Entre muitíssimas outras coisas existem dois aspectos que me impressionam em “Khane-ye doust kodjast”, o filme de Kiarostami. Como do tão pequeno se chega ao grande e como o iraniano, desviando-se a qualquer catalogação puramente neo-realista, naturalista ou mesmo a ideais de puritanismo exacerbado, trabalha o suspense e toda uma atmosfera que por vezes ronda o alucinatório. Começa-se numa escola, numa turma, tudo muito pequeno, desde os alunos até aos motivos que irão despoletar a trama, dos espaços ao modo cerrada e solto como a câmara vai apreender todo aquele pequeno e significativo mundo. Câmara que estará sempre arredada das leis e da prisão da linguagem, antes protegida pela língua e pelo amor. Saímos da sala e temos, à maneira de “Moonfleet”, um filme visto e conduzido pelos olhos e pelo coração de uma criança jovial e séria, e é também assim que vamos experienciar toda uma humanidade, toda uma natureza e manifestações dos sentidos. Radiografia etnográfica, estudo de costumes, realidade descarnada muito longe do panfleto sociológico, sim, mas o que mais me espanta é como de um gesto de consciencialização tão exíguo – mesmo tendo em conta a redimencionalização inerente à idade – o miúdo nos vai levar consigo por todos aqueles espaços e caminhos labirínticos e secretos, mágicos e sombrios. Como uma tal pulsão que parece tocar o ridículo se transforma no catalisador de uma pura aventura deambulatória elevada pela pressão do tempo e do desespero. Vai encontrar o amigo? Vai entregar o caderno? Vai escapar impune à sua ousadia e risco? Parece também ser Hitchcock e muita da estrutura geométrica que o cinema clássico americano inventou, contra todos os credos. E vai ser nesta dúbia ambivalência entre a falta de certezas, a suspensão e a perdição – ao qual também o filme se deixa perder hiperbolicamente na parte final, em sequências sombrias e fantasmagóricas, com as suas cores quentes, rompidas e estilhaçadas, subidas e descidas de escadas, atmosferas barrocas e expressionistas – conjugadas com o estoicismo do miúdo e a distância reveladora do cineasta, que o patético se alteia ao sublime. Como na mais bela cena em que Kiarostami esquece a trama e deixa correr a vida – a dádiva final ao velho que faz portas de madeira, ali, sozinho, apaziguado. Ou a cena realmente última em que por artes mágicas tudo se reverte e se resolve. Pequeno e grande, não um milagre à Dreyer ou Rossellini, mas mesmo assim um milagre, o milagre daqueles seres. Como do mínimo e do íntimo se chega ao máximo, a um incomensurável dos afectos, só pode mesmo ser um dos propósitos mais elevados do cinema, de qualquer arte.
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domingo, 4 de setembro de 2016
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Cineclube da Cinemateca: "Onde fica a casa do meu amigo?" de Abbas Kiarostami
Neste domingo dia 4, às 16h, o Cineclube da Cinemateca apresenta "Onde fica a casa do meu amigo?", iniciando a Homenagem a Abbas Kiarostami que contará ainda com "E a vida continua" (11/09), "Através das oliveiras (18/09) e "Gosto de cereja" (25/09). Sempre com entrada franca!
Serviço:
04 de setembro (domingo)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
Cineclube da Cinemateca apresenta:
"Onde fica a casa do meu amigo?" de Abbas Kiarostami
Ahmad (Babek Ahmed Poor), um garoto de 8 anos de idade pegou por engano o caderno de Mohammad (Ahmed Ahmed Poor), seu amigo de escola. Após seu amigo ter sido ameaçado de ser expulso se não levasse o dever de casa, Ahmad precisa devolver a ele o seu caderno, mesmo que tenha que desobedecer a mãe e procurá-lo no vilarejo distante onde ele mora.
Serviço:
04 de setembro (domingo)
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Cineclube da Cinemateca: Homenagem a Abbas Kiarostami
Tido como um dos principais representantes do cinema contemporâneo, dizem que “nos seus filmes tudo acontece e nada acontece ao mesmo tempo”.
(Khane-ye dust kojast?, 1987/Irã - 83 min)
Ahmad descobre que pegou por engano o caderno de Mohammad, colega de turma que foi ameaçado de ser expulso da escola caso não levasse o dever de casa feito. Ahmad, desobedecendo às ordens da mãe, vai ao outro vilarejo tentar encontrar a casa do amigo para lhe devolver o caderno. Após um longo e perigoso périplo, Ahmad se vê obrigado a resolver o problema de outro modo.
11/09 – E a Vida Continua

(Zendegi va digar hich, 1992/Irã - 91 min)
Após um terremoto que atingiu o norte do Irã em 1990, um cineasta e seu filho retornam ao local do desastre para tentar encontrar dois garotos que participaram de um filme precedente do diretor. Apesar de não conseguirem, a viagem se revela uma experiência profunda para ambos, que entram em contato com um mundo de que até então tinham apenas um vago conhecimento.
18/09 – Através das Oliveiras
(Zir-e derakhtan-e zeytun, 1994/Irã, 103 min)
Durante as filmagens numa região devastada pelo terremoto de 1990, o diretor percebe que Hossein, um jovem escolhido para encenar uma das personagens, está apaixonado na vida real por Tahereh, que fará o papel da esposa. A família da moça é hostil ao casamento, mas o terremoto e o filme dão a Hossein uma nova esperança.
25/09 – Gosto de Cereja
25/09 – Gosto de Cereja
(Ta’m-e ghilas, 1997/Irã, 99 min)
Um homem procura ajuda para uma misteriosa tarefa. O que o senhor Badii quer é alguém que se disponha a atender a seu último desejo, na manhã do dia seguinte: chamá-lo pelo nome duas vezes, ao pé de uma cova já cavada. Se ele responder, socorrê-lo; se não responder, cobri-lo com terra. Após ouvir objeções de diversas pessoas a respeito do caso, ele finalmente encontra um senhor disposto a aceitar sua proposta.
Serviço:
Todo domingo
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Todo domingo
Às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 – 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante
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