quinta-feira, 14 de junho de 2012

Glauber Rocha – Programa Abertura


"A gente tem realmente de assumir a sua própria proporção dentro do espaço cultura”

            Glauber Rocha é mais conhecido pelos seus filmes, além de suas polêmicas, é claro. No entanto o artista baiano também possui realizações como jornalista e escritor. Ele iniciou sua carreira como crítico de cinema, em um jornal da Bahia. Teve participações esporádicas por alguns dos principais veículos de comunicação do Brasil, como Pasquim, Correio Brasiliense, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil. Publicou ao menos três livros importantíssimos para se compreender o fenômeno da 7ª arte no Brasil e no mundo, são eles: Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Revolução do Cinema Novo e O Século no Cinema.  

            Uma das últimas participações de Glauber na grande imprensa foram suas participações no Programa Abertura, vinculados domingo à noite na extinta TV Tupi. Ele possuía um quadro semanal dentro do programa, e participou entre fevereiro e outubro de 1979. O Brasil passava por um momento de abertura política, como o próprio nome sugere. Alguns dos principais pensadores do Brasil voltavam do exílio e começavam a refletir sobre o processo de transição e integração política. A vinheta inicial é um bom exemplo desse recorte multifacetado: imagens de presidentes (indo de Getúlio Vargas a Ernesto Geisel) são sucedidas por fotogramas de Chico Buarque, Ulisses Guimarães, Adolpho Block Darcy Ribeiro, Jorge Amado, Pelé, Nelson Rodrigues, entre outros importantes formadores de opinião. 

            Vale ressaltar que as intervenções de Glauber era apenas um quadro dentro do Abertura e que este era uma espécie de painel político semanal. Exibido no final do regime militar, o programa foi visado por muitas personalidades influentes que queriam falar, discutir, desabafar, enfim – se expressar - depois de uma década de repreensão e censura. A proposta do programa era pioneira em âmbito nacional e o seu grande mote era o processo de redemocratização.

            Glauber criava seus quadros em cima de uma estrutura caótica, anárquica, improvisada, quase que numa performance já típica de seu autor. A fase final de sua filmografia é marcada pelo caráter épico de suas narrativas, e sua intervenção televisiva não deixa de ter traços caricatos e grandiloquentes. O autor de “Terra em Transe” realiza reflexões críticas sobre questões políticas, culturais, além da própria política cultural do conturbado período. Claro que o assunto principal era o próprio Cinema Brasileiro que, para ele, é “a consciência nacional e a mais importante das artes”. Glauber problematiza sobre o imperialismo cultural americano e de como isso nos torna uma colônia da ideologia ianque, para tal, utiliza exemplos de Super-homem a Carmem Miranda.  Outro elemento recorrente são entrevistas e participações do público. Nessas abordagens, Glauber vai ao bairro de Botafogo entrevistar um vendedor de Jogo do Bicho – Brizola (nome sugestivo) – e o indaga sobre aspectos do momento.  Severino, outro personagem representante do povo serve de alavanca para o interlocutor discorrer sobre uma diversidade de assuntos: Teatro (José Celso Martinez Côrrea, Franco Zefirelli, Oduvaldo Viana Filho), Concine, Embrafilme, lançamento de livros, além é claro da abertura democrática que ainda demoraria alguns anos para acontecer.


Lucas Murari 
(Atalante, 12/06/2012)

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