Nunca esqueci
que certa vez estávamos em uma roda de amigos depois de um jantar e falávamos
sobre o tema que sempre nos assombra: o cinema. Na verdade, todos já se
conheciam há muitos anos e eu era o recém-chegado em visita a Lisboa.
Argumentei, muito seriamente, que para o melhor do cinema acontecer era
necessário afinal filmar com amor, este sentimento tão menosprezado. Marta
Ramos, realizadora ali presente, não hesitou e disse em sequência “amor e pudor”, no que todos fomos convencidos
sem precisar de argumentos.Para mim foi
uma surpresa ouvir uma verdade que ainda não havia conseguido colocar em
palavra, uma vez que não se trata do pudor enquanto conservadorismo, mas de uma
relação de modéstia e respeito com o outro e o mundo. Os gregos veneravam
Aedos, divindade personificação do pudor, da humildade e da vergonha, responsável
pela dignidade humana e pelos homens evitarem o inapropriado. O cinema não lhe
dedicou templos, mas é possível perceber que alguns lhe fizeram oferendas – sem
pudor não teríamos Ford, Mizogochi, Ozu, Bresson, Manoel de Oliveira,
Kiarostami, Costa.“Génesis”, o
novo filme de Marta Ramos e José Oliveira, é um trabalho de amor e pudor,
dedicado às pessoas e à vida. Começa com o que parece ser um filme em
preto-e-branco Super-8 com duas mulheres com trajes gregos se divertindo, entre
danças e abraços (sacerdotisas de Aedos? Não sabemos ainda). Corte. Cor,
cidade, barulho, más notícias. Corte. Campo, verde, o correr de um riacho.
Ficamos sabendo que Maria, uma das sacerdotisas, é atriz e chega ao Fundão com
a lata do filme na mala à procura de Lívia, sua amiga e colega que sequer viu a
estreia do filme grego que trouxe consigo. Durante a primeira hora de “Génesis”
Maria irá percorrer o Fundão e suas montanhas para tentar descobrir notícias da
amiga, em uma série de encontros e explorações da região.Maria, vivida
por Marta Carvalho – que havia trabalhado anteriormente com os realizadores em
uma aparição luminosa em “Os Conselhos da Noite” –, narra suas observações para
nós. Muda, em suas andanças conhece o Jornal do Fundão, passeia pelo centro,
pelas obras do histórico Cine-teatro da Gardunha, pela Moagem, por centros
sociais, por quintas e campos, pelas minas da Panasqueiras (“parece que estas
montanhas estão a sangrar” diz ela para nós, sendo impossível não pensar em
outro filme realizado ali por uma outra dupla de realizadores, “Wolfram, a
saliva do lobo”, de Joana Torgal e Rodolfo Pimenta). Maria consegue comunicar-se
com facilidade e serve como ouvinte para as pessoas que encontra, muitas delas
enquadradas diretamente para a câmera.As cenas
demonstram a inegável capacidade de transformação do Fundão. Uma moagem se
torna centro cultural de cinema e teatro, um seminário se transforma em local
de acolhimento e museu, uma ruína voltará a ser cinema. Novos tempos, novas
funções, sempre pautadas no espírito de resistência e defesa da liberdade que
está desde os pequenos gestos aos discursos do 25 de abril – apesar dos alertas
da utilização desenfreada da terra em avanço.
O que nos leva
a outra questão central e urgente: o filme é atravessado pela Guerra na
Ucrânia, ainda em andamento. O Fundão tem acolhido refugiados ucranianos, entre
adultos e crianças, que participam do filme com seus depoimentos à Maria (e à
nós, portanto). Brincam, riem, mostram suas artes. Os realizadores nos dão a
ver estas pessoas, em um gesto de tornar corpóreo e humano o que para muitos é
apenas estatística de conflito.
Ramos e
Oliveira nos lembram que o cinema não apenas pode dar a ver, mas também a
ouvir. Ouvimos os refugiados, os voluntários, os habitantes do Fundão, seus
músicos, seus pastores. Todos trazem suas histórias e assumem o completo
protagonismo do filme em seus momentos, nada mais importa – como deve ser ao
ouvirmos alguém contar algo caro de si.
Poucas vezes
temos a oportunidade de acompanhar uma obra cinematográfica com tamanha
desenvoltura na defesa e no exercício da liberdade como “Génesis”. Não apenas
pela alma fundanense que atravessa a projeção e que cabe tão naturalmente aos
realizadores que habitam ali faz poucos anos, mas na própria concepção do
filme: regras não se aplicam, elas engessam, comportam, aborrecem. Aqui, é
impossível saber o que sucederá cada cena. E, entretanto, jamais é gratuito,
sempre há uma inteligência em cada sequência que se perfaz, com uma sutileza
que não faz soltar a mão da plateia. Há ainda o prazer da surpresa constante
com as imagens, além do cuidado raro para olhar a paisagem: da textura de
película em preto-e-branco aos filtros diáfanos, passando pelos oníricos,
diferentes janelas de enquadramento e intensidades de cores, os usos de
fotografias, material de arquivo, rádio, músicas ao vivo, poesias, depoimentos,
registros de apresentações artísticas e religiosas, tudo interessa e agrega à
complexa e múltipla tessitura da vida capturada e exibida pelos realizadores. Há
quem defenda filmar como se não houvesse amanhã, porém neste caso é o oposto,
filma-se porque haverá um amanhã.

A metade do
filme traz a revelação de que Lívia não está em perigo: desapareceu por vontade
própria, para tornar-se mãe. Há uma sequência de cenas da natureza, da grande
beleza descoberta nos pequenos movimentos das coisas. Adentramos pela escuridão
das cavernas da Serra da Gardunha e há um corte na montagem ao sairmos para a
luz, seguida da revelação do rosto de um bebê, seu olhar começando a discernir
o mundo. A partir dali, acompanhamos a voz de Lívia em uma carta aberta para
seu filho recém-nascido (entendemos que algumas das imagens vistas antes eram
destes momentos anteriores à chegada de Maria, como a visão dos ninhos de
cegonhas e inclusive os depoimentos do geólogo, que eram dirigidos para Lívia
desde o início), entre memórias e incertezas para o futuro – a Guerra na
Ucrânia teve seu início pouco depois da notícia da gravidez, o que a fez
trabalhar no mesmo centro em que Maria trabalharia meses depois.
Lívia
descobre-se mãe, em um chamado que parece vir dos campos e das pedras – a
primeira imagem do filme, aliás, ainda em preto-e-branco, era de uma pedra
cujas manchas do tempo pareciam duas células se multiplicando no microscópio,
uma promessa inesperada da vida sempre a surgir capturada pelos realizadores.
Vale dizer que
Lívia é vivida pela Marta Ramos e o bebê – que acaba por nascer do cinema e no
cinema – é dela e do José Oliveira (que tivera uma breve ponta antes como o Miguel
que percorre com Maria as colinas das minas). Acompanhamos com Ramos e Oliveira
o fascínio da descoberta da nova vida, na barriga e depois, em uma grande fusão
entre filme e vida – porque o cinema não deve afinal ser dissociado da vida, é
ela que alimenta os filmes, sendo necessário realizadores de enorme coragem,
paixão e pudor para o desafio de registrar a vida, com respeito e em comunhão
com o mundo em volta e igualmente com a plateia.
É também
porque não se dissocia cinema e vida que percebemos a presença de Ramos e
Oliveira nas interações com os ucranianos e em outros momentos, especialmente
na despedida do filme – nesta última cena, vemos os personagens ou os
realizadores? Não importa, vemos uma família de três pessoas onde antes haviam
duas, repletos de futuro.
Em determinada
altura de “Génesis”, mencionam que quanto mais se conhece, mais se aprofunda o
mistério. Neste filme que propõe conhecer ao máximo uma paisagem e suas
pessoas, não temos alternativa que abraçar variados mistérios – de segredos que
não são compartilhados conosco a tramas que se desfazem. Porém nenhum deles
maior do que o da vida, mostrado diante de nossos olhos, com amor e pudor.
Texto escrito para a estreia mundial do filme Génesis nos Encontros de Cinema do Fundão de 2024 (agosto, Portugal) que integra o catálogo do festival. Agradecemos à organização do festival pelo convite e por autorizar esta postagem.