quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Cineclube do Atalante: "A touch of Zen" de King Hu

Neste sábado, dia 9 de setembro excepcionalmente às 15 horas, o Cineclube do Atalante apresenta "A touch of Zen" de King Hu. No dia 30/09 teremos uma sessão dupla: às 14 horas, "O terror das mulheres" em Homenagem à Jerry Lewis e às 16 horas, "A dama de honra" de Claude Chabrol. Sempre com entrada franca.

Cineclube do Atalante apresenta:
"A touch of Zen" de King Hu

Um artista, Ku, vive com sua mãe perto de um forte abandonado que tem fama de ser assombrado. Uma noite, investigando barulhos estranhos no forte, ele conhece a bela Yang, que recentemente mudou-se para lá. Ela está sendo perseguida por agentes de um nobre imperial, que assassinou sua família. Ku resolve ajudá-la a enfrentar diversas ferozes (e acrobáticas) batalhas. Ação e aventura de tirar o fôlego, sob uma fotografia mais do que espetacular, conferindo grande lirismo aos plano. Além é claro, da presença de elementos espirituais zen budistas, tão constante nos filmes de Hu.

Serviço:

09 de setembro (sábado)
Excepcionalmente às 15h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Oficina de crítica cinematográfica: Itinerário de Serge Daney





















Oficina de crítica cinematográfica ministrada por Leticia Weber e Miguel Haoni (do Coletivo Atalante) em outubro, pretende investigar o percurso do grande crítico francês Serge Daney. Através do estudo de artigos (incluindo algumas traduções inéditas), da apreciação de filmes e da produção de textos,  reconstituir o percurso do autor, suas principais ideias e proposições - dos anos 70 aos 90 - passando pela revista Cahiers du Cinéma, o jornal Libération e a "sua" publicação, a revista Trafic. A oficina oferecerá uma base sólida para a reflexão sobre a arte das imagens em movimento, sendo, ao mesmo tempo,  introdução e aprofundamento no exercício crítico.  


Programa:
1° Unidade – Cahiers du Cinéma: Cinefilia, Michelangelo Antonioni e Jacques Tati;
2° Unidade – Libération: Televisão, Andre Bazin, Eric Rohmer, Jean-Marie Straub & Danièle Huillet;
3° Unidade – Trafic: Moral do travelling, revista de cinema, fotografia, Jean-Jacques Annaud, vida e solidão.


Referências bibliográficas:
DANEY, Serge. A rampa - Cahiers du Cinéma 1970-1982. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
DANEY, Serge. Ciné journal Volume I/1981-1982. Paris: Cahiers du Cinéma, 1998. 
DANEY, Serge. Ciné journal Volume II/1983-1986. Paris: Cahiers du Cinéma, 1998. 
DANEY, Serge. La maison cinéma et le monde - 4. Le moment Trafic (1991-1992). : Editions P.O.L., 2015.
VÁRIOS. Straub-Huillet. São Paulo: CCBB, 2012.
Vestido sem costura - blog de cinema: http://vestidosemcostura.blogspot.com.br/

Referências fílmicas:
Cedo demais/tarde demais (Trop tôt, trop tard). Jean-Marie Straub & Danièle Huillet. FRA. 1982. cor.
China (Chung Kuo). Michelangelo Antonioni. ITA. 1971. cor
Noites de lua cheia (Les nuits de la pleine lune). Eric Rohmer. FRA. 1984. cor.
O amante (L'amant). Jean-Jacques Annaud. FRA. 1992. cor.
Sege Daney: Itinerário de um "cine-filho" (Sege Daney: Itinéraire d'un "ciné-fils"). Dominique Rabourdin e Pierre-André Boutang. FRA. 1992. cor. 
Serviço: 
dias 4, 6, 11, 13, 18 e 20/10 (quartas e sextas)
das 19 às 22 horas
na KNN Idiomas Bacacheri
(Rua Maximino Zanon, 598. Esquina com a rápida Canadá – Bacacheri - Curitiba/PR)
Inscrições pelo email: coletivoatalante@gmail.com
Investimento: R$150,00
VAGAS LIMITADAS
Cedo demais, tarde demais é, que eu saiba, um dos raros filmes que, depois do de Sjöstrom, filmou o vento. É preciso vê-lo – e escutá-lo – para acreditar. É como se a câmera e a frágil equipe de filmagem tomassem o vento como uma vela e a paisagem como um mar. (...)
Ver e escutar ao mesmo tempo; mas é impossível, dirá você! Certamente, mas um: os Straub são corações valentes; e, dois: as viagens ao impossível são um tanto formadoras. Com Cedo demais, tarde demais, uma experiência é buscada conosco, em nós: há momentos em que começamos vendo (uma grama que o vento arqueia), antes de escutar (o vento responsável por esse arqueamento). Em outros momentos, escutamos primeiro (o vento), depois vemos (a grama). A imagem e o som são sincrônicos e, no entanto, a cada instante cada um de nós pode experimentar a ordem em que acomoda suas sensações. É, pois, um filme sensacional.

Cinemeteorologia
(Serge Daney, 1982)


Animado por todas estas que nos iluminam a realidade, escrevo-te esta carta pela necessidade de te dizer que tu continuas, como dantes, entre nós, envolvido neste espírito que nos é comum por via do cinema. E que tu, como ele, prevalecerão tão presentes hoje como ontem. Como quando apareceu o cinema, este já existia desde sempre, não como máquina , mas como cinema. Por isso dizemos que o Cinema é sem tempo, pois que ele é fruto de todas as artes, e do espírito que as anima, como tu, Serge Daney, já eras espírito crítico, dissecador e analítico dos filmes, e com eles persistes em comum com a projecção do fantasmagórico, como é o cinema onde a realidade e a ficção são tão ficção e realidade uma como outra.

Memória de um crítico de cinema
(Manoel de Oliveira, 2000)
Texto completo:
http://focorevistadecinema.com.br/jornaloliveiradaney.htm

A última coisa que eu vejo em um filme é a Fotografia.
Me dizem “Ah, O Raio Verde 
é formidável, mas por que filmou em 16mm? Rohmer é louco, não é profissional!”
Tenho vontade de bater. Eu digo: “Voltem para casa, cinema não é isso.” Cinema é a duração. Se você não é sensível ao fato de que Rohmer inventa durações, que apenas ele as inventa. Claro, também o faz com imagens, possui um bom imaginário, mas levei uns trinta anos para entender isso.
As coisas simples são as que você leva mais tempo para entender.

Serge Daney
(Itinerário de um cine-filho, 1992)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Cineclube do Atalante: "O trem" de John Frankenheimer

Neste sábado, dia 2 de setembro às 16 horas, o Cineclube do Atalante apresenta o filme "O trem" de John Frankenheimer. Ainda neste mês exibiremos os filmes "A touch of zen" de King Hu (dia 09/09, excepcionalmente às 15h) e "A dama de honra" de Claude Chabrol (dia 30/09). Sempre com entrada franca.

Cineclube do Atalante apresenta:
"O trem" de John Frankenheimer
Paris, agosto de 1944. Com o exército aliado cada vez mais próximo, o comandante alemão fanático admirador de arte, Coronel Van Waldheim (Paul Scofield), rouba uma vasta coleção de pinturas raras francesas e as embarca em um trem com destino a Berlim. Mas, quando um estimado patriota francês é assassinado durante a tentativa de sabotagem do plano de Von Waldheim, Labiche (Burt Lancaster), um corajoso membro da Resistência, jura deter o trem a qualquer custo. Fazendo uso de seu vasto arsenal de habilidades, Labiche causa uma verdadeira onda de devastação e destruição: trilhos soltos, passagens destruídas e colisões, em uma busca apaixonada por justiça, reconhecimento e vingança.
Inspirado por um fato real e abrilhantado por incríveis proezas e efeitos visuais, O Trem é "um filme de suspense, emoção e trabalho de qualidade superior" (The Motion Picture Guide).

Serviço:
02 de setembro (sábado)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Cineclube do Atalante: programação de setembro

02/09: O Trem, de John Frankenheimer
(The Train, EUA/FRA/ITA, 1964 – 127 min. Com: Burt Lancaster, Paul Scofield, Jeanne Moreau, Suzanne Flon, Michel Simon) 
Paris, agosto de 1944. Com o exército aliado cada vez mais próximo, o comandante alemão fanático admirador de arte, Coronel Van Waldheim (Paul Scofield), rouba uma vasta coleção de pinturas raras francesas e as embarca em um trem com destino a Berlim. Mas, quando um estimado patriota francês é assassinado durante a tentativa de sabotagem do plano de Von Waldheim, Labiche (Burt Lancaster), um corajoso membro da Resistência, jura deter o trem a qualquer custo. Fazendo uso de seu vasto arsenal de habilidades, Labiche causa uma verdadeira onda de devastação e destruição: trilhos soltos, passagens destruídas e colisões, em uma busca apaixonada por justiça, reconhecimento e vingança. 
09/09: A touch of Zen, de King Hu
*Excepcionalmente às 15 horas.
(Xia nü, China, 1969 – 200 min. Com: Ying Bai, Billy Chan, Ping-Yu Chang, Roy Chiao, Hsue Han)Um artista, Ku, vive com sua mãe perto de um forte abandonado que tem fama de ser assombrado. Uma noite, investigando barulhos estranhos no forte, ele conhece a bela Yang, que recentemente mudou-se para lá. Ela está sendo perseguida por agentes de um nobre imperial, que assassinou sua família. Ku resolve ajudá-la a enfrentar diversas ferozes (e acrobáticas) batalhas. Ação e aventura de tirar o fôlego, sob uma fotografia mais do que espetacular, conferindo grande lirismo aos plano. Além é claro, da presença de elementos espirituais zen budistas, tão constante nos filmes de Hu. A touch of zen é um grande épico, extremamente indicado para fãs de Sergio Leone e Akira Kurosawa.
30/09: A dama de honra, de Claude Chabrol
(La demoiselle d'honneur, FRA/ITA/GER, 2004 – 111 min. Com: Benoît Magimel, Laura Smet, Aurore Clément, Bernard Le Coq, Solène Bouton)
O bom moço Philippe (Benoit Magimel) vive com a mãe e as duas irmãs. Sophie, a irmã mais velha, vai casar-se, e Patrícia, a mais nova, é uma típica rebelde. No casamento da irmã, Philippe conhece Senta (Laura Smet), uma das damas de honra, prima do noivo. Naquele mesmo dia, os dois iniciam um romance voluptuoso, envolvente... e estranho. 
Senta transporta o convencional Philippe para seu insano, fantasioso e instável universo. Mas será que ela mente quando, com um sorriso, sugere que para provar amor é preciso matar? O premiado cineasta Claude Chabrol, transforma a adaptação do romance homônimo da inglesa Ruth Rendell num suspense romântico, irônico e perturbador sobre as profundezas da natureza humana.

Serviço:
Sessões aos sábados
16 horas
*Dia 09/09, excepcionalmente às 15 horas
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

Realização:Coletivo Atalante

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Cineclube do Atalante: "Portrait of Jason" de Shirley Clarke

A partir de agosto o Cineclube da Cinemateca muda o seu nome para Cineclube do Atalante. Nome novo, mas a luta de sempre.

Cineclube do Atalante apresenta:
"Portrait of Jason" de Shirley Clarke

Estados Unidos, anos 60. Montagem dos melhores momentos de uma entrevista de doze horas com Aaron Payne, mais conhecido pela alcunha de Jason Holliday, figura peculiar da década de 60 nos Estados Unidos. Entre cigarros e bebidas, Holliday narra fatos de sua vida e tece comentários diversos e observações sobre o que significa ser e como é ser um homem negro e gay naquele país, naquela época.

Serviço:
19 de agosto (sábado)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA

domingo, 6 de agosto de 2017

KOHAYAGAWA-KE NO AKI / 1961 "O Outono da Família Kohayagawa" ou "Fim de Verão"



Um filme de Yasujiro Ozu

Realização: Yasujiro Ozu / Guião: Kogo Noda, Yasujiro Ozu / Director de fotografia (35 mm, Agfacolor): Asazaku Nakai /Cenários: Tomoo Shimogawara / Montagem: Koichi Iwashita / Música: Toshiro Mayuzumi / Interpretação: Ganjiro Nakamura(Manbei Kohayagawa, o velho), Setsuko Hara (Akiko Kohayagawa, a sua nora), Yoko Tsukasa (Noriko, a sua filha), Keiju Kobayashi (Hisao Kohayagawa), Michyio Aratama (Fumiko Kohayagawa), Chieko Naniwa (Tsune, a ex-amante de Manbei), Daisuke Kato, Yumi Shirakawa, Reiko Dan, Akira Takarada, Haruko Sugimura, Hisaye Morishige, Chishu Ryu, Yoko Muchikuzi
Produção: Takarakuza Eiga, para a Toho / Cópia: da Cinemateca Portuguesa, 35mm, versão original com legendas em francês e legendagem electrónica em português / Duração: 102 minutos / Estreia mundial: Tóquio, 29 de Outubro de 1961 / Inédito comercialmente em Portugal

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Os que dizem que todos os filmes de Ozu são iguais também devem achar que todos os japoneses se parecem. Saibam estes que os japoneses consideram Ozu como o mais japonês de todos os cineastas, aquele que tem "o verdadeiro sabor japonês", segundo nos conta Donald Ritchie, um dos grandes especialistas ocidentais do cinema japonês clássico. Em Kohayagawa-Ke No Aki, o seu penúltimo filme, Ozu tece, como de costume na sua fase final, variações sobre os temas narrativos e visuais que abordou ao longo da sua obra, uma das mais intensas e perfeitas de toda a história do cinema. Facto singular, ao invés de se diluir com o passar do tempo, como ocorre com a maioria dos cineastas, Ozu atinge a máxima perfeição e a máxima intensidade precisamente nos dez últimos anos da sua longa e fecunda carreira. Em Kohayagawa-Ke No Aki (filme para o qual a Sochiku, onde o realizador fez toda a sua carreira, “emprestou-o” à Toho) as variações que Ozu tece sobre o tema central dos filmes do seu período final - a família japonesa e a sua dissolução - são mais nítidas, mais visíveis. No interior da complexa teia de relações familiares que está no cerne da sua obra, com o tema da lei e a constante transgressão desta lei, Ozu insere, em filigrana, uma série de sinais das mudanças sociais, culturais e económicas, ocorridas no Japão desde o fim da guerra. O tema do casamento mais ou menos arranjado, constante nos seus filmes deste período, está presente, mas é sobrepujado pelo tema da morte. A morte, ou antes, o adeus à vida, também é um tema central da sua obra, mas neste filme a morte não se refere apenas a um indivíduo, o alegre patriarca ("Já é o fim?"). Ozu também registra uma outra morte: a substituição do Japão tradicional pelo novo Japão nascido do pós-guerra. No filme, esta mudança já é um facto consumado e é indicada da forma mais nítida no breve primeiro plano, magnificamente composto, como de costume, pois Ozu é um cineasta intensamente visual: uma vista nocturna de Osaka com numerosos néons, um dos quais contém as palavras New Japan (este néon aparece ainda uma segunda vez no filme). No entanto, Ozu não parece lamentar a desaparição do velho Japão e o filme nada tem de elegíaco. Embora o velho Manbei não seja em absoluto uma representação alegórica do velho Japão condenado a desaparecer (Ozu é excessivamente inteligente e excessivamente artista para fazer uma coisa dessas), pode-se dizer que a atitude de Ozu diante daquilo que desaparece do velho Japão é análoga à despreocupação de Manbei, que recusa-se terminantemente a permitir que os seus últimos anos sejam toldados por problemas profissionais ou familiares, vive numa alegria juvenil e reata sentimentalmente com aquela que fora a  paixão da sua juventude e em cuja casa é colhido pela morte, longe das regras e dos ritos familiares.

O apreciador inveterado de saké que era Ozu faz do protagonista do filme um fabricante de saké e o mais claro sinal da substituição do velho pelo novo é a venda iminente da destilaria familiar a um grupo industrial. Os signos da substituição do velho pelo novo também são trazidos de modo inequívoco, ainda que discreto, pela presença de tudo aquilo que penetrou a cultura japonesa e vem do Ocidente: o logo da bebida que é o ícone supremo da cultura Extremo Ocidente, My Darling Clementine cantada em japonês na festa de despedida de Teramoto, os dois namorados americanos de Yuriko (quase idênticos: será que para os japoneses todos os louros se parecem?). Mas estes sinais de mudança percorrem todo o filme e se manifestam pelo jogo das oposições e das simetrias. Há simetria entre a sequência em que um empregado segue o Sr. Manbei pelas ruas (um jogo de escondidas às avessas) e a sequência em que Manbei finge jogar às escondidas com o neto, para na realidade jogar às escondidas com as filhas e sair de casa para visitar a ex-amante. Estas duas sequências são exemplos do humor de Ozu e do seu gosto pelo burlesco, um aspecto constantemente esquecido nos comentários sobre a sua obra. Há oposição entre Akiko, a viúva que usa roupas tradicionais e permanece viúva, e Noriko, a jovem vestida à ocidental que decide casar com o homem que quer, há oposição entre a família oficial e a "segunda família" de Manbei (e não saberemos nunca se Yuriko é mesmo a sua filha), há oposição entre quimonos e vestidos ocidentais da última moda, entre a casa da família e a casa da ex-amante, entre o dia e a noite, o prazer e o dever, a regra e a transgressão.

Em Kohayagawa-Ke No Aki, temos as arquetípicas imagens do cinema de Ozu, bares onde homens bebem, comboios que atravessam o "império dos signos" e temos a repetição dos procedimentos habituais da sua linguagem única e inimitável: perfeição absoluta da composição visual, estreita relação entre o ritmo de cada plano e a organização espacial do conjunto do filme, raríssimos movimentos de câmara, que está quase sempre à altura de uma pessoa sentada num tatami (com uma excepção marcante: a plongée sobre as duas mulheres no jardim). Este rigor formal e esta busca do rarefeito tornam mais intensa a presença dos personagens. Num filme de Ozu, é evidente que less is more: vemos com absoluta nitidez e como se fossem novidades os cenários mais quotidianos, mas contrariamente aos cineastas ocidentais com os quais é costume compará-lo (Dreyer e Bresson, por exemplo), Ozu não parece buscar nem a maceração nem a penitência. Frequentemente, os cenários permanecem vazios por alguns instantes depois da retirada de um personagem ou são mostrados vazios antes da chegada de um personagem. Uma das assinaturas do estilo de Ozu neste período final são estes “planos de pontuação”, sem figurantes, breves interlúdios em que a música, com o seu poder de evasão, faz irrupção. Como resumiu Donald Ritchie no seu livro sobre o realizador, "o método de Ozu, como todos os métodos poéticos, é oblíquo. Ele não confronta e emoção, surpreende-a. Restringe a sua visão precisamente para ver mais; limita o seu mundo para transcender estas limitações. O seu cinema é formal e o seu formalismo é o da poesia, criando um contexto feito de ordem, que destrói o hábito e a familiaridade, devolvendo a cada palavra e a cada imagem, o seu frescor e a sua urgência iniciais". Como toda arte depurada, o cinema de Ozu tende para a ideia contemplativa do vazio e em Kohayagawa-Ke No Aki este vazio é o nada, a morte, o fumo branco de um crematório e um túmulo. Um dos filmes mais alegres de Ozu começa com uma paisagem nocturna de néons e termina com a imagem de um corvo sobre um túmulo, a representação mais óbvia da morte, do nada.

Antonio Rodrigues

Excerto de "As cerejeiras são maravilhosas"























Michel Mourlet

Nascido em 1903 em Tóquio, Ozu realizou seu primeiro filme em 1927. Sua obra diz respeito, na sua totalidade, ao “shimun geki”, comédias mais ou menos dramáticas que tratam da vida cotidiana de pessoas simples. Na verdade, os temas de Ozu são, se quisermos, aqueles do neorrealismo, mas não seu espírito, nem a dramaturgia, nem a técnica. 

“Nesse momento, ele confessava um dia, os filmes com estrutura dramática marcada me entediam. Certamente que um filme deve ter uma estrutura, mas não é bom que vejamos muito o drama.”

Nessa declaração, as palavras que importam ao nosso propósito são: “um filme deve ter uma estrutura”. Eis o que distingue fundamentalmente a estética de Ozu daquela do neorrealismo à Zavattini, cuja uma das características fora a ausência de toda construção, essa sendo substituída por uma espécie de linha invertebrada que se desenrola ao acaso do tempo e do espaço: a estética do fio de gruyère em um prato de espaguete. 

Por outro lado, nem De Sica, nem o Visconti de Ossessione, nem Lattuada, nem o japonês Naruse não conseguem se descolar da realidade mais imediata. Somente Rossellini apanha na rede de imagens-sons algo a mais, que poderíamos chamar a respiração do divino.

Isso é também o que percebemos nos filmes de Ozu, ainda que não se trate estritamente de “divindade”, mas de uma coerência do mundo, da contemplação de uma necessidade soberanamente unitária, tecendo entre os seres e as coisas (notadamente as paisagens, e então, porque não há espaço aqui para comparar “atmosferas” ou coloridos por um sistema fácil de referências pictóricas que não saberiam fazer parte da apreciação da mise en scène, mas somente para sugerir um parentesco de espírito na ordem cósmica, poderíamos evocar o Cézzane de A montanha de Sainte-Victoire), tecendo, eu dizia, vínculos pacíficos, mais fortes que a tristeza que às vezes os distendem.   

“O que eu me esforço para investigar, diz ainda Ozu, é a expressão de um mundo em pensamentos constantes. Eu gostaria de expressar todos os reflexos.” Essa sabedoria asiática, pudica e contemplativa, encontra na técnica utilizada pelo cineasta um instrumento de um rigor ingênuo e prodigiosamente eficaz. Ele fixa a sua câmera, inclina-a em um leve contra-plongée e filma a cena. 

Les cerisiers sont merveilleux  foi publicado em Sur un art ignoré - La mise en scène comme langage, Henri Veyrier, 1987. Tradução: Letícia Weber Jarek.