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sábado, 19 de março de 2022

O carrossel de Cimino

por Giovanni Comodo

Foi como um sonho. Durante cerca de 15 anos, Hollywood abriu suas portas a jovens talentos vindos de toda parte. Em meados da década de 1960, o descompasso entre os chefes dos grandes estúdios e as vontades do público permitiu a entrada em cena de novos nomes com novas ideias tanto narrativas como formais. O resultado foi um período fértil em filmes que puderam contar com liberdade artística pouco vista desde então e que, para surpresa geral, reverberaram fortemente com a plateia. Eram títulos que levavam suas câmeras para locais inéditos até aquele tempo, exploravam performances de atores como nunca antes, revisitavam grandes gêneros quase esquecidos, bebiam das novidades estilísticas europeias e asiáticas do momento e expunham tabus da sociedade do país, especialmente sua violência e desencanto. Foi a chamada Nova Hollywood, breve e intensa como um fósforo na escuridão.

Grandes cineastas foram revelados, grandes histórias contadas e os estúdios se alegraram com rios de dinheiro e prestígio. Entretanto, até os melhores sonhos terminam. Os custos dos filmes começaram a disparar, assim como a disputa de egos nos dois lados da produção – os donos do poder e os donos da visão artística, diretores e roteiristas. O próprio público, exaurido pelas notícias da Guerra do Vietnã e pela crise financeira do final da década de 1970, mostrou aos estúdios que o que mais desejava para a década seguinte seria o escapismo, com suas filas de dar a volta no quarteirão para “Guerra nas Estrelas” e afins – na verdade, foi a criação e aperfeiçoamento do blockbuster (literalmente, “arrasa-quarteirão”) que deu fim à Nova Hollywood. Mas alguém precisava levar a culpa.

Este homem foi Michael Cimino e seu “O Portal do Paraíso”.

Nunca houve um filme como este e nunca haverá. Cimino começou a rodá-lo com liberdade absoluta cinco dias depois da glória no Oscar de 1979 por “O Franco Atirador”. Seu perfeccionismo sem precedentes fez do filme uma joia rara: enfrentou intempéries climáticas nas locações e filmava quase sempre com luz natural durante a hora mágica do sol – o que permite muito pouco tempo de gravação, atrasando o cronograma planejado em meses. Para usar a locomotiva histórica que necessitava, construiu toda uma cidade ao redor de um trilho de trem antigo. Insatisfeito com o resultado, destruiu e reconstruiu a cidade para ficar como exigia para seu enquadramento. A enorme árvore no meio das comemorações de formatura do prólogo não existia ali, precisou ser construída com milhares de peças e toneladas de concreto. Por certo, estourou todas as previsões de orçamento e datas de lançamento. A imprensa e os poderosos hollywoodianos sentiram o sangue na água e o filme foi destruído perante o público a ponto de sair de cartaz com somente uma semana de exibição. A corporação dona do histórico estúdio United Artists que bancara o filme vendeu-o para a MGM logo em seguida. Foi o prego no caixão da Nova Hollywood e da carreira de muitos dos envolvidos na produção – especialmente Cimino, que teve pouquíssimas oportunidades e liberdades de trabalho posteriormente.

E apesar de tudo o filme permanece diante de nós, gigante como a tela de cinema, que poucas vezes teve suas dimensões honradas como aqui. Todo o esforço do trabalho transparece na projeção em força e beleza. Chega ao nível do impossível como o realizador e seu diretor de fotografia, Vilmos Szigmond, conseguem fazer do pó um personagem do filme (“és pó e ao pó voltarás”?), com as fumaças que parecem seguir exatamente suas vontades sublinhando ações e circundando os personagens – milagre, poderíamos dizer.

Cimino desenha círculos e mais círculos durante o filme: no grande baile em volta da árvore na formatura de Harvard, de patins dentro do pavilhão da cidade de Sweetwater, na rinha de galo, nas cenas épicas de cerco e batalha, filmando sempre tanto de dentro do círculo como com distância para o notarmos. É mais do que um capricho por esta forma, é como se o diretor estivesse ali para nos mostrar assim a inescapável roda da vida, um movimento recorrente que nos leva para adiante e enfim de volta ao mesmo lugar, com seus altos e baixos, na beleza e no horror. Um carrossel, portanto, embalado pelo som da valsa que não cessa.

Trata-se afinal de uma história amarga da impossibilidade de mudanças – uma ousadia de tons heréticos para o western, o que também ajuda a compreender sua recepção gélida na época. Entretanto, para quem embarca neste carrossel, a viagem é inesquecível, em razão das paisagens do Wyoming, das companhias que surgem ao longo da projeção e dos grandes momentos oferecidos pelo diretor – entre eles, o que é o cinema? Uma sombra que surge na tela branca e dispara um tiro na direção da plateia, parece responder Cimino na apresentação de Nate, personagem fascinante de Christopher Walken, um assassino de seus compatriotas, sem lugar no mundo, um analfabeto que deseja ler, escrever e ser aristocrático, que cobre as paredes de sua cabana com papel de jornal para agradar à mulher amada que gostaria de viver em um lar com papel de parede. A mulher, Elle Watson, ninguém menos que Isabelle Huppert, de quem nunca temos certeza para que lado irá o seu coração. E o terceiro vértice do triângulo, o James de Kris Kristofferson, tão privilegiado que pode agir desinteressado até escolher o lado dos mais fracos em meio às disputas de terra e gado entre os imigrantes e os aristocratas. “Negamos qualquer intenção de mudar no que estimamos no geral bem organizado” diz com pompa e satisfação no início o aristocrata de John Hurt (que se tornará cada vez mais alcoolizado a medida em que percebe a verdade de suas próprias palavras), em um anúncio do que virá, com as decisões que destroem vidas tomadas em meio a guardanapos de linho e talheres de prata.

Os barões com suas leis e meios sempre vencem os espíritos livres. A cruel ironia desta conclusão se refletiu sobre os realizadores da Nova Hollywood, Michael Cimino especialmente. O trágico é que continua valendo sobre nós, muito além das telas. Resistir é preciso, nos diz o cinema.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Cineclube do Atalante: O Portal do Paraíso

Neste sábado, o Cineclube do Atalante exibe "Portal do Paraíso", de Michael Cimino. Atenção: começamos uma hora mais cedo: às 15h! Entrada franca, sempre.

Instagram:@cineatalante

 

O Portal do Paraíso

 

(Heaven’s Gate, EUA, 1980, 217 min, 14 anos, com Kris Kristofferson, Isabelle Huppert, Christopher Walken)

1890, estado de Wyoming, Estados Unidos. Um xerife faz o possível para proteger fazendeiros imigrantes de ricos criadores de gado, em lutas por mais terras. Ao mesmo tempo, ele luta pelo coração de uma jovem com um pistoleiro. Filme que marca o final da Nova Hollywood.

 

Dirigido por Michael Cimino.

 

ATENÇÃO!

PROTOCOLOS OBRIGATÓRIOS PARA A SESSÃO (REFERENTES A PANDEMIA DA COVID-19):

 

- A entrada será permitida apenas utilizando máscara e ela deverá ser utilizada (cobrindo nariz e boca) durante todo o período de permanência na sala. (Indicamos o uso de modelos PFF2/N95).

 

- Por esse mesmo motivo fica proibido o consumo de bebida e comida na sala de exibição.

 

-Priorizem lugares que respeitem o distanciamento adequado entre pessoas.

 

- Está com sintomas gripais como tosse, dor de garganta, febre, congestão nasal, perda de olfato ou paladar? Procure ajuda médica e faça o isolamento, fique em casa.

 

Serviço:

 

Cineclube do Atalante: O Portal do Paraíso

Sábado, 19 de março

Excepcionalmente às 15h

Na Cinemateca de Curitiba

(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174- São Francisco)

(41) 3321-3552

ENTRADA FRANCA

 

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura | Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Cineclube da Cinemateca: "O Portal do Paraíso” de Michael Cimino

Neste domingo, dia 15, excepcionalmente às 15h, o Cineclube da Cinemateca exibe "O Portal do Paraíso", dando sequência ao ciclo Michael Cimino que contará ainda com o "O Ano do Dragão" (dia 22) e "Na Trilha do Sol" (dia 29). Sempre com entrada franca!

Cineclube da Cinemateca apresenta:
"O Portal do Paraíso” de Michael Cimino 

1890, estado de Wyoming, Estados Unidos. Um xerife faz o possível para proteger fazendeiros imigrantes de ricos criadores de gado, em lutas por mais terras. Ao mesmo tempo, ele luta pelo coração de uma jovem com um pistoleiro.

Serviço:
15 de maio (domingo)
excepcionalmente às 15h
Na Cinemateca de Curitiba (Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA
Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Cineclube da Cinemateca: Michael Cimino

Cineasta de ascensão meteórica e muito premiado por “O Franco-Atirador”, Cimino terminou por entrar no grupo dos ‘malditos’ de Hollywood, devido a brigas com os produtores e dificuldades nas bilheterias. Seu projeto megalomaníaco com “O Portal do Paraíso” levou a United Artists à falência, impedindo-o de um futuro mais sólido dentro da indústria.

Obs: Todos os filmes têm classificação indicativa 16 anos

08/05: O franco-atirador
(The deer hunter, 1978/EUA  – 183 min.)
Os amigos Michael (Robert De Niro), Steven (John Savage) e Nick (Christopher Walken) são operários de uma fábrica na Pensilvânia que se alistam nas forças armadas para lutar na Guerra do Vietnã. Eles se despedem da família e dos amigos na festa de casamento de Steven e partem para a batalha. Um tempo depois, são capturados pelos vietcongues e passam por torturas físicas e psicológicas, sendo obrigados a jogar roleta russa entre eles. Os três amigos vão lutar para escapar dessa prisão.

15/05: O portal do paraíso
*Excepcionalmente às 15h(Heaven's gate, 1980/EUA – 217 min.)
1890, estado de Wyoming, Estados Unidos. Um xerife faz o possível para proteger fazendeiros imigrantes de ricos criadores de gado, em lutas por mais terras. Ao mesmo tempo, ele luta pelo coração de uma jovem com um pistoleiro.

22/05: O ano do dragão
(Year of the dragon, 1985/EUA – 134 min.)
Nas profundezas do coração da Chinatown nova-iorquina, cresce uma ameaça criminal milenar, a Triade, uma impiedosa rede de corrupção e poder. O novo chefão da organização, o jovem Joey Tai (John Lone), decide que é chegada a hora de enfrentar os interesses dominantes, tanto italianos quanto orientais, na disputa pelo lucrativo tráfico de drogas. As ruas ficam cobertas pelo sangue de seus inimigos. Isto até que o Capitão Stanley White assume o controle de Chinatown. Utilizando uma bela jornalista como aliada, White inicia uma batalha particular contra o caos reinante em seu território. Apenas um homem poderá sobreviver ao inevitável confronto.

29/05: Na trilha do sol
(The sunchaser, 1996/EUA – 122 min.)
Jovem criminoso que sofre de doença incurável força médico bem-sucedido a levá-lo a um lago nas montanhas, onde acredita estar a cura para o mal que lhe aflige. A jornada revela segredos sobre a personalidade de cada um e suas crenças sobre a vida e a morte.
Serviço:
Sessões aos domingos
16h (exceto dia 15)
Na Cinemateca de Curitiba
(Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1174 - São Francisco)
(41) 3321 - 3552
ENTRADA FRANCA

Realização: Cinemateca de Curitiba e Coletivo Atalante

domingo, 31 de agosto de 2014

LEFFest 2012: filmes (d)e Daney (fragmento)


(...)

Mas sendo esta uma colecção de filmes sob a memória e a palavra de Daney será incompreensível que não se invoque/evoque a mesma. Sobre Cimino disse: “A ambição de Cimino nunca foi pequena. Dar aos outros e a si próprio o sentimento de tudo começar do zero. Como se o cinema nada tivesse ainda mostrado e como se não se tivesse visto ainda nada. Verdadeira ambição de cineasta“. Nem mais. Um cineasta como Michael Cimino é um que toma o cinema como objecto de refundação (a palavra está na moda) de um pais, de uma nacionalidade. Esta compreensão pessimista da pátria americana valeu-lhe a glória e a desgraça; Heaven’s Gate (As Portas do Céu, 1980) foi a desgraça, custou perto de 45 milhões de dólares e conseguiu apenas 1 em bilheteira. Foi o filme que levou a United Artists à falência e transformou em besta o bestial realizador. Filme truncado pelos estúdios (para tentar minimizar os prejuízos), vê-se agora em versão restaurada e estendida.

Porque o tempo tudo cura, vemos agora a bisarma em estado puro; eu, por nunca ter visto a versão truncada, encaro a obra com olhos igualmente virgens. E mais que os revisionismos do oeste ou a prespectiva negativista, o que me espanta (mais que tudo) neste filme é a sua capacidade de passar do geral ao singular e de fazer o trajecto em sentido contrário, balançando entre o épico histórico e o épico romântico. Cimino percebeu que só se pode filmar o horror (e ele filma-o sem pejo) se podermos primeiro lavar a vista com candura. Para isso veja-se a cena da valsa logo a abrir o filme – alegria a brotar do ecrã a rodos – que faz um racord simbólico com a batalha final, também ela em constante movimento circular – o horror a rodos. Todo o filme vive nessa corda bamba: a cidade e o comboio com os seus barulhos e fumaradas e confusão (e centenas de figurantes) a par do campo e das montanhas na sua calma bucólica; cada um destes territórios é infectado pelo outro, até que no final já não há terra que valha a James, só o mar o pode ainda acolher. Cinco palas e muitas palmas (há filmes assim, saimos da sala e estranhamos as coisas cá fora, lamentamos que o projector tenha parado e que só nos reste voltar para casa e viver a nossa vida).
(...)
By 
(Texto na integra: http://apaladewalsh.com/2012/11/20/leffest-2012-filmes-de-daney-2/)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Cineclube Sesi da Casa: "O Portal do Paraíso", de Michael Cimino

Neste domingo, dia 31, excepcionalmente às 15h00, O Cineclube Sesi da Casa apresenta "O Portal do Paraíso", de Michael Cimino (com comentários de Cauby Monteiro) encerrando o ciclo Nova Hollywood. Em setembro o cineclube investiga A ficção nos anos 70. 
Sempre com entrada franca!

Cineclube Sesi da Casa apresenta: 
"O Portal do Paraíso", de Michael Cimino

Nos Estados Unidos do final do século 19, aconteceu uma das páginas mais negras da história americana, um crime bárbaro chamado "Massacre de Johnson County", quando centenas de imigrantes eslavos, a maioria russos, foram dizimados pelos poderosos barões de gado de Wyoming. Este filme recria o episódio através da ótica de James Averill, um homem amargurado que disputa o amor de uma prostituta com um violento pistoleiro a mando dos fazendeiros.

Serviço:
dia 31/08 (domingo)
excepcionalmente às 15h00
no Sesi Heitor Stockler de França 
(Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro)
ENTRADA FRANCA
 

Realização: Sesi 
   
   (
http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)
 
 
Comentador convidado: Cauby Monteiro

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Cineclube Sesi da Casa estréia dia 3 de agosto

Em agosto o Cineclube Sesi amplia suas atividades e convida a comunidade curitibana para a estréia de sua nova unidade: o Cineclube Sesi da Casa. O mais novo espaço na cidade para a exibição e debates sobre cinema e cultura.
Cineclube Sesi da Casa funcionará todo domingo, 16h00, no Sesi Heitor Stockler de França (Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro), e estréia dia 3 de agosto com o filme ”Serpico” de Sidney Lumet, abrindo o ciclo Nova Hollywood. Entrada franca, sempre.

Nova Hollywood
Na história do cinema hollywoodiano, os anos 70 representaram um momento de renovação estética e discursiva. Após a crise dos velhos estúdios o sistema se viu obrigado a cooptar jovens cineastas do cenário independente, os movie brats, oriundos das universidades de cinema e cultores de uma cinefilia alimentada pela reverência ao clássico e pela transgressão do moderno. Brian De Palma, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese entre outros (não tão célebres, mas igualmente importantes, como veremos) lançaram no período filmes herdeiros da tradição do cinema de gênero e da contracultura, das nouvelle vagues e das superproduções, aliando enfim a exploração do sexo, drogas e rock’n rolla uma consciência estética revolucionária.

Programação:
03/08 - “Serpico”, de Sidney Lumet
10/08 - “Lenny”, de Bob Fosse
17/08 - “Corrida Sem Fim”, de Monte Hellman (excepcionalmente às 13h30)
24/08 - “Nashville”, de Robert Altman
31/08 – “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino (excepcionalmente às 15h00)

Serviço:

Todo domingo
às 16h00 (exceto nos dias 17 e 31)
no Sesi Heitor Stockler de França 
(Avenida Marechal Floriano Peixoto, 458, Centro)


ENTRADA FRANCA
 


Realização: Sesi    (http://www.sesipr.org.br/cultura/)
Produção: Atalante (http://coletivoatalante.blogspot.com.br/)