos e as tragédias que selam os vínculos possíveis entre os diferentes. O plano que se segue àquele de Joe, o soldado, saindo de quadro é a de um jipe que se afasta rapidamente. É uma das elipses mais famosas de Rossellini e volto a ela porque a montagem está mais uma vez implicada. Não consta, no filme, como o personagem saiu da gruta e chegou ao veículo; perdeu-se a coesão do espaço e do tempo. E, no entanto, essa supressão, convertendo o impulso do corpo que sai de quadro em uma fuga veloz, amplifica a desolação.

A carga das forças convocadas é tamanha que a linguagem não consegue carregá-las. "É como se faltassem palavras", escreveu Sandro Bernardi: diante do choque da experiência, não dizemos frases articuladas, mas emendamos orações, cuspimos palavras e a linguagem colapsa. Isso cria uma aspereza e certo inacabamento do cinema de Rossellini que, como nesse exemplo, sempre trabalharam a seu favor. Por essa fresta passa o melhor de todo o cinema moderno, que sempre fez desse tipo de ausência (de ação, de intriga, de psicologia, etc.) verdadeiras “negatividades positivas”, matérias escuras simultaneamente ausentes e constitutivas.

Haveria mais a dizer a respeito de Paisà, sobretudo diante da paisagem e do rio a que se destinam os personagens no último, talvez o melhor episódio. Por ora, me ative a uma porção curta do filme porque ela me permitia introduzir o assunto da montagem em Rossellini, aspecto às vezes relegado diante da tradição crítica apoiada no elogio ao plano-sequência. A esse respeito vale a pena ler a tradução de Letícia Weber Jarek para o texto Faux Raccords, de Alain Bergala. Temas para uma conversa pós-sessão.

Agradecimento: Tainah Negreiros

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Cineclube do Atalante: Paisà

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "Paisà", de Roberto Rossellini. Entrada franca, sempre!

 
Instagram: @cineatalante

Paisà
(Paisà, ITA, 1946, 125 min, 12 anos, com Carmela Sazio, Maria Michi, Dots Johnson)
Seis histórias retratam a condição humana na situação de guerra, de julho de 1943 até o inverno de 1944

Dirigido por Roberto Rossellini.

Serviço:

Cineclube do Atalante: Paisà
Sábado, 07 de dezembro
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)
(41) 3321-3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Coletivo Atalante, Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura de Curitiba.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.