nadaadeclarar

“Mothlight” me fez lembrar da fragilidade da “essência cinematográfica” (movimento e duração) ou do “específico fílmico” (enquadramentos, mise-en-scène, corte). Me fez lembrar da experiência confrontadora de “La Jetée” (1962), de Chris Marker, onde a fotonovela, e suas imagens estáticas, são redimensionadas na imposição temporal do filme, pois cada plano é dado ao nosso olhar por uma duração determinada, que diferente da fotonovela impressa, não podemos nos deter por mais ou menos tempo em cada imagem.
“La Jetée” derrubou a idéia do cinema como “arte das imagens em movimento”. “Mothlight” derrubou a idéia de “escrita com a câmera” ou “arte da mise-en-scène”. Mas o cinema insiste em aparecer neles…
Eu sempre soube que cada obra exigia do espectador um olhar. O que aprendi com “Mothlight” é que o cinema não existe. A partir de hoje só poderei falar em cinemas.
*Coisa que sempre aconteceu na animação – uma arte autônoma, independente do cinema – de Norman Mclaren, por exemplo, que pintava formas e cores diretamente na película.
Cachorro Estrela Homem

O meu disse o seguinte:
1 – O filme trata dos conflitos entre carne e espírito, homem e universo, céu e terra, dentro e fora, natureza e civilização, lua e sol. As eternas dualidades;
2 – O filme brinca sobre as cores, misturando-as, dissolvendo-as, recriando-as. Vermelho, azul e verde são sempre indefinições;
3 – O filme assume as distorções da imagem e anamorfizações reconfigurando corpos e sexualidades num permanente devir de formas;
4 – O filme penetra peles, pelos, nervos e vísceras, buscando a Humanidade nos seus abismos;
5 – Ao mesmo tempo que o filme realiza um movimento pra dentro (furando as carnes) ele desenha um trajeto para fora: na eterna subida do homem que nunca chega no cume da montanha;
6 – O Bebê, o Homem e a Mulher são a equipe do filme. Eles realizam sua autobiografia cósmica;
7 – A inexorabilidade do tempo é o inimigo a ser destruído;
8 – O Homem percorre uma paisagem hostil, feita de neve e árvores mortas. Ao mesmo tempo a perspectiva percorre também uma geografia do corpo, como nas rugas hiper ampliadas do mamilo lactante (um vulcão de carne).
Miguel Haoni (ou não)
(Textos originalmente publicados em http://verobranco.wordpress.com )
(Textos originalmente publicados em http://verobranco.wordpress.
Num sonho, ensina Freud, o sonhador, com os recursos de uma linguagem muito própria, onde metáfora e metonímia são as ferramentas excelentes, toma desejos inconscientes, infantis, articulando-os com restos diurnos para elaborar uma encenação pictórica. Este é o chamado "trabalho do sonho". Sua decifração passa por outro trabalho: a "interpretação do sonho". Em análise.
ResponderExcluirA mostra dos curtas e o pronunciamento do Miguel fazem pensar que, estes dois trabalhos, Brakhage se põe a fazer, desperto. Talvez tome conceitos e lhes dê formas visuais que pode partilhar com o Outro; talvez primeiro crie um universo de imagens, de que extrai, como efeito, como conseqüência, os conceitos. O certo é que trabalha. E trabalha sobre o trabalho. Faz o trabalho do sonho e o trabalho de interpretá-lo, em seus escritos.
O resultado é uma obra que toca, não pelo intelecto, mas sim pela via (ou veia?) poética.
É belo.
Vera Lúcia de Oliveira e Silva