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sábado, 12 de dezembro de 2015

À AVENTURA

(Jean-Claude Brisseau, 2008)

            Duas tendências, de forma insistentemente regular, sobrepõem o caminho percorrido na carreira de Jean-Claude Brisseau: a primeira, a da descrição; a segunda, uma investigação sobre o que pode estar além da descrição, algo que negue a imediata aparência e a exterioridade das coisas, tensionando os limites da cognição, abrindo portais ocultos que se afastam da matéria, para não dizer que a destroem... Temos, em À l’aventure, um trabalho particularmente bastante didático (literal, explícito) desta sobrecomposição em Brisseau: e é preciso dizer que nada há de pejorativo no didatismo, sobretudo em Brisseau, sempre orgulhosamente professoral. Aliás, provêm da descrição, justamente, características como a clareza da exposição, a abertura ao público, a sistematização de uma estrutura, a transparência etc.
            Uma característica, logo no início do filme, chama atenção para compreender o que é este didatismo (ou a descrição): a exatidão. O prólogo (incluindo os créditos iniciais) tem uma exatidão totalmente incomum ao Brisseau. Trata-se de uma espécie de humor da exatidão, em que cada plano é como um bloco isolado e compacto, de narratividade e de lógica, o que faz lembrar Manoel de Oliveira. Como o cineasta português, temos aqui: (1) um primeiro plano de apresentação, em forma de cartão postal, de uma cidade portuária (poderíamos muito bem estar em Lisboa ou Porto, o que já seria inédito para Brisseau, afeito a Paris e o seu subúrbio, ou ao interior campestre da França - ele parece estar de férias nessa cidade, tomado por uma certa calmaria sabática dos cafés, praças, e casas rústicas, à semelhança da vida mais relaxada que decide levar Sandrine [Carole Brana]); (2) um corte abrupto do cartão postal para um plano próximo de Sandrine, e é preciso ver também, tal como Oliveira, a postura retesada do seu corpo, seu olhar fixo, imóvel, e a angulação oblíqua da câmera em relação à atriz; (3) uma conversa com outros dois personagens (Estelle Galarme e Etienne Chicot), que, aparecendo um de cada vez, deixam firme o batimento do compasso narrativo, essa passagem de bloco a bloco, corte a corte. A conversa que se segue é tensa, desprovida de espontaneidade, absurdamente funcional para o que se seguirá: chega a ser opressora a forma com que Brisseau escolhe apresentar sua trama e seus personagens, quase marionetes, sem passado, presos às suas roupas, suas aparências físicas e àquilo que falam. A câmera fixa e invisível, a montagem seca e lógica, são aqui mais do que o hábito de uma convenção: elas trazem à tona a clausura da descrição. É a vontade de estabelecer, fixar, delimitar, deter, ao cúmulo de soar posado, e até mesmo blasé... Onde terá ido a serenidade de Un jeu brutal, a rebeldia de De bruit et de fureur, a observação espontânea de La vie comme ça, ou a montagem godardiana do início de Les savates du bon dieu? Uma hipótese: o tom cru, afiado, mordaz, de Brisseau nesta introdução, é a sua postura para se relacionar com a burguesia, e essa vontade (como em Buñuel ou Oliveira) de “exteriorizar”, “jogar para fora” (nenhuma interiorização; somente emersão, saliência, ênfase) o que seria, de outro modo, visto como corriqueiro, banal, naturalizado do cotidiano burguês, este pequeno lanche antes de voltar ao trabalho em uma aprazível praça urbana... Esta postura distanciada, crítica, desconfiada, parece-me ter vindo à tona em sua obra a partir de Coisas Secretas. Em À l’aventure, essa postura lhe permite encontrar uma série de notações de humor (valendo-se, inclusive, de piadas convencionais, tais como a indefectível “qual é o seu nome?” após uma cena intensa de sexo), tal o desprendimento que o cineasta conseguiu, requisitando um humor sardônico para conviver harmonicamente com o que há de mais profundo e pessoal nas suas indagações e na sua sensibilidade.
            Mas afinal o que é a descrição? Expor as coisas tais como elas se mostram - traçar seus limites, segui-las para onde quer que elas vão. Karl Popper (e certamente outros) disse que toda exposição de um pensamento é calcado na descrição, para não dizer que nem se pode sair dela - mesmo nos pensamentos mais abstratos, na volatilidade dos sentimentos, ou num intrincado problema de lógica[1]. O cinema não é diferente da linguagem escrita (sob certa perspectiva, ele é até mais limitado): a visibilidade é uma descrição. Ciente disso (intuitivamente, tanto melhor), Brisseau investiga a limitação inerente da visibilidade: a representação. Essa investigação, conforme veremos, é uma faca de dois gumes: de um lado, seguindo os passos de Sandrine, temos que, no cotidiano (“burguês”), os hábitos, os costumes, as roupas, os gestos, as relações profissionais, familiares ou amorosas, tudo está habilmente posto na clausura de uma superfície lisa, uma miragem, como se nela não houvesse qualquer perturbação. Sandrine sai dessa vida, deixando o seu namorado, ignorando os conselhos de sua mãe, e demitindo-se do seu emprego. Ela vai atrás de um mundo mais vasto, e mais raro, que não é comprimido pelos disfarces e poses sociais. Neste mesmo momento, encontra o personagem do taxista (Etienne Chicot), que lhe mostra os códigos contidos em uma propaganda de calcinha, na linguagem (a diferença dos signos “B” e “13”), na observação da natureza (a ramificação de um arbusto); conhece também o psiquiatra freudiano Greg (Arnaud Binard), e descobre o inconsciente, sua repressão, como também sua contínua e sub-reptícia atuação no cotidiano. Ela descobre, na teoria, como também na sua própria vida, que certos limites aparentes, visíveis à primeira vista, encobrem zonas inexploradas, desconhecidas, como o inconsciente ou a natureza desoladora vista pela Física. Agora, rompendo com este mundo de aparências superficiais, abandonando seus limites prévios, impostos, e tão reconhecidos, não se tem a impressão de que se cruzou uma fronteira final e que se alcançou um espaço infinito e rarefeito, fim de todos os limites e fronteiras? Haverá ainda limites mais adiante nesta jornada? Mas então como isso pode ser posto em cena através da descrição?
            Diante dessas perguntas, abre-se um caminho que ruma para atingir o orgasmo, sua separação da sociedade para a descoberta de si mesmo, essa pulsão que invade o território da consciência e dá soberania ao corpo e ao cérebro animal. Nessa dramaturgia da descoberta de si, sua emancipação e expansão, a representação adquire um caráter de maior interioridade - até mesmo para a câmera. O plano-seqüência, de quatro minutos, da cena de sexo de Sophie (Lise Bellynck) na casa do arquiteto (Frédéric Aspisi), é um trabalho, um método, e um tom, já muito diferente daquele do prólogo. Como em tantos outros de seus travellings maravilhosos, Brisseau “bazinianamente” sabe neste aqui que não se pode cortar: o ato sexual precisa vir à tona e ser revelado através de uma absoluta e ininterrompível continuidade temporal. A encarnação do prazer sexual é especial e rara demais para ser repetida, re-ensaiada, reinventada por uma decupagem que fragmente a singularidade da experiência em uma multiplicação de enquadramentos, cortes, “truques”, a fácil manipulação pós-filmagem. É do misterioso fluir do tempo - este que, a despeito de toda encenação e da nossa consciência sobre ela, é indomável e não-manipulável - , é desta matéria a princípio impalpável, que, do seu interior, torna concreto o gozo, visível, experimentável, como o produto final de um ritual alquímico. Aqui também a câmera adquire uma qualidade física e anímica: ela se locomove pelo espaço (travelling), não como quem está à procura de, mas como se soubesse previamente o que virá a acontecer, como uma qualidade mediúnica que anuncia a vinda do gozo. E de forma análoga, com a dilatação anômala da duração no plano-seqüência, o palco também se “locomove”, com a entrada freqüente (coreografada) de atores em cena, sempre oriundos do espaço fora-da-tela - momento em que a câmera se mantém fixa no tripé, impassível de tremer, resistente àquilo que contempla, mas é também por sua fixidez que se convoca o fora-da-tela para vir à tona, para preencher o espaço visível, amplificá-lo. Toda maquinaria e toda orquestração não têm importância em si mesmas; elas estão submetidas a uma ordem: é uma força de concentração, de unificação, que condensa e faz coincidir, neste breve período de tempo, a performance dos atores, a anunciação da câmera e a revelação por parte do espectador. É desta fusão que trata a abertura de Brisseau, a sua entrega, o seu abraçar-se com as coisas. Trata-se de um caráter pedagógico (didático): colocar um problema (a vinda do gozo) tal como ele deve ser olhado, portanto respeitado, mantida a sua devida distância, para saber como admirá-lo. Brisseau pede para “vermos isso”, mas ele só pode pedir se ele mesmo também se colocar nesta posição.
            Não sei muito bem por quê estou gastando tanto tempo para descrever esses dois momentos do filme - a introdução e o plano-seqüência -, mas certamente eles me parecem muito especiais e estimulantes. Também não são momentos isolados: por exemplo, há muitos planos longos (com a câmera sempre estática), como a fala de Sophie logo antes deste plano-seqüência, ou como o plano da primeira sessão de hipnose de Mina (Nadia Chibani), ou mesmo os planos de paisagem montanhosa com a voz off do taxista. Acredito que Brisseau nunca tenha lançado mão de tantos planos longos como aqui. Também a superfície plana e oca do prólogo reaparece de muitas maneiras (por exemplo, na forma de moldar os personagens), por esta vontade de filmar o papelão, tal como DeMille, como bem disse Vincent Zeis. Este segundo caráter talvez seja inevitável a toda representação, ainda mais em um trabalho tão consciente de si como o de Brisseau - o que corresponde à outra face de sua investigação sobre os limites da visibilidade. Como dissemos, pode-se ser o iconoclasta dos hábitos sociais, o questionador dos limites da observação e da consciência, e assim adquirir uma liberdade imprevista e progressiva, que avança à descoberta do novo, do prazer, atraindo-se ao desconhecido até um ponto culminante e inefável; essas novas experiências podem ser introspectivas, secretas, silenciosas, quase indescritíveis ou difíceis de se expor; ainda assim, algo precisa vir à tona, ser materializado, ser visível. Trata-se, então, de uma nova representação que já não corresponde mais àquela da castração social, pois ela não é pudica. Não é mais uma representação para o outro, mas o assumir-se de si mesmo. Por esta razão, o gozo de Sophie no plano-seqüência, sendo um gozo encenado, que não passa de ar suspirado, é ainda um intermediário para o gozo absoluto: aquele de Mina. Este não é mais um gozo “humano”, uma respiração arfante: ele se tornou uma imagem, uma evidência. A palavra “gozo” não passa de uma total abstração: quando ele é experimentado por Sophie, torna-se concreto a ela, mas só indiretamente para a visibilidade; somente com a levitação retira-se completamente os trejeitos reconhecíveis do sexo comum, para se tornar a própria representação do gozo em si. É a passagem do mero conceito para a descrição; ou o gozo da própria visibilidade.
            É dessa forma que uma alta carga de pensamento abstrato pode atravessar o cinema de Brisseau, visto que há sempre um equivalente na representação. As conversas sobre astronomia, e o universo infinito, são concretas em uma tela de estrelas ou em uma paisagem montanhosa filmada com câmera na mão, dentro de um carro em movimento, como se fosse um quadro impressionista; a verdade da teoria psicanalítica está apoiada pelos violinos de Jean Musy e sua estridência (les violons ont toujours raison, como garante Skorecki); o inconsciente só existe para a pele de um corpo, tal como a queimadura no braço de Mina. Da mesma forma, os personagens são encarnações (atualizações) dos mitos: eles são como portais de entrada (abismo) da verdade; desconhecem a mentira e são incapazes de cair na fraqueza da hesitação e da dissimulação. Eles são também personagens vazios, ocos, sem uma personalidade marcante, e se assemelham a alunos que estão sendo ensinados pela primeira vez, depósitos ideais para novas experiências. Por oposição, ter uma personalidade forte, ou previamente doutrinada, como a Sandrine de Coisas Secretas, é um mau sinal, uma máscara, uma ilusão. O vazio, portanto, é positivo; é até uma forma de estar despido, de se essencializar (ser somente um portal do conhecimento da Física ou da Psicanálise; ou então a manifestação direta de um corpo em êxtase). É a ingenuidade que é verdadeira, tal como Brisseau a coloca, assim como Ford, nos seus personagens proletários, ignorantes, rudes, apaixonados, brutais - sabemos tão pouco; somos tão pequenos; devemos, assim, nos arremessar ao mundo, como se fosse para aferir a nossa medida diante da grandeza.
            Quanto a Brisseau, em tudo isso, ele se caracteriza pela coragem de concretizar. Ele filma milagres, anjos, a Morte em pessoa, todos absurdamente palpáveis, sólidos, feitos de carne e de consciência. Mesmo se infiltrando em linhas de pensamento modernos - a psicanálise, o marxismo ou o hegelianismo etc. -, Brisseau nos relembra de uma humanidade antiga, em que os deuses caminhavam aos nossos lados. Através dos rostos desses atores, nossos conterrâneos, em pleno anos 2000, vemos bem à nossa frente os nossos ancestrais, que nos lembram que o passado mais distante ainda está muito perto de nós, como se nunca tivéssemos saído de lá, da era dos mitos e das lendas. Essa capacidade de Brisseau em concretizar significa, como é da própria definição, realizar, empreender, alcançar, controlar. O que quer dizer que o próprio Brisseau já chegou a este estágio ascético e, assim, quer nos mostrar que ele é possível, alcançável, experimentável. Trata-se de algo que o personagem de Bruno Cremer, em Boda Branca, não alcançou: ele contempla o oceano do outro lado, como dois mundos claramente separados (a vida e a morte). Por isso mesmo que se pode afirmar uma evolução na trajetória artística de Brisseau em Céline, já que aqui o personagem é conduzido a um destino angelical, algo que com a menina de Boda Branca é, no máximo, subentendido - não se trata somente de uma trajetória do personagem, mas desse ímpeto pela concretização, pela imagem e a sua condição inquestionável. Há um caráter pudico - tal como podemos também pensar na elipse de Boda Branca que separa a penúltima seqüência do ato final em Dunquerque - que é preciso se desfazer, para que os sentimentos não sejam mais como experiências particulares de introspecção (como o olhar mudo de Cremer no fim de Boda, ou o orgasmo de Sophie em À l’aventure), mas, alimentando-se destas prévias experiências (que, verdade seja dita, são belas em sua sinceridade), e através do processo alquímico da representação, estes sentimentos se tornem imagem, e assim algo além de um mero sentir, para reivindicar o território mesmo da visibilidade. Neste ponto, os espectadores pudicos de À l’aventure (que se assemelham à mãe ou ao primeiro namorado de Sandrine, tal como se pode testemunhar em sala de cinema) já não podem mais se reconhecer: as experiências sexuais das taras e das fantasias, prévias à hipnose e à levitação, são aceitáveis, mesmo a quem não as pratique; mas as seguintes já não correspondem a algo que eles possam crer, presos que estão à verossimilhança, aos comportamentos sociais reconhecíveis etc. São, de fato, sentimentos tão ascéticos e inexprimíveis que não temos coragem nem mesmo de senti-los ou procurá-los, que dirá colocá-los no eixo central da dramaturgia e da representação, como quem os procura do lado de fora de si mesmo.
            É por isso que existe em Brisseau uma qualidade ambígua: um sentimento introspectivo e abstrato adquire uma tal materialidade cênica que ele já não é mais abstrato e particular. Esta função cabe a Mina, cujo prazer da submissão chega ao paroxismo de produzir, pela força da mente, queimaduras, reencarnações espirituais, levitações - fenômenos que não têm qualquer indício sensorial, e que se traduzem diretamente na epiderme da imagem. Mina é, como em um fluxo dialético hegeliano, a síntese entre o mais abstrato e o mais concreto, o mundo isolado do espírito e o mundo visível, e tão frontal, do papelão de péplum. Mas um sentimento pode ser detido de tal forma que se transforma em matéria? Podemos mesmo deixar de acreditar para simplesmente ver? Em seu ponto culminante, Brisseau não exige mais nada ao espectador: o seu trabalho se reduz a simplesmente mostrar, avesso à persuasão e à retórica. Na verdade, é como se ele se perguntasse se é possível ver sem crer; é como se ele tivesse chegado a este ponto em que não há mais nada para persuadir. Ele se instala em uma zona instável, fronteiriça, como quem está entre dois mundos, local onde os fenômenos adquirem um caráter fugidio, onde as coisas não têm mais permanência. Chegam os fantasmas e as evanescências. Deus se precipita à terra, mas rapidamente evapora de novo.
            Na última seqüência, na casa de campo do taxista, é a relva das montanhas que se destaca na paisagem. Pode-se se dizer que é ela que se sai vitoriosa dessa batalha entre forças terrestres e forças celestes? Talvez. Mas, inegavelmente, nesse momento a relva não é mais só uma relva, por melhor estabelecida e imposta que ela esteja na imagem. Paira por lá algo mais vasto, agora em estado dormente, descansando para a próxima batalha. E, apesar disso tudo, talvez Brisseau ainda seja um cético, pois é como se ele levasse o seu ceticismo até o território místico, e, assim, tornasse impuras ambas as coisas, o mistério e o visível. Essa impureza é o seu ceticismo, a sua forma de questionamento. Não basta, para Brisseau, filmar, em seu sentido afirmativo, quase como um acusamento (“enquadramento”). É como se ele se perguntasse se ele pode filmar aquilo que, de fato, filma. Ele se pergunta se há algo além do que filma; ao mesmo tempo, sabe que, para o registro fílmico, a evidência sensível é inultrapassável, e infringi-la não passa de ilusionismo retórico. Para nós, esta ambigüidade está tensionada até o ponto da total incompreensão: todo o processo consiste justamente em deixar de entender, em abdicar-se de ser a parte consciente do processo, para se tornar somente o lastro sensível da emoção. E, após o fim, é como se tudo não tivesse passado de um rápido instante, quase ao acaso, que passa como se não quisesse deixar vestígios.

Notas:
[1] “Qualquer análise do realismo, em especial a dos argumentos contra ele, tem de ser formulada em alguma linguagem. Mas a linguagem humana é essencialmente descritiva (e argumentativa), e uma descrição inequívoca é sempre realista: é descrição de algo - de um estado de coisas que pode ser real ou imaginário. (...) A racionalidade, a linguagem, a descrição, o argumento, todos dizem respeito a alguma realidade e se dirigem a alguma platéia. Tudo isso pressupõe o realismo.”


João Gabriel Paixão

(Texto original: http://www.focorevistadecinema.com.br/aventurejgp.htm)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Cineclube da Cinemateca: "À Aventura" de Jean-Claude Brisseau

Neste sábado, dia 12, o Cineclube da Cinemateca exibe "À Aventura", de Jean-Claude Brisseau. Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"À Aventura" de Jean-Claude Brisseau 

Sandrine questiona a sua própria rotina de vida e decide abandonar tudo, emprego e namorado, e sair em busca de novas aventuras, algo que dê sentido à sua vida. Ao conhecer o jovem psicanalista Greg, seus horizontes sexuais pareceram se expandir de forma totalmente inédita. Depois de alguns encontros, ele apresenta Sandrine a Sophie e a Mina. A princípio Sandrine é apenas uma expectadora privilegiada das experiências sexuais conduzidas por Greg em Sophie e Mina, mas aos poucos ela se deixa seduzir pela possibilidade de atingir o estado de êxtase sexual e passa a participar das experiências de indução hipnótica.

Serviço:
12 de dezembro
às 16h
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Garota de Lugar Nenhum


Onde o Carlos Melo Ferreira acaba o seu texto sobre “La fille de nulle part” está o que mais me interessa neste filme, provavelmente nos filmes todos de Jean-Claude Brisseau, e que diz assim: “Filmado no seu próprio apartamento com uma equipa que conhece bem, "A Rapariga de Parte Nenhuma" mostra a sua ambição na intransigente exigência pessoal que caracteriza o cineasta e na perfeição cinematográfica atingida com simplicidade artesanal, o que lhe fica muito bem ao lidar em termos realistas com o extraordinário e, especialmente, na gravidade e na leveza do gesto.” 

Ou seja, um filme caseiro, aquelas cassetes e discos e livros são mesmo do cineasta, os móveis e as camas, as histórias que ali se viveram, o que se escancara e o que se tapa, e pressente-se que não existe grande maquiagem ou pudores. Gesto que não se encolhe nas ambições e na continuação de todas as buscas passadas, na auscultação e no envolvimento com as estranhezas e possibilidades para lá das superfícies, das normas e da moral, bem como, o mais desarmante num grau idêntico de milagre e ambiguidade, essa transcendência e catarse orgástica que pode ser a subida a uma montanha no final de “Un jeu brutal”, uma serena contemplação de quem ousou olhar para lá das bordas protectoras, o prazer para além do aceitável nos últimos filmes, ou a morte desafiada neste “La Fille”, inclusivamente confrontada olhos nos olhos, exigindo-se-lhe explicações. Sempre para lá ou para cá da redenção, não estamos nos campos da lição mas sim das tensões.

Se os diálogos são densos ainda mais do que abundantes, por vezes perto do hermético ou do absurdo, desafiando lógicas acabadas e impressas, e “À l'aventure” é um caso mais intrincado ainda, esse não é realmente o objecto do filme, a sua finalidade e alcance. O discurso dos personagens não interessa grande coisa ou não é o essencial ou a poética do filme, como não o são as crenças, ideologias, pontos de vista, circunstância, filosofias, etc., no sentido em que são causa para lidar mais uma vez com o que nos foge desde sempre, uma abstração que a materialidade do filme atinge supremamente, essas coisas que trazem angústia e solidão, e as trovoadas que saem das bocas são mais desespero e pedido de resgate, numa mansa aflição, como nos últimos tempos só o sul-coreano Hong Sang-soo assim dissimulou via Jean Eustache, num encontro de dois solitários profissionais que alguém ou o puro acaso decidiu juntar. Interessa a Brisseau a mise-en-scène de tudo isto, a maneira de pôr em cena aquilo em que os seus personagens estão embrenhados e comprometidos, visões e impossibilidades que sempre foram o verdadeiro e singular poder do cinema. 

Como se costuma confundir o que sai da boca dos personagens ou o que eles fazem com o fulcro ou a plenitude de um filme, Brisseau tem ido até limites e paroxismos tais que por correlação, e no enclausuramento deste filme talvez mais do que nunca, a concentração e a intensidade das figurações que cria tornam tudo transparente aquando das aparições, ficando o verbo e o torrencial como parte compósita de inquietações sem definição, porque maiores que os personagens, que são passagem para mundos outros, que se para lá da física, são fixados objectivamente. E então vale a pena agarrar ou fixar uma frase para valer como imagem, que é aquela em que se diz que o delírio consiste em ver esses mesmos delírios mais reais do que o próprio real. Portanto, quem vai à procura de encontrar tratados esotéricos ou novas doutrinas pode muito bem nem comprar o bilhete, porque se estas estão de alguma forma lá, precisamente só nas formas as vão encontrar – toda e qualquer demência de uma cabeça pode assim caber na demência desta arte de luzes, relevos e muita assombração.

O cinema figura mortos ou fantasmas ou aberrações, desfoques, suspensões como as mortas de negro que interpelam o realizador actor, irrealidades só ao arrepio pressentidas que podem ser mais reais do que a realidade, nem apenas como evocações ou metáforas mas sim em existência crua, como as predadoras aves ou os anjos de asas torradas que descem ao quotidiano de "Choses secrètes" e dos "Les anges exterminateurs". Aqui, do inconsciente ao consciente e à aceitação, de Freud a Victor Hugo ao resvalamento estonteante mas apaixonado de “Vertigo”, somos levados em tons róseos e transbordantes ao mundo das mulheres, afectos e desejos de um matemático que há muito percebeu que tal ciência só nos leva ao máximo de romanesco, para num rememorar e fluir muito calmo, muito suave, concretizar transações entre o que se diz mundo de vivos e o que se diz mundo dos mortos. 

Que seja naquele cenário e nessas cores mais encantatórias do que funérias, sobreimpressões esfumadas que o artesanato do cinema sob o signo Georges Méliès foi buscar às mentes dos visionários e saudosos, entre as réplicas e as portas ameaçadoras de Fritz lang e os cadáveres e abismos de Alfred Hitchcock, nada mais certo para um cineasta que sempre se aproximou e utilizou do inacreditável em vista ao mais acreditável, tanto no espectáculo do dinheiro e do poder da Paris secreta como no espectáculo de um fantasminha de lençol branco e faca na mão – “o que lhe fica muito bem ao lidar em termos realistas com o extraordinário e, especialmente, na gravidade e na leveza do gesto.”

E “La fille de nulle part” podia ser um filme mudo, assim como um Ozu ou Mizoguchi ou Nicholas Ray, pois tudo o que coloca em causa e põe no enquadramento, todo o movimento e pressentimento, é universal e tocante a cada um que já decidiu viver, questão de ontologia e de língua, nunca de linguagem. O que quer dizer que estamos obviamente numa grande e louca história de amor a dois e com o ciumento lá fora, trancados numa casa e longe das regras. Para serem felizes.

Se falei de fidelidade e apogeus é porque como muitos dos grandes que passaram da amada película para o digital que se diz ultra realista e longe da hipnose matricial, Brisseau encontrou logo de início a sua maneira de ver e de fazer, um clássico que como Losey parece rebentar-se nos seus almejos cósmicos, seja em vales ou na saleta de estar, convertendo muitas vezes o mais descarnado real em artificial ou mesmo em estúdio, e seguidamente o que fez foi apurar, apurar, polir, afinar, modelar o seu credo absolutamente forte e sem dúvidas.  

“La Fille” tem muito a ver com o “Saraband” de Bergman, com o Rohmer final que podia ser o inicial, com os últimos de Oliveira ou com os filmes que Michael Cimino estaria a fazer em digital se o deixassem ou se quisesse. Serenamente mesmo nos momentos mais cortantes, sem torturas, sem debates interiores estéticos, sem fetichismos, porque todos sabem que o que interessa pode ser todas as coisas e um fulgurante olhar livre a elas, do fundo do seu acreditar, contenda primordial em que travellings e panorâmicas ou as escalas são a distância necessária aos sentimentos e não a sua evidência, de onde está fora de questão o inventar por inventar ou o camuflar de uma nova técnica para se tentar parecer com a antiga. Todos ainda com fome deste palco e das suas escuridões, em que o tempo de que se fazem os filmes é a dádiva e o tormento do seu dúplice vida. Belíssima afirmação de vida, de um grande cineasta crente e guerrilheiro.
 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cine FAP: "A Garota de Lugar Nenhum", de Jean-Claude Brisseau


A rotina solitária de Michel muda radicalmente quando Dora, uma jovem à deriva de 26 anos, chega para viver em seu apartamento. Mesmo incipiente, a relação traz frescor à vida do professor de matemática aposentado, que revisita sensações há tempos esquecidas. Enquanto isso, seu lar gradualmente se torna cenário de misteriosos acontecimentos. Dirigido e protagonizado por Jean-Claude Brisseau, o filme segue o caráter de narrativas íntimas e corajosas do cineasta, que optou por rodar o longa-metragem em sua própria casa. Vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno 2012.

Serviço:
dia 26/05 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cine FAP: "Coisas Secretas", de Jean-Claude Brisseau

Nesta segunda-feira, dia 19, o Cine FAP apresenta "Coisas Secretas", dando continuidade ao ciclo Jean-Claude Brisseau que contará ainda com "A Garota de Lugar Nenhum", no dia 26.
Sempre com entrada franca!

Cine Fap: "Coisas Secretas", de Jean-Claude Brisseau

Educadas em meio a dificuldades, a inocente garçonete Sandrine (Sabrina Seyvecou) e sua colega stripper Nathalie (Coralie Revel) se esforçam para sobreviver em Paris. Juntas, elas descobrem que o sexo pode ser uma valiosa arma para subir na hierarquia social. Próxima vítima de sua manipulação, o esperto Christophe (Fabrice Deville) é herdeiro de uma fortuna e tem igualmente uma estratégia para manipulá-las.  

Serviço:
dia 19/05 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A miraculosa


Como ele é professor, Jean-Claude Brisseau professa. Como ele ama o cinema, Jean-Claude Brisseau faz cinema. Como ser professor, no senso etimológico, é “ensinar em público”,  Jean-Claude Brisseau faz do cinema um anfiteatro. Seus filmes tem a ver com o teatro de paixões e tem de ser vistos como uma lição do cinema. Não de cinema. Não o cinema que educa, mas o cinema como – possível - educação. As salas de cinema frequentemente, e justamente, foram comparadas à igrejas; mais raramente à escolas: o meio onde vamos sentar para ver, para escutar, para se completar, para se confrontar com o Outro, se informar. Para ver, saber, e saber ver. Em Brisseau “o professor”, o filme perfurou o quadro negro, a professora (maitresse) dança com o aluno, o professor faz da aluna a sua amante (maîtresse) e o espectador, que ajuda a transgressão, participa assinando a nota de liberação. Nós apagamos tudo e recomeçamos.
            Em Som e Fúria, há o momento em que a professora dança com o menino (Aux marches dupalais...), e em Boda Branca, há o momento em que o barco desembarca o homem e a menina sobre uma colina de flores (ainda Aurora). Os dois momentos flertam com o ridículo,  com a graça rasa do ridículo e que “do ridículo ao sublime vai apenas um passo” (disse Michelet), mas são realmente dois momentos de graça onde o tempo não tem curso, a cena da escola, a vastidão imensa da natureza compõem a cena primitiva, livremente ingênua – como a arte, ingenuamente livre. Céline inteiro se abisma nesses momentos, nessa cena, nessa passagem feitapela janela aberta no mundo, o filme passa pela janela, e o olhar até o fundo da paisagem, acaba por se confundir com ele no negro – do quadro, como em um sonho de Akira. Assim se delineia Céline. Fazendo cinema, Brisseau gazeia a escola.
            Trata-se então, tratou-se sempre, de um aprendizado. Nos filmes precedentes, o aprendizado era alguma coisa como “aprenda a vida para aprender a morrer”, amores defuntos frequentemente entrevistos, corpos de crianças vítimas de sua clarividência. Céline começa na queda mas não é preciso muito tempo para sentir o filme cair para cima, uma aspiração resultado de uma expiração.  Aprender a não mais existir para aprender a viver. Não pensar mais em nada para estar no tudo. A aprendizagem, dessa vez, nasce do nada e se revela em sua plenitude, o filme chega depois da morte e, se fazendo, ele está “além”: na terra, sob a chuva, nada resta a Céline que seu nome; um homem que morreu e não é seu pai, um homem que a abandonou e não é mais seu amante; ela mesma se deserda, e depois se joga na água. Que uma outra mulher a salve, não importa: Céline é de agora em diante uma miraculosa – para não dizer uma ressuscitada. Mas o que importa, é que Geneviève, a outra mulher, já pode, desde o início, permitir o milagre (arriscando a própria vida).
            Eu vejo bem, agora, a impossibilidade e a inutilidade que há em recontar Céline. E é por uma razão bem simples: a razão de ser do filme é de tornar visível o indizível. Poderíamos “falar” qualquer coisa sobre a morte, o milagre, a aparição, a levitação, a santidade, tudo aquilo que quisermos, estas palavras permanecerão clichés que não “falam” (do mesmo modo Céline, tentando descrever o que ela sentiu a Geneviéve, nada encontra a não ser dizer a palavra “Deus”– talvez o “cliché” supremo- e não se satisfaz). Ora, o filme é o contrário do cliché. Ele refuta visivelmente e sistematicamente toda fixação do movimento, da imagem, ele flui suavemente de fonte, pela concentração ( a própria ideia de uma imobilidade que se move – e permite avançar) de onde ele retira sua energia luminosa (como o fogo ateado no carro concentra subitamente nele toda a luz: a noite apareceu de repente).
            Célineé um filme feito (de) intensidade. Portanto emocionante (émouvant) (em inglês “moving” quer dizer tanto “emocionante” e “em movimento”, assim o filme extrai seu movimento de uma tensão interna: o que me emociona (émeut), me move (meut)). E aquilo que ele mais é – emocionante e em movimento, é que Brisseau não faz cinema como se ele fosse o primeiro, não é a inocência do começo, é mais como se ele fosse o último dos homens com uma câmera – é uma fragrância de fim. Brisseau chega depois, mais uma vez. Depois da morte e depois do cinema (Murnau antes de tudo, Bresson, Godard sobretudo) . Chegar depois, saber disso, é forçosamente estar no além, aí está porque Céline não é fúnebre mas transcendente, aí está porque o cineasta não é religioso mas místico. Aí está porque o seu filme é fantástico.
            “A religião egípcia, voltada inteiramente contra a morte, fazia a sobrevivência depender da perenidade material do corpo. Ela satisfazia com isso uma necessidade fundamental da psicologia humana: a defesa contra o tempo. A morte nada mais é que a vitória do tempo. Manter artificialmente as aparências carnais do ser é retirá-lo da correnteza da duração: fixá-lo à vida. [...] Assim se revela, nas origens religiosas do estatutário, sua função primordial: salvar o ser pela aparência.”
            Esse possível resumo de Céline assinado por André Bazin, um outro “professor” – e que, eu penso, Brisseau refletiu em sua introdução “faraônica” do filme-, diz bem o que é a questão maior: o resgate, depois a salvaguarda do espírito pelo corpo (a yoga), passando pela iniciação de Céline por Geneviéve, depois do corpo pelo espírito (o milagre), passando pela última aparição –aparência- para Geneviéve do espírito de Céline. Dialética literalmente extraordinária que, em termos de arte-mística, se produz entre o talento e o gênio. Entre Geneviéve e Céline. E sua união faz a sua força, pois, se há uma vida  após a morte (algo que o cinema se apercebe às vezes), o filme mostra também que há uma “morte após a morte” (algo que o cinema toca raramente): Céline começa no drama e culmina no trágico – mas  não é triste por isso, e é o amor de duas mulheres que é trágico. Elas estão condenadas. Estejam em um convento ou na grande mansão do filme.
            As palavras de Bazin, antes de dar uma ideia do que é o filme de Brisseau, dão uma ideia do que é o cinema. Daí a pensar que o filme de Brisseau constitui por ele mesmo uma “ideia de cinema”... Essa ideia gira sempre em torno da inocência, e de sua perda. E de como a reter ou retornar a ela – pelo cinema. Para Bazin, o trabalho de embalsamento, para Brisseau, o da restituição. Salvar o ser restaurando a ele a aparência (mais que) humana. Revelá-lo. Fazer de uma forma que o cinema possa registrar o milagre, e que esse milagre pareça com a vida (um joelho que sangra sem ferimento, um paraplégico que se recupera porque lhe dizem que ele pode). Não somente que isso tenha uma aparência verdadeira, mas que isso seja verdade. O trabalho de Brisseau consiste não na restituição de um cinema-verdade mas, o que é mais difícil, de uma verdade do cinema. E se ele consegue, é porque ele conhece o cinema: uma moral das imagens.
            Quando Céline “aparece” a Geneviéve várias vezes, por exemplo, depois desaparece, é um simples caso de reenquadramento: ela está lá, ela não está mais. É uma imagem que se constrói de uma outra imagem – em relação a uma terceira, aquela de Céline em meditação, fora da casa. Quando Geneviéve presencia a levitação, questão de ponto de vista, nós vemos Geneviéve que vê Céline, em seguida vemos Céline, as duas não estão reunidas no plano porque (montagem proibida, ao inverso) nós só podemos ser as testemunhas do olhar de Geneviéve, não as testemunhas da cena: para cortar, isso seria trapacear, teria uma aparência verdadeira sem ser (haveria montagem na imagem, uma redundância grosseira já que Célinemonta sozinha), então que a verdade venha do olhar de Geneviéve sobre Céline (ela dirá a seu amigo que ela não sabe se Céline levitou, simplesmente que ela acreditou tê-la visto levitar). É preciso acreditar em seus olhos.
            À parte talvez Órfãs da Tempestade, de Griffith (uma certa perversidade ao menos), nós nunca vimos filme igual colocando em cena o amor entre duas mulheres. Geneviéve, a lunar, e Céline, a solar, são duas figuras inesquecíveis. Dois anjos do pecado (angesdupeché). A energia luminosa que cada uma emite – luz negra de uma, luz ofuscante de outra – que ambas se transmitem alternadamente quando necessitam aquecer seus corpos entorpecidos, que renunciam, é um calor humano praticamente visível na imagem, como uma aura (não realmente uma auréola) que emanaria de seus corpos e irradiaria tudo aquilo que as rodeia. Como o encontro de duas “atmosferas”...
            Entre elas, por elas, não há rastros, via-crúcis, as coisas acontecem quase brutalmente, ou melhor, de uma forma bruta; e Céline salta aos olhos, se impõe à nós: é um filme que, da mesma maneira que o recolhimento leva subitamente ao milagre, estabelece um suspense que resulta de súbito em um efeito de surpresa. É um filme que atordoa. Geneviève, demasiada humana, e Céline, demasiada evidente, se completam, como dois polos de energia que se atraem. Quem é a mais santa das duas? Esta já é outra história. A história de amor, ela, exala um odor de santidade, na troca absoluta do filme – e depois a troca de dois olhares: dar e receber. É simplesmente muito belo.    
            Eu percebi que esqueci de dizer que isso se passa em pleno campo, em uma grande mansão branca, que Geneviève é enfermeira e que Céline não é. Mas que bom: dizer isso não é dizer grande coisa. Em revanche, é preciso dizer que Brisseau não realizou um filme ecológico (écolo) de bom tom ou new age do tipo certo. Esses filme nós podemos reconhece-los porque eles são de um só modo e de uma só época, eles envelheceram rápido com a sua imagética galopante. Céline é de outro temperamento, daquele que vemos raramente no cinema francês, o temperamento místico (indubitavelmente a única maneira na França de ter direito a um olhar sobre o gênero “fantástico). O filme de Brisseau (que me faz decididamente muito pensar no Nouvelle Vague do Godard) toma uma dimensão “sobrenatural” porque ele consegue fundir o ser na natureza, que o enraíza. Alguma coisa se passa, se comunica entre Céline e o campo (os campos, a árvore sob a qual ela medita). Na “perspectiva” da mística do filme,do tratamento de seu espaço, a natureza abre a Céline “o caminho”. Ela suscita uma exaltação melancólica, um sentimento de plenitude que absorve literalmente a jovem mulher na paisagem. Em Brisseau, a natureza é sobrenatural...
            Natureza e panteísmo. Contemplação, meditação e iluminação. A relação trágica do ser no tempo, no amor, na morte. “Salvar o ser pela aparência.” E fazer um filme do cinema... Acreditando que o cinema  dessa vez, de fato, entrou em sua era romântica.
Esperando, Céline e Geneviève irão de bicicleta.

CamilleNevers,
Cahiers du Cinema nº 454, abril de 1992

(tradução Cauby Monteiro)

sábado, 10 de maio de 2014

Cine FAP: "Celine", de Jean-Claude Brisseau

Nesta segunda-feira, dia 12, o Cine FAP apresenta "Celine", dando continuidade ao ciclo Jean-Claude Brisseau que contará ainda com"Coisas Secretas", no dia 19; e  "A Garota de Lugar Nenhum", no dia 26.
Sempre com entrada franca!

Cine Fap: "Celine", de Jean-Claude Brisseau

Aos 22 anos, Céline passa por um momento doloroso: seu pai morreu e ela acaba de descobrir que é adotada. Seu namorado também não a quer mais. A garota ainda tem tendências suicidas.

Serviço:
dia 12/05 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Cine Fap: "Um Jogo Brutal", de Jean-Claude Brisseau


Pesquisador volta a cuidar da filha que, vítima de um problema na coluna, não consegue movimentar as pernas. Enquanto a indócil garota se adapta à figura de uma governanta e do irmão desta, seu pai parte em uma matança com motivos misteriosos.

Serviço:
dia 05/05 (segunda)
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP e HATARI! (Grupo de Estudos de Cinema)
Apoio: Coletivo Atalante

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Cine FAP: Jean-Claude Brisseau

Cine Fap apresenta: 
Mostra Cinema Francês Moderno



Jean-Claude Brisseau:
05/05 - "Um Jogo Brutal"
12/05 - "Celine"
19/05 - "Coisas Secretas"
26/05 - "A Garota de Lugar Nenhum"

Serviço:
Toda segunda
às 19 hs
no Auditório Antonio Melilo
(Rua dos Funcionários, 1357, Cabral) 
ENTRADA FRANCA

Realização: Cine FAP
Produção: HATARI! - Grupo de Estudos de Cinema
Apoio: Coletivo Atalante

sábado, 22 de junho de 2013

Atalante leva um pouco do cinema paranaense à Belém do Pará

Segue abaixo a programação de Julho, do Cine CCBEU.

Cine CCBEU: Espaço de exibição de grandes obras da cinematografia mundial e fórum regular de debates sobre arte, cultura e cinema. Numa parceria entre Centro Cultural Brasil Estados Unidos e Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC).


*Dia 11/07-Curtas Paranaenses

"Bodas de Prata", de Diogo Marques e Gustavo Ulisse (2010)
Sinopse: Um nanodrama sobre o matrimônio.

"Vó Maria", de Tomás von der Osten (2011)
Sinopse: Memória em três tempos.

"A Fábrica", de Aly Muritiba (2011)
Sinopse: Metruti (Andrew Knoll) está na prisão e precisa muito usar um celular para fazer uma importante ligação. Para obter êxito nessa tarefa, ele acaba incumbindo sua mãe Lindalva (Eloina Duvoisin) de tentar burlar a segurança e levar o aparelho para ele. Será que ela conseguirá? Que ligação é essa que faz um filho colocar em risco a segurança e a honestidade de sua própria mãe.

"Califa 33", de Yanko del Pino (2012)
Sinopse: Califa 33 era um repórter policial que retirava a notícia do esgoto. Às vezes a embelezava, às vezes a contava nua e cruamente.” Ali Chaim

*Comentários: Miguel Haoni(Coletivo Atalante)



*Dia 25/07-"Celine" de Jean Claude-Brisseau
Sinopse: Quando, em nossa vida, nos depararmos com uma pedra, mágica e eterna como Céline, devemos sentir que o mundo é realmente imenso, pois ele cabe, em sua vastidão, em uma obra, um oráculo surdo, irradiante das mais elevadas sensações, dos sons e imagens que sensibilizam à nossa volta tudo que É, tornando-se assim o mar que devemos contemplar sem medo e sempre sem a escolha de voltar atrás.(Cauby Monteiro-2013)

*Comentários: Cauby Monteiro(APJCC)



Serviço:
Quintas- feiras, às 18h30
No Cine Teatro do CCBEU
(Travessa Padre Eutíquio, 1309)
ENTRADA FRANCA

Realização: APJCC e CCBEU
Coordenação e Curadoria Cine CCBEU: Tiago Freitas e Max Andreone

Mais informações:
cineccbeu.blogspot.com
E-mail: cineccbeu@gmail.com
Twitter da APJCC: http://twitter.com/ apjccnews
Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100001008778896

8374-9497
8158-1840
8421-8071


Paralelamente:

Mini-curso de Cinema Contemporâneo com Miguel Haoni (Coletivo Atalante)

O mini-curso pretende através do percurso instituído pelo Mestre Luiz Carlos Gonçalves de Oliveira Júnior em seus textos "A estética de fluxo no cinema contemporâneo e O cinema de fluxo e a "mise-en scene" analisar um recorte da produção cinematográfica contemporânea sob a luz dos conceitos de plano-fluxo, dispositivo e instalação, e mise en scene. De que maneira os filmes de Hou Hsiao-hsien, Gus Van Sant, Claire Denis, Apichatpong Weerasethakul entre outros, são reveladores de uma contemporânea "crise da cena" e de uma sensibilidade neo-primitiva em relação ao mundo e ao fazer cinematográfico? O problema vai do cinematógrafo Lumière aos efeitos em CGI, passando pela longa historiografia da mise en scene clássica. Interessa ao mini-curso, entretanto avaliar de que maneira os realizadores "do fluxo" impõem uma alternativa sensorial ao reino da linguagem.


Mini-curso de Cinema Contemporâneo
com Miguel Haoni (Coletivo Atalante)
10 à 12 de julho (quarta à sexta)
das 14h às 18h, no auditório do CCBEU
(Tv. Padre Eutíquio, 1309)
Inscrições: 50 R$
VAGAS LIMITADAS

Realização: Centro Cultural Brasil-Estados Unidos
Apoio: APJCC e Coletivo Atalante