sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Cine FAP: "Irmãs de Gion", de Kenji Mizoguchi

O Cine FAP prossegue em outubro com a exibição e debate de filmes do cinema clássico japonês: nesta segunda, dia 19, Irmãs de Gion, de Kenji Mizoguchi. Ainda em outubro, O Inesquecível, de Keisuke Kinoshita.


 Cine FAP apresenta: 

"Irmãs de Gion", de Kenji Mizoguchi

Irmãs de Gion segue os caminhos paralelos da rebelde Omocha (Isuzu Yamada) e de sua irmã Umekichi (Yoko Umemura), ambas gueixas do distrito de Gion. Protótipo estilístico e temático da obra do então jovem Mizoguchi, em seu olhar amargo sobre as forças que atiram a mulher para baixo da ladeira social.
 
"... Robin Wood observou que os dois filmes (Elegia de Osaka e Irmãs de Gion, ambos de 1936) formam um par, sendo o primeiro 'tão exclusivamente dedicado à análise da opressão da mulher no âmbito familiar, enquanto que o segundo é como um desenvolvimento, está além disso.'. Elegia de Osaka, mesmo que poderoso, é assim como o filme fraco do par, em certos momentos desajeitado, hiperretórico ou incerto em seu equilíbrio entre a distância e o envolvimento. Irmãs de Gion é uma obra-prima, um dos filmes mais perfeitos de Mizoguchi. Sua encenação - tomadas longas, estáticas, entremeadas de travellings implacáveis - expõe as estruturas opressivas da sociedade japonesa com claridade de tirar o fôlego. Nem a conformidade nem a rebelião oferecem uma rota de fuga para as mulheres condenadas de Mizoguchi. O exame do tema é exemplar em sua concisão, força e rigor. Mesmo que Mizoguchi tenha feito, mais tarde, filmes de maior complexidade, a precisão aguda de Irmãs de Gion permanece singular." (retirado de: http://sensesofcinema.com/2002/great-directors/mizoguchi/)

Serviço:
dia 19/10 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melillo, na FAP - Faculdade de Artes do Paraná
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral)
ENTRADA FRANCA

***

Programação do ciclo:

05/10 -
Sr. Obrigado (Arigatô-san, 1936), de Hiroshi Shimizu
Sr. Obrigado é um jovem motorista de ônibus. Conhecido por sua simpatia, conduz com prudência e humanidade seu ônibus no meio de uma estrada que reflete as idiossincrasias de seu país.

19/10 -
Irmãs de Gion (Gion no shimai, 1936), de Kenji Mizoguchi

Irmãs de Gion segue os caminhos paralelos da rebelde Omocha (Isuzu Yamada) e de sua irmã Umekichi (Yoko Umemura), ambas gueixas do distrito de Gion. Protótipo estilístico e temático da obra do então jovem Mizoguchi, em seu olhar amargo sobre as forças que atiram a mulher para baixo da ladeira social.


26/10 - O Inesquecível ou Amor Imortal (Eien no Hito, 1961), de Keisuke Kinoshita

Heibei (Tatsuya Nakadai) é um jovem que retorna para casa após lutar na II Guerra, e força o seu casamento com Sadako (Hideko Takamine) após violentá-la e usar sua influência para convencer o pai da garota. A partir daí, o casal vive uma relação conflituosa, pois a Sadako era apaixonada por Takashi (Keiji Sada), um combatente japonês que Heibei odiava desde criança.

Realização: Cine FAP
 
Apoio: Coletivo Atalante

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Estranha Compulsão


(Compulsion, Richard Fleischer, EUA, 1959)

Uns óculos caídos sem explicação na cena do crime. São eles que vão fazer vacilar o crime perfeito. São eles que tudo ensombrarão no último fôlego de uma longa caminhada sobre um abismo de nada. E Deus. E Orson Welles, possuindo um advogado sem escrúpulos e sem piedade e se calhar sem sangue, que é o mais violento ser deste pós-apocalíptico circo, vai fechar o vórtice desenhado por Richard Fleischer em “Compulsion”, de uma forma e com uma lábia que é inútil traduzir em palavras que diminuam a sua expressão e jogo de cintura. Pode-se dizer que a pressão que mete em quem o escuta, ao dizer que o mal não vai matar o mal, que o poder não se pode comportar como as bestas que praticaram o acto inominável em causa, bestas defendidas por ele, ou, talvez o cúmulo, que levá-los à forca seria regredir brutalmente na concepção e busca de uma humanidade melhor. Discurso, ética e estética que está ao nível do que Chaplin fez em “The GreatDictator” e que será o apogeu do Welles actor e do Welles encenador, medonha caveira carcomida a insónias.

Super-Homem, Nietzsche, indiferença emocional, gelo, desprezo, superioridade, relativismo filosófico, liderança suprema, Moisés, arrogância legítima, virtudes incompreensíveis ao rasteiro…e cada vez mais supremos até de tudo estarem desprendidos. Judd e Straus, o paranoico e o esquizofrénico, querem estar para além ou para aquém do bem e do mal, do certo e do errado, sem cauções de sanidade judicial ou medicinal. Querem-se fundir num e praticar o mal de cada vez pior, horrifico, limpo, inconsequente. Aglutinação de carnes tenras que compreende o sensível, o moral e, de maneira mais aparentemente soterrada, o sexual. Fortíssimo filme erótico de uma carga e tensão a rebentar as bordas do scope em constante desequilíbrio. Ora abarcando, ora isolando lá pelos cantos mortos.

Sem paixão, sem amor, sem desculpas. Judd cultiva arrepiosos animais empalhados, Strauss brinca com manhosos ursinhos sorridentes. Judd tenta ser mais perfeito do que o mestre sodomizante, mas acaba vergado às confusões e sensações que os olhos e o roçar numa moça loira produzem. Uma espécie ou um concurso mesmo de Supra-Deuses que só finda quando o primeiro for ao tapete ou à ultra referida guilhotina. História passional entre dois homens em que o reflexo é história de horror sem causa. O que falhou e os levou ao encarceramento eterno que se revela mais cruel do que a corda que os esganaria de vez?

Uns óculos que vão baralhar e atrofiar tudo, alibis, argumentos, nexos, personalidades? A formosa Ruth fala na infelicidade do paranoico. O Wilk de Welles vai por caminhos patológicos, advogando por amor. Mas neste cruzamento ou atamento entre o “Rope” de Hitchcock com os vampiros libertinos e sugadores que Abel Ferrara pôs à luz do dia em “The Addiction”, a escorregadela ou a falha que se detecta mesmo mesmo no ressoar derradeiro, aqui a coisa é estendida e distendida e reinventada para lá mesmo do último apito do árbitro, é a sentença privada e nocturna de Welles. Muito mais sentenciosa e fatalista do que a do oficial, e que reza, no idioma original, assim – “In thoseyearsto come youmightfindyourselfasking...if it wasn'tthehandofGoddroppedthoseglasses. Andifhedidn't, whodid?” Pumba, The End.

Não querendo puxar a brasa a nenhuma sardinha, muito menos ter certezas num palco onde elas estão fora de serviço, faltou aos dois putos espertos e mais ainda ao cabecilha o que faltou ao artista de “ArmoredCarRobery”, sendo esta uma rima perfeita ou um chafurdamento mais fundo - o respeito ou a simples consciência de uma possível transcendência, ilógica ou lógica à sua maneira, isto para não usar ou deixar em elipse metáforas ou habitantes divinos. O que transporta este filme para outro degrau ou patamar é precisamente a elevação desta questão ou desta incógnita, infinitesimal ou colossal, a estrados metafísicos, em consonância com todas as verborreias que escorrem no ora metálico ora viscoso preto e branco. Fora ou além da esfera e do peso dos corpos, do dinheiro, da posição social. Em amplitudes que justamente ao evocarem o contrário do mal só para ele caminham e o largam, besta na selva. Mal difuso que se entranha e não se isola do bem. Terror da beleza e beleza do terror, como também lá se diz.

Irracional, inaudito, insuperável. Mente que não calámos, alma que não acedemos, rol de eventos que corre imperialmente, fazendo-nos ajoelhar quando e onde quiser. Fora do que podemos tocar plana o que não podemos tocar. Ou ver. Sentir. O que nos foge ou seca como a água sobre a pele quente. Como pergunta terminal do que andamos aqui a fazer, para quê, porquê. O que Fleischer largou às feras é a impossibilidade da cura. Reconciliação. Abraço. De um modo tão amplo e circular que só podemos responder como responde aquele Straus das certezas todas – de boca cosida.

Confrontar se faz favor, para fins de outro tipo de inteligência, os dois tipos de tratamento da realização, isto é, antes de Welles e depois de Welles, que invade e tudo modifica num rompante sereno. Serenidade filha-da-puta. Duas partes distintas, duas respirações, duas pulsões. Como se na primeira não houvesse nada da ordem da crença e estivéssemos a flutuar e a pairar num crispado vácuo. Cenas e planos que se chocam e entrechocam, durações e ritmos convulsos, perigoso atrito, olhares desencontrados. E na segunda fossem precisos os caminhos e os saberes, por exemplo, de uma découpage que permita dar luta ou emplacamento àquele Altíssimo ou àquele Diabo que suga tudo do campo. Olhar encontrado, escansão, movimento e significâncias tão claras como negras. E no embate do claro e do negro estará o tom geral. De onde o choque dual produz o que lá está. Sem resoluções.

José Oliveira
(Texto original: 
http://raging-b.blogspot.com.br/2013/08/uns-oculos-caidos-sem-explicacao-na.html)

Cineclube da Cinemateca: "Índia: Matri Bhumi" de Roberto Rossellini

Neste sábado, dia 17, o Cineclube da Cinemateca exibe "Índia: Matri Bhumi" que dá continuidade ao ciclo Roberto Rossellini e que contará  ainda com "Sócrates" (dia 31). Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca:
"Índia: Matri Bhumi" de Roberto Rossellini
Versão restaurada do esquecido filme de Roberto Rossellini. Apesar de creditado como documentário, o filme mistura elementos ficcionais e documentais, contando pequenas histórias de personagens de diferentes idades e classes sociais do país, montando assim a "bricolagem humana" que, segundo o narrador nos primeiros momentos do filme, é a Índia.

Serviço:
17 de outubro
às 14h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cineclube Sesi: "Estranha Compulsão" de Richard Fleischer

Nesta quinta, dia 15, o Cineclube Sesi exibe  "Estranha Compulsão" dando sequência ao ciclo Richard Fleischer, que contará ainda com "O Homem que Odiava as Mulheres" (22/10) e "No Mundo de 2020" (29/10).
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi apresenta: 
"Estranha Compulsão" de Richard Fleischer

Chicago, 1924. Judd Steiner (Dean Stockwell) e Artie Straus (Bradford Dillman) são dois jovens que pertencem a famílias ricas. Os dois crêem serem superiores intelectualmete, além disto se consideram acima da moralidade convencional. Para provar que são superiores, eles assassinam Paulie Kessler sem o menor motivo. Porém logo um pequeno detalhe faz o "crime perfeito" se mostrar falho. Para tentar alterar este quadro, as famílias de Judd e Steiner contratam Jonathan Wilk (Orson Welles), um famoso advogado que tem a fama de dobrar os jurados.

Serviço:
dia 15/10 (quinta)
às 19h30
na Sala Multiartes do Centro Cultural do Sistema Fiep
(Av. Cândido de Abreu, 200, Centro Cívico)
ENTRADA FRANCA

Realização: Sesi
Produção: Atalante

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Começa nesta quarta-feira o Curso de Crítica Cinematográfica


O Curso de Crítica Cinematográfica (ministrado por Miguel Haoni do Coletivo Atalante) oferecerá uma abordagem teórica a partir do estudo de textos fundamentais e da análise de filmes. Filmes e textos, permitirão um percurso geral e específico em alguns capítulos essenciais da modernidade cinematográfica, com foco privilegiado sobre os primeiros anos da Nouvelle Vague francesa.

Referências bibliográficas:
1 - Foco Revista de Cinema (http://www.focorevistadecinema.com.br/)
2 - KACTUZ, Flávio (org.). Pasolini ou quando o cinema se faz poesia e política de seu tempo. Rio de Janeiro: Uns Entre Outros, 2014.

Referências fílmicas:
1 - Charlotte e Véronique (Charlotte et Véronique, ou Tous les garçons s'appellent Patrick). Jean-Luc Godard. França. 1959. p&b. 21 min.
2 - Les godelureaux (Les godelureaux). Claude Chabrol. França. 1961. p&b. 99 min.
3 - A Besta Humana (La Bête Humaine). Jean Renoir. França. 1938. p&b. 100 min.
4 - Amores de Apache (Casque d'or)Jacques Becker. França. 1952. p&b. 96 min.
5 - Terra dos Faraós (Land of the Pharaohs). Howard Hawks. EUA. 1955. Cor. 144 min.
6 - Os Mestres Loucos (Les Maîtres Fous). Jean Rouch. França. 1955. Cor. 36 min.
Serviço: Carga horária: 24 horas. Dias 14, 16, 19, 21, 23, 26, 28 e 30 de outubro (segundas, quartas e sextas), das 19 às 22 horas, no Núcleo Cine (Rua Belém, 888 - Cabral- Curitiba/PR)
Inscrições pelo email: coletivoatalante@gmail.comInvestimento: R$120,00. VAGAS LIMITADAS
Realização: Núcleo Cine (http://www.nucleocine.com.br/), e Coletivo Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)

sábado, 10 de outubro de 2015

Carta sobre Rossellini


“A ordenação encobre. A ordem reina.” (Charles Péguy)

                Vocês não gostam muito de Rossellini. Dizem que vocês não gostam de Viagem à Itália. Até aí, tudo bem. Mas não; sua recusa não é tão segura para que não procurem saber a opinião dos rossellinianos; estes lhes irritam, lhes inquietam, como se vocês não tivessem boa consciência de seu gosto. Estranho comportamento!
                Mas abandonemos este tom jocoso. Sim, admiro especialmente o último filme de Rossellini (pelo menos o último que vimos). Por quais motivos? Ah, aí fica mais difícil dizer; não posso invocar diante de vocês o enlevo, a emoção, a alegria: é uma linguagem que vocês não admitem muito como prova; espero que ao menos a compreendam.(E se não, que Deus lhes ajude).
                Mudemos de tom mais uma vez para lhes agradar .A maestria, a liberdade, eis palavras que vocês podem entender, pois este é o filme em que Rossellini melhor afirma sua maestria, e como em qualquer arte, pelo exercício mais livre dos seus meios, ao qual voltarei. Antes, tenho mais a dizer, e que deve lhes interessar mais: se existe um cinema moderno, ei-lo. Mas vocês ainda precisam de provas.
*
                1. Se considero Rossellini o cineasta mais moderno, não é sem razão; mas tampouco pela razão. Parece-me impossível ver Viagem à Itália sem experimentar brutalmente a evidência de que este filme abre uma brecha, pela qual o cinema inteiro deve passar se não quiser morrer. (Sim, não há hoje outra salvação para o nosso miserável cinema francês do que uma boa transfusão deste sangue novo). Vê-se que é só um sentimento pessoal. E eu gostaria de evitar desde já um mal-entendido: há outras obras, outros autores, que provavelmente não são menores do que este, mas são, como direi, menos exemplares; no ponto a que chegaram de sua carreira, sua criação parece fechar-se sobre si mesma, o que fazem vale por ela e nas suas perspectivas. Eis certamente a culminância da arte, que só deve contas a si própria e, passados os tateios e as pesquisas, desencoraja os discípulos, isolando os mestres: seu domínio morre com eles, assim como as leis e os métodos a que recorreram. Vocês reconhecem aqui Renoir, Hawks, Lang e, de uma certa maneira, Hitchcock. A Carruagem de Ouro4 poderá provocar cópias confusas, mas não pode fazer escola; as cópias só são possíveis por presunção e ignorância, e os verdadeiros segredos estão tão bem escondidos sob o jogo das caixas sucessivas que, para descobri-los, seriam provavelmente necessários tantos anos quanto os que a carreira de Renoir tem hoje; há trinta anos eles se confundem com os avatares e os progressos de uma inteligência criadora excepcionalmente curiosa e exigente. A obra de juventude, ou da primeira maturidade, guarda em seu entusiasmo, em seus saltos, a imagem dos movimentos da vida cotidiana; atravessada por um outro impulso, ela está ligada a seu tempo e dele se afasta com dificuldade. Mas, o segredo de A Carruagem de Ouro é o da criação, e dos problemas, das dificuldades, dos desafios que se impõe para arrematar um objeto e lhe dar a autonomia e o refinamento de um mundo ainda desconhecido. Qual exemplo, senão o do trabalho obstinado e discreto que apaga por fim todo rastro de sua passagem? Mas, o que pintores ou músicos poderão reter das últimas obras de Poussin ou Picasso, de Mozart ou Stravinsky, senão um desespero salutar?
                Podemos pensar que Rosselini também chegará a este ponto de pureza (e a ele se habituará) em cinco ou dez anos; ele ainda não o alcançou, ousemos dizer, felizmente; ainda é tempo de segui-lo, antes da eternidade nele mesmo, enquanto o homem de ação ainda vive no artista.

                2. Moderno, afirmava eu; é assim que desde os primeiros minutos de projeção de Viagem à Itália, um nome que parece não ter nada a fazer aqui não cessou de martelarmeu espírito: Matisse. Cada imagem, cada movimento confirmava para mim o secreto parentesco entre o pintor e o cineasta. Isso é algo mais fácil de enunciar do que de demonstrar. Arriscarei-me, porém, a fazê-lo, receando que minhas razões iniciais lhes pareçam bem frívolas, e as seguintes, obscuras ou ilusórias.
                De início, basta ver: ao longo de toda a primeira parte, constatem o gosto pelas amplas superfícies brancas, realçadas por um traço claro, por um detalhe quase decorativo; se a casa é nova e de aspecto inteiramente moderno, é obviamente porque Rossellini se apega primeiro às coisas contemporâneas, à forma mais recente de nosso contexto e de nossos costumes; é também por simples prazer visual. Isto pode surpreender em um realista (e mesmo neorrealista); por que, meu Deus? Que eu saiba, Matisse também é realista: a economia de uma matéria ágil, a atração pela página branca e carregada de um só signo, pela superfície virgem5 aberta à invenção do traço exato, tudo isso me parece de um realismo de melhor  qualidade do que os excessos, as caretas, a grandiloquência pseudorrussa de Milagre em Milão6; tudo isso, longe de prejudicar o propósito do cineasta, lhe dá um acento novo, atual, que nos atinge em nossa sensibilidade mais recente e mais viva; tudo isso toca o homem moderno que há em nós, e já exprime a nossa época tão precisamente quanto a narrativa; tudo isso já trata do homem de bem de 1953 ou 1954, e já é o assunto.

                3. No quadro, uma curva voluntária circunda, sem aprisioná-la, a cor mais viva; uma linha quebrada, mas única, cerca uma matéria milagrosamente viva, como que apreendida, intacta, na sua origem. Na tela [do cinema], uma longa parábola, suave e precisa, guia e retém cada sequência, depois se fecha em si mesma com exatidão. Pensem em qualquer filme de Rossellini: cada cena, cada episódio retornará à sua memória não como uma sucessão de planos e enquadramentos, uma cadeia mais ou menos harmoniosa de imagens mais ou menos impressionantes, mas como uma longa frase melódica, um arabesco contínuo, um único traço implacável que conduz firmemente os seres em direção àquilo que ainda ignoram, e delimita na sua trajetória um universo agitado e definitivo; seja num fragmento de Paisá [1946], num fioretto de Francisco, Arauto de Deus [Francesco, Giullare di Dio, 1950], num “passo” [do Calvário] de Europa 51 [1952], ou no conjunto mesmo de seus filmes, na sinfonia em três movimentos de Alemanha, Ano Zero [Germania Anno zero, 1948], na linha ascendente obstinada de O Milagre [Il Miracolo, 1948] ou de Stromboli [1950] (as metáforas musicais surgem tão espontaneamente quanto as pictóricas) – o olhar incansável da câmera cumpre sempre o papel do lápis, um desenho temporal avança diante dos nossos olhos (e, estejamos tranquilos, sem câmera lenta que pretenda nos instruir decompondo expressamente para nós a inspiração do mestre); seguimos seu progresso até o desfecho, até que ele se perca na duração assim como surgira da brancura da tela. Pois há filmes que começam e terminam, que têm  um início e um fim, que conduzem uma narrativa desde seu primeiro termo até que tudo se ordene e se acalme, mesmo que haja mortos, um casamento ou uma verdade. São os de Hawks, Hitchcock, Murnau, Ray, Griffith. Mas há filmes que não possuem nada disso, e retornam ao tempo como os rios ao mar; e que nos propõem ao final apenas as imagens mais banais: rios que correm, multidões, exércitos, sombras que passam, cortinas que caem ao infinito, uma menina que dança até o fim dos tempos. São os de Renoir e Rossellini. Cabe a nós prolongar depois em silêncio este movimento novamente secreto, esta curva dissimulada, retornada à terra: ela ainda não terminou.     
                (É claro que tudo isso é arbitrário e vocês têm razão: os primeiros também se prolongam, mas me parece que não exatamente da mesma maneira; eles satisfazem o espírito, suas agitações nos acalmam, enquanto os outros nos incumbem e nos pesam. Eis o que eu queria dizer.)
                E há os filmes que alcançam o tempo numa imobilidade dolorosamente mantida; que chegam a seu termo sem fraquejar na etapa perigosa de um ápice irrespirável7: este é o caso de O Milagre, de Europa 51.

                4. É cedo demais para tais entusiasmos? Receio que um pouco; voltemos então à Terra, e já que vocês o desejam, falemos de enquadramentos: mas permitam-me ainda encontrar neste desequilíbrio, nesta distância dos centros de gravidade habituais e nesta aparente incerteza que tanto lhes choca secretamente a mesma marca, a assimetria de Matisse: a “falsidade” magistral da composição, calmamente descentrada, que choca também ao primeiro olhar e só depois revela seu equilíbrio secreto, em que os valores contam tanto quanto as linhas, e que dá a cada tela este movimento discreto, como aqui a cada momento esse dinamismo contido, a inclinação profunda de todos os elementos, todas as curvas e todos os volumes do instante, rumo ao novo equilíbrio, e ao novo desequilíbrio do próximo segundo rumo ao seguinte; poderíamos chamar isso, pomposamente, de uma arte do sucessivo na composição (ou então, da composição sucessiva) que, ao contrário de todas as pesquisas estáticas que sufocam o cinema há mais de trinta anos, me parece, com todo o bom senso, a única invenção plástica permitida ao cineasta.

                5. Não insisto mais: todo paralelo se torna logo tedioso, e temo que este já tenha durado muito; de resto, quem pode convencer alguém senão aquele que já o verificou assim que o formulou? Permitam-me apenas uma última observação, sobre o traço: a graça e o desajeito intimamente ligados. Saúdem aqui e ali uma graça jovem, brusca e rígida, desajeitada, mas cuja fluidez desconcerta: a meu ver, a mesma graça da adolescência, idade ingrata em que os gestos mais perturbadores e os mais bem sucedidos nascem assim, “no susto”, de um corpo sustentado por um grande embaraço. Matisse e Rossellini afirmam a liberdade do artista, mas não se enganem: trata-se de uma liberdade vigiada, construída, em que a arquitetura primeira se dissipa no esboço.
                Pois é preciso acrescentar este aspecto, que resumirá todos os outros: o senso do esboço, comum aos dois artistas. O esboço mais verdadeiro, mais detalhado que o detalhe e a cópia mais minuciosa, a preparação mais verdadeira que a composição, eis os milagres em que irrompe a verdade soberana da invenção, da ideia mãe que só aparece para reinar, sumariamente desenhada por grandes traços essenciais, desajeitados e apressados, mas que resumem vinte estudos aprofundados. Pois é precisamente nestes filmes rápidos, improvisados com elementos do acaso e filmados aos solavancos que a imagem deixa amiúde adivinhar, que se encontra a única pintura real do nosso tempo; e este tempo também é um esboço; como não reconhecer de pronto a aparência fundamentalmente esboçada, mal composta, inacabada da nossa existência cotidiana; estes grupos arbitrários, estas reuniões completamente teóricas de seres atormentados pelo tédio e pelo cansaço, nós os reconhecemos, eles são a imagem irrefutável, acusadora, das nossas sociedades heteróclitas, sem harmonia, desacordes. Europa 51, Alemanha, Ano Zero, e este filme que poderá se intitular Itália 53, como Paisá já era Itália 44, eis o nosso espelho, que não nos lisonjeia muito: esperemos ainda que este tempo, fiel por sua vez à imagem destes filmes fraternais, se oriente em segredo para uma ordem profunda, para uma verdade que lhe dará sentido e justificará, no fim, tanta desordem e tanta afobação confusa.

                6. Ah, vocês começam a se inquietar: o autor se revela; já os ouço murmurar: panelinha, fanatismo, intolerância. Mas essa famosa e tão invocada liberdade de expressão, em primeiro lugar liberdade de tudo exprimir de si, quem a leva mais longe? Até ao impudor, se acrescenta então; pois o mais estranho é que ainda se proteste, e justamente aqueles que a reivindicam mais alto (para quais fins? Libertação do homem? Seja, mas de quais amarras? Que o homem é livre, é o que aprendemos no catecismo, é o que simplesmente mostra Rossellini; e seu cinismo é aquele da grande arte). Nosso amigo M. diz com elegância: “Viagem à Itália é como os ensaios de Montaigne”, e não parece estar elogiando; permitam-me julgar de outro modo, e me admirar que em nosso século, que nada mais poderia chocar, alguém finja se escandalizar com o fato de um cineasta ousar falar de si sem restrição; é verdade que os filmes de Rossellini são cada vez mais, no seu conjunto, filmes de amador; filmes familiares: Joana D’Arc [Giovanna d’Arco al Rogo, 1954] não é uma transposição cinematográfica do célebre oratório, mas um simples filme-lembrança de uma representação deste por sua esposa, assim como A Voz Humana [La voce umana, 1948] era, de início, o registro de uma performance de Anna Magnani (o mais estranho é que, como A Voz Humana, Joana D’Arc é um filme verdadeiro, em que a emoção nada tem de teatral, mas isso nos levaria longe). Assim, o episódio de Nós, as Mulheres [Siamo Donne, 1953] é apenas o relato de um dia da mãe Ingrid Bergman; assim, Viagem à Itália oferece uma fábula transparente, e George Sanders, um rosto que não dissimula muito aquele do cineasta (um pouco pálido talvez, mas por humildade). Eis que ele já não se limita a filmar suas ideias, como em Stromboli ou Europa 51, e passa a abordar também sua vida mais cotidiana. Esta vida, porém, é “exemplar” na acepção mais goethiana: tudo nela é ensinamento, e ao mesmo tempo erro; e o relato de uma tarde movimentada da Madame Rossellini não é mais frívolo neste conjunto do que o longo relato por Eckermann daquele belo dia do 1o de maio de 1825, em que Goethe e ele próprio praticaram arco e flecha. E eis o seu país, a sua cidade; mas um país privilegiado, uma cidade excepcional, mantendo intactas a inocência e a fé, vivendo inteiramente na eternidade; uma cidade providencial; e eis assim o segredo de Rossellini, o de se mover com uma liberdade contínua e num mesmo e simples movimento, no eterno visível: o mundo da encarnação; mas que o gênio de Rossellini só seja possível no cristianismo, é um ponto sobre o qual não insistirei, já que Maurice Schérer já o desenvolveu, melhor do que eu saberia fazer, numa revista, se me lembro bem, os Cahiers du Cinéma.

                7. Uma tal liberdade, completa, extravagante, em que a extrema licença nunca se exerce em detrimento do rigor interior, é uma liberdade conquistada; ou melhor, merecida. Esta ideia de mérito é bem nova, receio eu, e surpreendente para ser clara; e merecida como? Pela meditação, pelo aprofundamento de um pensamento ou de um acordo central; pelo enraizamento deste germe predestinado na terra concreta que é também a terra intelectual (“que é a mesma que a terra espiritual”); pela obstinação, que autoriza todo abandono aos acasos da criação, e impele mesmo a ela nosso infeliz autor. Mais uma vez, a ideia se fez carne; a obra e a verdade por vir se transformaram na própria vida do artista, que não pode então fazer nada que fuja deste polo, deste ponto magnético. E receio que nós também, de agora em diante, já não possamos sair muito deste círculo central, deste refrão fundamental retomado em coro; que o corpo é alma, o outro eu, o objeto verdade e mensagem; eis-nos presos também a este lugar, em que a passagem de um plano a outro é perpétua e infinitamente recíproca; em que os arabescos de Matisse não estão apenas invisivelmente ligados ao seu fogo, não só o figuram, mas são este fogo.

                8. Essa posição tem estranhas recompensas; mas permitam-me ainda um desvio que, como todos os desvios, terá a vantagem de nos trazer mais rápido para onde quero lhes conduzir (está claro, de resto, que não procuro traçar um raciocínio concatenado, mas que me obstino antes a repetir a mesma coisa de diferentes maneiras: a afirmá-la em tons diversos). Já falei há pouco do olhar de Rossellini; cheguei mesmo, creio eu, a compará-lo um pouco apressadamente ao lápis obstinado de Matisse; não importa, não podemos insistir demais no olho do cineasta (e quem duvida que não resida aí o seu gênio?), e sobretudo na sua singularidade; ah, não se trata tanto de cine-olho, de objetividade documental e de outras banalidades; gostaria de fazê-los tocar (com o dedo) os verdadeiros poderes deste olhar; que talvez não seja o mais sutil, como o de Renoir, nem o mais agudo, como o de Hitchcock, mas o mais ativo; e não é tampouco que ele se prenda a alguma transfiguração das aparências, como Welles, nem à sua condensação, como Murnau, mas à sua captura: uma caça de cada instante, a cada instante perigosa, uma busca corporal (e, portanto, espiritual; uma busca do espírito pelo corpo), um movimento incessante de conquista e de perseguição que confere à imagem um não sei quê de vitorioso e de inquietante ao mesmo tempo: o próprio tom da conquista. (Mas sintam, por favor, o que há nela de diferente; não se trata de alguma conquista pagã, de proezas de algum general incrédulo; vocês sentem o que há de fraterno nesta palavra, e de qual conquista se trata? O que entra nela de humildade, de caridade?).
                9. Porque “fiz uma descoberta”: há uma estética da televisão; não riam, pois é claro que não está aí a minha descoberta; e o que é essa estética (o que ela começa a ser), aprendi recentemente num artigo de André Bazin,
que vocês leram, assim como eu, no número colorido dos Cahiers du Cinéma (excelente revista, decididamente); mas eis o que vi: os filmes de Rossellini, embora em película, também estão submetidos a esta estética do direto, com tudo o que isso comporta de desafio, de tensão, de acaso e de providência (e isso já é uma primeira explicação do mistério de Joana d’Arc, em que cada mudança de plano parece correr os mesmo riscos e provocar a mesma angústia do que cada movimento de câmera). E eis-nos, desta vez pelo filme, escondidos na sombra, prendendo o fôlego, o olhar suspenso na tela que nos concede, enfim, tais privilégios: espiar nosso próximo com a indiscrição mais chocante, violar impunemente a intimidade física dos seres, submetidos sem saber ao nosso olhar apaixonado; e, ao mesmo tempo, [incorrer na] violação imediata da alma. É preciso, porém, punição justa, viver logo a angústia da espera, a ideia fixa daquilo que deve vir depois; que peso de tempo conferido subitamente a cada gesto; não sabemos o que vai acontecer, quando e como; pressentimos o acontecimento, mas sem vê-lo progredir; tudo aí é acidente, imediatamente inevitável; o sentimento mesmo do futuro, na trama impassível daquilo que dura. Eis aí, dizem vocês, filmes de “voyeur”? – ou de vidente.
                10. Eis uma palavra perigosa, em torno da qual tolices foram ditas, e que não me agrada muito escrever; vocês precisam ainda de uma definição. Mas como nomear de outra maneira essa faculdade de ver através dos seres e das coisas a alma e a ideia que elas carregam, este privilégio de atingir pelas aparências o duplo que as suscita? (Seria Rossellini platônico? Por que não? Ele bem que pensava em filmar Sócrates.)
                 Pois, à medida que a projeção avançava, não é mais em Matisse que eu pensava após uma hora, mas, me perdoem, em Goethe: a arte de unir primeiro em pensamento a ideia à matéria, de confundi-la com seu objeto
pelas virtudes da meditação; mas quem descreve o objeto em voz alta nomeia logo a ideia através dele. É preciso aí, evidentemente, várias condições – e não apenas esta concentração primeira, esta íntima maceração do real –, que são o segredo do artista e às quais não temos acesso; de resto, elas não são da nossa conta. Em seguida, a clareza na apresentação deste objeto, secretamente enriquecido; a lucidez e a franqueza (a famosa “descrição objetiva” de Goethe). Isto ainda não basta; é aqui que entra em jogo a ordenação, ou melhor, a própria ordem, coração da criação, desenho do criador; o que chamamos modestamente, em termos de ofício, construção (e que não tem nada a ver com o assemblage em voga, e obedece a outras leis); a ordem, enfim, que, conferindo valor segundo seus méritos a cada aparência, na ilusão de sua simples sucessão, obriga o espírito a conceber uma lei outra que a do acaso para sua sábia aparição.
                Filme ou romance, a narrativa, se for grande, já sabe disso; os romancistas, os cineastas de longa data, Stendhal e Renoir, Hawks e Balzac, sabem fazer da construção a parte secreta de sua obra. O cinema esnobava, porém, o ensaio (retomo a expressão de A. M.) e renegava seus infelizes franco-atiradores: Intolerância, A Regra do Jogo, Cidadão Kane. Havia O Rio Sagrado, primeiro poema didático; há agora Viagem à Itália, que, com uma clareza perfeita, oferece enfim ao cinema (até então obrigado a narrar) a possibilidade do ensaio.

                11. O ensaio, há mais de 50 anos, é a língua mesma da arte moderna; é a liberdade, a inquietude, a busca, a espontaneidade; pouco a pouco, ele – Gide, Proust, Valéry, Chardonne, Audiberti – matou sob si mesmo o romance; desde Manet e Degas, ele reina na pintura e lhe confere seu modo apaixonado de proceder, sua maneira de pesquisar e de abordar [seus objetos]. Mas vocês se lembram daquele grupo bem simpático que, há alguns anos,
assumiu como objetivo não sei mais qual número, e não se cansava de defender a “libertação” do cinema; fiquem tranquilos, não se tratava ali do progresso do homem; simplesmente se desejava para a sétima arte um pouco deste ar mais leve em que florescem suas irmãs mais velhas; tudo vinha de um bom sentimento. No entanto, consta que alguns dos sobreviventes não gostam nada de Viagem à Itália, por incrível que pareça. Pois eis um filme que é ao mesmo tempo quase tudo o que eles defendiam: ensaio metafísico, confissão, diário de bordo, diário íntimo – e eles não o reconheceram. É uma história moral que eu fazia questão de lhes contar em detalhes.

                12. Para isso, só encontro um motivo, e temo pecar por maldade (mas ela parece estar em alta): é o medo doentio do gênio que reina em nossos dias. A moda prefere a sutileza, os refinamentos, os jogos da aristocracia espiritual; Rossellini não é sutil, mas prodigiosamente simples. Ela prefere ainda a literatura: quem sabe fazer pastiche de Moravia é um gênio; e cada um se extasia com os rascunhos de um Soldati, de um Wheeler, de um Fellini (falaremos noutra ocasião do senhor Zavattini); a repetição e o tédio fazem figura de espessura romanesca ou de senso da duração; a inércia e a moleza são o fino da sutileza psicológica. Rossellini cai neste pântano como a pedra do urso; desvia-se com expressão reprovadora deste camponês do Danúbio. Com efeito, nada de menos literário ou romanesco: Rossellini não gosta muito de narrar, e menos ainda de demonstrar; o que tem ele a ver com as desonestidades da argumentação? A dialética é uma moça que se deita com qualquer pensamento que chega, e se entrega a todos os sofismas; e os dialéticos são uns canalhas. Os personagens de Rossellini não provam nada, agem: para São Francisco de Assis, a santidade não é um belo pensamento. Se ocorre a Rossellini querer defender uma ideia, ele não tem outro meio de nos convencer senão agir também, criar, filmar; a tese de Europa 51, absurda a
 cada novo episódio, nos maravilha cinco minutos depois, e cada sequência é, antes de tudo, o Mistério da encarnação deste pensamento; nós recusamos o desenvolvimento temático da intriga, capitulamos diante das lágrimas de Bergman, diante da evidência de seus atos e de seu sofrimento; a cada cena, o cineasta completa o teórico, multiplicando-o pela maior variável. Mas, aqui, não há o menor entrave: Rossellini não demonstra, ele mostra.
                E nós vimos: que tudo na Itália carrega um sentido, que a Itália inteira é uma lição e participa de um dogmatismo profundo, que nos encontramos aí, de repente, no domínio do espírito e da alma; eis o que talvez não pertença ao reino das verdades puras, mas, pelo filme, certamente pertence ao das verdades sensíveis, ainda mais verdadeiras. Não se trata de símbolos, e já estamos a caminho da grande alegoria cristã. Tudo o que o olhar desta mulher errante, perdida no reino da graça, encontra agora, estas estátuas, estes amantes, estas mulheres gordas que em toda parte lhe fazem um cortejo obsessivo, e depois estas estátuas funerárias [gisants], estes crânios, estas bandeiras, esta procissão de um culto quase bárbaro, tudo irradia agora com uma outra luz, tudo se afirma como outra coisa; eis visivelmente sob nossos olhos a beleza, o amor, a maternidade, a morte, Deus.

                13. Todas estas noções estão fora de moda; ei-las, porém, visíveis. Só nos resta esconder o rosto ou nos ajoelhar.
                Há um instante em Mozart no qual a música não parece mais se nutrir senão dela mesma, da obsessão de um acorde puro, todo o resto ficando relegado a aproximações, aprofundamentos sucessivos, e retornos deste lugar supremo onde o tempo é abolido. Toda a arte talvez só atinja sua plenitude na destruição passageira dos seus meios, e o cinema nunca é maior do que em certos instantes que ultrapassam e suprimem bruscamente o drama: penso nos rodopios ardentes de Lillian Gish, na imobilidade prodigiosa de [Emil] Jannings, nos admiráveis repousos do Rio Sagrado, na cena noturna, nos despertares e nos adormecimentos de Tabu15; em todos aqueles planos que os maiores cineastas sabem inserir no meio de um western, de um filme policial, de uma comédia, em que o breve olhar sobre si mesmo do protagonista abole bruscamente o gênero (e, sobretudo, nas duas confissões de [Ingrid] Bergman e Anne Baxter, estes dois longos retornos a si das personagens que são o centro exato e o núcleo de Sob o Signo de Capricórnio e A Tortura do Silêncio). Aonde quero chegar com tudo isto? Ao fato de que nada revela melhor o grande cineasta em Rossellini do que estes largos acordes que são, no meio de seus filmes, todos os planos de olhares, sejam eles os do jovem garoto para as ruínas de Berlim, os de [Anna] Magnani para a montanha de O Milagre, os de [Ingrid] Bergman para a periferia de Roma ou para a ilha de Stromboli, para toda a Itália enfim (e, a cada vez, os dois planos, o da mulher que olha, depois o do seu olhar e, às vezes, os dois fundidos); uma nota alta e bruscamente alcançada, que resta manter por ínfimas modulações e retornos perpétuos à dominante (vocês conhecem a “Cantata 1952” de Stravinsky?); assim as estrofes sucessivas dos Fioretti (Francisco, Arauto de Deus) se encadeiam sob o baixo (decifrável) da caridade. Ou é no coração do filme, este momento em que os personagens vivem contra o seu fundo e se procuram sem sucesso visível; essa vertigem de si que os domina, como no centro da sinfonia o próprio deleite por si mesmo da nota fundamental; de onde vem a grandeza de Roma, Cidade Aberta [Roma, Città Aperta, 1945] ou de Paisá, senão deste brusco repouso dos seres, destes ensaios imóveis diante da fraternidade impossível; desta súbita lassidão, que os paralisa um segundo no seio mesmo da ação. A solidão de [Ingrid] Bergman está no centro de Stromboli como no de Europa 51: ela gira em vão, sem progresso aparente; ela avança, porém, sem saber, pelo próprio desgaste do tédio e do tempo, que não poderão resistir a um esforço tão prolongado, a um retorno tão obstinado sobre a sua queda, uma fadiga tão pouco cansada, tão ativa, tão impaciente, que acabará por vencer o muro da inércia e do abandono, esse exílio do verdadeiro reino.

                14. A obra de Rossellini “não é alegre”; ela é mesmo profundamente séria e recusa totalmente a comédia; imagino que Rossellini condenaria o riso com a mesma virulência católica que Baudelaire; (e o catolicismo também não é alegre, apesar dos bons apóstolos; Onde Está a Liberdade? [Dov’é la Libertá?, 1954] deve ser, deste ponto de vista, curioso de se ver). O que ele diz incansavelmente? Que os seres estão sozinhos e numa solidão irredutível, que só temos do outro uma ignorância total, salvo milagre ou santidade; que só a vida em Deus, em seu amor e seus sacramentos, só a comunhão dos santos, podem nos permitir encontrar, conhecer, possuir um outro ser além de nós mesmos; e que não nos conhecemos nem nos possuímos senão em Deus. Através de todos estes filmes, os destinos humanos traçam curvas separadas que só se cruzam por acidente; face a face, homens e mulheres se fecham em si mesmos e prosseguem seu monólogo obsessivo, relação do “universo concentracionário” dos homens sem Deus.
                No entanto, Rossellini não é apenas cristão, mas católico; ou seja, carnal até o escândalo; nos lembramos do escândalo de O Milagre; mas o catolicismo é por vocação uma religião escandalosa; que o nosso corpo também participe do mistério divino, à imagem do corpo de Cristo, não é do gosto de todo mundo, e há decididamente neste culto, que faz da presença carnal um dos seus dogmas, um sentido concreto, pesado, quase sensual, da matéria e da carne, que repugna fortemente os puros espíritos: sua “evolução intelectual” não lhes permite mais participar de mistérios tão grosseiros. E, além disso, o protestantismo está mais na moda, particularmente entre os céticos e os libertinos; eis uma religião mais intelectual, um pouco abstrata, que lhes apresenta logo seu homem; as ascendências huguenotes douram certamente um brasão. Não esquecerei tão cedo as caras desgostosas com que alguns falavam, não há muito, dos choros e das fungadas de [Ingrid] Bergman em Stromboli. E é preciso reconhecer, eles vão (Rossellini vai frequentemente) até os limites do suportável, do que se pode decentemente admitir, até a beira do despudor. No filme, a direção de Bergman por Rossellini é toda conjugal, e baseia-se mais no conhecimento íntimo da mulher do que no da atriz; digamos também que nosso pequeno mundo do cinema admite mal uma tal ideia do amor (que nada tem de louco ou alegre), uma concepção tão séria e verdadeiramente carnal (não temamos repetir esta palavra) de um sentimento hoje disputado pelo angelismo e pelo erotismo, quando eles não se associam; que os nossos Dolmancés se choquem com sua representação (ou mesmo só com sua imagem em filigrana, através do rosto da esposa submissa), como de alguma obscenidade estranha aos seus agradáveis, ligeiros – e tão modernos – caprichos.

                15. Paremos aqui; mas vocês compreendem agora o que é esta liberdade: a da alma ardente, no seio da providência e da graça, que nunca a abandonam em suas tribulações, salvando-a dos perigos e dos erros e usando todas as provações em proveito da sua glória. Rossellini tem o olho de um moderno, mas o espírito também: ele é o mais moderno de nós todos. E o catolicismo ainda é o que ele tem de mais moderno.
                Vocês estão cansados de me ler; eu começo a ficar cansado de escrever, minha mão, ao menos, está cansada; pois teria gostado de lhes dizer ainda várias coisas. Uma bastará: a novidade impressionante das atuações, que parecem apagadas, mortas pouco a pouco por uma exigência mais alta; todos os gestos, os impulsos, as exuberâncias devem ceder a esta restrição íntima que os obriga a se apagar e a escoar na mesma humildade apressada, como se corressem para chegar ao fim. Esta maneira de esvaziar os atores deve revoltá-los frequentemente, mas há um tempo para escutá-los e outro para fazê-los calar. Se vocês querem minha opinião, creio que esta é a verdadeira atuação do cinema de amanhã. E, no entanto, quanto amor tivemos pela comédia americana e por tantos filminhos cujo charme estava quase todo na invenção impetuosa dos movimentos e das atitudes, nos achados espontâneos de um ator, nas caretas gentis, no piscar de olhos de uma atriz ágil e agradável... Se até ontem era verdade que um dos objetivos do cinema é esta busca deliciosa do gesto, se isto ainda era verdade até dois minutos atrás, talvez tenha deixado de sê-lo depois deste filme; há nele uma ausência de busca superior a todo sucesso, um abandono mais belo que todo entusiasmo, um desfecho mais inspirado do que a performance mais sensacional de qualquer diva. Este aspecto cansado, este hábito de todos os gestos, tão profundo que o corpo já não os realça mais, mas os retém e guarda em si, eis a única atuação que poderemos saborear em muito tempo; depois deste sabor amargo, toda gentileza perde a graça e a memória.
               
                16. Depois do aparecimento de Viagem à Itália, todos os filmes subitamente envelheceram dez anos; nada mais implacável do que a juventude, do que esta intrusão categórica do cinema moderno, em que podemos enfim reconhecer o que esperávamos de maneira confusa. Com o perdão dos espíritos desgostosos, é isso que os choca e os importuna, é isso que procede hoje, e que é verdadeiro em 1955. Eis nosso cinema, a nós que nos preparamos, por nossa parte, para fazer filmes (já lhes disse, talvez seja para daqui a pouco); já fiz, para começar, uma alusão a ele que lhes intrigou: haverá uma escola Rossellini? E quais serão seus dogmas? Não sei se há escola, mas sei o que é preciso: trata-se, em primeiro lugar, de nos entendermos sobre o sentido da palavra realismo, que não é uma simples técnica de roteiro, nem um estilo de mise-en-scène, mas um estado de espírito: que a linha reta é o caminho mais curto de um ponto a outro (julguem desta perspectiva vossos De Sica, Lattuada, Visconti). Em
segundo lugar: malditos sejam os céticos, os lúcidos, os circunspectos; a ironia e o sarcasmo já tiveram seu tempo; trata-se enfim de amar o cinema com força bastante para não saborear muito aquilo que atende hoje por este nome, e para querer dar dele uma ideia um pouco mais exigente. Vocês veem que isso não constitui um programa, mas pode bastar para estimular a agir.
                Eis uma carta bem longa. É preciso desculpar os solitários; o que eles escrevem se parece com cartas de amor que se enganaram de endereço. E, além disso, creio não existir hoje assunto mais premente.               
                Uma última palavra: comecei com uma frase de Péguy; eis aqui uma outra que lhes ofereço para concluir: “O kantismo tem as mãos puras (Kant e Lutero, e você também, Jansen, deem as mãos), mas ele não tem mãos”.

Creiam-me sempre devotado a vocês, Jacques Rivette.


(Texto retirado do catálogo “Jacques Rivette – Já Não Somos Inocentes” e originalmente publicado na revista Cahiers du Cinéma, n. 46, abril de 1955.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Richard Fleischer


Não podemos contar com Richard Fleischer, nascido no Brooklyn em 1916, filho de um dos mestres da animação em Holywwod, criador de Betty Boop e Popeye, rival de Walt Dysney, etc, se quisermos gemer de forma romântica , hipócrita ou imatura sobre os obstáculos intransponíveis aos quais teremos de enfrentar quando carregamos um nome célebre e nascemos célebres.

Assim Fleischer inicia o livro que escreve sobre seu pai ( Out of the Intwell, 2005), livro que nos informa abundantemente sobre sua família e suas origens, complementando suas memórias( Just tell me when to cry, aparecidas em 1993): ‘Dizem que é difícil ser o filho de um homem célebre, que vc vive à sombra dele, que as comparações com ele são insuportáveis. Bem, eu fui o filho de um homem célebre, e não achei nada difícil esta experiência. Na verdade, foi formidável. (...)Longe de dolorosamente viver à sua sombra, eu me aproveitei da chance de poder me banhar na luz de sua glória.Quando eu era pequeno, bastava dizer ao dono de um cinema que eu era filho de Max Fleischer para ter uma entrada gratuita.”. E Fleischer continua, neste tom amável, reconhecido, sereno, a evocação da carreira de seu pai e, indiretamente, da sua.

Dirse-ia que o fato de ter nascido num meio confortável acentuou ainda mais neste homem qualidades sem dúvidas inatas: a serenidade de suas relações com seu próprio ego, a discrição, a modéstia, uma forma de equilíbrio íntimo na forma de trabalhar, de abordar e aprofundar um tema, do mais anódino ao mais atroz. Antes mesmo de abordar o que em sua obra releva da noção de autor no sentido estético-filosófico que este termo adquiriu no interior da expressão “política dos autores”, convém encarecer em Fleischer o autor de uma série de sucessos, o superdotado da mise em scéne que, em cada gênero que ilustrou, ( e Deus sabe o quão numerosos foram!) , buscou, consciente ou inconscientemente, mas sempre com a mesma paradoxal humildade, a inscrever o filme mais bem realizado, mais desconcertante, mais inventivo , mais definitivo. A tal ponto que muitos espectadores que mal conhecem seu nome reservam à camada mais profunda de suas lembranças cinematográficas um lugar à parte para uma ou outra obra-prima sua. Citemos casualmente alguns de seus sucessos: devemos-lhe entre outros o melhor filme de aventuras ( Os Vikings, documental e lírico, e jamais ultrapassado em seu gênero), a melhor adaptação de Jules Verne ( Vinte mil léguas submarinas), obra que se constitui também em um dos melhores filmes para crianças na dupla acepção do termo, ou seja: filme que deve encantar a crianças e adultos; um dos melhores filmes de guerra jamais realizados ( Between heaven and hell) , com seus personagens perturbadores, ambíguos, descritos com uma audácia insólita para a época, qualidade que vamos reencontrar em La fille sur la balançoire, evocação brilhante de um fato criminal e mundano. Não esqueçamos Soleil vert, fábula de ficção científica ecológica, intrigante e eficaz, e muito menos Barabbas talvez o melhor filme bíblico dos anos 60, filme ao mesmo tempo subestimado e muito imitado, que aqueles que o puderam ver em sua versão original em 70 mm jamais esquecerão.
Em todas as instâncias age o virtuosismo de Fleischer, tanto nas profundezas como nas superfícies. Ora ela delimita definitivamente certa tendência de um gênero afirmado ( a claustrofobia do filme noir encontra sua ilustração limite em The narrow margin, rodado em sua maioria em um vagão de trem), ora ela abre possibilidades que irão servir tanto a obra de Fleischer quanto a de outros. Desde 1949, com Follow me quietly, Fleischer inaugura, no interior do filme noir, a narrativa baseada na busca de um assassino psicopata ( ou “serial killer”), fundando um gênero à parte, que ele retomará em O estrangulador de Boston, e em The Rillington place, obra-prima absoluta na reconstituição documental de um incidente atroz, que coloca em causa a própria noção de humanismo. Em Viagem fantástica, ele lança o filme de miniaturização que se passa no interior do corpo humano, tentativa que Joe Dante vai concretizar de maneira brilhante vinte anos mais tarde, com Adventure interiérieure.

Durante muito tempo, acreditei que Fleischer havia aperfeiçoado seu virtuosismo nos filmes de ação de orçamento precário dos anos 40, feitos na RKO, em Eagle Lion. De fato, isto não é verdade. Ele já estava em seu primeiro filme, e desde este, Child of divorce ( 1947), permaneceu invisível por anos ( este primeiro Child eu vi apenas em 1980, quase um quarto de século depois da descoberta de Fleischer , autor brilhante de Violent Saturday e La fille sur la balançoire). Em Child of divorce, todo Fleischer já está presente, em tudo o que possui de melhor e mais original. ( É preciso sempre escrutar com atenção os primeiros filmes dos grandes cineastas: são com frequência eles que nos informam mais essencialmente sobre eles). Child não é de forma alguma um filme de ação, mas antes uma espécie de poema sociológico, ao mesmo tempo perspicaz e comovente, que mostra as conseqüências do divórcio de seus pais em crianças , deixadas pouco a pouco, não sem uma certa hipocrisia, num abandono afetivo quase total. Child of divorce antecipa os filmes ulteriores de Fleischer ao revelar em plena luz suas intenções ocultas, a saber, que para ele a utilização, a mise en valeur ( a colocação em relevo) características do filme de ação ( tempo vívido e cativante, acuidade e riqueza narrativas, crueldade insidiosa, violência) são apenas um meio eficaz para penetrar em profundidade em uma realidade moral e social que o interessa antes de tudo. E todo progresso técnico que possa servir a esta ambição, como o Cinemascope, será bem-vindo.
Como Preminger, Fleischer vê imediatamente como o novo formato pode ser usado para enriquecer suas intenções. Ele vai ajudar, por exemplo, em Violent Saturday a exteriorizar os diferentes aspectos de um tecido social particular, religando mais estreitamente e de forma mais natural , as evoluções dos personagens uns em relação aos outros no interior do plano, e permitindo que bom número de planos, aparentemente simples a visualizar, tenham de fato a mesma densidade e complexidade de certos planos seqüência ultra-sofisticados realizados no antigo formato ( 1’66). Com efeito, nos melhores filmes de Fleischer a descrição do tecido social onde evoluem os personagens ( ou seja, a mise au jour- a atualização- de um conjunto de segredos, de hierarquias, de lutas pelo poder, mais ou menos dissimuladas, a revelação das relações que cada um, de um extremo ao outro da escala social, entretém com o tema onipresente da violência) não é apenas um cadre, um pano de fundo, um cenário mas o próprio tema da obra.
Nesta ótica, Fleischer se interessa tanto pelo devir dos indivíduos quanto das sociedades. Poeticamente, sua imaginação dramática se curva às vezes a um esquema, ao mesmo tempo descritivo e explicativo, que fascinou gerações de historiadores e de artistas: o esquema ou ciclo que encadeia e une irremediavelmente grandeza e decadência.Em The vikings, este esquema chega a um acréscimo de fausto e de beleza pois aqui a decadência ( e a morte) do Viking agrega ao tema uma segunda beleza, uma segunda grandeza que vem se reunir à primeira. Ao contrário disso, em The new centurions, o olhar documentarista do autor pousa sobre uma decadência da noção de civilização, redundando na desordem trágica de uma sociedade que pretende viver sem interdições e sem regras ( “The donts are dying” é o leitmotiv da narrativa). E o filme aparece como o termo desta “sociologia desoladora” de Fleischer, inspiração à qual devemos uma parte de sua obra. Durante quatro décadas, apoiando-se sobre a diversidade de gêneros, tons, orçamentos que estavam à disposição na Cidade do Cinema e que faziam sua força, a obra de Fleischer é um dos exemplos mais brilhantes e criativos do milagre hollywwodiano. O menos espantoso nesse caso é que Fleischer tenha podido participar deste milagre até meados dos anos 70, ou seja, numa época em que o cinema de Hollywood iria ser definitivamente enterrado, obedecendo assim ao esquema “grandeza e decadência” que Fleischer tinha utilizado várias vezes em seus filmes.

Jacques Lourcelles
Tradução: Luiz Soares Júnior.

Texto extraído de: http://dicionariosdecinema.blogspot.com.br/2009/06/richard-fleischer.html